XV - Uma carta a 𝐸.𝐻
☙ Capítulo XV | Folhas de Outono ☙
Querido E.H,
Provavelmente vou me sentir uma idiota após escrever isso, mas espero que sirva para alguma coisa. Essa carta nunca será entregue e nem lida por ninguém, mas essa foi a única forma que encontrei de me expressar. Talvez eu consiga, pelo menos um pouco, tirar esse peso que me vem consumindo há dois meses. Sinto-me uma estúpida por ter começado a me interessar por alguém que nem sabia o nome. Ainda hoje, não está sendo fácil. Agora já sei seu nome - e coisas que nunca achei que saberia - mas temo escrevê-lo aqui. É como se te invocasse. Não sei se está consciente disso, E.H, mas estou estupidamente apaixonada por você.
É estranho escrever isso. Ainda mais estranho é sentir-me culpada por sentir isso. Gosto de verdade de você. Não...Eu não diria que "você". De sua imagem. De sua presença. A sensação que me fazia sentir toda vez que sentava naquela cadeira e me olhava de forma tão inexpressiva e distante. Ou você fazia isso porque eu o observava demais? Caso seja isso, por que continuou observando-me quando eu tentava ignorá-lo?
Independente do seu motivo, temo que eu o tenha incomodado. Me desculpe por isso. Você me chamou atenção desde o primeiro dia em que apareceu no café; e até hoje procuro uma explicação para isso. Entretanto, eu não consigo achar. Sinto-me mais confiante quando há explicações plausíveis para as coisas. Porém, pelo que eu saiba, ninguém até hoje soube explicar porque nos apaixonamos por determinadas pessoas - e o porquê de, mesmo depois da desilusão, permanecemos insistindo nelas.
Não sei se é muito espiritualizado, mas eu, particularmente, acredito em demandas da alma e vidas passadas. Não estou dizendo que é o caso. Talvez você seja apenas o meu tipo físico e, inevitavelmente, me sentiria atraída. O que quero dizer é que talvez não haja explicação para o que aconteceu comigo. Não sei porque insisto em pedir desculpas, mas me perdoe por isso. Eu só queria ter tido a oportunidade de conhecê-lo. E assim, quem sabe, eu não teria me apaixonado tanto.
Mas meu coração duvida dessa possibilidade. Penso em você a todo momento e isso é agoniante. Para ser sincera, achei que depois daquele mal entendido com sua esposa, eu nunca mais sentiria o mesmo por você. Por raiva. Por finalmente deixar o véu da ilusão cair e despertar-me daquele sonho confuso. Mas eu estava enganada... Eu sinto sua falta. Sua ausência me dói como uma faca afiada em meu peito. Quando me lembro do dia em que fui atrás de você pedindo perdão, de seu olhar de surpresa, sua postura... Eu me sinto péssima. É ainda pior quando lembro-me das palavras de Sabrina; da forma como ela me abordou tão de repente. Durante dias, perguntei-me diversas vezes como ela sabia que eu estava supostamente interessada em você. Eu nunca a vi na cafeteria antes. Então, eu me lembrei de um homem que certo dia sentou-se em uma das mesas com um olhar estranho. Não desconfiei no dia - e talvez seja paranóia minha - mas, colocando-o nesse contexto, acredito que aquele homem estava me bisbilhotando. Um dos colegas policiais de sua esposa, quem sabe? Pensando nisso, devo dizer que achei um tanto desnecessário da parte de sua mulher, mas eu não a culpo. Não sei se faria o mesmo no lugar dela, mas eu não a culpo. Eu sou a culpada nessa história.
Apesar de tudo, eu ainda insisto em pensar em você. É agoniante sentir-se dependente de uma pessoa para estar bem. E você é casado. Sei que isso não é certo.
Quem sabe essa seja a lição. Eu criei você em minha mente. E agora, como um fantasma irritante você insiste em assombrar meus pensamentos. Fazendo-me rir e chorar em questão de minutos. É exaustivo, de verdade. Contudo, enquanto essa droga de sentimento não passa (quanto mais tento ignorá-lo, mais ele parecer crescer) me contento a reviver aqueles dias em que você ainda aparecia no Café Essência e pedia um mocaccino. Revivo seu olhar e cada detalhe de seu rosto; a sua voz e minha mão coberta pelo seu sangue pressionando sua testa ferida. Imagino sempre onde está a todo momento e o que está fazendo - e se está feliz ou triste. Desaparecer depois daquele assalto deixou tudo ainda pior. Quero dizer, espero que esteja bem e vivo depois daquilo. Ah, e que tenha recuperado suas coisas.
Eu ainda tenho a moeda que deixou cair no tapete da cafeteria. Também guardo a revista com seu texto publicado. A cada vez que leio, sinto-me orgulhosa. Você escreve tão bem. Como eu havia previsto, você é dedicado e responsável (pelo menos, é o que me parece); e prezo pela sua preocupação para com causas sociais. Às vezes me pergunto se isso não deve a algum fator pessoal. Não importa.
Temo não vê-lo nunca mais. Não sei se suportaria isso - não agora. De qualquer forma, eu espero que esteja bem. E me desculpe mais uma vez. Eu sou uma idiota.
Jamais me esquecerei de você.
Com carinho,
E.
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