VII - Astrologia e frangos
☙ Capítulo VII | Folhas de Outono ☙
O restaurante popular Villa Santos estava cheio como sempre. Evelyn costumava ir àquele lugar com o irmão nos finais de semana, quando ambos estavam ociosos demais para fazer comida.
Não fora difícil localizar Giovanni em meio a mesas e crianças correndo para a área dos playgrounds. Ele estava acomodado em uma mesa de dois lugares, com o aparelho celular nas mãos - provavelmente se divertindo com algum jogo idiota. A princípio, estranhou a escolha do rapaz ao sugerir aquele restaurante; já que tinha condições de frequentar outros bem mais requintados. Mas Giovanni não se importava com esse tipo de coisa.
Evelyn se aproximou, puxando a cadeira desocupada para trás. Giovanni levantou os olhos e sorriu, bloqueando o celular e cruzando os braços. A camisa de botões com estampa de flamingos deixava-o mais relaxado.
- Você veio rápido - ele falou.
- Eu moro na rua de cima - Eve sentou-se à mesa fitando o cardápio, apesar de estar sem fome.
- Interessante - Giovanni se inclinou para ela. - Aceita algo para beber? Eu acabei de pedir um frango assado. Você gosta? Ou, tipo, não come frangos?
Evelyn arqueou as sobrancelhas.
- Eu, hã, não estou com muita fome. - ela disse. - Obrigada.
Giovanni ergueu a mão para um garçom que passava. O homem parou frente à mesa.
- Essa senhorita quer um refresco - o rapaz falou. Eve abriu a boca para protestar, mas ele estalou o dedo. - De...?
- Laranja - Evelyn cedeu.
- Vou querer o mesmo, por favor. - ele disse, e o garçom anotou os pedidos. - Valeu, cara. Uniforme bonito pra caramba, inclusive. Fica bem nele.
O homem riu e agradeceu, sem graça, afastando com o bloco de pedidos nas mãos.
Evelyn estreitou os olhos, encarando-o.
- Você sempre consegue o que quer? - ela perguntou, incrédula.
- O dinheiro só não compra o amor, querida - ele disse. - E você merece um brinde. Graças a você, tive o encontro mais incrível da minha vida. Sem babacas para estragar o clima ou delegacias. E não é todo dia que temos encontros às quarta-feiras.
- Isso é ótimo - Eve falou, realmente feliz por te dado tudo certo. - E não é todo dia que almoço na companhia de um cara com blusa de flamingo às sextas.
Giovanni baixou o pescoço, alisando a veste com orgulho.
- Gostou? Eu comprei no Brechó das Viúvas - ele anunciou. - Só minha mãe que não pode saber. Mas combinou muito bem com a calça da gucci.
- Você é algum guru da moda? - Evelyn perguntou. O homem voltou com os dois refrescos, ainda corado pelo elogio de Giovanni.
- ...Obrigado - Giovanni bebericou o suco e voltou-se para Eve - Bem, eu não entendo nada de moda. Mas eu sou um cara muito gostoso, não acha?
- Eu... - Evelyn começou, sem saber se concordaria ou não.
- Não, não. Não precisa responder - ele gesticulou exageradamente, rindo. - Eu estou brincando! Quero dizer, não que eu não seja boa pinta. Mas você não quer saber desse cara bonitão. Vou cumprir minha promessa.
Eve encarou o copo de suco, passando a mão pela base transparente. Ainda era desconfortável admitir que estava interessada em um homem que não conhecia.
- Poderia ter me mandado uma mensagem - ela disse. - Afinal, isso não é tão relevante.
- Ah, por favor. É uma revelação importante! Precisa de um evento especial. - ele declarou, e Eve sentiu a tensão se instalar em seu corpo. Ela queria socá-lo por enrolar tanto. - Além do mais, eu sou das antigas. Gosto de conversar com as pessoas cara a cara.
- Então fale logo - Eve disse, tentando soar calma. Giovanni estava claramente se divertindo com a situação. Parecia tão feliz que, se Eve quebrasse seu nariz, ele continuaria sorrindo.
- Quanta ansiedade - ele falou. - Olha, eu só preciso comer. Não consigo raciocinar direito com fome. As informações somem da minha cabeça e...
- Giovanni! - Evelyn bateu as mãos na mesa, assustando-o. Os copos balançaram. Algumas pessoas próximas olharam para eles, cochichando entre si.
- Calma, calma! - o rapaz ergueu as mãos, virando-se para o garçom que vinha em sua direção. - Já está chegando. Viu?
O garçom colocou pratos e o frango assado sobre a mesa. Evelyn encarou as coxas gordurosas do pobre animal e a fumaça espalhando o cheiro de tempero. Mesmo assim, ela não sentiu fome.
- Tem certeza que não quer? - Giovanni arrancou o pedaço de coxa, quase salivando sobre o prato.
Evelyn tomou pela primeira vez um grande gole de suco. Precisava se acalmar.
- Não. - ela respondeu. Sabia que, quanto mais ela demonstrasse estar ansiosa, pior seria. Giovanni gostava de joguinhos; não apenas os eletrônicos.
- Tudo bem então. Sobra mais pra mim - ele abriu a boca, devorando uma grande quantidade de frango. Depois, espalhou farofa no prato com um sorriso irritante no rosto. - Eu sou taurino.
- E...?
- É verdade o que falam sobre taurinos. Amamos comida - ele falou. Evelyn tentou não demonstrar impaciência.
- Desde quando se interessa por astrologia? - ela perguntou. - Por acaso Nicole tem a ver com isso?
- Mas é claro - ele sorriu ainda mais com a menção do nome dela. - Bom, a minha ex-noiva também gostava dessas coisas. Às vezes, me pego vendo vídeos de signos no YouTube. É divertido.
Giovanni calou-se, enfiando outro pedaço de carne na boca. Seu olhar ficou perdido de repente, mas voltou ao brilho de sempre instantes depois. Então, ele já foi noivo. Sua quase imperceptível expressão de remorso impediu que Evelyn perguntasse qualquer coisa sobre esse assunto.
Ela observou-o terminar o suco com um único gole e expirar satisfatoriamente. Lentamente, ele começou a desfiar o frango.
- Então... - ele começou. Seu tom era sério, e Eve inclinou-se um pouco para frente para escutá-lo melhor. - Meu pai é dono de uma empresa de agronegócio.
Evelyn jogou-se para trás, contendo um arquejo de cólera.
- Certo...
- Isso não é engraçado? - ele perguntou. - Eu sou apenas um dos gados do rebanho dele. Um touro rebelde e esfomeado que não aguenta mais comer só capim. - algo no tom de sua voz deixou evidente a sua repulsa aos negócios do pai. - Eu fiz contabilidade. Mas, para ser sincero, eu odeio essa merda.
- Você não é obrigado a trabalhar em algo que não gosta - Eve falou. - Não parece ser muito bem o seu estilo.
- E não é. Mas você não faz ideia que droga é ser obrigado a carregar um legado de uma empresa que seus avós construíram. - ele contou. - Ou tataravós... Não sei quando começou isso. Apesar de ser o filho mais novo, ainda tenho responsabilidades na empresa.
- Deve ser um saco mesmo. - Evelyn concordou.
- Temos uma equipe gigante - ele continuou, remexendo a farinha com o garfo. - Os administradores, contadores, especialistas em vacas e terrenos, essas coisas. E, agora, temos a revista.
- Uma revista? - a moça estava tentando ficar interessada, mas ela não tinha ideia aonde Giovanni queria chegar com aquilo.
- Uma revista. Informações sobre o mercado rural, fazendas à venda, leilões... - o rapaz continuou. - Eu não sei o que tem de interessante em estercos e peso de vacas; mas, acredite, é um negócio milionário. E a revista está dando muito certo.
- Que ótimo.
- Ele é jornalista.
Despertando da letargia que a dominava, Evelyn ergueu os ombros e encarou Giovanni. Dessa vez, ele não parecia estar brincando com ela.
- Jornalista...?
- Sim. O rapaz que você está caidinha - ele pousou o garfo e a faca sobre o prato. - Ele foi fazer uma entrevista de emprego na empresa do meu pai. Na revista, no caso. Eu estava lá e tive acesso ao currículo.
O coração de Evelyn começou a palpitar. De repente, aquele assunto sobre vacas e revistas interessou-a.
- Ele vai trabalhar na revista do seu pai? - ela perguntou.
- Eu não sei. Não sou eu que seleciono os candidatos. - disse. - Mas, sinceramente, não sei se ele é bem o estilo rural. Atualmente, o cara trabalha em uma revista pequena aqui da cidade; e eu diria que o salário não é muito bom. Provavelmente, ele vai à cafeteria para escrever artigos.
- Ah... - Evelyn lembrou-se do rosto sério do rapaz e os dedos ágeis sobre o teclado. - Então, se você teve acesso ao currículo...
Giovanni deu um sorriso torto e inclinou-se para ela.
- Ernesto Hernández - o rapaz falou baixinho. - Vinte e cinco anos. Ele não é muito conhecido por aqui. Trabalhava em uma empresa na capital até ano passado. Ou seja, mudou-se muito recentemente.
- Ernesto - Evelyn repetiu, ainda atônita. Aquele nome ecoava sem parar em sua cabeça. Ernesto. Vinte e cinco anos. Mais velho que ela havia pensado.
- Ah! Estou esquecendo de uma coisa... - Giovanni ergueu as mãos dramaticamente.
- O quê?! - Evelyn soltou instintivamente. Por favor, que não seja comprometido, ela pensou.
- Ele é capricorniano. - Giovanni revelou.
Evelyn bufou.
- Poxa, é uma informação importante! - o rapaz protestou, notando o desdém de Eve.
- Achei que fosse algo mais relevante - ela murmurou. - Como, por exemplo, o estado civil.
- Hum - Giovanni estalou a língua, apoiando as costas no encosto da cadeira. - Eu não tinha pensado nisso. Não tinha isso no currículo. E nem notei se ele tinha alguma aliança...
Evelyn coçou a nuca, tentando não pensar muito naquilo. Giovanni havia dito mais do que ela havia exigido. Ela ficaria satisfeita apenas com o primeiro nome - pelo menos, até aquele momento.
- Mas uma hora essa informação virá à tona - o rapaz concluiu. - Será mais fácil se ele for contratado pela revista. A parte ruim, caso isso aconteça, é que ele provavelmente não irá mais frequentar minha cafeteria favorita.
- É... - Evelyn não sabia o que dizer. Na verdade, ela não sabia o que sentir. Aquelas informações eram preciosas para ela, mas a fez ter a sensação que Ernesto estava ainda mais distante dela. Ele era formado, independente e bem mais maduro que uma jovem universitária de dezenove anos.
- Você está legal? - Giovanni perguntou. - Achei que ficaria, sei lá, empolgada com as informações secretas do Conde Drácula.
Eve franziu o nariz.
- Conde Drácula?
- Vamos combinar, ele precisa tomar mais sol - Giovanni passou a mão pelo peitoral bronzeado. - E, quem sabe, fazer musculação. Para os braços, os músculos da cara... Aí, você gosta de rapazes com cara de bunda?
- Cala a boca, Giovanni. - a moça murmurou.
O rapaz gargalhou.
- Estou brincando. Ele está mais para o Edward Cullen dos cafés. - ele disse. - Só toma cuidado, Eve. Não sabemos o que se passa na cabeça dele. Às vezes ele quer mesmo provar de seu sangue. - Giovanni ergueu o dedo e recitou: - E o leão se apaixonou pelo cordeiro... Ou melhor: O cordeiro se apaixonou pelo leão.
Evelyn revirou os olhos.
- Eu não sou nenhum cordeiro. - ela rebateu.
Giovanni começou a imitar um cordeiro. Algumas crianças que berravam nos brinquedos olharam assustadas para a cena. Eve teve vontade de enfiar a cara na parte traseira do frango.
- Então seja a leoa, cara Evelyn - ele mostrou os dentes. - Ou vai ser destruída em mil pedacinhos. Como esse pobre pollo. - ele apontou para o frango.
A moça engoliu em seco.
- O que eu faço? - ela perguntou, nervosa. Ao contrário do que ela havia imaginado, saber mais sobre aquele rapaz que roubara seu coração sem permissão não aliviou sua angústia.
Evelyn enganou-se ao pensar que estava sob controle da situação. Ela nunca esteve.
- Descubra o mais rápido possível as intenções dele - Giovanni aconselhou. - Você disse que ele te olha. Porém, nunca se sabe o porquê. Geralmente, os homens deixam bem claro em suas expressões; é fácil decifrá-los. Mas esse cara... Tsc, tsc, tsc.
- Eu não sei como fazer isso. - ela admitiu.
- Não posso fazer isso por você - o rapaz declarou. - Infelizmente, não pedimos o estado civil ou a sexualidade no currículo do candidato.
- Sexualidade...? - a voz de Eve falhou. - Eu...eu não tinha pensado nisso também.
- Deveria levar em conta. Não dá pra saber - Giovanni disse. - Se eu fosse você, descobriria essas informações antes de qualquer coisa. Uma rápida pesquisa no Google, ou melhor: perguntar direto na fonte.
- Está louco? - Evelyn retraiu-se. - Como vou perguntar isso? "Oi moço, eu procurei no Google e não achei. Então, poderia me responder as seguintes perguntas? 1. Você está solteiro? 2. Você é gay?''
Giovanni fez uma expressão debochada, provavelmente imaginando a cena.
- É claro que não - disse. - Será mais conveniente aproximar-se do seu freguês e dizer: Olá, o que deseja hoje? E então, quem sabe, ele se sinta mais confortável para vazar qualquer outra informação sobre sua vida pessoal. Tente quebrar o gelo do cara com um café bem quente.
Evelyn apertou os olhos e assentiu, ignorando o bolo que se formava em sua garganta.
- Tudo bem. Eu vou fazer isso - ela disse, sem ter certeza de nada.
- Boa menina! - Giovanni olhou o relógio no pulso. - Está na hora de ir. Foi um prazer almoçar com você. Ah, tenho que mandar embalar esse frango. Vou ficar com fome daqui a duas horas.
- Obrigada por ter me falado - Eve disse. - E boa sorte com Nicole.
Giovanni deu uma piscadela.
- Não foi nada. E lembre-se: não seja um cordeiro. - o rapaz relembrou. - Ou vai acabar no abate.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top