X - O que as cartas dizem

Capítulo X | Folhas de Outono 

A pequena casa de Nicole ficava a apenas três quarteirões do Café Essência. O portão marrom, oculto pelas árvores que ocupavam a calçada, era vigiado por um cão vira-lata castanho. Evelyn escutou seu latido rouco quando Nicole pegou as chaves para abrir o portão.

- Ei, Ben, fique quietinho - Nicole acariciou a cabeça grisalha do cão, que enfiou o focinho entre o portão e o muro.

O velho cão abanou o rabo, cheirando a calça de Evelyn. Além dele, havia três gatos (um deles, sem o olho esquerdo) e uma tartaruga rodeando lentamente a varanda. Outro cachorro começou a latir dentro de casa. Havia árvores e plantas espalhados por todo o jardim, dando uma cor vibrante e muita sombra ao ambiente.

- Não repare - a ruiva disse. - Eu sou a única humana nesta casa.

- E tem coisa melhor? - Evelyn perguntou, acariciando o gatinho preto sobre a mesa. Nicole riu, abrindo a porta principal da casa.

Um cachorro cinzento estava deitado ao lado do sofá da sala, as patinhas traseiras enfaixadas e parte das orelhas amputadas. Apesar da circunstância, ele abanava o rabo para a dona e latia alegre. Só quando Evelyn chegou perto o suficiente é que percebeu que o animal não tinha as patas traseiras.

- Oh, tadinho - ela se agachou para acariciá-lo. - O que aconteceu? Atropelamento?

Eve sabia que a instituição a qual Nicole trabalhava recebia diversos animais de rua, mas não havia ideia da situação em que eles se encontravam.

- Não. - Nicole disse. - Maus tratos. Alguém cortou as pernas e as orelhas dele. Não é, Gray? - ela estalou os dedos, pegando-o no colo. - Mas não se preocupe, ninguém fará isso com você de novo.

Evelyn sentiu um aperto na garganta ao olhar para a mulher segurando o cão. Ela não teria estômago e nem forças para fazer o que Nicole fazia. Desejou ter o coração tão grande quanto o dela. Eve sempre gostou mais de animais do que seres humanos; apesar de não ter tido muitos bichos de estimação.

Vendo a relação de Nicole com aqueles animais, Evelyn a estimou ainda mais.

- Que babacas... - ela finalmente conseguiu dizer, engolindo a bile que lhe subia à garganta. - Ainda bem que existem pessoas como você. Eu não sei se aguentaria ver esse tipo de coisa a todo momento.

- Eu achava o mesmo. Mas não há nada melhor que fazer algo por esses animais. - ela falou. - Ben está comigo há anos, mas era um cão de rua. O Moca, o gato preto, levou pedradas. Encontraram-no quase morto próximo a um bueiro. Apesar de ter perdido a visão esquerda, se recuperou bem.

- Eu não consigo entender o que se passar na cabeça desses monstros - Eve murmurou, ajeitando os óculos.

- Bom, isso não me surpreende. - ela disse. - Pessoas jogam pedras e matam pessoas como eu o tempo todo. Por que não fariam isso com essas coisinhas?

- Hã... - Evelyn sentiu-se um pouco enjoada. - Por que não deveriam...?

Nicole deu de ombros como se nada daquilo tivesse sentido. Ela beijou o cão e estendeu-o para Evelyn.

- Poderia segurá-lo por um momento, por favor? Ele gosta de colo - ela disse. Eve pegou Gray delicadamente. - Você aceita algo para beber? Um suco, ou quem sabe um chá? Só não ofereço cafés.

- Um chá, eu acho - Evelyn respondeu. Mesmo não sendo fã de chás, talvez precisasse. Nicole foi até a cozinha, e Eve observou ao redor com o animal aninhado em seus braços. Tudo era muito simples, mas organizado e agradável. Havia um suave cheiro de capim-cidreira e casa limpa pelo ar.

Evelyn viu alguns retratos ao lado da televisão, mas não soube identificar as pessoas. Provavelmente, eram pessoas da família de Nicole. Na parede, uma imagem de Jesus Cristo levemente bronzeado e menos cabeludo olhava-a com um olhar sereno. Uma estátua de São Francisco com uma pomba nas mãos erguia-se em uma estante no canto da parede.

Nicole surgiu com duas xícaras de chá e um gato branco ao seu encalço. Seguindo-a, Evelyn foi levada a uma pequena sala nos fundos da casa. Uma porta de correr dava acesso aos fundos. Nicole colocou Gray em um caixote e mandou Evelyn sentar em uma poltrona.

A sua frente, alguns cristais estavam distribuídos sobre uma pequena mesa. Do outro lado, Nicole tirou um conjunto de cartas de dentro da gaveta e começou a embaralhá-las habilidosamente. Evelyn fitou o vapor que subia pela xícara de chá, um pouco nervosa.

- Apenas relaxe - Nicole recomendou. - Não há o que temer. Tenho que dizer-lhe algumas coisas, entretanto. As cartas não leem exatamente o futuro. O futuro é incerto. Dependendo de sua energia atual, haverá possibilidades. Aqui iremos apenas clarear o presente e receber conselhos, mas não há uma verdade absoluta sobre o que irá acontecer adiante.

- Certo. - Evelyn assentiu, observando as imagens desconhecidas das cartas que Nicole distribuía sobre a mesa. Ela não sabia se acreditava muito naquilo, mas estava tão perturbada com tudo o que estava acontecendo que toda ajuda era bem-vinda.

Nicole estalou a língua e franziu o cenho para as cartas. Evelyn, ainda dominada pelo ceticismo, observou com atenção os olhos castanhos da ruiva sobre as figuras.

- Você está lidando com um sentimento muito forte - Nicole afirmou, quebrando o silêncio. Evelyn entreabriu os lábios, sem reação. - Mas não sabe muito bem como enfrentar isso.

- Como...? - Eve começou, tentando, em vão, entender como ela conseguiu interpretar aquilo com meia dúzia de imagens aleatórias e sem sentido.

- Acho que isso está um pouco óbvio, Eve. - ela tirou outra carta do monte. - Não é difícil identificar uma pessoa apaixonada. Mas vejamos o que as cartas dizem sobre essa pessoa. Hum...

Eve tomou um gole de chá, tentando inutilmente se acalmar.

- Você não tem muito conhecimento sobre essa pessoa, certo? - ela perguntou. - Mas acho que isso está um pouco óbvio, também. Não preciso das cartas para isso. Sim, sim... Um desconhecido. Signo de Terra. Virgem, Touro ou Capricórnio.

Evelyn arregalou os olhos. Ele é capricorniano, havia dito Giovanni. Só podia ser coincidência. Eve não podia acreditar que estava se entregando à astrologia.

- Nicole - Eve disse, um pouco assustada. - Como está conseguindo ver isso com uma imagem de um caixão?

- Ah - ela olhou para a carta a sua frente. - Não se preocupe com as imagens. Essa carta, especificamente, não fala exatamente sobre a morte física. Eu diria que, neste caso, significa um fechamento de ciclo.

- Fechamento de ciclo? - Evelyn sentiu sua respiração falhar.

- Acalme-se, meu bem - Nicole estava serena como sempre.

- Como assim você não precisa de cartas para saber que estou apaixonada? - a moça disparou, os olhos arregalados. - E que ciclo é esse?

- Evelyn, eu não queria dizer, mas eu percebi. - ela disse, respirando fundo e organizando outro conjunto de cartas. Ela levantou uma sobrancelha, recostando-se na cadeira com uma expressão não muito boa. Nuvens. Casa. A moça não fazia a menor ideia do que aquelas imagens poderiam significar.

Evelyn estava prestes a explodir de aflição. Ela sabia quem era. Eve tinha certeza que Nicole sabia - assim como Rael. A moça precisava aprender urgentemente a arte da discrição.

- As nuvens... Vejo aqui um conflito envolvendo essa pessoa - ela continuou, concentrada. - Eu diria que um conflito familiar. Essa pessoa está passando por um período conturbado e não seria um bom momento para você se envolver nisso.

- Conflito familiar? - ela perguntou, apoiando-se na ponta da cadeira. - Será que ele é comprometido?

- Provavelmente - Nicole assentiu com convicção. Eve sentiu um peso no peito, recusando-se a acreditar. Era impossível Nicole saber daquilo. - Como eu disse, não consigo ver um futuro distante. Isso dependerá de suas ações daqui para frente. Mas, neste momento, você está em um caminho de conflitos. Sinto que sua energia está constantemente baixa devido a essa pessoa.

- O que eu faço? - Evelyn perguntou, engolindo em seco. Aquela pergunta estava sempre em sua mente; mas nunca conseguia obter uma resposta ou ter coragem o suficiente para fazer o que precisava ser feito.

Nicole olhou para ela seriamente, tirando pela primeira vez a atenção das cartas.

- As cartas aconselham você a afastar-se de possíveis conflitos - ela disse. - Conflitos estes que podem tirar ainda mais sua energia. Por enquanto, afaste-se dessa pessoa. Cuide de você. Não tente contato, seja ela visual ou física.

- Como? - os olhos de Eve estavam cheios de lágrimas. - Como vou fazer isso se ele está lá, todos os dias, me observando como um rato?

- Eu sei que é difícil - a ruiva disse, estendendo a mão para ela. Evelyn apertou sua palma, sentindo a mão quente contra a frieza de seus próprios dedos. - E eu tenho ideia de quem possa ser. Vejo-a perdida e exaltada todos os dias, mas nunca tive coragem de perguntar o que estava acontecendo.

- Desculpe-me - ela murmurou, mais calma. - Eu me sinto uma idiota.

- Você se sente culpada. - ela olhou novamente para o conjunto de cartas. - Mas não vejo, agora, um motivo para se sentir assim. A culpa nos tira todo o vigor.

- Sim, você tem razão - Evelyn disse. - Eu sinto que estou me perdendo. Sabe, não me sinto a mesma de antes. É exaustivo. Mas, por mais que eu tente, não consigo tirar essa pessoa da cabeça. Não consigo evitá-lo. Nem se eu quisesse.

- Você pode - Nicole retrucou. - Porém, você tem que lidar com a presença dessa pessoa da mesma forma que você tenta lidar com um sentimento irritante. Como a raiva e a decepção. Tente reduzir esse sentimento a um mosquito inconveniente que perturba suas noites de sono.

- Não sei se vou conseguir - Eve baixou os olhos.

- Está colocando-o em um pedestal - Nicole continuou. - Eve, acha que não estou apaixonada pelo Giovanni? Sim, eu estou. Mas tento colocar limites. Enxergá-lo como um ser humano como qualquer outro, e não um Deus. - ela disse. - Não alguém por quem você se sacrificaria a todo custo. Não alguém que você colocaria acima de você.

- Como evito isso?

- Você é muito nova, querida - a ruiva olhou gentilmente para Eve. - Aprenderá isso. Mas vejo que está faltando algo em você.

- O quê, exatamente? - Eve indagou, sentindo-se derrotada.

Como se uma ideia tivesse surgindo em sua mente de repente, Nicole pegou outro conjunto de cartas; ainda maiores e mais coloridas. Com as imagens voltadas para baixo, a mulher espalhou-as em forma de leque pela mesa.

- Escolha uma - ordenou. Eve pairou a mão direita pelas cartas e apontou para uma, sem hesitação.

Nicole virou-a, revelando a carta de uma bela mulher segurando um espelho. A ruiva sorriu, colocando a carta de frente à consulente. Embaixo da imagem, estava escrito: Vênus, deusa do amor e da beleza.

- Como eu havia pensado - Nicole falou, satisfeita. - Amor próprio.

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