XXIV - Impossível amar o desconhecido
☙ Capítulo XXIV | Folhas de Outono ☙
Ela estava novamente no parque. A princípio, parecia ser o mesmo sonho que tivera nas últimas vezes - Evelyn estava sozinha no parque fantasmagórico, e o sentimento de solidão a invadia enquanto tentava gritar por algum tipo de ajuda. Dessa vez, contudo, a moça não estava sozinha. Ela se lembrava de abrir a boca, sem conseguir emitir nenhum som. Olhara para os lados, inquieta, a procura de outra pessoa. E, em meio às árvores cadavéricas e mortas, Ernesto olhava para a lagoa inerte e escura. As vestes negras, o olhar distante.
Com o coração aos pulos, Evelyn foi até ele. O chão sob seus pés parecia ser feito de areia; e respirar naquele ambiente sem vida era sufocante.
- Ernesto... - ela conseguiu dizer baixinho. Apesar de estar a poucos centímetros dele, o rapaz não escutou. Ela encostou em seu ombro, gritando: - Ernesto!
O rapaz não se virou, sem sentir seu toque ou escutá-la chamar por seu nome. Evelyn percebeu, então, que ele não a enxergava - ou estava em um transe tão profundo que era impossível notar sua presença. De qualquer forma, Eve estava invisível para ele.
- Por favor - ela se colocou na frente dele. Sentiu seus pés molhados, e, ao olhar para baixo, viu que ambos estavam com os pés dentro da água escura. - Olhe para mim!
Ernesto baixou os olhos lentamente para ela, mas ainda não parecia enxergá-la. Seus olhos castanhos pareciam ainda mais escuros. Evelyn viu sua testa começar a sangrar; o vermelho vivo deixando o sonho ainda mais lúcido.
- Você está sangrando - a voz de Evelyn parecia distante e baixa demais. - Está me ouvindo? Eu estou aqui!
Ernesto olhou para a lagoa novamente, ignorando-a. Evelyn sentiu suas bochechas úmidas e, ao tocá-lo, o rapaz parecia ser feito de pedra - como se não fosse realmente ele. Como se ele não fosse...real.
- Ernesto! - Evelyn vociferou, pegando em seu rosto. Como uma estátua clássica de um deus antigo, seus olhos pareciam vazios. - Me perdoe. Por favor, me perdoe.
Os lábios firmes do rapaz se abriram em um sussurro:
- Por quê?
Evelyn tentou sentir sua pele contra a sua, mas tudo o que conseguia tocar era uma peça desconhecida e antiga.
- Eu te amo. - ela sussurrou.
Ernesto pregou seus olhos vazios nos ela novamente.
- Como amar alguém que não conhece? - ele disse, sem emoção aparente no rosto ou no timbre de sua voz grave.
- Eu...eu não sei.
- Impossível amar o desconhecido. Você não me ama. - ele continuou. - Sou fruto de sua imaginação.
- Me dê uma chance para descobrir! - Evelyn tentou tateá-lo novamente, em vão. Suas mãos agora pareciam tão duras quanto uma pedra. A impossibilidade de tocá-lo a deixava cada vez mais agoniada.
- Como Pigmaleão - Ernesto começava aos poucos desaparecer. Não, não era ele quem desaparecia. Evelyn sentiu o cenário aos poucos se escurecer, até a voz do rapaz tornar-se cada vez mais distante. - Apaixonou-se por sua própria criação.
A última coisa que Evelyn viu foi o rosto do rapaz; agora com o sangue seco - como se houvesse passado muito tempo, e não apenas minutos. Aos poucos, todo o cenário cinzento se desfez por completo.
Evelyn acordou assustada; o corpo úmido e o coração saltando em seu peito.
A moça ergueu-se na cama e colocou as mãos sobre o rosto. Sua garganta seca precisava urgentemente de água. A cabeça latejava um pouco; por isso, a primeira coisa que fez ao se levantar foi tomar um remédio.
Aquela manhã de terça-feira estava mais quente o normal - fato que a convenceu que sua transpiração excessiva não se devia somente àquele sonho bizarro. Como de costume, ela chegou à cafeteria alguns minutos adiantada. Ainda perturbada com aquela cena de seu inconsciente, Eve não conseguia parar de olhar para a entrada da cafeteria e a antiga mesa de Ernesto.
As horas se passaram e nada do rapaz aparecer. O que ela esperava, depois de ter praticamente enxotado-o dali? Mais uma vez, sentiu um amargo arrependimento tomar conta de si. Deixara a raiva e a dor agirem e, sem pensar nas consequências, tratou-o rudemente. Apesar da indiferença de Ernesto, ele nunca havia feito mal a ela - não de forma proposital.
Ela deveria pedir desculpas. Mais uma vez. Entretanto, ela duvidava que ele fosse aparecer novamente depois daquilo. Ela só esperava que o rapaz não se importasse o suficiente com ela para desobedecer ao seu pedido.
De fato, Ernesto Hernández não parecia se importar mesmo. Pois, logo quando Evelyn chegara a conclusão que ele não mais apareceria naquele dia, o rapaz adentrou pela cafeteria com uma pasta em mãos. Dessa vez, com uma calça jeans e uma camiseta branca; os braços pálidos descobertos e o coque frouxo alinhado à cabeça.
Eve parou o que estava fazendo e suspirou, aceitando as reações de seu corpo diante aquele homem. Ela não tentaria mais controlar aquilo - era impossível.
- Evelyn? - Zahir cutucou-a, apontando a cabeça em direção ao rapaz. Seu hijab azul marinho combinava com as unhas da mesma cor.
Eve deu um sorrisinho, tentando disfarçar o nervosismo.
- Você fica bem de azul, Zahir. - ela disse.
A mulher piscou para ela, encorajando-a. Antes que mudasse de ideia, Eve foi até o rapaz. Percebeu, com satisfação, que aquela não teria sido a atitude da antiga Evelyn - provavelmente, seu eu de um ano atrás se recusaria a aproximar-se de Ernesto; temendo seus próprios sentimentos.
- Você voltou. - Evelyn disse; mais como uma observação que um julgamento. Ela não estava irritada pelo fato dele estar ali, ao contrário. E, quando Ernesto ergueu a cabeça e a fitou, notou que ele também percebera isso.
- Sua resposta quanto ao meu pedido não foi nada explícita - ele disse, a voz aveludada e baixa fazendo-a se sentir ainda mais idiota. E o pior de tudo: ele estava sorrindo para ela.
- Me desculpe - Evelyn pousou os olhos em um ponto aleatório da mesa. - Por ontem. Eu...eu fui um tanto rude.
- Tudo bem - ele não parecia se importar muito com o ocorrido. Um feixe de luz solar batia em seu ombro e parte de seu rosto, deixando seus olhos mais acastanhados e brilhantes. Em oposição à sua aparição no sonho, não havia nada de sombrio em sua expressão ou um vazio em seus olhos.
- Hã... Tudo bem. - Evelyn balançou a cabeça, atordoada. - O que deseja hoje?
Ernesto franziu as finas sobrancelhas, inclinando-se na cadeira. Depois, fitou o bloco de anotações na mão de Evelyn.
- Um mocaccino, por favor - ele pediu. - E um croissant. Ah, e se possível, um pedido de desculpas.
Evelyn ergueu a cabeça do bloco.
- Como...?
- Acho que fui um pouco insensível com você. - ele disse. - Eu tenho problemas de lidar com pessoas e sentimentos alheios. Não sabia que tinha um interesse por mim, por isso, agi de forma imprudente.
As bochechas de Evelyn ficaram rubras. Ela havia quase se esquecido que havia praticamente berrado que havia se apaixonado por ele.
Eve balançou a cabeça mais uma vez.
- Certo. N-não tem problema - ela disse. - Mocaccino e um croissant, certo?
Ernesto assentiu, e Eve se afastou depressa. Quando o café ficou pronto, o rapaz já estava concentrado demais em seu afazeres para dizer não mais que um obrigado. Aquela atenção especial deixou-a lisonjeada, por mais que ela já tivesse aceitado o fato de que ele nunca se interessaria por ela.
E estava tudo bem. Não era como se fosse a primeira vez que Eve tivera paixões não correspondidas. Bem, daquela intensidade, é verdade que nunca teve. Pensou até se suas antigas paixões eram realmente paixões. Sua teoria era que aquele tipo de sentimento piorava com a idade.
- Gostei do seu colar - ela ouviu Ernesto dizer logo quando virou-se para deixá-lo. Ela olhou sobre o ombro, vendo a tela em branco do notebook logo ser tomada por letras e frases escuras.
Eve colocou a mão sobre o colar que havia comprado no Natal passado - e que não havia tirado desde então. O cordão prateado era simples e fino, e uma pequena folha de carvalho pendia em seu peito - tão pequena que ela se perguntou como Ernesto havia notado.
- Obrigada. - ela disse, dirigindo-se ao novo freguês com um pequeno sorriso nos lábios.
Eu comprei porque lembrei de você, ela queria ter dito. Ela não sabia explicar o motivo de uma simples folha de carvalho lembra Ernesto, mas Evelyn supunha que algo a fez associá-lo ao outono - a queda das folhas, o frio repentino, o vento e a forma como tudo na natureza parecia transcender.
Ernesto despediu-se pela primeira vez dela quando chegou o momento de partir. Sem se segurar, ela o observou de costas até desaparecer dentro do carro. O rapaz nem parecia ser a mesma pessoa, no entanto, Evelyn conseguia sentir a mesma euforia - ainda mais intensa que antes. Ela precisaria tomar ainda mais cuidado. Ele fora apenas gentil; o que a deixou um pouco surpresa depois de meses de indiferença da parte dele.
Zahir estava concentrada em terminar um desenho no latte. Ao notar a aproximação de Eve, a mulher apontou para a xícara sobre o pires. Ironicamente, os dizeres do recipiente em questão dizia: APROVEITE! HOJE É UM DIA ESPECIAL.
- Hã... - ela estranhou o fato de não haver nenhum freguês que não tivesse com seus pedidos. E então, quando por fim mirou o desenho feito por Zahir, ela achou que o Universo estivesse debochando dela. Uma folha de carvalho estava perfeitamente representada sobre a espuma do cappuccino. - Isso é para quem?
Zahir sorriu, empurrando a pequena xícara em sua direção.
- Esse pedido foi para Evelyn Torinno. - a mulher disse. - Você a conhece?
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