XI - Pedaços de um coração
☙ Capítulo XI | Folhas de Outono ☙
Após quase um mês, o sonho que lhe perturbava repetidamente voltou importuná-la. Eve havia se esquecido da sensação que aquele sonho lhe causara - ela só se lembrava de ser desagradável. Não fazia muito sentido, também: Evelyn sempre estava no parque ecológico de seu bairro, ao final da tarde, sem saber como voltar para a casa. No sonho, o parque parecia abandonado e fantasmagórico. A sensação de solidão e perdição a fazia querer gritar em meio às árvores, mas nada saía de sua garganta. Aquele pesadelo não era longo, porém, a emoção que sentia era real o suficiente para que ela acordasse sobressaltada.
Evelyn abriu os olhos rapidamente após a última tentativa de fuga do inconsciente. Seu coração estava um pouco acelerado, mas logo o alívio tomou conta de seu corpo ao perceber que o perigo não era real.
Inalando o ar lentamente, Eve virou-se na cama e olhou as horas na tela do celular. Ainda eram cinco e meia da manhã, mas ela sabia que não conseguiria dormir mais. Então, contentou-se em ficar na cama por mais alguns minutos. Colocando a mão debaixo do travesseiro, sentiu a moeda fria encostar em seus dedos. Evelyn tirou-a dali e começou a manuseá-la com um cuidado exagerado; como se fosse uma peça antiga e rara de fácil dano.
Como era o habitual, seu primeiro pensamento pela manhã era ele. Ernesto. Aquele nome tão incomum e tão peculiar para ela que chegava a ser irritante. Ela também pensava regularmente no dia em que fora à casa de Nicole. Havia se passado alguns dias desde que a mulher lera as cartas, e Evelyn se forçava ao máximo para seguir seu conselho.
Nos três primeiros dias, ela conseguiu. Ernesto chegava à cafeteria e Evelyn o ignorava totalmente - pelo menos, nos momentos em que ele podia vê-la. Ainda sim, a moça sentia seu olhar sobre ela vez ou outra. Eve se via com um desejo quase irresistível de sustentar aquele olhar, mas ela temia o que poderia acontecer se continuasse fazendo aquilo.
Ela achou que conseguiria. Entretanto, no quarto dia (mais especificamente, no dia anterior), Eve teve uma recaída. Como se para compensar os dias perdidos, observou-o mais que um dia havia se permitido. Evelyn até mesmo tentou atendê-lo, entretanto, nunca tinha sucesso - ou coragem o suficiente para isso. E então, ela se lembrava das palavras de Nicole: afaste-se dessa pessoa. Cuide de você. Não tente contato, seja ela visual ou física.
A moeda estava sempre próxima a sua mão - era como se aquilo a reconfortasse e suprisse sua necessidade de se aproximar. Era algo idiota, mas que a fazia bem. Evelyn sentia que tinha algo dele; mesmo que fosse algo tão tolo quanto uma moeda de cinquenta centavos. Talvez, naquela manhã, ela seria forte o bastante para desprezar aquela presença.
Ela estava, como sempre, preparada para enfrentar mais um dia de trabalho; mas não para o que viria a seguir. Estava tudo indo bem - até que arrancaram dela a única coisa que alimentava naquele momento: a esperança.
Seu verdadeiro pesadelo começou quando um carro prateado parou bem ao seu lado na calçada. Evelyn já conseguia avistar a praça e a cafeteria quando seus olhos foram atraídos para a janela do veículo. Ela não conhecia nem o carro e nem a mulher loira que estava dentro dele, por isso, logo considerou que a motorista pediria alguma informação.
- Aí, menina - a mulher desligou o motor, descendo do automóvel com seus saltos altos e um sobretudo vermelho. Pelo carro e as vestimentos, Eve julgou-a como sendo mais uma empresária ou chefe de algum escritório bem-sucedido. Sua postura suntuosa e a altura fez com que a moça recuasse instintivamente.
- Bom dia - Eve disse, fitando timidamente os olhos verdes da mulher. Esquecendo-se por um momento que ainda não estava trabalhando, falou: - Posso ajudar?
- Qual é o seu nome? - a loira cruzou os braços, tal como uma chefe lida com um empregado desobediente.
- E-Evelyn - a moça gaguejou, tentando lembrar se havia visto aquela mulher antes.
- Evelyn - ela repetiu, balançando a cabeça enquanto analisava-a dos pés à cabeça. Eve não estava gostando nada daquilo. - Você conhece o Ernesto?
A moça gelou. Algo dizia-lhe que sair correndo não era uma boa alternativa. Porém, mesmo que quisesse fazer aquilo, seu corpo estático não permitiria. Por um momento, Eve achou que havia parado de respirar.
- Não. - ela respondeu automaticamente. Sua voz, apática, saiu rápida e alta. - Não conheço.
- Você trabalha na cafeteria - a mulher continuou. Era uma afirmação, mas Evelyn assentiu mesmo assim. - Meu marido vai para lá diariamente para trabalhar. Você deve conhecê-lo.
- Ah - Eve sentiu um estranho aperto no esôfago e no peito. Apesar disso, estava tão fora de si que não conseguiu sentir nada além daquilo. - Desculpe, eu não sabia o nome dele.
Evelyn era uma péssima mentirosa, mas aquela informação não parecia ser nem um pouco importante para a mulher. A loira parecia estar reprimindo uma irritação profunda, mas Eve conseguia percebê-la através de seus olhos e o timbre duro.
- Eu percebi que você tem observado-o - a proximidade dela fez Eve se sentir tão insignificante e frágil quanto um inseto. - Eu só gostaria de alertá-la, Evelyn, que ele tem esposa e filho. Espero não ter que avisá-la novamente.
- Tudo bem. Me desculpe... - Evelyn engoliu em seco, esperando acordar a qualquer momento daquele pesadelo.
Ela não acordou, entretanto. Aquilo era real. Mas, por mais que a verdade estivesse bem ali a sua frente, a moça estava atordoada demais para reagir.
Seus olhos opacos fitaram a séria e elegante mulher, que deu-lhe as costas como se ela nada fosse. Eve permaneceu paralisada conforme via o carro se afastando, deixando para trás o cheiro de gasolina e uma garota devastada.
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- Nicole, escute essa... - Zahir continha uma risada apertando os olhos. - Por que o pinheiro não se perde na floresta?
- Zahir, querida, vai trabalhar - a ruiva respondeu, fingindo estar inconformada. Rael esticou o pescoço, fitando os lábios dela.
- Porque ele tinha uma pinha. - a mulher colocou a mão sobre a barriga e soltou uma risada. Evelyn olhou para ela enquanto enxugava uma grossa xícara. - Entendeu? Uma pinha. Mapinha.
Nicole revirou os olhos, batendo a mão na testa. Ela fez um gesto a Rael declarando que não ia repetir aquilo. Eve, ainda em uma espécie de estado de choque, apenas levantou uma sobrancelha.
- Nossa, vocês têm um senso de humor espetacular! - ironizou Zahir. - Que tal essa: - O que o pagodeiro foi fazer na igreja?
- Só não é pior que a piada do pavê - Nicole retrucou. - Porque as suas são péssimas. E totalmente previsíveis. - ela olhou para Rael, que estava com a sobrancelha exageradamente levantada. - Chen, não tem graça pra você.
Zahir bufou e Rael fez um bico.
- Evelyn gostava das minhas piadas ruins - ela observou, olhando para a moça ao seu lado. - O que aconteceu com você hoje, Eve?
- Quê? - Evelyn escutava tudo o que elas diziam, mas não compreendia nada. Seu cérebro parecia estar de cabeça para baixo. - Eu...eu estou ocupada.
Eve ignorou o olhar dos três colegas sobre ela e, em passos quase robóticos, foi atender um senhor que havia chegado. A moça pôde ouvir alguém murmurar atrás dela - Nicole ou Zahir; ela não soube identificar. Na verdade, parecia que mas nada importava naquele momento. Evelyn sentia-se dentro de uma bolha de plástico prestes a matá-la asfixiada - e, para o seu desespero, ela não conseguia se mexer e nem rasgar essa bolha.
O oxigênio que ainda parecia restar no ar fora quase completamente sugado pela chegada do rapaz - cuja presença tornava-se cada vez mais dolorosa para ela. Evelyn sentiu uma culpa tão grande dentro de si que pesava todo o seu corpo - quase como se ela tivesse engolido uma bigorna. Aquela culpa que não a deixaria em paz enquanto ela não fizesse algo.
Evelyn tinha que falar com ele. E, depois disso, fingiria que ele não mais existia.
A moça não sabia como, mas ela não tinha tempo para aquilo. Esperar quase duas horas para que finalmente Ernesto fosse embora fora uma tortura. Ela não teria coragem de fazer aquilo com tanta gente ao redor. Evelyn teria que segui-lo até o carro e abordá-lo da maneira mais casual possível.
E foi isso isso que fez. Com uma certeza e um impulso que não parecia pertencer a ela, Evelyn tirou o avental e segui-o com passos lentos até o rapaz atravessar a rua. Ela se apressou quando deu-se conta do que realmente precisava fazer.
- Ernesto! - ela disse alto, parando a um metro do rapaz. Ele colocou a pasta no carro e, com uma expressão um pouco surpresa, virou-se para ela.
Evelyn estranhou ao notar que nem mesmo seu coração reagia. Ela não sentia nada além de suas mãos formigando. Eve já havia sentido aquilo antes: era um sinal claro de pânico. Fuja, corra, seu corpo parecia gritar.
- Olá? - ele segurava a porta do carro, prestes a sentar-se no banco do motorista. Seu tom de voz não revelava nada além de indiferença.
- Eu... - Evelyn cerrou os punhos. Os olhos cor de chocolate fitaram os dela, aguardando qualquer argumento que fosse. Evelyn engoliu em seco. - Me...desculpe. Desculpe.
- O quê? - ele curvou o pescoço para escutá-la, apesar de não estarem tão distantes. Ernesto estava tão perto que Eve podia erguer a mão e tocar seu rosto. Naquele momento, ele parecia muito mais maduro que um rapaz de vinte e cinco anos.
- Eu o observo muito. Desculpe-me. - ela continuou, baixando os olhos. Ela não pôde deixar de notar, pela primeira vez, a aliança dourada no dedo anelar esquerdo dele - Eu não vou incomodá-lo mais.
Evelyn ergueu os olhos quando o silêncio que se seguiu tornou-se insuportável. Contradizendo sua promessa, Eve encarou-o. Aquele rosto tão inexpressivo agora parecia quase humano. Pela primeira vez desde que o viu, Ernesto agora parecia como um homem qualquer; e não um Deus inalcançável.
- E por que fica me olhando? - o rapaz perguntou. Evelyn sentiu-se como uma criança tola. Como um professor do primário questionando seu aluno desobediente, ele continuou: - Bom, algum motivo tem.
Evelyn deu um passo para trás, não suportando mais controlar o que se passava dentro dela. Foi então que todo o seu corpo e os órgãos internos começaram a descongelar - como se Ernesto fosse uma chama, e ela uma boneco de neve frágil e sem emoções. Seus pedaços foram aos poucos se dissolvendo, rolando pelo asfalto abaixo como folhas secas - pedaços de seu corpo e, principalmente, de seu coração.
Ainda fitando-o nos olhos; com a consciência de que aquela seria a última vez que faria aquilo, ela pensou em todas as respostas possíveis para aquela pergunta.
Mas nada podia ser dito. Ela sentia-se incapaz de falar a verdade.
- Não vou incomodá-lo mais - ela repetiu, baixando os ombros e a cabeça. Suas pernas ainda estavam pesadas quando deu as costas para ele, e, ainda transtornada, voltou para a cafeteria.
Novos clientes haviam chegado, mas Evelyn passou pelas mesas sem olhar para ninguém. Escutou a voz de Zahir dizer seu nome, mas Eve estava em um torpor tão intenso que não deu atenção.
Na sala dos funcionários, ela se jogou no sofá em frente aos armários e tentou respirar normalmente. Ouviu passos em alguma parte do aposento, mas não reagiu. Evelyn sentiu a garganta se fechar e o peito corroer-se.
A moça sentiu uma dor tão forte na região do tórax que todo o seu corpo entrou em conflito. Era uma dor física. Eve nunca achou que aquilo fosse possível, mas finalmente havia compreendido a célebre expressão coração partido - pois era isso que sentia. Era como se alguém realmente tivesse pegado seu órgão e partido-o no meio com uma faca de churrasco.
- Eve...? - ela viu o rosto de Lucas próximo ao seu, sua expressão preocupada fazendo-a despertar aos poucos para o ambiente ao redor. - O que aconteceu?
A moça apertou os olhos e deixou com que as lágrimas acumuladas caíssem. O bolo em sua garganta aumentou, e ela se agarrou em Lucas como um bebê se agarra à mãe. Entregando-se àqueles sentimentos, Eve chorou profundamente, pressionando o rosto contra o peito do rapaz apreensivo. Abraçando-a de volta, Lucas a reconfortou com palavras baixas. Porém, nada aliviava aquela dor aguda que afundava seu peito e destruía todas as suas fantasias.
Para Ernesto, Evelyn era um empecilho insignificante; cujo coração despedaçado ele descartaria como as malditas folhas que insistiam em cair em locais inconvenientes. Ou melhor: como um pernilongo irritante que perturbava-o enquanto trabalhava.
Agora ela tinha certeza que ele apenas a observava para poder ter a oportunidade de esmagá-la com as próprias mãos.
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