III - Como as nuvens
☙ Capítulo III | Folhas de Outono ☙
15 de março de 2017
Quarta-feira
O dia amanheceu frio naquela manhã de quarta-feira. Evelyn ainda se surpreendia com a súbita mudança no clima quando a próxima estação estava prestes a iniciar. Mas, ao contrário dos amantes do verão e seu sol escaldante, a moça adorava o frio.
O equinócio de outono ainda não havia chegado, mas seus dedos dos pés e suas mãos gélidas indicavam que uma frente fria invadira a cidade precocemente. Contradizendo a sensação térmica, o sol brilhava e o céu estava quase limpo. Algumas poucas nuvens agitadas dançavam pelo azul celestial; tão brancas que Evelyn se pegou fitando-as pela varanda da cafeteria. O primeiro cliente já havia chegado, e Zahir tratou-se de atender seu pedido.
Evelyn terminou de varrer as folhas que caira na varanda e recolheu-as com uma pá. O primeiro cliente, um senhor de aproximadamente sessenta anos, sentou-se em uma das mesas do lado de fora. Rael se encarregou de servi-lo.
- Não acredito... Uma pizzaria? - Eve escutou Zahir dizer ao contornar o balcão. As bochechas de Nicole ficaram vermelhas.
- Ele disse que gostava de pizzas. Então, eu sugeri: "uma pizzaria, então''. - Nicole deu de ombros.
Eve levantou uma sobrancelha e olhou para as duas.
- O que é que eu não estou sabendo? - perguntou, curiosa. Ela encarou Nicole. - Teve um encontro e não me disse nada? Que ótima amiga você é. - ela jogou o pano de prato nela, fingindo estar chateada.
Nicole riu e jogou-lhe de volta o pedaço de pano.
- Giovanni me convidou para sair - ela contou. - Eu aceitei, mas é claro que levei meu teser. Nunca se sabe.
- Você está certa - concordou Zahir. - Qualquer palhaçada, eu daria logo um choque no...
- Zahir, calada - Nicole sussurrou. - Cliente chegando.
Nicole saiu de trás do balcão e andou até a mulher carregando um bebê conforto (com um bebê dentro), dando-lhe boas vindas.
Evelyn sentiu Zahir cutucar suas costas.
- A melhor parte ela não contou - a colega disse baixinho. Eve esfregava um pires quando encarou os olhos divertidos de Zahir. - Na pizzaria, eles encontraram os ex-colegas de escola de Giovanni. Quando perceberam que Nicole o acompanhava, começaram a caçoar dele.
- Mas por quê? O que eles disseram? - Eve perguntou. Nicole voltou com um bloco de pedidos na mão e entregou-lhe a Zahir.
- "Giovanni! Agora está saindo com travecos?'' - Nicole fez uma careta divertida, imitando a voz de um dos rapazes. Enquanto isso, fazia sinais para Rael.- E então, Giovanni exibiu suas covinhas, levantou da cadeira e acertou o punho no nariz do idiota.
Eve ficou boquiaberta. Rael fez um claro sinal de se fodeu e continuou organizando os salgados na estufa.
- Mas que merda... - Evelyn se limitou a dizer, tentando imaginar a cena em sua mente: um jovem homem esparramado no chão de uma pizzaria chique; o sangue jorrando de seu nariz quebrado e o horror estampado no rosto dos espectadores.
- E então, fomos parar na delegacia - Nicole continuou - Foi o melhor encontro da minha vida!
- Esse provou que vale a pena, Nicole - Zahir entregou-lhe o cappuccino. - Mas continue usando o teser de choque. Não confie em desconhecidos.
- E com covinhas encantadoras - Eve levantou um dedo, enfatizando sua frase. Nicole riu e levantou o polegar, deixando claro que não cairia em nenhum golpe.
Eve sentiu seus dedos gelados quando terminou de lavar a última xícara. Ela só se deu conta que um novo freguês havia chegado quando sentiu um par de olhos observando-a através do vidro - que separava a parte interna e externa da cafeteria. Instintivamente, Evelyn olhou de volta. O rapaz continuou observando-a com seu par de olhos acastanhados, a expressão isenta de emoções. Ele estava sentado em uma das mesas da varanda, e, mesmo através do vidro, a moça reparou os cabelos cor de carvão e a pele alva enquanto ainda encarava aqueles olhos desconhecidos.
Com esforço, ela desviou o olhar e começou a limpar a pia inutilmente. Sentiu o rosto esquentar e o coração palpitar em seus ouvidos. O que havia acontecido? Eve tinha certeza que tudo aquilo havia acontecido em segundos, mas foi como se de repente o tudo ao redor tivesse parado.
Esfregando as mãos molhadas em um pano, ela olhou para os colegas de trabalho. Todos estavam dedicados aos seus afazeres, sem dar atenção a sua confusão repentina. Ela não queria olhar naquela direção de novo - temia que aquele rapaz fosse uma ilusão. Evelyn nunca o tinha visto antes, e, pelo histórico em sua família (que costumavam ver espíritos com facilidade), Eve não duvidava que estivesse ficando maluca. Afinal, não haveria outro motivo para o estranho frio na barriga e a sensação de que o tempo tivesse congelado.
Nicole caminhou em direção à varanda, e Eve acompanhou-a com o olhar. Não...definitivamente, o rapaz não era um fantasma. Ele ainda estava lá; agora com a atenção voltava para a tela de um notebook preto. Nicole aproximou-se e disse algo, e o rapaz fez seu pedido. Sua longa franja escura na lateral do rosto ocultava seus olhos e orelhas, deixando apenas parte de seu perfil exposto. O rapaz usava um suéter preto e calças jeans da mesma cor, dando-lhe um ar ainda mais misterioso e contrastando sua pele pálida - tão pálida quanto as nuvens daquela manhã.
Eve não conseguia parar de olhá-lo.
- Evelyn, um mocaccino. - ela só percebeu que Nicole estava a sua frente ao ouvir sua voz. - Está tudo bem, Eve?
Seu tom preocupado a fez voltar para a realidade.
- Um mocaccino - Eve assentiu e piscou os olhos. - Certo...
Respirando fundo, ela dedicou-se a fazer o Café Mocha. O embriagante cheiro de chocolate e café parecia ainda mais forte naquela hora. Eve demorou mais que o normal para preparar a bebida. De repente, temeu fazer algo errado ou derrubar o café no próprio avental. A última vez que se sentira tão nervosa fora no primeiro dia de trabalho no Café Essência.
Que droga estava acontecendo?
O estranho rapaz - que para ela parecia ter saído de algum livro de ficção fantástica - concentrava-se totalmente na tela de seu notebook. Seus finos dedos digitavam rápido e incansavelmente. Talvez fosse só mais um dos jovens empresários que frequentavam o café para trabalhar ou simplesmente sair um pouco de seus escritórios.
Ele não olhou mais em sua direção e nem sequer entrou na área interna da cafeteria. Próximo ao horário de almoço de Evelyn, o rapaz pediu a conta e partiu. Eve observou-o caminhar para a saída e percebeu que ele não era muito mais alto que ela. E os cabelos negros... Evelyn tinha certeza que tinha visto aquele penteado antes.
Sim, seu primeiro dia de trabalho após as férias. Um pouco antes de sair para almoçar com Alice, ela o tinha visto de costas - não dando nenhuma importância àquela hora. Então, não era a primeira vez que ele aparecia ali.
Por que aquilo era tão importante? Evelyn perguntava-se enquanto soltava o cabelo e fechava seu armário. Que idiota. Era só um homem aleatório que entrara na cafeteria. Havia muitos outros mais bonitos e atraentes que ele - Giovanni era um deles. Mas nenhum era tão peculiar e misterioso quanto aquela figura.
Ninguém ficava tão bem quanto ele naquele suéter.
Evelyn engoliu em seco e espantou aquela imagem de sua cabeça - e durante um bom tempo naquele dia, ela se esqueceu completamente daquele acaso.
●●●
Exausta, Evelyn quase quebrou a chave de seu apartamento. Suspirando alto, ela tirou a chave da fechadura e bateu à porta. Augusto sempre esquecia a chave pendurada do outro lado - se é que ela podia falar que se esquecia ou fazia de propósito.
- Augus! - ela bateu na porta com os nós dos dedos. - Você deixou a chave na porta. Abre essa merda.
- Calma, calma, maninha. - ela ouviu a voz abafada do irmão do outro lado. Passos se aproximaram e o som da fechadura sendo destrancada ecoou pelo saguão. Evelyn fitou o irmão. - Prontinho. Por que está tão mal-humorada?
Eve passou entre Augusto e a porta.
- Eu estou com fome. E exausta... - ela explicou-se. Oliver correu da cozinha para a sala, que não estava vazia. Um rapaz de cabelos escuros e curtos com um topete de calopsita estava jogado no sofá. Era o típico garoto de academia e de propaganda de pastas de dentes. - Vitor...?
O rapaz tomou um gole de coca-cola e acenou para ela, exibindo seus dentes perfeitos de filho-de-dentistas-bem-sucedidos.
- E aí, cunhada. Trouxe-nos algo para comer? - ele perguntou. Oliver empinou o traseiro em sua direção, pedindo uma massagem nas costas. Vitor atendeu ao seu pedido.
- Pedimos sanduíches - Augusto falou, fechando a porta. - Pedi um para você, já que come o de sempre.
- Que ótimo - Eve murmurou. - Na próxima vez, Augusto, você tira a chave da porta. Eu não tenho uma reserva.
- A gente estava fazendo sexo. - Vitor falou casualmente. Oliver soltou um miau esganiçado quando o rapaz o dispensou. - Pensa só, Eve: Você tem a chave. Imagina abrir a porta e deparar-se com seu irmão em um momento tão íntimo.
- Que idiota! - Augusto exclamou, corado. Evelyn olhou para ele um pouco enojada. - Isso é mentira, Evelyn.
Evelyn fez um barulho estranho na garganta enquanto tentava, em vão, reprimir uma risada. Vitor adorava pregar uma peça e deixar o namorado envergonhado, mas, conhecendo-os, ela não duvidava que fosse verdade.
E é claro que ela não ia perder a oportunidade de zombar dele. Afinal, é para isso que servem os irmãos.
- Eu só espero que vocês não usem o sofá para esse tipo de prática tão íntima. - ela disse, virando-se para ir ao seu quarto; mas não antes de admirar o rosto enfurecido e rubro do irmão mais velho.
Ela enfiou-se no chuveiro para tomar banho e mal percebeu quando se jogou na cama de seu quarto. Eram raras as vezes que dormia durante a tarde - a não ser que ela estivesse realmente exausta.
Seu últimos pensamentos antes de adormecer foram sobre sanduíches e cabelos cor de carvão.
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