V - Um bêbado em uma cama elástica

Capítulo V | Folhas de Outono 

Alice insistiu que fossem ao shopping naquele sábado. Eve não era muito fã de shoppings e muito menos de comprar roupas, mas há tempos prometia à amiga que fariam algo juntas. Além do mais, seria bom sair da rotina - e ela esperava que aquilo a ajudasse a fazê-la parar de pensar em estar na cafeteria.

Ou melhor, pensar nele.

O rapaz frequentava o Café Essência todos os dias, sem exceção; sempre nos mesmos horários e fazendo os mesmos pedidos. Eles se encaravam, Eve sentia seu coração disparar e o rapaz de repente parecia se esquecer de sua existência completamente. Abria o notebook, tomava o café, concentrado e sério como sempre. Eve sentia-se em um eterno looping. Ela pensava constantemente na proposta de Giovanni, mas ela tinha esperanças de que Nicole cedesse sem que ela interferisse. Sempre que ela pensava em tocar nesse assunto com a colega, sentia que estaria usando-a. Evelyn queria vê-la feliz, mas também queria saber sobre ele. Sobre aquela maldita Monalisa.

A moça só se deu conta que estava em um mau caminho quando seu primeiro pensamento antes de dormir e após acordar era aquele rosto. Os olhos, os cabelos, a boca rija. Seu intenso desejo de tocar aquela pele ou qualquer coisa que ele tocasse com as mãos. De sentir seu cheiro e ouvir sua voz. Ou de pagar-lhe um mocaccino secretamente.

Evelyn estava ferrada.

Antes de o rapaz chegar à cafeteria naquela manhã de sábado (dia o qual Evelyn saía mais cedo do trabalho), ela estava determinada a atendê-lo. Eve se aproximaria aleatoriamente, daria-lhe um bom dia e faria a pergunta de sempre: O que deseja? E ele responderia: Um mocaccino, por favor.

Assim, ela poderia tirar um pouco aquele peso terrível do estômago - o peso que lhe sufocava todas as vezes que ele ia embora ou ignorava sua presença após um olhar abstrato. Pelo menos, Eve ouviria sua voz e, quem sabe, poderia se aproximar mais.

Mas ela tinha medo de se machucar. Medo de descobrir que aquele ser era tão inacessível quanto um tesouro perdido na zona abissal do oceano. Como uma adolescente no início de suas descobertas amorosas, ela temia a dor da desilusão pela primeira vez na vida. Por isso, quando o rapaz sentou-se na mesa de sempre, Eve foi incapaz de caminhar em sua direção. Seus pés pareciam congelados. Seu coração saltava dentro de seu peito como um bêbado em uma cama elástica.

Evelyn correu para o banheiro, quase esbarrando-se em Rael ao seguir para o fundo da cafeteria. Havia uma verdade que poucas pessoas mencionam em seus relatos amorosos ou livros de romances: apaixonar nos deixam ansiosos ao extremo.

E a ansiedade quase sempre dá uma tremenda vontade de ir ao banheiro. Esse fato não é nada glamouroso, é claro. Mas a verdade precisava ser dita: nem tudo era um mar de rosas. Evelyn se sentia tão exausta (física e emocionalmente) e perdida que ela não compreendia o real motivo das pessoas se apaixonarem ou desejarem estar apaixonadas. Ou a pessoa era viciada em adrenalina, ou era uma psicopata.

Se é que ela estava mesmo apaixonada.

- Evelyn? - ela escutou a voz de Lucas enquanto lavava as mãos. - Está tudo bem?

- Eu, hã...Estou sim. Só estava um pouco enjoada. - ela disse, o que não era exatamente mentira. - Já estou saindo.

Eve escutou os passos de Lucas se afastando pelo corredor e respirou fundo. Provavelmente, ela demorou mais que o normal naquele banheiro. Parte de si queria ficar ali encolhida até a hora de ir embora. Outra parte (mais especificamente, seu coração) dizia para sair rapidamente antes que perdesse qualquer movimento precioso da Monalisa.

A moça encarou-se no espelho, observando seus olhos por trás daqueles óculos. A trança que havia feito pela manhã já não estava mais tão alinhada. Passou a mão no rosto, pelas pequenas sardas no nariz e os fios de cabelo atrás das orelhas. Há uma semana, ela começou a preocupar-se exageradamente com a própria aparência. Tentou até mesmo ousar em um batom mais escuro, o que combinava com seus lábios em formato de coração.

Eve respirou profundamente mais uma vez e abriu a porta do banheiro. Atravessou o corredor e, antes de sair da área dos funcionários, suas mãos começaram a suar. Sua mente gritava: Ele já está aqui! Porém, se gostava tanto de sua presença, porque havia saído correndo daquela maneira após sua chegada? Há um minuto, a angústia a tinha feito se sentir a pessoa mais idiota do mundo. Mas, no minuto seguinte, ela saiu do banheiro quase pulando de alegria. Evelyn não sabia se sentia bem ou mal. A certeza só era uma em seu cérebro: Ele está lá.

E ela iria ignorá-lo, pois ele era um idiota também. Quem aquele ser achava que era para olhá-la e depois fingir que nada mais ao seu redor existia?

Mas se ele estivesse interessado nela e Evelyn estragasse tudo?

Merda.

Quando voltou, o rapaz não estava mais no lugar de costume. Pela primeira vez, ele entrava na parte interna da cafeteria e ia em sua direção. Eve sentiu suas pernas bambas quando ele passou ao seu lado; sem ao menos cumrprimentá-la. Tão perto que Evelyn poderia ter tocado-o. Deixando um rastro de perfume amadeirado para trás, o rapaz entrou no banheiro dos clientes com a pasta nas mãos.

Evelyn apoiou-se no balcão, ainda atordoada. Aquele cheiro ainda estava impregnado em suas narinas. Ele nunca havia chegado tão perto dela; e, ainda sim, era como se ela estivesse invisível.

Rael aproximou-se dela e perguntou se estava tudo bem. Por que todos de repente estavam perguntando aquilo? Bem, ela não sabia disfarçar suas emoções muito bem. Evelyn olhou para Rael e assentiu com um sorriso, mas não pareceu convencê-lo. O rapaz mastigava algo enquanto encarava-a atentamente com os olhos escuros; como se tivesse lendo suas emoções. Ele sabia. Evelyn conhecia o amigo o suficiente para saber que ele era esperto demais para não perceber que havia algo errado.

Ela ainda estava se recuperando daquela súbita aproximação quando o rapaz saiu do banheiro. Evelyn já estava do outro lado do balcão, limpando uma das máquinas de café, quando ele foi até o caixa. Zahir o atendeu, e Evelyn se aproximou lentamente enquanto fingia organizar a estante.

- Você aceita nosso cartão fidelidade? - Zahir ofereceu. - Ao comprar dez cafés, você ganha um de graça. É só mantê-los em mãos quando vier.

- Claro, obrigado. - ele respondeu. A voz era muito baixa e grave. Ao contrário do que ela havia imaginado, o rapaz não parecia uma estátua de mármore falando. Parecia alguém...normal. Aquele fato não ajudou o psicológico afetado de Eve.

A moça só conseguiu respirar normalmente quando o rapaz foi embora. Seu cheiro e sua voz a perturbaram por longas horas após sua partida, deixando-a completamente desnorteada e extraordinariamente feliz.

Definitivamente, Evelyn estava muito ferrada.

●●●

O shopping estava lotado. Crianças fazendo birra, pais com sacola nas mãos e grupos de adolescentes transitavam por entre lojas e a praça de alimentação. Eve estava sentada em um dos banquinhos ao lado de Alice, lambendo distraidamente o sorvete de baunilha que havia comprado há pouco. Alice tinha cinco sacolas de roupa sobre os pés; os pulsos já vermelhos de tanto carregar peso.

Evelyn tinha até aproveitado para comprar algumas peças de roupas (e alguns livros, como de costume). Nada muito exagerado - ao contrário de Alice, que era o próprio sinônimo de exagero. A amiga havia se recusado a tomar um sorvete de casquinha pois, segundo ela, não fazia parte de seu cardápio fitness.

- É uma pena que não queira - Eve disse, lambendo os lábios e atacando o sorvete novamente. - Isso está muito bom.

- Que bom pra você! - Alice exclamou, claramente exausta. - Além do mais, está frio demais pra isso. Odeio o inverno.

- É outono - Evelyn corrigiu.

- Que seja... - a amiga murmurou. - Fique de olho nas minhas sacolas. Vou ao banheiro.

Alice se afastou, caminhando rapidamente em direção ao banheiro feminino. Eve riu baixinho. Por mais irritante que fosse - desde suas reclamações fúteis à demora para escolher roupas - Alice era até divertida. E Evelyn era paciente, apesar de tudo. Ela não sabia dizer se era porque ambas se conheceram quando ainda usavam fraldas; ou porque Alice foi sua única amiga na escola. Talvez ambas as coisas.

Alguns minutos se passaram. Evelyn mastigava a casquinha quando seus olhos foram atraídos para uma vitrine de uma loja de roupas. Um manequim portava um suéter rosa claro e calça jeans masculinas. Ainda que o ser de plástico não houvesse um rosto, Eve lembrou-se do rapaz que ainda não sabia o nome. Ele ficaria tão bem com aquele suéter... Ela não pôde evitar de imaginá-lo ali, bem à frente dela, usando aquelas mesmas peças.

- Que sorriso idiota é esse? - a voz de Alice a fez voltar à realidade. Eve não percebeu que estava sorrindo até sentir seu maxilar dolorido.

- Nada. Eu me lembrei de uma piada que Augus contou outro dia - ela disse, limpando a ponta dos dedos com o guardanapo.

- Aham. Tá bom - Alice se jogou ao lado dela. - Isso não é sorriso de quem se lembrou de uma piada. Você está esquisita esses dias, sabia?

Eve evitou seu olhar encarando a vitrine. Alice olhou naquela direção também, tentando adivinhar o que lhe despertou tanto interesse.

- Não estou esquisita - Eve finalmente respondeu. - Eu sou assim.

Alice bufou como um cavalo.

- Me conta outra, Evelyn. Eu te conheço desde que fazia xixi na cama - ela murmurou.

Eve fez uma careta.

- Isso foi nojento.

- Seus olhos estão brilhando - Alice observou, ignorando sua queixa. Eve sentiu seu sangue gelar por um momento. - Estou perdendo alguma coisa?

- Não está perdendo nada. Eu só estou me sentindo bem - Evelyn falou. - É um dia agradável com minha amiga tomando sorvetes e fazendo compras. Por que eu não estaria bem?

Alice a observava de soslaio, séria. Ela podia não ser esperta para muitas coisas, mas em outras era impossível ser enganada - como no quesito roupas ou relações amorosas e suas complexidades.

- Você está apaixonada. - Alice afirmou com convicção.

- Não. - Eve negou, evitando a todo custo seu olhar.

- Isso não foi uma pergunta. - a amiga rebateu. - Quem é? Qual o nome dele?

Evelyn levantou os ombros e lançou-lhe um olhar severo. Todo os resquícios de felicidade e leveza desapareceram de seu rosto.

- Que merda, Alice. Eu já disse que não é nada! - ela brandiu, irritada.

Alice calou-se, os ombros murchos. Evelyn se arrependeu na mesma hora por ter sido tão rude, mas estava tão irada com a situação que não disse mais nada.

A amiga também nada disse - o que foi um comportamento bem atípico dela. Em situações comuns, Alice reagiria erguendo a voz para defender seu ponto de vista; por mais que aquilo não fosse da conta dela.

Para a surpresa de Eve, no entanto, Alice não tocou mais no assunto naquele dia. A moça a agradeceu mentalmente por isso; ainda que desejasse, no fundo, abrir-se mais com ela.

Mas Evelyn não sabia se estava certa o bastante para responder àquela pergunta.

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