✿ UM: O PEDESTRE IDIOTA ✿

— Courtney! Courtney! — A voz melodiosa de Orlando Bloom ressoa em meus ouvidos, suas mãos firmes seguram meus ombros com delicadeza. Sinto-me levemente balançada, como se estivesse a bordo de um navio luxuoso.

Com uma preguiça gostosa, abro os olhos lentamente e me deparo com um par de olhos escuros, mas não os de Orlando, são os olhos da minha prima, Emma.

— Vamos, você precisa se levantar! Temos uma infinidade de arranjos de flores para preparar até a noite. O casamento não pode ser esquecido! — Minha mente continua vagando em outro lugar. — Courtney! — Emma grita mais uma vez, me tirando do meu transe.

— Certo, Em. Estou de pé, feliz? — Esfrego os olhos preguiçosamente.

— Se arrume! — Ela berra, antes de sair do quarto e me deixar sozinha.

"Emma está se tornando igualzinha à minha mãe, que pesadelo!" — Penso enquanto me arrasto para fora da cama.

Antes de tudo, deixe-me explicar: Emma e eu investimos juntas em uma encantadora floricultura há cerca de seis meses. Era um sonho antigo que finalmente se realizou. No início, enfrentamos muitos desafios, mas como diz o ditado, a união faz a força. Emma, minha prima teimosa, é meu pilar, mesmo que às vezes ela me tire do sério.

Olho-me no espelho enquanto decido o que vestir hoje. Opto por algo simples: um vestido de flores rosas, uma jaqueta jeans mais velha do que eu e uma bota preta elegante. Meus cabelos são negros, tão negros que parecem absorver toda a luz, apresentando uma singular ondulação. Prefiro dizer que eles têm uma textura lisa e encorpada, não requerendo muitos cuidados. Deixo-os soltos.

Saio do quarto e, em poucos passos, estou no banheiro. Embora pequeno, é bem iluminado. Realizo minhas rotinas de higiene necessárias e sigo em direção à Emma. Nosso apartamento é um pequeno cubículo, sem andares superiores. É um espaço único e amplo, no qual dividimos nossos quartos, banheiro, sala e cozinha. — Aqui está, tenho todo o nosso cronograma bem organizado nas mãos — diz minha prima assim que me aproximo da bancada. Eu pego um copo e encho-o com café, seguido de leite.

— Eu posso começar preparando o pedido das rosas brancas e vermelhas para o casamento, e você pode fazer a entrega de alguns buquês que ainda precisam ser feitos — Emma fala sem parar enquanto eu apenas tomo silenciosamente meu café. — Você está me ouvindo, Courtney?

— Sim, chefe — respondo com um sorriso divertido. Emma me olha com uma expressão furiosa. Ela e eu somos opostos complementares; minha prima é obcecada por organização, enquanto eu prefiro fazer as coisas com calma e ver no que dá.

— Vai dar tudo certo, Em. Você só precisa relaxar um pouco. Quer um pouco de leite com café? — ofereço brincando com ela.

— Não! — Diz ela firme, tirando uma folha da prancheta e colocando-a com raiva na minha frente. — Estes são os buquês que precisam ser feitos e entregues antes das três da tarde.

— Emma, o que está acontecendo com você hoje? — Pergunto, arqueando uma sobrancelha.

Geralmente, ela está sempre preocupada com tudo, mas hoje seus nervos parecem estar ainda mais à flor da pele.

— Esta é a nossa primeira grande encomenda desde que abrimos a Bellas Flores. Não podemos falhar! — exclama, olhando-me nos olhos.

Minha prima está certa. Este é o primeiro casamento em que faremos a decoração floral. Geralmente, nossos pedidos envolvem apenas coroas de flores para enterros, buquês simples e cestas de chocolate com algumas hortênsias.

— Não vamos falhar, Emma. Você vai ver, tudo vai ser lindo — digo confiante.

— Eu espero que sim — minha prima se apoia na bancada e ficamos em silêncio por alguns minutos, algo que é quase um recorde para Emma, que adora falar. — Terminou? — Ela pergunta, e não consigo evitar uma risada interna.

— Sim — respondo entre risos.

— Ótimo! — Minha prima corre rapidamente para a saída, pega a chave da moto e joga para mim. — Temos muito o que fazer!

A Bellas Flores não é tão grande quanto parece. Emma escolheu esse nome e disse: "Prima, nós somos lindas e nosso sobrenome é 'Flores'. Nossa floricultura deve ter as flores mais bonitas, então por que não chamar de 'Bellas Flores?"

A fachada é toda em vidro, com uma coloração lilás ao seu redor, idêntica aos lírios do campo. O letreiro é simples, apenas o nome da floricultura em branco, com alguns desenhos de flores também brancas ao redor. Ao entrar, há vários vasos pequenos com flores diversas. As prateleiras são de madeira envernizada, com samambaias penduradas nelas, enfeitando o ambiente. O cheiro de lavanda está no ar, tornando-o aconchegante e confortável. Emma e eu escolhemos colocar música instrumental para dar o efeito sonoro no local.

— Uau! — Exclamo ao ler o primeiro nome na folha que Emma me entregou. — O Sr. e a Sra. Welch continuam juntos mesmo depois de todos esses anos?

— Sim, não é fofo? Ele quer presenteá-la com um buquê para comemorar os cinquenta anos de casados deles. — Emma suspira enquanto monta mais um arranjo de rosas para um casamento cujo nome nem sei. — Será que um dia vou conseguir algo assim?

— Hum, talvez não — Faço um laço vermelho em volta das orquídeas de chocolate. — Não acredito que alguém conseguiria te suportar por cinquenta anos.

Emma me atira um rolo de fita de cetim, rindo.

Coloco o capacete e, com habilidade, aperto suas correias. Começo a acelerar cuidadosamente para que as flores não se amassem. A sensação de pilotar é revigorante, me sinto livre, como se estivesse prestes a conquistar o mundo. Viajo observando as copas das árvores, com suas folhas alaranjadas pela chegada do outono. É a minha estação favorita do ano. Meus olhos se arregalam no momento em que avisto um homem atravessando a rua desatento, sem sequer olhar para os lados. Buzino como se estivesse em desespero, mas o rapaz não me enxerga. Decido fazer uma manobra arriscada, virando o guidão da moto para o lado, na tentativa de desviar do pedestre desatento. No entanto, meu movimento brusco resulta em uma queda repentina, em uma velocidade assustadora. Sinto meus joelhos e cotovelo arderem de dor.

— Você está bem?! — A voz do culpado ecoa em meu ouvido.

Meu rosto queima de raiva, meu coração bate mais forte ao notar que minha jaqueta jeans favorita agora apresentava um rasgo no cotovelo. Observo os buquês destruídos, com rosas, orquídeas e lírios espalhados ao meu redor.

— Me deixe ajudá-la. — Uma sombra escura estende-me a mão, como se fosse um anjo com o sol brilhando nas suas costas.

— Você está louco?! — Eu grito furiosa, batendo sua mão e recusando sua ajuda.

Retiro o capacete e, com dificuldade, levanto-me do chão, lutando para segurar a moto e tentando salvar o que restou das encomendas.

— Por favor, deixe-me ajudá-la.

Eu observo o homem, com seus cabelos curtos e uma coloração rosa tão suave que quase parece branco. Seus olhos verdes brilham de preocupação, com um leve tom escurecido abaixo deles, como se ele não tivesse dormido por dias. Sua pele é branca como papel e seus lábios são carnudos, embora estejam secos e pálidos. Um piercing dourado brilha em sua orelha direita. Balanço a cabeça, tentando me concentrar na realidade. Estou furiosa com ele, não deveria prestar atenção em seus detalhes físicos.

— Você não presta atenção por onde anda?! — Exclamo. — Olhe o estrago que causou! Perdi todas as minhas encomendas e não tenho tempo para refazê-las!

— Peço perdão! — O homem murmura, humildemente ajoelhado enquanto colhe uma rosa do chão. — Sou responsável por arcar com as consequências. — Um sorriso iluminado, destacando seus dentes alvos.

— É o mínimo que deve fazer! — Grito com veemência.

Percebo que ao redor de seu moletom rosa escuro pendura um fone de ouvido branco. É óbvio que ele não me ouviu acenar ou gritar para que saísse do caminho, pois estava ouvindo música.

— Na próxima vez que atravessar a rua, olhe para os dois sentidos! — Sintetizo.

— Certamente, peço desculpas pela minha negligência como pedestre. — Ele sorri novamente, ignorando meus gritos irritados.

Olho ao redor e percebo que uma pequena multidão se forma ao nosso redor. Sinto as bochechas queimarem, não de raiva, mas de constrangimento, detesto receber atenção direta.

— Olha, não precisa pagar por nada, ok?! — Falo rapidamente. — Apenas preste atenção por onde anda. — Suspiro, retomando a coleta de flores e jogando-as de volta na cesta.

Subo na minha moto e recoloco o capacete, lanço um último olhar para o homem de cabelos rosa claro e acelero, deixando-o para trás. Em meus pensamentos, consigo imaginar uma Emma extremamente irritada.

Espero de coração que agradem vocês. 

As atualizações serão aos sábados.

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