XXII - Ventos de outono

Capítulo XXII | Folhas de Outono 

2 de abril de 2018

8: 27 a.m

Ernesto sentiu todos os olhares sobre ele assim que adentrou o Café Essência. Alguns clientes que costumavam frequentar o lugar junto com ele ainda estavam lá. Os funcionários, como era de se esperar, eram os mesmos - apesar de alguns deles estarem diferentes. O rapaz asiático havia cortado o cabelo. Zahir já não estava mais grávida. E a moça que ele não sabia o nome... Bem, tirando o olhar perplexo pelo qual ela o olhou quando pisou na cafeteria, ela parecia um pouco mais madura. Havia trocado a armação dos óculos. Os cabelos estavam mais longos - e, surpreendentemente, Ernesto a achou bonitinha; por mais que achasse nova demais para seus padrões.

O rapaz com feições orientais, Rael, foi o primeiro a cumprimentá-lo. Ele passou por ele, levando um café latte para um dos clientes; o que fez sua boca umedecer.

Ernesto se sentou no banco e debruçou-se sobre o balcão. Enquanto a moça estava claramente congelada pela sua presença, ele leu pela primeira vez a plaquinha com seu nome: Evelyn. A funcionária ruiva que sempre o atendia - Nicole, se ele não estava enganado - sorriu e lhe deu boas vindas. Seu olhar também continha surpresa, mas não estava tão assustada quanto Evelyn.

- Bom dia, Ernesto. O que deseja hoje? - ela perguntou. Evelyn desviou os olhos para o outro lado e foi atender um novo freguês. Ernesto ignorou-a e voltou-se para Nicole.

- Uma xícara de café tradicional, por favor. - ele pediu. - E um...pão de queijo?

- Pão de queijo - ela assentiu, indo até à estufa de salgados.

Ernesto voltou ao dia do assalto e lembrou-se do súbito pedido de namoro de Giovanni - o rapaz que ele, inclusive, havia conhecido em uma das entrevistas de emprego. Pelo anel de compromisso que ela usava, ainda estavam juntos. Por alguma razão, aquilo mexeu com ele e o fez pensar sobre sua antiga relação com Sabrina. Talvez gostasse dela no início do namoro - Sabrina era charmosa, por mais que usasse esse requisito para manipulá-lo. Entretanto, ele tinha a vaga impressão que eles nunca seriam um casal apaixonado.

Por mais que não fosse o mais romântico dos homens, ele desejou viver aquilo pelo menos uma vez em sua vida.

Nicole trouxe-lhe o café e o pão de queijo. O rapaz sentiu o estômago roncar - ainda não havia tomado seu café da manhã e ainda sentia a letargia dominar seu corpo. Ernesto se assustou quando Evelyn voltou e pousou exageradamente a xícara sobre a pia. Parecia irritada. Ele queria compreender porque a garota não ia com a cara dele. Ernesto nunca fez nada com ela. Sabrina exagerou ao ir atrás dela adverti-la, mas não fora culpa dele. Talvez achasse que fora ele quem mandou-a fazer aquilo. Mas, se a garota não ia com a cara dele, por que pareceu tão preocupada quando viu seu rosto ferido?

Ernesto passou a mão pela pequena cicatriz, quase invisível. Por que estava pensando naquilo agora? O rapaz balançou a cabeça, e, ignorando a questão, olhou para Nicole.

- Está muito bom. Obrigado. - ele disse. A mulher de véu acenou para ele. - Olá, Zahir. Como vai o bebê?

- Rafiq está ótimo! Obrigada por se lembrar. - Zahir sorriu. - Bem-vindo de volta. Ainda tem nosso cartão?

Ernesto sorriu e tirou da carteira o cartão da cafeteria, cheio de carimbos e datas específicas. Ele havia se esquecido o quanto se sentia acolhido naquele lugar.

- É claro. Ainda tomarei muitos cafés de graça - ele apontou para o cartão, tomando o último gole de café. Ele foi ao caixa para pagar a conta, sentindo o olhar fulminante da garota de óculos. Qual era o problema dela?

- Gostei do coque, cara. Você fica elegante cabeludo. - uma mão pesada bateu em seu ombro. Giovanni, com uma camisa de botões aberta até o ventre, parou ao seu lado. Ele era bem mais alto que ele e cheirava a chicletes de menta e perfume floral.

- Obrigado...? - Ernesto arqueou as sobrancelhas para ele, tentando entender o sorriso perverso do rapaz. Mas Giovanni já havia se afastado para dar um beijo na namorada e pedir três empadas.

Ele deu de ombros, guardando o troco no bolso. Ernesto ergueu os olhos e encarou Evelyn, que parecia prestes a socá-lo e a furar suas costelas com as próprias unhas. Um pouco desconfortável, ele deu as costas para a garota e saiu da cafeteria. Pegou a chave do carro, estreitando os olhos para o sol que lhe atingia o rosto. Apesar do vento frio, ele sentiu seu corpo esquentar por baixo do sobretudo que usava.

Antes de entrar no carro, ele tirou o casaco e jogou-o no banco de trás. Distraído com os próprios pensamentos, ele não notou a aproximação de Evelyn. Ao contrário do que havia acontecido na última vez que a garota se aproximou dele, ela não parecia assustada e submissa. Ela com certeza não estava ali para pedir desculpas por alguma inconveniência.

- Ei! - a moça gritou no exato momento em que ele girou o pescoço - O que você está fazendo aqui?

Surpreso, Ernesto se pôs de frente para ela.

- Por quê...? - ele arqueou as sobrancelhas.

- Por que você me fez o favor de aparecer de novo? - os olhos de Evelyn estavam marejados. Ernesto deu um passo para trás, encarando aqueles olhos úmidos.

- Eu senti falta daqui - ele apontou para a fachada da cafeteria. - E, além do mais, é um lugar público. Não sei o que tem contra mim, mas tenho o direito de frequentar onde eu quiser. Sinto muito.

Ele fez uma careta interna. Ernesto não queria soar grosseiro, mas ser amistoso não era o forte dele. O estado de Evelyn estava deixando-o um pouco nervoso. A garota estava trêmula e corada. O rapaz temeu que ela pulasse em seu pescoço para estrangulá-lo - ou desmaiasse no meio da rua - mas ela apenas ficou parada, apertando os dedos contra as palmas das mãos e balançando a cabeça negativamente.

- Grosso - ela vociferou. - Não entendo porque fui me apaixonar por um imbecil. Você não é mesmo nada do que eu imaginei que era.

- Desculpe, o que você disse? - ele inclinou o rosto em sua direção. Ela havia dito que...havia se apaixonado?

- Você entendeu - Evelyn murmurou, impaciente. Passou o punho pelo nariz, consertando os óculos. - Não importa mais. Eu cansei. Eu só te peço um favor, Ernesto... Não volte mais aqui. Por favor.

Ernesto baixou a cabeça e riu, mordendo os lábios ressecados.

- Certo. Eu posso voltar amanhã? - ele pediu. - Para me despedir do meu café favorito. Há tempos não tomo meu mocha.

Evelyn estava boquiaberta, com o mesmo olhar de uma criaturinha confusa e perdida. Ernesto pôde perceber sua cólera aos poucos se esvaindo.

- Eu... - a moça olhou para o outro lado da rua. Ernesto continuou observando-a, aguardando a resposta. - Hã...

- Posso...? - ele insistiu.

Sem uma resposta, Evelyn deu as costas e atravessou a avenida com passos rápidos. Ernesto a acompanhou com o olhar, esperando que em algum momento ela parasse para vê-lo indo embora. Mas a moça não parou.

Ernesto se enfiou dentro de carro e fechou a porta. Os sons do lado de fora foram abafados, e seus pensamentos vieram à tona. Agora tudo fazia sentido. Era tão difícil acreditar que alguém tenha se apaixonado por ele - sobretudo naquelas circunstâncias. Como ele nunca tinha percebido antes?

Era verdade que Ernesto não estava interessado nela; seja da forma que for. Mas saber daquilo... Pobre Evelyn. Ele já teve seu coração partido antes e não desejava aquilo para ninguém, mas ele não tinha muito o que fazer naquela situação - a não ser aceitar seu pedido e manter a distância.

O que o fez ir até aquele lugar, afinal? Ele não tinha muita certeza naquela hora. Tantas coisas haviam acontecido - mas, ao mesmo tempo, era como se nada tivesse mudado. Os ventos daquele novo outono o trouxe de volta à sua liberdade, ao seu livro, ao seu trabalho. E Ernesto, de alguma maneira, despertara algo em Evelyn - algo que o rapaz não conseguia ver, mas agora sabia.

Ele ligou o carro e acelerou, estranhamente atormentado com o que havia acabado de ser revelado. Ernesto havia destroçado um pobre coração e podia senti-lo corroído em suas próprias mãos.

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