XX - Sempre há um recomeço

Capítulo XX | Folhas de Outono 

1º de janeiro de 2018

12:14 a.m

O sol ainda estava a pino quando Ernesto despediu-se do irmão. Após o conflito inicial, eles logo se perdoaram. Em contrapartida, não falaram mais sobre aquele assunto. Aproveitaram o dia do aniversário de Ernesto e, alguns dias depois, comemoraram o ano novo juntos com Vicente e Sabrina. O tempo havia passado surpreendentemente rápido; e, para seu espanto, tudo pareceu mudar na virada do ano. Depois de refletir sobre a conversa/briga que tivera com Fernando, uma chave virou em sua cabeça dos dias seguintes. Ernesto ainda sentia-se desanimado e abatido, mas não estava mais tão perdido quanto antes.

- Cuide-se, Nando - Ernesto abraçou o irmão. - E desculpe-me de novo. Obrigado por ter vindo, e...por ter ficado.

- Sem problemas. Eu ficaria de qualquer jeito - ele bateu de leve no braço de Ernesto, abraçando-o mais forte. - Se cuide também, cara.

- Já tomei uma decisão. - Ernesto afastou o tronco dele, ainda segurando seu ombro. Fernando assentiu, segurando as alças da mochila.

Ele acenou para Sabrina, e a mulher acenou de volta do outro lado da rua. No banco do motorista, ela aguardava a despedida dos irmãos com o filho.

- Seja feliz, Ernesto - Fernando disse, distanciando-se do irmão e caminhando em direção ao ônibus que chegava. Ele se virou pela última vez para acenar e desapareceu dentro do veículo.

Ernesto respirou fundo, colocando as mãos no bolso. Escutou a buzina impaciente de seu carro, e o rapaz girou o pescoço para a esposa. Mas ele só foi ao seu encontro quando viu o ônibus que levava seu irmão se perder de vista.

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- Então é isso? - Sabrina perguntou, fitando um ponto aleatório da mesa de jantar. Ernesto coçou a lateral da cabeça, jogando a longa mecha de cabelo que caíra em seus olhos para trás.

- Sim. - ele respondeu por fim, incapaz de encará-la.

O rapaz a ouviu expirar longamente. Depois de almoçarem juntos em um restaurante de um bairro próximo, eles voltaram para casa em um agradável silêncio. Vicente dormira no caminho para casa e eles viram, quase próximos ao parque, o primeiro dia do ano se esvair.

- Você tem outra mulher? - ela perguntou, a voz cortando o ar entre eles como uma navalha. Ernesto notou algo em seus olhos, como se ela soubesse de alguma coisa. Mas Ernesto sabia que Sabrina tinha suas cismas.

- Não, Sabrina. Eu não tenho ninguém - ele finalmente olhou para ela. Seu rosto estava tão duro quanto uma pedra. - Você sabe que eu nunca menti para você.

- Sim, é claro - ela passou a mão pela testa. - Você ao menos está pensando em seu filho?

- Meu filho é a coisa mais importante na minha vida - ele revidou. - E, por isso, eu espero que eu tenha chances de passar a maior parte do tempo que eu puder com ele. Não sou um pai de merda.

- Não, você não é um pai de merda - Sabrina disse friamente, cruzando as pernas. Ela ainda parecia estar absorvendo tudo o que o marido havia dito. - E, tudo bem. Se quer guarda compartilhada, terá.

- Espero que não fique ressentida.

- Não, não, imagina! - Sabrina jogou os braços para o lado, a risada irônica deixando-o um pouco enjoado. - Você me pede divórcio logo depois de almoçarmos em nosso restaurante favorito e termos um dia agradável com nosso filho. Está tudo ótimo!

- Sabrina...

- É claro que vou ficar ressentida, idiota! - ela brandiu.

- Não fale alto. - o rapaz pediu. - Você vai acordar Vicente.

- Ótimo. - ela se levantou bruscamente da mesa. - Vou providenciar as porcarias dos papéis pra você assinar. Deseja mais alguma coisa?

- Por favor, eu estou tentando ter uma conversa saudável - ele tentou conter a irritação. - Isso é para o nosso bem.

- Vai a merda, Ernesto - ela replicou com uma expressão de nojo. Quase derrubando a cadeira, Sabrina andou com passos duros em direção ao quarto. Ernesto ouviu a porta batendo, e ele apertou os olhos automaticamente.

Sua cabeça latejava em dor. Tentou tomar um comprimido, quase se engasgando com a cápsula. Havia algo apertando sua laringe; e ele sabia que aquela sensação devia-se ao seu emocional conturbado. O divórcio, independente da situação ou o momento, era sempre difícil - especialmente quando uma das partes se recusa a ser amigável. Ernesto fizera de tudo para ser o mais delicado possível. Sabrina era irritadiça e nunca percebia os próprios erros - ou era orgulhosa demais para admiti-los.

Ernesto tomou um copo d'água, sentindo o remédio arranhar pela sua garganta. Ele olhou para o relógio da cozinha: já eram seis da noite. Ele não sabia quanto tempo ficara ali, naquela cozinha silenciosa, enquanto o filho dormia e a esposa estava reclusa no quarto. Às vezes, Ernesto sentia-se incapaz de ver o tempo passar.

- Papai? - o rapaz virou-se ao ouvir a voz aguda e baixa do filho. Ernesto pousou o copo sobre a pia e se apressou em pegá-lo no colo.

- Filho... - ele apoiou sua cabeça em seu ombro. - Está sem sono?

- Você e mamãe estavam brigando - disse o menino ao pé de seu ouvido. Ernesto sentiu seu coração falhar e apertou delicadamente o garoto contra seu peito.

- Não foi nada. Coisas de adulto - ele sentiu um gosto amargo na boca. - Vai ficar tudo bem. Está com fome?

- Não. Eu quero escutar aquela história da minhoca e da maçã. - Vicente disse, colocando a mãozinha no cabelo desgrenhado do pai.

- Tudo bem - Ernesto concordou, passando pelo aposento que dividia com Sabrina. A porta estava fechada, mas o rapaz não se importaria em ficar com o filho.

Entrou no quarto do menino, colocando-o sobre a cama e tirando os sapatos. No baú de brinquedos, ele pegou uma maçã de plástico e uma pequena minhoca de borracha. Vicente riu quando o pai jogou-os ao seu colo, erguendo o livro que sempre estava próximo.

- Vamos lá - Ernesto apoiou a cabeça do filho em seu ombro e abriu o livro. Vicente segurou a maçã e mordeu a minhoca. - ...não morda a coitada. Era uma vez uma minhoca chamada Vicente...

A criança fez um bico, cuspindo a minhoca de borracha.

- Isso está errado! - Vicente protestou. - Começa de novo.

Ernesto riu, ajeitando o corpo na cama.

- Está bem - ele disse - Sempre há um recomeço.

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