Capítulo único
— E se eu o chamasse para sair? — Questionei Hermione, que se sentou na cadeira à minha frente.
Eu estava há semanas pensando nisso, mas sempre chegava na mesma conclusão de que seria estranho chamar o garoto do nada, eu mal havia falado com ele além de uma troca de palavras no corredor. Pisquei quando percebi que eu estava olhando para um ponto fixo há mais de um minuto.
Ser indeciso é uma merda.
— O gatinho do curso de arte cênicas? — indagou.
— Esse mesmo!
— Que gatinho, Mione? — Rony juntou-se a nós na mesa do refeitório, sentando ao lado da minha amiga.
— O Malfoy — respondeu. Seu namorado automaticamente revirou os olhos — Querido, qualquer pessoa pode enxergar isso — O ruivo fez uma cara feia, mas ela o ignorou. — Vocês vivem flertando pelos corredores. Então, eu acho que é uma boa você chamá-lo para sair, Harry.
— Mas não é sério, é apenas de brincadeira — Não iria negar a situação dos flertes, eles realmente acontecem.
— Ok. Então vamos falar sobre aquele dia que ele te convidou para ver o ensaio aberto — falou inclinando-se na mesa entrelaçando suas mãos. Esse era o momento que ela viria com bons argumentos das quais eu não conseguiria refutar.
— Não, isso não quer dizer nada.
— Ele te chamou no palco para improvisar uma cena e o beijou!
— Aquilo só foi um selinho, foi parte da cena.
— Uma cena improvisada, ou seja, isso só foi uma desculpa para te beijar.
Admito que aquele dia tomou muitas noites de meus pensamentos. Me questionei bastante sobre os motivos dele ter me escolhido para improvisar justamente aquela cena. Será que ele me chamou já prevendo essa situação?
— Por que você acha que ele teria interesse em mim?
— Quem não teria? Tu é um gostoso.
— Então cara, por isso que somos um trisal, não iriamos namorar contigo se não fosse — apontou Rony, finalmente se pronunciando.
— Apesar que nesse trisal eu fico sobrando, porque, além de vocês serem melhores amigos, Harry é gay — disse uma Hermione emburrada.
Rony e eu nos entreolhamos pensando exatamente a mesma coisa. Nos levantamos e começamos a encher de beijinhos, até ela começar a ficar vermelha e mandar sentarmos porque todos estavam nos olhando.
— Voltando — disse ainda um pouco tímida — Você deve chamá-lo para sair, é nítido que o interesse é mútuo. Se ele não aceitar, ele que tá perdendo.
— Eu acho que ele vai estar na festa de sábado na casa do Blaise Zabini. — informou Rony.
As festas do Blaise são bem conhecidas por aqui, é óbvio que o Draco iria, além de ser bem popular, se não me engano eles são amigos muito próximos. Quando estou nessas festas de fraternidade eu acabo virando outra pessoa. Será que seria uma boa ir?
— Seria uma boa você ir e tentar algo — Mione disse como se estivesse lendo os meus pensamentos. Na verdade, não duvido que ela tenha essa capacidade.
— Eu vou — falei decidido — E vocês vão comigo.
…
O resto da semana passou bem rápido. Ronald e Hermione todos os dias mandando mensagens no grupo me incentivando a tomar coragem no dia da festa, dizendo que tudo daria certo. Assim espero.
Combinamos que os dois viriam para a minha casa primeiro para fazer um esquenta antes de irmos para a casa do Blaise, já que a minha casa ficava mais perto. Mione passou uma hora inteira me ajudando a escolher uma roupa decente, em sua opinião, minhas roupas não são muito adequadas para um evento desses. Vou fingir que não fiquei ofendido com essa informação.
Mas, confio no senso de moda dela, a prova viva dessa confiança é a mudança rádical de estilo que o Rony teve a partir do momento que eles começaram a namorar. Quando estávamos todos prontos, fomos em direção ao carro para finalmente ir a festa.
Nunca deixaria de me surpreender com a casa do Blaise, é enorme e linda, digna de filmes. Talvez quando eu estiver bêbado o suficiente acabe dando um mergulho nessa piscina.
Adentramos a residência e encontramos uma bagunça de pessoas, todo mundo estava animado falando um por cima da outra, podia se notar muitas brincadeiras envolvendo bebidas como beer pong na mesa de sinuca ou o flip cup na sala de estar. Olhei bastante sobre a área, mas não achei a pessoa que pretendia ver aquela noite.
Peguei uma cerveja e me sentei no sofá perto das pessoas que estavam no karaokê.
Observei Rony e Hermione dançando na pista, eles realmente formavam um casal adorável.
Céus, se ele não aparecesse logo, provavelmente irei me entupir de álcool para tentar diminuir minha ansiedade. De repente senti os braços da Hermione envolver os meus ombros, acho que ela percebeu o meu nervosismo pelo o que ela disse em seguida:
— Harry meu querido, você precisa relaxar, olha aquele povo ali no canto com a cachaça, vai lá encher a cara e se soltar um pouco —. Então ela sai e volta a dançar com o Rony.
Ela definitivamente me conhece muito bem, uma cerveja era nada para mim. Não vou fingir que sou puritano, levanto-me e vou direto na galera que estava com as cachaças.
Depois de participar de alguns jogos, ter bebido mais do que posso lembrar, me encontrava agora na pista de dança como quem não tinha nenhuma preocupação na vida segurando uma garrafa com; vai saber o que tinha alí dentro.
Com certeza iria me arrepender disso, mas só depois. Enquanto isso, meus amigos estavam se pegando do meu lado, sabe, isso não ajuda muito a minha auto estima.
Estava tão envolvido com a música quando começou a tocar Just Hold On que nem percebi o momento que, um certo loiro, finalmente chegou na festa. Hermione e Rony lançaram olhares sugestivos em minha direção, mas os ignorei lindamente.
Decidi esperar mais um pouco para tentar algo para não parecer um desesperado. Por mais que eu estivesse um pouco mesmo.
Depois de algumas músicas fui a procura de Draco, não foi difícil lhe achar. O mesmo estava perto do balcão da cozinha com algumas pessoas, mas ele estava olhando para mim.
Retribui o seu olhar e comecei a fazer alguns movimentos sensuais de acordo com a música, pelo menos, na minha cabeça, eu tô arrasando. Em seguida, pisquei um olho e virei-me para o outro lado.
Depois de um tempo, ele se aproximou segurando também uma garrafa suspeita:
— Oi.
— Oi.
Sem falar mais nada, apenas trocando olhares, começamos a dançar. Ficamos assim durante um tempo, até o Draco cortar o silêncio.
— De longe eu achei que a gente estava flertando, mas agora que eu já vim até aqui então... É com você gato.
— Peraí, isso foi uma referência de The Duff?
— Sim — ri um pouco —. Esse é definitivamente o melhor filme que existe, e você ter pego a referência acabou de me deixar mais interessado. — Deu um gole de sua bebida.
— Acho melhor eu nem abrir um debate sobre seus critérios para escolha de melhor filme.
— Aconselho você não falar mal dos meus filmes, se não vamos ter um problema aqui.
Silêncio. Até que rimos ao mesmo tempo.
— De fato não dá pra discordar, é o filme do século. — Dou um sorriso irônico. O loiro acaba me dando um empurrãozinho de leve em meu ombro.
— Besta.
Aproveito a desculpa desse breve contato físico para me aproximar e dançar mais colado.
— Tá bom, acho que tenho álcool suficiente em meu corpo para não ter mais vergonha na cara, eu preciso perguntar: todos os flertes pelos corredores de Hogwarts e isso que está rolando agora, são porque você está com tanta vontade de me beijar quanto eu estou de pular no teu pescoço agora?
Seus olhos cinzentos me examinavam agora pela repentina confissão. Fiquei um pouco nervoso.
— Eu poderia responder — deu aquele maldito sorriso lindo — mas, acho que é mais fácil te mostrar.
Pegou em meu queixo e me puxou de encontro aos seus lábios. Acho que perdi um pouco do meu equilíbrio quando ele passou sua língua sob meus lábios. Vendo a minha reação ao seu gesto, ele deu um sorriso convencido. Desgraçado.
Meus braços se acomodaram ao redor de seu pescoço trazendo-o para mais perto. Suas mãos descansavam em minha cintura, nossos rostos estavam extremamente perto, mordisquei seu lábio inferior, isso tirou uma reação sua porque senti sua mão me apertar suavemente por um momento.
O ambiente começou a ficar mais íntimo, as luzes do local estavam mais suaves, a música ficou mais lenta e sensual. Tudo causando um impacto maior no momento.
Não aguentando mais a tensão, o trouxe em direção aos meus lábios. A primeira coisa que sinto é o gosto forte de whisky, o que deixou o beijo mais quente.
Paramos de nos beijar quando ouvimos duas pessoas gritando perto da gente.
— Até que enfim! Não aguentava mais vocês se comendo com os olhos pelos corredores —. Rony diz tentando falar por cima da música alta.
— Rony! — Mione o repreende, mas sem conseguir disfarçar o olhar de total concordância.
— Dá licença, sei que vocês estão com inveja por eu estar pegando o cara mais gato da faculdade.
— Inveja de que? Como trisal a gente divide tudo —. O ruivo começa a rir descontroladamente, claramente alcoolizado.
Nós três começamos a rir, menos o Draco que olhou para meu amigo com as sobrancelhas franzidas.
— Mas enfim Harry, o Rony aqui claramente bebeu um pouco a mais do que devia, então vou levar ele para casa. Você vai ficar?
Demorei muito tempo para conseguir tomar uma atitude com esse loiro, não vou embora agora.
— Vou sim. Pego um Uber mais tarde.
— Certo. Boa noite para vocês e juízo, hein —. A cacheada dá uma olhada sugestiva e arrasta seu namorado porta a fora.
Quando eles passaram pela porta, Draco chamou minha atenção.
— Vocês têm uma amizade bem interessante.
— Sim, eles são os melhores, não sei o que faria sem eles.
— Hum... Trisal é? — Agarra minha mão me levando a colar meu corpo no seu novamente.
— É uma brincadeira nossa, eles se sentem mal às vezes, porque parece que estou sempre fazendo cosplay de tocha olímpica. — Expliquei.
— Talvez a gente possa começar a andar em dois casais, quem sabe…
— E quem sabe eu te chame pra sair.
— E quem sabe eu aceito.
Ok, essa foi minha deixa. Eu vim até aqui para fazer isso, agora é o momento.
— Mas como eu sou muito cavalheiro, e mesmo estando bêbado demais pra falar corretamente, eu não posso deixar no quem sabe — respiro profundamente —. Malfoy, você quer sair comigo?
— Com certeza. — Ele nem chegou a pensar na proposta, o que fez eu o olhar com uma certa surpresa. Draco passou as duas mãos pela minha nuca —. Na verdade, estava pensando em que momento você iria me fazer essa pergunta.
O beijo dele consegue tirar todo o meu fôlego e sanidade. O jeito que seu corpo se movimenta com a música me deixa louco, porque ele está, obviamente, na intenção de provocar, e ele sabe muito bem que consegue fazer isso. E se isso fosse apenas um sonho?
Sinceramente, não estou afim de acordar agora.
Passamos muito tempo desse jeito, muita bebida, música, dança e pegação. E tinha coisa melhor?
— Querem pulseirinhas?
Uma mulher loira nos chama atenção nos oferecendo pulseirinhas cor neon, aceitamos, e ela coloca várias em nossos braços e uma em meu pescoço. Draco a agradece, em seguida, ela dá um sorriso contagiante e vai em direção aos, que acredito, ser seus amigos.
— Ela passa uma vibe muito boa. Sempre a vejo pela faculdade, parece ser uma pessoa muito legal.
— A Luna? De fato, ela é do meu curso, tenho certeza que ela vai se tornar uma atriz muito conhecida.
Dançamos mais algumas músicas entre amassos, até que decidimos que estava bem tarde para continuar na festa, considerando que não viemos de carro por conta das bebidas.
Pegamos o mesmo Uber, sua casa era caminho da minha, conversamos pelo caminho e combinamos de decidir os detalhes do encontro por mensagem. Quando chegamos em seu ponto, ele se despediu com um beijo em minha bochecha.
…
Acordei com barulhos de notificações do meu celular. Minha cabeça começou a latejar na hora que abri os olhos, estava me sentindo mais morto do que vivo.
Depois de passar muito tempo enrolando para levantar, vou ao banheiro tomar remédio para dor de cabeça torcendo para que a ressaca melhorasse logo.
Durante esse tempo as notificações do meu celular não tinham parado de chegar. Sento na beirada da cama e pego meu aparelho na cabeceira da cama.
A maior parte das mensagens são do grupo com o Rony e a Mione surtando.
Mione: Harry querido, e aí? O que aconteceu?
A pegação estava louca, vocês não desgrudaram ontem. 😏😏
Conseguiu deixar de ser uma porta e chamou o abençoado para sair?
Tu tá virado na cachaça, né? Geralmente acorda cedo.
Palhaço. Toma um banho gelado, aposto que só chegou em casa e se jogou na cama.
Rony: Mione, pelo amor de Deus, meu celular não para de apitar e eu tô morrendo de dor de cabeça, parece que vai explodir e esses barulhos não estão ajudando.
Já não basta o sermão que levei da minha mãe por chegar carregado em casa.
Mione: Para de reclamar, se você não tivesse bebido como se não houvesse amanhã não estaria nesse estado.
Rony: Minha namorada é tão carinhosa.
Mione: 🖕🏼
Rony: Vou te largar e ficar só com o Harry.
Mione: Às vezes eu acho que você vai fazer isso mesmo, mas pode ter certeza que ele vai preferir ficar comigo meu amor, eu sou muito mais legal e bonita.
Rony: Pode sonhar, querida.
Mione: Como é que é?
Rony: Nada flor do campo, meu alecrim dourado, você é perfeita.
Mas o foco aqui é o Harry que não deu um sinal de vida ainda.
Harry se tu morreu, avisa, precisamos do teu testamento pra poder pegar tudo o que tem. 🙃
Mione: @Harry
Rony: @Harry
Mione: Harry!
Eu: Caramba, eu não tenho um minuto de paz nessa vida.
Não se pode mais curtir uma ressaca como antigamente.
Rony: Droga. Sem herança pra gente.
Mione: Vamos ter que rever os planos de mudar para o Havaí.
Eu: Ser amado é tão bom.
Mione: Claro que te amamos. 🤑
Eu: Vou anotar no meu testamento que deixo tudo pro meu cachorro.
Rony: Você nem tem cachorro.
Eu: Vou arrumar um só pra deixar tudo pra ele.
Mione: Esse relacionamento não está dando certo.
Rony: Exatamente, Harry. O problema não é a gente, é você mesmo.
Mione: Não leva pro lado pessoal.
Rony: Ainda podemos ser amigos.
Eu: Odeio vocês, tchau.
Eles riram e continuaram mandando mensagens me chamando pedindo desculpas e falando que me aceitam de volta. Ignorando os dois, fui tomar café, enquanto isso mandava uma mensagem para o Draco.
Eu: Oi, tudo bem? Espero que sim, porque eu estou morto.
Draco: Nunca mais bebo na minha vida.
Eu: Todo mundo diz isso, D.
Draco: Mas estou falando sério.
Eu: Aham, senta lá Cláudia.
Draco: Estou vendo que não tenho credibilidade nenhuma.
Eu: Faz parte do teu charme.
Draco: Queria que meus neurônios estivessem no melhor estado para responder o flerte decentemente, preciso de café.
Eu: hahaha Rony, você e eu estamos competindo pra ver quem acordou mais destruído.
Draco: Pegarei o posto, acho que só volto a existir semana que vem, adeus mundo.
Eu: Acho que nosso encontro vai ser semana que vem então.
Draco: Opa. Voltei a existir, no sábado? Para onde vamos, que horas?
Eu: HAHAHA Sábado tá ótimo, umas 20h? Vai ser surpresa🤭
Draco: Enfim, a misteriosa.
Eu: Enfim, a ansiedade.
Bom, você claramente precisa curtir sua ressaca, vou te deixar dormir. Até mais tarde 😘
Draco: Vou fingir que isso foi preocupação e não você com sono inventando desculpa para ir dormir. Mas, eu vou também. Até 😘
Continuamos a conversar pelo resto do fim de semana, depois que voltamos a existir neste plano.
Na faculdade, os flertes só se intensificaram pelos corredores com direito a Hermione e Rony surtando no fundo. Passada a semana, chegou o momento do tão esperado encontro.
...
Eu: Cheguei. Estou aqui fora esperando no carro.
Draco: Ok, descendo em alguns minutos.
Nervoso. É a definição perfeita de como estou me sentindo agora, não conseguia ficar quieto enquanto o esperava. Meus dedos não paravam de batucar o volante do carro, igualmente minha perna direita que não parava de se mexer freneticamente.
Isso está realmente acontecendo, tipo uau, tem meses que estamos nessa de flertes que é surreal pensar que estamos aqui. Como sempre Hermione tem razão, já estava passando da hora de eu fazer as coisas que eu queria, a sensação de não precisar me preocupar com as coisas que eu faço é incrível.
Estava tão perdido em meus pensamentos que nem percebi quando ele deu umas batidinhas na janela, destravei a porta para que o mesmo conseguisse entrar para se acomodar no banco do passageiro.
— Oi, está tudo bem?
— Sim, sim. Desculpa, fiquei um pouco distraído.
— Tudo bem, desculpa por ter feito você esperar.
Eu estou bem ciente do quanto o homem na minha frente é lindo, qualquer pessoa consegue enxergar isso. Porém, neste momento ele está estupidamente bonito, não pude evitar de lhe dizer isso.
— Você também não está nada mal, Potter. — Draco tentou parecer esnobe, mas falhou miseravelmente. Era nítido o quanto ficou abalado pelo elogio, suas bochechas rosadas denunciavam isso. Entretanto, se recuperou rapidamente. — Então, ainda vai continuar fazendo mistério? — questionou. Logo em seguida, começou a especular sobre os possíveis lugares que poderia levá-lo.
— É surpresa, assim que chegarmos você verá — falei rindo.
Eu realmente esperava que o loiro gostasse do lugar para onde estava o levando. Afinal, é a primeira vez que saímos juntos, queria que as coisas dessem certo. A cidade é pequena, ou seja, há poucas opções de lugares para encontros.
Fazia poucos minutos que havia começado a dirigir, mas para Draco aparentemente fazia uma eternidade. Ele não parava de tentar adivinhar para onde estávamos indo, mesmo que eu já tenha deixado claro que é surpresa, se acertasse não iria dizer.
— Tudo bem. Mas já estamos chegando?
Não precisei responder, porque assim que virei a esquina estávamos de frente para um parque de diversões que ficaria na cidade durante dois meses.
Estacionei em uma vaga próxima da entrada do parque, olhei nervoso para Draco esperando sua reação. O loiro me deu um sorriso torto e falou.
— Ah, um parque... Eu adorei.
Seu sorriso ficou mais estranho ainda, droga, estraguei tudo, ele deve odiar parques, qual o meu problema? Eu devia ter perguntado o que ele gostava antes de simplesmente levá-lo até um parque de diversões. Achei que seria um bom lugar, além de que vai acontecer uma apresentação de circo mais tarde.
— Está tudo bem? Se você quiser ir para um outro lugar não tem problema —. Tentei controlar o pânico que me tomava.
— NÃO! — balançou sua cabeça de leve — Quer dizer, não, está tudo bem... Eu tô bem. Vamos?
— Está mesmo? Você parece meio…
— Eu estou bem, Harry — disse tocando minha mão tentando me tranquilizar, em seguida, começou a retirar o cinto de segurança — Vamos comprar logo os ingressos antes que a fila fique grande.
Hesitei um pouco confuso sobre o que havia acabado de acontecer, mas ainda sim fui atrás de Draco.
…
A fila dos ingressos foi rápida, depois de pouco tempo já estávamos dentro do parque.
— Tudo bem, não temos nenhum cronograma nem nada assim, mas a gente pode ir nos brinquedos numa ordem lindamente aleatória — Sugeri, colocando as mãos nos bolsos — Você tem algum favorito?
Eu queria fazer uma surpresa para Draco o levando para o circo que ficava ali ao lado, mas optei por vermos o show no último horário então teríamos muito tempo até lá. Mas agora só consigo pensar na montanha russa, que é tipo um clichê de encontro no parque, todo mundo escolhe isso.
— Que tal montanha russa? É clássico — ele disse depois de pensar um pouco.
— Perfeito — digo indo em direção ao brinquedo sendo seguido pelo loiro.
O parque não estava muito cheio então as filas não estavam muito grandes, fomos em vários brinquedos. Draco parecia estar se divertindo bastante, isso é muito bom. Fiquei bastante apreensivo com a sua reação dentro do carro, mas, vendo o quanto ele estava sorrindo, acredito que eu tenha acertado no lugar.
Percebi que ele gosta dos brinquedos mais radicais, isso é um ponto positivo por ser uma coisa em comum entre nós. É um alívio porque pela reação dele mais cedo parecia que ele não tinha gostado da ideia do parque.
Agora estávamos comendo crepe ao lado de uma barraquinha.
— Então Malfoy, por que você escolheu cursar artes cênicas mesmo? — Perguntei para puxar assunto.
— Bom, esse curso usa muito de sua criatividade, acredito que eu tenha muito disso. — Não pude evitar de sorrir — Há uma ampla exploração de áreas, quando eu me formar tenho a possibilidade de atuar em diferentes frentes.
— Tem alguma preferência?
— Eu amo atuar, meu lugar é no palco, é muito fácil me imaginar em um teatro lotado, dando vida a personagens incríveis ao lado de artistas maravilhosos.
Era nítido o quanto ele era apaixonado pelo o que estudava, seus olhos pareciam brilhar enquanto contava os seus planos para o futuro.
Estávamos conversando sobre coisas aleatórias, até que dois pombos passam voando perto de nós, e aparentemente um deles decide que era a hora perfeita para evacuar os fluidos, e adivinha, bem na camisa do Draco.
— Merda — Draco falou analisando a roupa.
— O que é um passeio sem emoção né? — falei rindo — Vem vamos limpar isso.
Levantei e fui com Draco até um bebedouro que ficava ao lado do banheiro, que era um pouco mais afastado, entrar naquele banheiro não era nem uma opção, mesmo que apenas tivéssemos passado por ele o cheiro já era horrível, banheiros públicos podiam ser muitas coisas, mas higiênicos não era uma delas. O fato de ter um bebedouro perto do banheiro é a prova de que não era seguro.
— Isso é claramente o universo conspirando contra mim — o loiro reclamava enquanto eu o ajudava a limpar a sujeira do pombo.
— Pois eu acho que seria a favor, não tem ninguém aqui atrás — digo com um sorriso chegando perto de Draco
— A favor é, e por que seria? — o loiro se aproxima mais com um sorriso de lado.
Quando estávamos na casa do Blaise era mais fácil o beijar sem qualquer coisa que me preocupasse, estava tendo ajuda do meu bom e velho álcool. Por mais que eu parecesse mais ousado, no fundo, estava me sentindo muito nervoso. Mas, pela reação dele durante o nosso beijo, acredito que esteja minimamente bom. Eu sentia a necessidade de o tocar o tempo todo, e pela forma que suas mãos agarrava-se ao meu pescoço com vontade, sem intenção de separar o beijo, acredito que ele sente o mesmo.
Nos afastamos com um pulo quando o relógio do parque começou a tocar uma música avisando que já eram nove horas, indicando que iríamos nos atrasar para o circo.
— Que isso?— Draco pergunta com uma leve irritação.
— Isso querido, é o alarme para sua próxima surpresa
— Eu estou com tanta moral assim para anunciarem minha surpresa no auto falante ou eu devo gritar por socorro?
— Só está indicando o horário, e quem sabe. — dou um sorriso misterioso e o puxo até a tenda do circo.
O circo ficava ao lado do parque, o espaço era bem grande, luzes fortes brilhavam destacando as cores vermelho e verde da grande estrutura que estava à nossa frente, tinha uma fila com várias pessoas que esperavam para poder ver o show.
— Tadããã — me viro para o loiro a fim de ver sua reação. Nada além de que ele parecia prestes a ter um colapso nervoso. — Hum… Draco, tá tudo bem? Você tá pálido? Tipo, mais do que o normal.
— Eu…
— Ok, anotei que eu não sei escolher lugares para encontros.
— Hey, não é nada disso, é que.... — Ele parecia envergonhado?
— Que?
— Eu…
— Olha, eu não sei o que está acontecendo, mas eu tô ficando nervoso.
— Eutenhomedodepalhacos — Draco murmurou de um jeito incompreensível.
— Como é que é?
— Eu tenho medo de palhaços — ele falou mais devagar olhando para o chão — eu sei, é um medo bobo que não faz sentido nenhum, mas....
— Não acho que seja bobo — falo simplesmente — se você não quiser não precisamos entrar.
— Não... Vamos entrar sim... Só me dá um momento — Ele respira fundo.
— Hey, tá tudo bem, se você ficar com muito medo pode se agarrar em mim sem problemas — dou um risinho e seguro sua mão.
— Não acredito que você está tirando proveito do meu medo — ele diz num tom dramático.
— Qual o problema de aproveitar as oportunidades que a vida joga assim de graça?— digo piscando para o loiro.
— Vou pensar na sua oferta — responde Malfoy com um sorriso. — Vamos? — Ele me puxa pela mão indo até a bilheteria.
Entrego os ingressos ao moço da recepção, que destaca uma parte dos ingressos e nos deseja um bom show. Antes de entrarmos compramos dois algodões doces com um senhor que vendia ao lado da bilheteria. Lá dentro as luzes eram fortes e coloridas, metade das cadeiras que estavam organizadas em fileiras já estavam ocupadas.
Draco e eu encontramos duas cadeiras vagas na terceira fileira onde ainda tínhamos uma vista boa para o palco que era um grande espaço circular.
Ali também tinham alguns equipamentos como bambolês, cordas e outras coisas que eu não fazia ideia do nome.
Depois de um tempo esperando as luzes diminuíram e o espetáculo começou. Uma mulher fazia malabarismo enquanto rodava no bambolê, enquanto isso tinham duas pessoas no trapézio.
Eu não conseguia nem pensar em como eles faziam isso, só de me imaginar no lugar eu já sentia no mínimo algum membro quebrado.
O show já estava acabando, e por fim os palhaços quase não tinham aparecido, acho que isso foi bom.
— E ai? Não foi tão ruim assim né, o palhaço mal apareceu —. Comentei roubando algodão doce do Draco já que o meu tinha acabado.
— Não foi, as atrações eram muito boas, mas eu tenho certeza que aquele palhaço tava me encarando — ele disse estremecendo.
Aquele palhaço estranho que só ficou no fundo bem no canto do palco encarando as pessoas.
— Ele olhou pra todo mundo.
— Mas ele tava olhando no fundo dos meus olhos, ele queria consumir minha alma — o loiro falou com absoluta certeza.
— Ele deve ter te achado o maior gato — comentei recebendo um empurrão de leve.
— Você não perde uma, né.
— É meu jeitinho.
As pessoas começaram a ir embora após o fim da apresentação, mas nós continuamos sentados conversando e trocando flertes.
— Harry olha ele ali! — Draco aponta para o palco.
— Ele quem doido?
— O palhaço, olha ele 'tá encarando a gente — ele diz com os olhos arregalados.
— Bora lá bater uns papos, ele parece gente boa.
— Harry!
Falhei miseravelmente em segurar o riso.
— Engraçadinho, ele já foi embora — ele dá um riso falso.
— Ele deve ter cansado da tua cara de medo.
— Estou surpreso com a sua sensibilidade — Draco finge comoção. Continuei rindo, até que tudo ficou escuro. — Okay foi legal viver, adeus.
— Deixa de besteira, olha em volta, todo mundo já foi embora e isso é a deixa pra gente ir também.
Nos levantamos indo até a porta, mas ela estava trancada, olho em volta procurando por uma saída quando uma mulher baixinha com um carrinho cheio de materiais de limpeza apareceu.
— O que vocês estão fazendo aqui a essa hora? Saiam.
— É o que pretendemos, mas a porta está trancada.
— Eu mereço, saiam por ali, pelos fundos — ela diz fazendo uma careta.
— Ah claro, desculpa — Draco diz me puxando para onde a mulher indicou.
Assim que conseguimos chegar do lado de fora, vi que ali era a área onde os circenses ficavam, era um lugar grande cheio de trailers enfileirados. Ali não tinha nenhuma luz além da luz fraca que vinha de um único poste ao longe.
— Tá, onde diabos fica a saída? — Draco olhou em volta em busca de um portão ou algo assim.
Não tinha nada, parecia sem saída.
— Podemos perguntar pra alguém — eu sugeri.
O problema é que não tinha ninguém, estava deserto, parecia que éramos as únicas almas vivas daquele lugar, isso não me parecia muito bom.
— Certo… Que horas são? — ele pergunta pegando o celular — Droga, minha bateria acabou, tu sabe que horas são?
— Putz, eu larguei meu celular no carro, enfim preciso passar a usar relógio de pulso.
Me amaldiçoei por largar o telefone no carro, mas em minha defesa, eu não tinha como saber que ia ficar trancado dentro de um circo.
— Você largou ele lá? — Draco perguntou levantando uma sobrancelha.
— É... Eu não queria distrações…
— Awn fofo, mas meio idiota.
— Quando chegarmos no estacionamento saberemos — falei rindo — Mas devem ser umas 22:30, ou algo do tipo.
Eu esperava que fosse esse horário mesmo, parecia ter passado pouquíssimo tempo. Mas, sem nada para poder ver o horário, não era possível saber.
Começamos a andar para procurar uma saída, ou um trailer que estivesse com as luzes acesas, mas não encontramos nada. Eu já estava pensando em voltar para a tenda do circo para perguntar para a moça da limpeza se tinha alguma outra saída, quando ouvi um estalo atrás de mim.
Me virei rapidamente, mas não encontrei nada. O Draco que estava do meu lado perguntou receoso.
— Será que aquele palhaço tá aqui?
— Aí Deus, é claro que está né, eles moram aqui. Olha Draco, não vai acontecer nada, ok? Provavelmente foi só um pássaro ou algo assim —. Segurei sua mão tentando confortá-lo e voltamos a andar
— Tudo bem… Mas precisamos sair logo daqui — ele me lançou um sorriso receoso e apertou minha mão.
— Será que todos já foram dormir? Não é possível que já seja tão tarde — Olhei mais uma vez em volta mesmo sabendo que não tinha ninguém e nenhuma saída.
— Tenho certeza de que isso tudo é um plano do palhaço para nos levar até uma morte lenta e dolorosa.
— Você realmente detesta palhaços, né?
O loiro suspirou e deu de ombros sem jeito.
— Quando eu era criança, minha mãe contratou um palhaço para minha festa de aniversário, eu devia estar fazendo uns seis anos ou algo assim. O problema foi que ele era um maluco drogado que falou coisas perturbadoras para todos os meus amigos, de repente puxou uma faca... Enfim você deve ter entendido, isso deu o maior problema, bem no fim ele foi preso, os pais dos meus amigos ficaram putos, e desde então as pessoas vestidas de palhaço não são minhas favoritas.
— Caralho, que punk… — Falei sem saber ao certo o que dizer.
— Pois é, sem mais palhaços nas outras festas — ele riu sem graça.
— E eu te fiz vir para um circo, palmas pra mim — Falei me sentindo culpado, eu poderia ter perguntado do que ele gostava antes de simplesmente arrastá-lo para um lugar onde claramente ele não gosta.
— Hey, eu adorei nosso encontro — ele falou como se soubesse o que eu pensava —, qualquer lugar com você é perfeito.
— Own que fofo — Agradeci por estar escuro e ele não ver meu sorriso bobo —, mas na verdade seria mais lindo ainda se a gente fosse para algum lugar menos estranho — parei — estamos andando a séculos e a gente não chega em lugar algum.
— Olha, eu apoio a gente pular a cerca.
— Eu acho que o circo todo já está fechado, será que o palhaço deixaria a gente dormir com ele? — Falei recebendo um empurrão do loiro.
— Por que você me odeia?
— Ah, você sabe que eu te adoro — Sorri sacana.
— Humph, tô duvidando seriamente — ele cruza os braços e vira a cabeça para o outro lado.
Depois de rodarmos mais uma vez todo o lugar decidimos voltar para a tenda procurar alguma outra saída.
— É agora que a gente pula a cerca? — Draco perguntou depois de voltarmos para o lado de fora sem resultados.
— Como eles não verificam se já foi todo mundo embora? Que absurdo.
— Bom… É meio culpa nossa por ter ficado até depois de todo mundo sair.
— Eu só queria conversar mais um pouquinho com você — fiz um biquinho.
— Eu também, bem. Mas agora a gente que lute com as consequências —. Ele riu de nervoso olhando ao redor
— Seria muito mais fácil se não tivesse tudo tão escuro —. Falei já me sentindo agoniado por não conseguir ver as coisas com clareza.
Então a luz dos postes acendem uma de cada vez, e o palhaço surge ao lado do poste mais afastado. Senti Draco dar um ofego de susto ao meu lado.
— Olha nosso amigo, vamos perguntar para ele onde fica a saída —. Falei brincando, mas eu também já estava achando toda aquela situação esquisita.
— Fique à vontade, vou estar bem aqui.
— Se ele for um psicopata você vai me deixar morrer sozinho? —. Zombei, mesmo não estando com a maior das vontades de ir até ele.
— Escolhas sabe... Eu escolhi não ir até a morte certa.
— Não é nada demais, a gente tem que sair daqui.
— Mas você não acha no minimo suspeito? Ele é um funcionário e está sozinho parado encarando dois seres que não deviam estar aqui, ah, e com um sorriso bem assustador…
As luzes se apagam fazendo o loiro parar no meio da fala. Quando as luzes voltam, não havia mais nada onde antes o palhaço antes estava.
— Ah pronto, agora estamos num filme de terror.
— Os postes devem estar dando defeito ou algo assim…
— Você sempre fica tão calmo assim para tudo?
— É… eu só tento manter a calma em situações de possível estresse, vai, tente relaxar um pouco, pelo menos vamos morrer juntos, romântico não acha?
— Você sempre tem flertes na ponta da língua?
— É bastante prática com a bela imagem no meu espelho —. Falei com deboche.
— Vou fingir que acredito.
— Tá bom, eu sou formado em muitos anos de Wattpad.
— Ah não — ele riu — e você lê o que? Larry?
— Hum… Talvez? — Vi que ele tentava não rir — Mas você não tem nenhum direito de me julgar, o seu filme favorito é Duff.
— Olha só, você não me venha com esse papo de novo não, Duff é perfeito e não tem discussão.
— Tá bom, já que você diz, é só que…
Sou interrompido quando ouço uma voz ao meu lado me fazendo dar um pulo de susto.
— Vocês dois não deviam estar aqui — Diz o palhaço com uma voz baixa e arrastada, sorrindo estranho para nós —. Os dois precisam vir comigo.
Draco ficou estático ao meu lado.
— Ok, a gente se perdeu e acabou preso aqui, você não poderia dizer onde fica a saída?— perguntei só querendo ir embora.
Ele apenas sorri, e começa a andar sinalizando para nós acompanharmos.
Decidimos que não tinha uma alternativa melhor, então o seguimos, indo o mais afastados possível. Até que ele parou no trailer num canto mais suspeito e afastado de tudo.
— Com licença, mas o estacionamento não fica pro outro lado?— Perguntei. Em que eu havia me metido?
Ele se virou para nós com aquele sorriso meio macabro.
— Oh sim, é claro, mas antes eu gostaria de mostrar uma coisa pra vocês, por favor entrem —. Falou segurando a porta aberta para irmos.
Draco me lançou um olhar como se falasse para fugirmos dali o mais rápido possível, mas tentei dar um sorriso reconfortante para ele e entrei, afinal não seria muito legal fazer desfeita com o convite.
— Não precisam se preocupar, eu não mordo —. Ele falou como se fosse fazer exatamente isso. Toda essa situação estava me incomodando, mas isso provavelmente era Draco passando sua paranoia para mim.
O trailer por dentro não era muito grande, de frente para a porta tinha um sofá pequeno, do outro lado tinha uma cozinha, e no fundo uma cortina que provavelmente separava o quarto e um banheiro, talvez.
— Podem ficar à vontade, sentem-se —. Ele falou fechando a porta e indo até a cozinha.
Acabamos ficando de pé, o mais perto possível da saída.
— Algo para beber? Café, refrigerante?
— Não, obrigado —. Draco e eu respondemos.
Ele começa a mexer nas coisas da cozinha enquanto cantarolava uma música no mínimo estranha. Até que ele vai até um armário, e abre a porta, lá dentro dois bonecos de tamanho humano caem de lá. Eles eram muito realistas.
Tentei sufocar o pânico ao ver aquela cena, afinal eram apenas bonecos.
— Esses são meus meninos. Eu os uso para o show, lindos não?
Me senti tentado a responder não, mas apenas confirmei com a cabeça. Draco ao meu lado estava tremendo, segurei sua mão tentando confortá-lo. Eu ia pedir para ele nos mostrar a saída, mas o mesmo começou a falar novamente.
— São originais, sabe, eu que fiz.
Draco apertou minha mão com mais força, percebi que a mão dele estava suada, se eu não estava gostando disso, imagina ele.
— Er… A gente realmente precisa ir embora, se o senhor pusesse…
— Cada um dos meus bonecos são únicos, nunca tenho nenhum igual, bem, na verdade eu já tive gêmeos.
— Isso é bem legal, de verdade — ri nervoso —. Mas precisamos ir, nossos amigos devem estar preocupados, e não temos como falar com eles…
Ele me ignorou continuando com o seu monólogo.
— Mas esses meus amiguinhos aqui estão passando da validade, uma pena que a pele esteja apodrecendo, eles eram realmente muito bonitos quando estavam vivos —. Ele diz passando a mão na bochecha de um dos bonecos.
Draco puxou minha mão para trás, e fomos lentamente em direção a porta, precisávamos sair daquele lugar o mais rápido possível.
— Eles também acharam legal ignorar que o circo estava fechando e decidiram ficar mais um pouco.
Eu estava realmente nervoso, eu devia ter ouvido Draco.
— Mas agora esses dois precisam de substitutos —. Ele se virou para nós lentamente. Draco parece sair de um transe de puro medo e se pronuncia.
— Tudo bem, isso foi bem legal e tudo, mas nós precisamos ir.
— Vocês não vão embora, meus caros, nunca mais —. Ele sorriu mais ainda e começou a vir na nossa direção
Draco me puxou e correu para a saída, quase caímos ao descer do trailer, mas continuamos correndo para o mais longe possível daquele cara. Paramos na frente da cerca de arame que dava para a rua.
— Ok, é agora que pulamos a maldita cerca? — Disse ele se esforçando para respirar normalmente.
— Não vejo porque não seria — falei enquanto Draco olhava em volta para ver se o palhaço não estava nos seguindo.
Me aproximei da cerca colocando a mão nela, apenas para levar um choque dando um pulo para trás.
— Aí, é claro que tinha que ser elétrica, estamos mesmo na droga de um filme de terror! — Exclamei irritado.
— Harry… — O loiro falou à beira de um colapso.
— Hey, vai ficar tudo bem— coloquei minha mão na sua bochecha —. A gente vai dar um jeito de sair daqui.
— Eu sou muito novo pra virar boneco — sua voz saiu trêmula.
— Olha pelo lado bom, você vai ser um boneco bem gato, e vamos ser bonecos juntos, é tão romântico.
— Não acho que seja o momento para essas piadinhas.
— Desculpa, eu só tô usando o humor para disfarçar que eu to surtando por dentro, e eu sei que se eu aparentar estar muito nervoso só vai te deixar mais nervoso ainda, e isso só vai piorar a situação.
— Que coisa, dá para parar de ser fofo em situações de possível morte?
— Esse encontro é o tipo de história que se conta para os netinhos — falei rindo um pouco.
— Se a gente sobreviver, pode ter certeza que você vai ter que me dar netinhos pra compensar essa palhaçada.
— Ai meu deus que trocadilho horrível, céus, eu estou te infectando.
— Ah, cala a boca — ele deu um empurrão fraco no meu ombro — vem, precisamos encontrar uma saída antes que sejamos empalhados.
Ficamos andando ao lado da cerca para tentar achar uma abertura. Mas, depois de vários minutos rodando por aquele lugar, chegamos a conclusão que não havia espaço na cerca, acabamos voltando ao lugar inicial. A porta dos fundos estava trancada, tentamos forçar a maçaneta, mas era um esforço inútil.
— O que vocês ainda estão fazendo aqui?
Nós dois pulamos de susto com a voz repentina. Suspiramos aliviados ao perceber que era a moça da limpeza.
— Graças a Deus. Estamos presos aqui, e aquele palhaço esquisito está tentando nos matar! — Draco estava totalmente desestabilizado.
— Palhaço? Que palhaço?
— O do show. Aquele esquisito com os dois bonecos bizarros. — Tentei explicar, ela parecia genuinamente confusa.
— Parem de brincadeira! — A senhora exclamou — Os palhaços do show são os irmãos gêmeos que fazem malabarismo, não tem nenhum boneco.
Será possível ter imaginado tudo isso? Talvez eu estivesse distraído demais prestando atenção no meu acompanhante para reparar. Ao olhar na direção do Draco, tive a impressão que o mesmo também estava se questionando. Mas como? Consigo lembrar do palhaço e dos bonecos. Foi no momento que ele ficou encarando a gente no final?
E ele nunca participou da apresentação? Ele estava no fundo encarando todo mundo.
— De todo modo, já passa de meia noite, vocês não podem ficar aqui, venham.
A senhora nos direcionou para uma passagem lateral de volta à área do parque, que por sinal, estava totalmente escura com todos os brinquedos desligados. Ela nos explicou que deveríamos seguir até a entrada principal e passar pela catraca. Não gostei nada da ideia de que ficaríamos sozinhos novamente, mas, assenti e agradeci a mulher que se virou e foi embora murmurando algo como: esses jovens.
— Harry… — Draco falava franzindo a testa, seus ombros estavam tensos — Se ele não era parte do elenco, realmente temos um serial killer tentando nos matar? E se ele vier atrás de nós? Vamos logo embora daqui! — Pegou minha mão e me levou em direção que fomos aconselhados a ir, seguimos em passos rápidos em meio a toda aquela escuridão. Não tentei argumentar, pois compreendia sua urgência.
Assim que passamos pelo carrossel, o mesmo volta a funcionar, as luzes do brinquedo se acendem e começa a se movimentar tocando uma musiquinha infantil, ajudando nem um pouco com todo aquele clima de terror. Nos viramos roboticamente para olhar, mas acabamos nos deparando com o palhaço aparecendo lentamente, ele estava sentado em cima de um unicórnio cor de rosa à medida que o brinquedo ia girando.
Se fosse em outra situação, com certeza estaria rindo dessa cena. Porém, as circunstâncias eram outras.
E tudo só piora quando notamos a peixeira, grande e enferrujada, na mão dele. Na verdade, piora mesmo quando o mesmo pula do unicórnio com aquele sorriso macabro grudado na cara e começa a correr em nossa direção.
Não pensamos duas vezes antes de corrermos loucamente em direção a saída, ao olhar por cima do ombro, percebi que o palhaço não estava mais atrás de nós. Mas não é por isso que deixamos de correr, estamos chegando perto da catraca quando aquela coisa surge em nossa frente, forçando a gente a ir para outra direção.
Estávamos cansados de tanto correr, a todo momento o palhaço sumia e aparecia detrás de algum brinquedo. Percebi que lágrimas não paravam de escorrer do rosto de Draco. Estava começando a me preocupar se conseguiríamos sair daquele lugar, porém, esse pensamento vai embora quando conseguimos alcançar a saída e ir em direção ao carro. Sentamos nos bancos e quando fechamos a porta, o palhaço aparece na janela.
Em reação ao susto, abri a porta do carro com tudo dando uma portada na cara dele, que acaba soltando a faca e dá uma cambaleada para trás meio desnorteado pelo impacto.
— Hazz, o que você vai fazer? — Draco gritou de dentro do carro quando me viu saindo.
Não lhe respondi, porque já estava pulando em cima do ser que estava nos infernizando, dando um soco lateral em sua cara. Draco saiu do carro para tentar fazer com que eu parasse. No momento em que eu daria mais um soco, várias luzes se acenderam, começaram a sair gente detrás das árvores e vai saber de onde mais. Dois caras que não consegui ver de onde saíram, seguraram os meus braços me tirando de cima do palhaço que estava me encarando indignado com a mão massageando o rosto.
Um homem vestido formalmente com um microfone na mão, veio seguido por um cara segurando uma câmera enorme se aproximando.
— Parece que as coisas fugiram um pouco do controle.
Estou muito confuso com toda essa situação para conseguir pronunciar alguma frase coerente.
— Mas que diabos significa tudo isso? — Draco praticamente cuspiu as palavras em cima do homem.
— Vocês foram pegos na pegadinha da semana do terror da TBS!
— Como é?
— Era uma pegadinha, apenas um susto para o entretenimento. — O homem, acredito ser o apresentador, me explicou.
— Pro caralho com seu entretenimento! — brandou Draco — Quem te deu permissão para fazer toda essa palhaçada?
— A gente quase morreu do coração! Vocês tem ideia do quanto essa piada foi estúpida?
O apresentador começou a ficar apreensivo com a nossa reação.
— Ei, ei. Calma galerinha, vocês estão muito estressados, é só uma brincadeira para se divertir um pouco nesse fim de semana.
Draco cerrou os punhos e fez uma expressão de puro ódio.
— Por acaso está vendo alguém com cara de que está se divertindo aqui? — Tomei a frente antes que o meu loiro entrasse em combustão — Não podem fazer esse tipo de coisa sem consentimento, vocês tem merda na cabeça no lugar do cérebro? E que porra de emissora é essa? Eu nunca ouvi falar de vocês.
— Bom, nós somos uma emissora estrangeira. Nosso programa foi cancelado no nosso país, então decidimos tentar em outras áreas.
— Vocês o que? — Não acredito no que está acontecendo.
Eu ia pular em cima daquele apresentador de araque, mas os caras que me tiraram de cima do palhaço ainda estavam parados atrás de mim me seguraram. E só agora pude perceber que eles também estavam com o mesmo figurino do palhaço.
— Não se resolve tudo na violência, moleque. Olha o que você fez! Isso aqui vai ficar roxo. — Se ele soubesse que se não tivessem me impedido, a situação estaria bem pior.
— Cala a boca! Quem é você para falar alguma coisa? Todos vocês são loucos, eu vou processar cada um de vocês.
Assim que o Draco soltou essa última frase, foi como se a ficha deles estivesse caído naquele momento. O apresentador do programa ficou com um semblante de desespero e começou a tentar reverter a situação.
— Que isso crianças, não é pra tanto, as imagens ficaram ótimas, vocês vão ganhar uma grana interessante quando for ao ar.
— Essa merda não vai para o ar! Vocês não vão colocar isso na tv de jeito nenhum. — O homem tentou argumentar em vão. — Mas o cacete! Vem Harry, vamos embora, não aguento ficar perto desses lunáticos mais nenhum minuto. — Saiu andando rumo ao meu carro.
Fomos embora ao som dos gritos da equipe implorando para gente reconsiderar. Eles não sabem o que os aguardam. Após alguns minutos na estrada, estacionei na frente do AP do Draco e ficamos em silêncio por longos minutos tentando processar o que aconteceu naquele maldito parque. Quando conseguimos nos acalmar tentamos debater sobre a noite conturbada que tivemos.
— Aquela hora que perguntei o que era um passeio sem emoção, não estava esperando por algo assim. — Eu e minha mania de disfarçar um momento não muito bom com uma pitada de humor.
— Não é possível que existam pessoas tão sem noção a ponto de fazerem uma merda dessas. — Disse com a cabeça baixa, suas mãos estavam entrelaçadas descansando no colo.
— Dray, me desculpe. — Comecei a acariciar sua mão — Eu devia ter lhe levado para outro lugar no momento em que você pareceu incomodado com o parque.
— Hazz, não. Não foi sua culpa, esse povo que é sem noção e não conhece a palavra limites.
— Era para ser um encontro perfeito, o parque, o espetáculo, uns amassos e...
— Eu diria que foi no mínimo inesquecível.
— Isso com certeza.
Ele começou a gargalhar repentinamente.
— Ai Deus, eu tô em choque ainda com a bizarrice dessa galera. — Você viu quanta gente tinha ali? Não é possível que ninguém tenha pensado: hey, mas e se a gente matar esses meninos de susto?
— Sinceramente, eu não sei se teria sido melhor lidar com o serial killer de verdade do que com esse bando de psicopatas.
Draco começou a falar sobre o quanto aquelas pessoas eram irresponsáveis e os problemas a mais que poderiam ter causado. Estávamos concordando sobre processar aquele programa quando meu celular começou a tocar, e só foi naquele momento que percebi que já era madrugada e que sumi por horas. Atendi a ligação.
— Harry? Ai meu Deus, você está vivo! — ouvi uma suspiro de alívio — Você é idiota? Como você some assim sem dar um sinal de vida? Só porque você arranjou alguém para dar essa sua bunda não quer dizer que tu pode matar teus amigos do coração.
— Oi mione, também te amo... Não é por nada não, mas você ‘tá no viva voz
— Oi Hermione.
— Oi Draco. Harry, ainda bem que você está vivo, porque quando eu te encontrar eu te mato.
Draco dá uma risadinha rápida, mas logo some quando vê a expressão no meu rosto.
— Mione, eu tô bem. Na verdade, acabamos de chegar na casa do Draco.
— A essa hora? O parque já fechou a muito tempo. Análise.
— Deixa de ser besta. Se eu te contasse o que rolou, você nunca acreditaria.
— Pode começar a me contar.
— Mione, eu te adoro. Mas, eu tô só o pó com tudo o que aconteceu, prometo que amanhã te conto detalhadamente.
— Não sei se quero saber...
— Deixa de ser tarada, mulher. Espero que você entenda que lá no céu você não entra mais. — Escuto ela dando algumas risadas.
— Ah, aproveitando a ilustríssima presença do nosso loirinho… — ela diz fazendo um leve suspense.
— Lá vem.
— Draco querido, conte-nos sobre aquele dia no ensaio aberto —. Minha amiga perguntou sugestivamente.
— Bom — dá um sorriso sacana — foi claramente uma desculpa esfarrapada para mandar a mensagem pro boy que estou interessado.
Virei meu rosto para o outro lado em uma tentativa falha de disfarçar o quanto meu rosto ficou corado.
— Sabia! — minha amiga grita do outro lado da linha — com essa informação posso dormir em paz.
— Mereço. Até mais, insuportável. — falo num tom brincalhão.
— Até mais, gostoso. Até mais, Draquinho.
— Tchau, Hermione. — Meu loiro diz rindo.
Dei mais uma olhada no celular quando desliguei a chamada para verificar se mais alguém havia me ligado. Meu aparelho estava travando com a quantidade de mensagens que, só no grupo havia 300. Comentei que nesse momento meus amigos deveriam estar ligando para a polícia dizendo que conseguiram me achar.
— É fofo como eles se preocupam. Falando nisso, eu preciso urgente colocar meu celular para carregar. Fico imaginando o que teria rolado se a gente estivesse com os celulares na hora e pudéssemos ter chamado a polícia.
— Eles iriam ser detidos, talvez?
— Idiotas. — disse, olhando para minha mão que ainda acariciava a sua. — Bom, acho que eu deveria entrar.
— Acho que sim.
— Quer vir?
— ‘Tá falando sério?
— Uhum.
— Claro.
Aceitei o convite para entrar, porque eu estava realmente preocupado com ele, até porque um dos seus maiores medos aconteceram hoje, não iria me sentir bem sabendo que o deixei sozinho nessa situação, e admito que talvez não conseguiria ficar sozinho também.
Entramos no apartamento. Draco disse que iria tomar um banho e que eu poderia ir depois, enquanto esperava minha vez, me ofereci para estourar algumas pipocas e fazer um leite com achocolatado para bebermos. Quando ele saiu do banheiro, agradeci internamente por finalmente poder ir. Eu estava desejando um belíssimo banho.
Sentamos no sofá da sala para podermos assistir um pouco enquanto nós apreciamos os resultados das minhas incríveis habilidades culinárias. Depois de muito tempo escolhendo algum filme, entramos em um consenso de que seria Barbie; escola de princesas. Durante o tempo que fiquei distraído fazendo carinho em sua cabeça, surgiu uma dúvida. Draco explicou os motivos de ter medo de palhaços, mas ainda não entendi os motivos para não gostar de parques de diversões. O questionei sobre e ele ficou surpreso, pois o mesmo nunca havia dito que não gostava, o expliquei que ficou nítido pela a expressão que fez quando chegamos no local.
— Bom, isso — iniciou, ajeitando-se melhor em meu peito —. É porque eu já li muitas fanfic de coreanos que tinham encontros em parques, eram todas uma merda —. Comecei a engasgar de tanto rir desacreditado com o que tinha acabado de ouvir —. Tudo bem, não te julgo por estar rindo disso. Acredite, minha vida era mais feliz antes da minha amiga recomendar isso. E naquela hora eu fiz aquela expressão xingando mentalmente ela por ter me feito ficar com essa imagem ruim dos parques na cabeça.
— Agora você não tem o direito de me zombar por ler Larry depois disso. — Falei, depois de conseguir me recuperar da crise de riso.
E foi assim que começou uma longa discussão sobre nossos gostos para leitura. Mas, depois ele começou a explicar como esses encontros nas fanfics que ele lê funcionam, realmente, era uma situação bem questionável, acredito que é um motivo muito válido. Conversamos sobre as histórias até o Draco começar a bocejar dando um sinal claro de sono, continuei acariciando seu cabelo até o mesmo apagar completamente. Dei um beijo na sua nuca e me aproximei da sua orelha.
— Bom sono, Dray. Espero que não sonhe com palhaços.
Fim.
Cena pós créditos:
— E é por isso crianças, que o avô de vocês chora sempre que vê um palhaço — concluo a história.
Os nossos dois netinhos fizeram murmúrios de concordância em uníssono.
— Agora o quadro na sala falando sobre não confiar em gente vestida de palhaço faz sentido — O mais velho comenta.
— O vovô é um bobão — diz a mais nova.
— Contra fatos não há argumentos — digo, em seguida, Draco me dá um tapa na nuca.
— Hoje a louça é sua — diz, saindo da sala.
— Um completo bobão — cochicho, e nossos netos riem.
💖💖💖💖
Oiê galerinha, tô de volta pra minha aparição anual hehe.
Essa foi minha participação na semana de AU do dezdrarry
O plot da fic veio de um desafio com minha querida amiga RedWidowB onde ela me deu esse plot e eu dei um plot pra ela (por sinal a fic dela já está disponível no perfil dela 😉 )
Ou seja, existe uma pessoa tão insana quanto eu kskdkd
Enfiiiiim
A fic foi betada pela Kahmaple e a capa foi feita pela bygoldenart
Espero que tenham gostado da leitura, críticas construtivas são sempre bem vindas 🥰
E é isso.
Paz ✌🏻
Ps: até o ano que vem 🤭😝 kk aquelas
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