15 De Maio De 2017 - Parte 2

Minha primeira reação foi procurar no Google Maps onde diabo fica Muqui e me surpreendi ao saber que é um município vizinho. Segundo Caiã, houve um temporal barra pesada lá – algo que deixou alguns desabrigados e alguns mortos – na última quinta-feira, dia 11, e agora que as águas baixaram, uma ONG está ajudando os desabrigados a reconstruírem suas casas.

Porra! Em toda a minha vida eu nunca quis ser voluntário de porra nenhuma. Agora sou obrigado a ir até esse fim de mundo por no mínimo 10 semanas ou até a líder da ONG me liberar.

— Poderia ser bem pior, Caio. Pagar indenização e ser voluntário é uma punição pequena perto do que você fez no rosto daquele homem.

— Mas não sei se você percebeu, estou com a costela e o braço quebrados também. E tirando que terei que repetir a matéria do professor Wilson. Quer maior dano que esse? E mais, eu poderia ter morrido ao cair da Susy.

— Isso porque você estava a 60Km/h numa rua onde a velocidade máxima permitida é 40Km/h. É melhor ficar feliz com o que recebeu.

Calei-me. Percebi pelo tom de voz dele que eu tive mais sorte do que imaginei.

— Tudo bem, cara.

— E vê se faz a porra desse serviço voluntário direito.

— Cara...

— Sem desculpas! Trata de criar vergonha na cara e fazer as coisas direito por lá. Eu nem quero estar perto quando o papai descobrir que você 'sujou' o nome impecável da família.

Meu coração entrou em pânico. Eu me esqueci disso. Ronaldo Laubert não ficará nada feliz com esse deslize. Caiã e eu sempre tentamos limpar todas as minhas cagadas antes que a merda vazasse e chegasse aos ouvidos de Ronaldo. Mas dessa vez...

— Caio, escuta o que eu vou te dizer agora. Você vai lá para aquela porra de lugar fazer tudo o que eles pedirem e se algum repórter babaca te reconhecer você apenas está fazendo um serviço pelo bem maior. Está me ouvindo?

Assenti. Era só o que eu poderia fazer após toda essa merda.

— É só me dizer o que tenho que fazer.

Desde que fizemos 18 anos resolvemos nos mudar para um apartamento e vivermos sozinhos. Nossos pais surtaram, mas o desejo pela liberdade era maior do que a preocupação em agradar papai e mamãe. O único combinado para que pudéssemos fazer o que bem entendêssemos seria não manchar, em hipótese alguma, o nome da empresa e da família. Sim, nessa ordem. Empresa sempre primeiro que a família.

Eu sabia que o aviso havia sido dado para mim, pois sempre fui o mais problemático. Era na minha agenda escolar que estavam os recados encaminhados pela diretoria.

De alguma forma o problema era sempre resolvido sem Ronaldo nem mesmo ir até a escola. Como eu já disse: o mundo sempre esteve em minhas mãos.

Caiã não pensa assim. Ele prefere lutar pelas coisas. Babaca, ao invés de apenas usufruir do dinheiro que possuímos...

Eu odeio a ideia de ter que passar quatro horas por dia – de segunda-feira a sexta-feira – perto de pessoas sujas e mal vestidas. Vai saber o tipo de germes que elas possuem. E outra: crianças. Eu odeio crianças. Mas para evitar falatório por parte de Ronaldo, eu faço qualquer coisa. Até mesmo ser voluntário e ficar perto de crianças fedidas.

***

Eu nem sei como os dois dias passaram tão rápidos mas estou agora dentro da Rilux de Caiã indo em direção ao tal fim de mundo. Minhas costelas ainda latejam e o meu braço ainda está imobilizado – e o meu humor não está nada bom. Ainda menos quando descobri que uma mulher chamada Rebecca é a 'chefe' da ONG e que terei que ser o cachorrinho dela pelos próximos dias.

— Quer fazer uma aposta?

— Seu babaca! Eu sabia que você está se divertindo com minha desgraça.

— Relaxa, mano. E olha pelo lado positivo: você está todo fodido, então, provavelmente, você será exonerado de suas tarefas até se sentir melhor. E só de você ir até lá e conversar, pelo menos, já estão contando suas horas.

Eu não havia pensado nisso, o que me fez sorrir.

— Mas então, vai apostar ou não?

— Fala aí, caralho.

— Eu pago o conserto da tua moto se essa Rebecca não for uma baranga de óculos, metidinha a nerd do 'bem-social'.

— Porra, assim não vale. Eu pensei a mesma coisa.

Compartilhamos uma gargalhada.

— Vai fugir da raia?

— Jamais. – Selamos o acordo com um aperto de mão.

A viagem – se é que pode assim chamar – levou cerca de 40 minutos. Na BR não nos deparamos com muitos carros, o que provavelmente tem a ver com a quantidade de árvores e lama que encontramos na chegada do município.

***

Como a lama impedia a ultrapassagem fomos obrigados a descer do carro.

Um senhor de meia idade se aproximou com um sorriso e com dois pares de botas 'sete léguas'. Ele nos explicou que as botas seriam para nos proteger até chegarmos onde desejamos e também para conseguirmos nos mover com mais facilidade.

Mesmo com relutância, Caiã me obrigou a calçar as botas velhas e me fez andar até encontrarmos a tal Rebecca. O promotor nos disse que ela já está me aguardando e que eu deveria sempre procurá-la para assinar uma Ata até o fim da punição.

Andamos por cerca de vinte e cinco minutos – não por ser longe, mas pela dificuldade de se deslocar. Por fim chegamos à Escola estadual.

Desde a entrada já nos deparamos com barracas – algumas improvisadas – por todos os lados. O zumbido de várias pessoas falando ao mesmo tempo era notoriamente mais alto que o necessário. Mas o que era ainda mais perceptível eram os olhares de curiosidade sobre Caiã e eu. Inclusive ao ver meu braço engessado e eu puxando um pouco da perna direita.

Uma garotinha magricela se aproximou. Seus olhos são inocentes e seu sorriso se destaca em meio ao cenário de horror.

— Bom dia! No que posso ajudá-los?

Quando ela sorriu novamente – agora do nosso lado – foi possível ver a falta de um dos dentes da frente. O que prova minha hipótese inicial de que ela nem tem dez anos de idade.

— Nós gostaríamos de falar com Rebecca Lins, você sabe quem é?

— A tia Rebecca? – Seu sorriso ampliou — A tia Rebecca não está no momento. Ela não veio hoje. Eu perguntei ao tio Maurício e ele disse que ela só vai vir amanhã.

Oba! Se a 'chefa' não está, significa que estarei liberado.

— Você pode me levar até seu tio Maurício?

Dei uma cotovelada em Caiã. Que diabos ele está fazendo? Eu quero meu dia livre. Porém, quando ele me olha com cara feia, engulo em seco.

— Claro, tio! Vem comigo.

Essa menina deve ter algum problema. Fica chamando todos de tio. Até quem ela conheceu a menos de cinco minutos. Os pais dela deveriam ensiná-la coisas básicas sobre a vida: não fale com estranhos.

Seguimos a garotinha magricela até uma das salas do segundo andar – que ficava a esquerda após a rampa.

Deparamo-nos com uma placa improvisada que dizia "Departamento de supervisão de voluntariado". A menina bateu na porta no exato momento em que uma grávida estava abrindo-a.

— Volte aqui amanhã que eu darei uma olhada nas condições do bebê.

— Obrigada, doutor!

É, pelo visto o tio Maurício é um médico. Quando entramos na sala percebi o quão jovem ele é. Dado sua aparência, se formou muito cedo.

— Tio Maurício, tio Maurício!

A garota magricela correu saltitante até o homem loiro de olhos azuis e pulou em seu colo. Pelo visto os pais dessa menina não ensinam muitas coisas a ela.

— Eles estão procurando a tia Rebecca.

— Estão procurando a Becca? – a pergunta foi dirigida a Caiã — Por acaso você é Caio Laubert? – Pong! Errou!

— Eu sou o Caio. Prazer. – Na verdade não tem nada me dando prazer neste momento.

— Ok. Eu sou Maurício Lopes. Melhor amigo de Rebecca. – Se eu não estou louco, o tom de sua voz era impondo alguma porra de limite, o que me fez questionar o que isso queria dizer — Ela me disse para fazê-lo assinar essa Ata, – disse ele estendendo um caderno — para que possa assinar e dizer-lhe que por hoje você está liberado. O que aparentemente para você será excelente, visto o seu estado atual. A Becca disse que você deverá chegar aqui amanhã às sete horas. Por favor, não se atrase. Rebecca não é brincadeira.

Por algum motivo eu percebi que ele não estava brincando, o que me obrigou a fazer uma nota mental para que não me atrase amanhã.

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