XVII - A promessa de São João

Capítulo XVII | Folhas de Outono 

As bandeirolas coloridas enfeitavam todo o pátio da escola. Crianças com camisas de estampas quadriculadas e vestidos coloridos corriam e gritavam pela quadra. Ainda era o início da festa e o lugar já estava relativamente cheio - para o desespero de Evelyn.

Ela não era muito fã de multidões. Em geral, ela gostava do clima das festas juninas - a comida, a animação e as danças (sobretudo a comida), mas ela sempre se sentira deslocada em qualquer tipo de festa. Por insistência de Alice, que havia três convites sobrando - seus amigos haviam desistido da festa quando souberam que teria uma melhor naquele dia - convidou-a para que fosse com ela. Os outros dois convites foram oferecidos a Giovanni e Nicole, que aceitaram de imediato. Alice não reclamou quando Eve sugeriu que convidasse os dois; ao contrário. Ela parecia muito interessada com a chegada de Giovanni.

- Abra mais esses botões - Alice alisou a camisa de Eve e abriu o primeiro botão. A única camisa xadrez que tinha era rosa bebê e branca, um pouco pequena demais para ela. - Tire esses óculos. Parece uma caipira nerd.

- Alice, eu sou míope - Eve retrucou. - Eu preciso dos óculos.

- Hum. Tudo bem. Não está assim tão ruim - a amiga disse, analisando-a dos pés a cabeça. - Está bonita.

Evelyn levantou a sobrancelha, percebendo o esforço da amiga em ser um pouco menos crítica e mais gentil. Elas aguardaram por mais alguns minutos próximas ao portão até que Giovanni e Nicole finalmente apareceram. De mãos dadas, eles atravessaram a portaria. Giovanni cumprimentou os seguranças, parecendo conhecê-los. Ele usava uma camisa florida, os botões abertos até a altura do peito, botinas marrons e calças jeans. Os cachos estavam penteados em gel, deixando seu rosto mais aparente. Evelyn notou quando as mulheres - e alguns homens - viraram o pescoço para admirá-lo.

- Senhor, tenhas misericórdia - Eve escutou Alice murmurar. - Ele ainda é mais lindo pessoalmente.

- Comporte-se - Evelyn sussurrou, inclinando-se em direção ao seu ouvido. - Por favor.

- Só foi um elogio... - a amiga retrucou.

Eles se aproximaram, acenando para ambas. Nicole, com seus longos cabelos ondulados soltos, parecia ainda mais jovial. Eve agradeceu aos céus quando Alice abordou-os de modo gentil - sem demonstrar qualquer coisa que talvez sentisse por Giovanni.

- Bom, já podemos comer? - o rapaz perguntou, procurando qualquer lugar que tivesse comida. - Onde estão as barraquinhas?

- Eu também estou com fome - disse Alice. - Acho que hoje está tudo bem comer porcaria.

- Porcaria, minha cara? - Giovanni falou, aspirando o ar. - Pelo cheiro, isso aqui é de qualidade. Será que ainda tem pescaria? Há tempos não vou em uma festa dessa. Aliás, obrigado pelo convite.

Evelyn surpreendeu-se quando Alice manteve-se de pé quando Giovanni piscou.

- De nada! Eve me fala muito de vocês - ela sorriu. Evelyn olhou para as pessoas ao redor das barraquinhas. O cheiro de comidas típicas chegou às narinas da moça, e sua barriga roncou. Ela não julgava Giovanni. Um desejo irresistível de comer um cachorro quente inundou seu estômago faminto.

- E o que ela fala de nós? - Giovanni olhou brincalhão para as duas ao entrar na fila para comprar as fichas.

- Que vocês são fofos e se combinam - Alice disse. - Tem até fã clube para o casal. Como chama...? Giocole? Nicanni?

Evelyn revirou os olhos.

- Ela é meio exagerada, Gio - Eve avisou. - Eu não tenho fã clube. Mas acho que ela quer fazer um exclusivamente para você.

- Evelyn! - Alice, surpreendentemente, estava corada. Encolheu-se quando Nicole olhou na direção dela, mas a única coisa que fez foi rir.

- Bem que ele merece um fã clube - ela disse. - Eu posso fazer parte?

- Ela é sempre legal assim? - Alice olhou para a amiga ao lado.

- Aham - Eve assentiu, contando as moedas de sua carteira. - Relaxa. Ela sabe que estou brincando. Por que não pergunta de seu novo interesse?

Giovanni ergueu as sobrancelhas, curioso. Alice ainda estava com as bochechas levemente coradas.

- Isso é vingança para as vezes que fui inconveniente com você? - Alice olhou para Eve com uma expressão enojada.

Evelyn deu de ombros.

- Só estou tentando ajudá-la. - ela disse. - Você não disse para perguntar a Giovanni?

- Não na minha frente! - Alice exclamou.

Giovanni riu e olhou para a mulher do caixa quando chegou sua vez de fazer seu pedido. Era impressão dela ou a pobre moça também ficou desconcertada?

- Boa noite, moça - Giovanni sorriu. - Quatro refrigerantes, dois milhos cozidos... Evelyn? Cachorro quente? Cachorro quente, por favor. Para essa moça solteira desesperada aqui... - ele apontou para Alice.

- Não quero nada por enquanto, obrigada - Alice murmurou.

- Paçoca - Giovanni abriu um largo sorriso. - Ela quer pacoça. Minha namorada quer canjica. Ah, e duas fichinhas para a pescaria, por favor.

- Eu não quero paçoca... - balbuciou Alice, confusa.

- É para ele - Evelyn inclinou-se na direção dela. - E como sabe que eu queria cachorro quente? - ela ergueu as moedas, mas Giovanni recusou.

- Acho que ouvi você falando algo sozinha. E guarde esse dinheiro, eu pago. - ele disse, entregando uma nota à mulher e pegando uma grande quantidade de fichas. - E então, Alice. Sua amiga disse que você queria saber do meu primo.

- Eu vou matar a Evelyn - Alice cruzou os braços.

- Mas você que pediu - Eve revidou.

Giovanni passou o braço em torno da namorada e distribuiu as fichas.

- Já estou acostumado a ser cupido do meu primo - ele disse. Evelyn ignorou quando o rapaz olhou para ela. - Bem, não só do meu primo. Mas, felizmente, da última vez que o convenci que deveria se declarar para a pessoa que ele gostava, deu certo. Sinto muito, querida.

- Ah - os ombros de Alice murcharam. - Então ele tem namorada. Entendi.

- Mas especificamente, namorado. - Giovanni falou. - Porém, há vários caras loiros chatos e com a conta bancária cheia por aqui, veja só... Aquele loirinho com brinco na orelha esquerda. Ou aquele outro branquelo de boné. Ou você prefere os mais velhos?

- Ele é gay! - Alice bradou, decepcionada. - Mas que desperdício.

- Alice - Evelyn tocou em seu ombro. - Essa frase não é legal.

- O que não é legal é se interessar por alguém impossível - Alice falou. - Olha, eu vou ao banheiro e já volto. Segura minha bolsa, Evelyn.

Antes que Eve pudesse negar carregar aquela pequena mala, a amiga jogou-a em seu colo e se afastou em direção ao banheiro. Evelyn olhou para a bolsa, pesada demais para ter apenas celular e dinheiro.

- Sua amiga é engraçada - Giovanni disse. - Vocês são amigas mesmo? Nem parece que...

- Vamos pegar o cachorro-quente - Nicole sorriu, aproximando-se de Eve repentinamente. Giovanni franziu o cenho. Passando o braço ao redor de seu ombro, a ruiva começou a guiá-la em direção à uma das barraquinhas. Aquela súbita sugestão de Nicole a fez olhar instintivamente por cima do ombro.

Evelyn se arrependeu de imediato.

Ernesto estava lá, a dez metros de distância dela, com um garotinho de aproximadamente cinco anos no colo. O rapaz usava uma camisa xadrez vermelha e preta, calças jeans e botas de cano baixo. Os cabelos penteados na lateral da cabeça deixava seu rosto mais visível. Sorrindo, ele consertou o chapéu de palha na cabeça do menino e ajudou-o a segurar a vara de pescar.

Segundos depois, seus olhos estavam sobre ela. Mesmo distante e por acaso, acontecera como da primeira vez que o vira. A coisa clichê de sempre (que só agora fazia sentido para Eve): todos ao redor não mais existiam, e a sensação de que a Terra havia parado de girar era quase real. O tempo parecia não ter passado desde o dia em que o Café Essência fora assaltado. Evelyn notou a surpresa em sua feição, logo substituída pela máscara misteriosa de sempre.

Ernesto voltou a atenção para o filho, ajudando-o a pegar o peixinho de plástico. O menino tinha cabelos escuros como o pai.

- Evelyn, seu cachorro-quente. - Nicole ergueu-o em sua direção.

- E-ele está ali - ela balbuciou.

- Uau, São João pegou pesado agora. Abortar missão! - Giovanni entrou na frente dela, fazendo-a girar na direção oposta. - Não há nada de interessante por ali. Olha só quem chegou!

Ainda atônita, Evelyn avistou um rapaz com feições orientais de mãos dadas com uma moça. Ela só conseguiu reconhecer seu colega de trabalho pelas tatuagens - Rael, com vestes típicas de uma festa junina, não exibia mais seus longos cabelos pretos.

- Oh - Eve murmurou. - Ele cortou o cabelo.

Rael acenou. A moça ao lado dele - sua namorada - olhou em direção ao trio e sorriu. Parecia não se importar nenhum pouco em expor sua cabeça sem cabelos e as sobrancelhas ralas. O rapaz fez sinais à namorada conforme se aproximavam. Com dificuldade, Evelyn tentou controlar as mãos trêmulas e a vontade incontrolável de sair correndo. Não pela presença de Rael e a namorada, mas sim, pela súbita aproximação de Ernesto com a esposa e o filho. Eles passaram por ela, afastando-se em direção à quadra coberta. A princípio, nenhum dos dois pareciam ter notado a presença dela, apesar de Ernesto já tê-la visto. Até que, para o desespero de Eve, Sabrina olhou por cima do ombro e a encarou com os olhos frios.

A moça retraiu-se e desviou os olhos.

- Olá! - a namorada de Rael sorriu. - Rael me fala muito de vocês. É um prazer conhecê-los.

Evelyn estava ciente das vozes de Giovanni e Nicole devolvendo os cumprimentos, mas tudo parecia tão distante que ela mal ouviu a conversa. A moça disse seu nome, mas Evelyn não compreendeu. Ela disse um Oi automático à moça, voltando o olhar para o rapaz com o menino no colo desaparecer em meio à multidão que se formava na quadra. Sabrina estava em algum lugar mais à frente. A música das caixas de som foi trocada pelo clássico forró. A Festa de São João começou a tocar; e a importuna frase acende a fogueira do meu coração ficou repetindo debochadamente em sua cabeça. Ela quase riu.

Evelyn ficou enjoada.

- Eu preciso ir ao banheiro - ela disse, erguendo a bolsa de Alice (que com certeza havia se esquecido que estava acompanhada; ou, quem sabe, havia encontrado um loiro branco e rico para paquerar). - Com licença.

Nicole pegou a bolsa da mão dela e olhou preocupada para Eve. Giovanni segurou seu cachorro-quente, provavelmente querendo comê-lo. Nicole estava prestes a dizer algo, mas Eve fingiu que não percebeu e girou os calcanhares. Apressou os passos, passando por mesas de plástico, enfeites de palha e um bando de crianças estourando estalinhos irritantes no chão e na cabeça de seus avós.

Para seu alívio, o banheiro não estava cheio. Ela se jogou sobre a pia, umedecendo o rosto. Sua respiração acelerada deixava-a tonta, a garganta se fechando como se a qualquer momento ela caísse no choro. Mas ela não ia chorar.

Evelyn observou suas emoções por um momento, sem julgar ou tentar reprimi-las. Além da vontade contraditória em correr em direção à quadra para apreciar a presença do ser, também havia repulsa e raiva. E culpa. Ela não entendia como podia sentir tudo aquilo, mas ela sentia.

- Tudo bem - ela sussurrou para si mesma. Respirou fundo, tentando controlar as batidas de seu coração e o nervosismo. - Está tudo bem, Evelyn.

- Evelyn... É Evelyn mesmo, certo? - Eve apertou os próprios punhos quando escutou alguém atrás dela dizer seu nome. Olhando para o espelho a sua frente, deparou-se com a namorada de Rael.

Ela lavou as mãos, esperando a resposta da moça.

- Sim. - Evelyn respondeu.

- Você está legal? - perguntou, enxugando as mãos. - Desculpe, eu também precisava vir aqui.

- Estou bem. Só tive um mal estar súbito - Eve disse. - Não gosto muito dessa agitação toda. Eu...hã, qual é seu nome mesmo? Me perdoe, eu não escutei direito.

- É Bruna - a moça apoiou os cotovelos sobre a pia, olhando seu próprio reflexo. Evelyn ficava impressionada como algumas mulheres conseguiam ficar tão bonitas carecas. - Talvez deva comer alguma coisa.

- Acho que Giovanni comeu meu cachorro-quente - ela murmurou. - Eu gostaria de ficar um pouco longe daquela confusão, por enquanto. Mas acho que vou sair daqui...está começando a feder.

Bruna riu e acompanhou-a pelo corredor, também vazio. Eve apoiou-se no parapeito e olhou para baixo, observando as famílias espalhadas pela quadra menor e um pequeno palco, cujos músicos afinavam seus instrumentos. Ela viu Alice conversar com um grupo de jovens, o que não a surpreendeu nenhum pouco.

- Coma um pouco disso. - Bruna estendeu um pequeno pacote de pipoca. - Eu também não posso ficar muito sem sal. Ainda mais agora que faço tratamento.

Eve arqueou as sobrancelhas, aceitando a pipoca. Ela tinha razão. Sua pressão deveria estar realmente baixa - ou fora graças a Ernesto que quase caira dura em meio a crianças agitadas. Evelyn também estava surpresa por alguém que mal a conhecia tratá-la daquela forma. Geralmente, as pessoas não costumavam aproximar-se de Eve - o que ela desconfiava ser fruto da própria visão que ela tinha de si mesma.

- Quase não reconheço Rael de cabelos curtos - Eve disse. - De qualquer forma, também combinou com ele.

- Eu disse a ele que não precisava fazer isso. Mas ele queria fazer algo quando decidi raspar meu cabelo. - Bruna contou. - Ele decidiu que cortaria desde que descobrimos o meu câncer.

Evelyn estava tentando achar uma frase que não fosse sinto muito ou oh, você está bem?

A moça sorriu e olhou para Bruna.

- Rael tem um coração enorme. Fico feliz que tenha a companhia dele - ela disse, tentando não soar dramática.

- Sou suspeita a falar de Rael - Bruna também sorriu. - Eu o conheci na instituição que eu trabalho. Sou professora de Língua de Sinais. Às vezes, dou alguns cursos gratuitos aos domingos e ele sempre me acompanha.

- Seria incrível se eu pudesse ir. Às vezes, sinto-me culpada por não saber nada da língua dele. Eu tento, mas ele deve rir internamente das minhas tentativas frustrantes - Eve riu. - Nicole é a mais próxima dele por isso.

- Seria maravilhoso se você fosse! - Bruna parecia deslumbrada. - Verei se tem uma vaga para você. Rael vai adorar. E você, hum, tem namorado?

- Não... Eu não tenho.

Bruna franziu o nariz.

- Foi uma pergunta estúpida? - perguntou. - Acho que foi. Perdoe-me.

- Não, tudo bem. Eu não me importo muito com isso. - Evelyn disse. - Aliás, agradeço por essa conversa. Estou tentando esquecer a presença de certa pessoa nesse mesmo local. - ela apertou os olhos e bateu na própria testa. - Droga, acabei de lembrar.

- Ah... - o sorriso da moça desapareceu. - O clássico encontro com ex em lugares aleatórios?

- Não. Não é meu ex. - Evelyn respondeu, sem se importar em revelar seu infortúnio àquela jovem mulher que havia acabado de conhecer. - Eu me apaixonei por um homem casado que eu nem sabia o nome.

- O quê? - ela conteve uma risada incrédula. - Como...? Como se apaixonou por alguém que nem sabia o nome?

Eve suspirou, apoiando o queixo na mão. Ela sabia que Bruna perguntaria aquilo. Porém, infelizmente, nem mesmo Evelyn sabia como.

- Eu não faço a menor ideia - ela murmurou.

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