O suspiro da liberdade
''É verdade que a liberdade é preciosa - tão preciosa que precisa ser racionalizada. '' - Lênin
RÚSSIA-14 de fevereiro de 1940
ELENA
''Não acredito que você me pintou. '' Digo emocionada, ao ver a pintura tão realista que Harry fez de mim.
''Considere como um presente de aniversário, um pouco atrasado. Comecei no mesmo dia que você me trouxe os materiais. '' Responde ele um pouco envergonhado.
''Obrigada. Esse com certeza foi o melhor-além de único- presente que já recebi. '' Com lágrimas de felicidades nos olhos, puxo Harry para um abraço e lhe dou um beijo na bochecha.
''Obrigado eu, fazer um retrato seu, foi na verdade um prazer. Vou sentir sua falta Murray. '' Diz ele ainda próximo de mim.
''Também sentirei sua falta, você foi a melhor pessoa que eu já conheci, além de ser meu único amigo. ''
''Ai, essa doeu. Mas tudo bem, já estou indo embora, então não irei forçá-la a mudar esse status de amizade.'' Diz ele descaradamente, com um sorriso galanteador.
''Para com isso, você adora me deixar sem graça até em momentos de despedida. Não pode simplesmente aceitar um elogio?''
''Considerando suas opções, não sei se levo isso como elogio. '' Diz ele rindo, quebrando o clima tenso de despedida.
''Também não levaria. '' Repondo rindo. Riso esse que vai morrendo com o passar dos segundos, prendendo meu olhar ao dele, e Deus, como é difícil me despedir. Acho que gosto mais de Harry do que eu pensava.
''Tudo certo para a nossa fuga então?'' Pergunta ele quebrando o silêncio, e indo fazer sua última refeição nesse porão.
''Sim. Vovô provavelmente não irá voltar tão cedo, desde a nossa discussão ele está em Minsk segundo a vovó. Provavelmente por conta da neve, ele não voltará essa semana. Então, está seguro. Conseguirei levar você até Vilnius nessa madrugada, e voltar antes que a vovó acorde.''
''Elena, não é perigoso não? você mesma disse que está um puta de um nevoeiro lá fora. E se você se perder no caminho de volta? Ou sei lá, um urso te atacar, ou pior, você acabar cruzando com algum filho da puta nazista?'' Pergunta ele preocupado.
''Relaxa soldado, a região é bem isolada. E com essa neve lá fora, pouco provável que haja alemães andando por aqui, e você precisa da minha ajuda. Até ao menos conseguirmos um sinal do seu rádio, e eu ter certeza que você estará em segurança, não sairei do seu lado. E isso não está aberto a discussões.''
''Sim senhora, você é quem manda.'' Diz ele levando os braços em rendição.
Fico observando mais uma vez o meu retrato que Harry fez, e não consigo conter o sorriso, ele é muito talentoso. Nunca tinha visto nenhuma pintura anteriormente, não com tanta perfeição nos traços, imagino que isso não seja de tanta prática, e sim talento. Harry é um artista.
Enquanto continuo apreciando meu presente, sinto o olhar de Harry preso em mim.
''Qual o problema britânico?'' Indago sem desviar o olhar da obra.
''Nenhum, mas eu estava aqui pensando, e sei lá, já discutimos isso antes, mas acho que tenho que tentar novamente. Vem comigo Murray.'' Diz ele enquanto se levanta, e caminha na minha direção, deixando seu corpo próximo ao meu, e meu Deus, parece que esse minúsculo porão em que estamos diminuiu, elevando a temperatura ambiente. Não sei o que Harry carrega nesse olhar, mas toda vez que me encara como agora, parece que meu corpo entra em combustão, e esqueço de tudo.
''Não posso Harry, não tenho para onde ir.''
''Claro que tem, estamos no início do ano. Provavelmente alguma universidade deve estar com inscrição aberta, eu te levo até Moscou se for preciso.''
''Para que? Para o vovô ir lá na semana seguinte e me trazer de volta para cá? Não.'' Digo convicta, pois sei que vovô tem seus contatos, logo, alguém falaria do meu paradeiro.
''Então vem comigo.'' Harry joga tais palavras de maneira simples, não percebendo o impacto que elas me causam.
''Você está falando sério?''
''Sim. Pensa bem Lena, já que você se livrou do casamento essa semana aparentemente, porque não vem comigo? Assim não precisará se casar no mês que vem, e nem quando seu avô quiser, e vai poder entrar em alguma universidade no futuro, quando a guerra acabar é claro, e eu vou te ajudar com tudo. Vamos ?''
Pergunta ele como se fosse algo simples. Confesso que nesse momento, com seus braços presos aos meus, estou tentada a dizer sim. Mas não estou pensando direito, não sou mais uma garota de 16 anos que quando se rebeldia com os pais foge. Sou uma mulher já, e se eu fugir, tenho que estar ciente, que nunca poderei voltar caso algo de errado, e eu não tenho nada, nem casa, bens, e muito menos dinheiro. Não me sinto confortável em depender exclusivamente de Harry, que apesar de ser meu amigo, vivemos numa bolha, não sei como é a vida dele lá fora, posso ser surpreendida. Droga, estou pensando demais.
''Você está pensando muito Lena, e provavelmente só nas coisas negativas. Pensa o seguinte, quando terá outra oportunidade como essa? Você estaria condenada a viver aqui para sempre, e isso não é justo.'' Fala Harry em um tom de convencimento, como se soubesse exatamente no que estou pensando, imagino que provavelmente ele desenvolveu essa técnica na faculdade.
A verdade é que estou com medo. Medo do desconhecido, e do abandono, por mais que meus avós não sejam os mais amorosos, aqui é minha casa. E se lá fora for pior? Odeio essa ansiedade, ela me apavora, na verdade me deixa covarde. Além disso, está tendo uma guerra lá fora, e por mais que a União Soviética ainda esteja neutra, é um lugar de governo totalitário, sinto que fora dessa minha bolha não estarei segura, mas algo dentro de mim, diz que posso ser mais feliz.
''Com certeza essa é uma ideia inviável Harry. Eu só iria atrapalhar na sua fuga, nunca sai daqui, não conheço nada lá fora, sem falar que você está indo para a guerra.''
''Jamais deixaria você em perigo. Talvez posso te encaminhar para algum lugar da América, ou sei lá, depois decidimos, mas por favor, venha comigo. Não suporto o jeito que você é tratada nessa casa. Você é preciosa demais para essa prisão.'' Diz ele por fim, um pouco alterado.
''Suponhamos que talvez eu vá. Seu pelotão iria me aceitar? Nós dois sabemos que a Rússia não está sendo bem vista pelos Aliados por conta do pacto de não agressão com a Alemanha, e sem falar que eu não tenho nada Harry, só esse vestido horroroso que a vovó me deu, onde eu iria ficar?'' As palavras saem rapidamente da minha boca, provocando uma crise de ansiedade.
''Ei, calma. Respira um pouco.'' Harry se aproxima de mim, e diz calmamente segurando minhas mãos com as suas:
''Primeiro, é claro que minha equipe te aceitaria, e por enquanto você ficaria comigo. Assim que encontramos meu pelotão, solicitarei ao capitão meu retorno para Inglaterra, e lá damos um jeito ok? E quanto ao seu vestido, realmente, tem muito pano desnecessário- diz ele rindo- mas conseguimos algo melhor, não se preocupe, tá bom?'' Diz ele puxando minha cintura, e me prendendo nos seus braços. O que me acalma.
Afirmo que sim com cabeça. Confesso que estou apavorada, mas se não for agora, nunca sairei dessa casa. Então escolho aproveitar minha chance, evitando pensar nos contras. E além do mais, confio no Harry, desde que ele chegou na minha vida, me sinto mais viva, sei que ele não me fará mal.
''Está decidido então, eu vou com você.'' Digo ainda abraçada a ele, encarando seu rosto, que logo é preenchido por um sorriso radiante dele.
''Você não sabe o quanto isso me deixa feliz Lena, a vida lá fora é melhor, acredite em mim.'' Diz ele radiante, e logo em seguida unindo nossos lábios.
Naquela noite, fechamos os últimos detalhes da nossa fuga, e assim que eu verificasse que todos estivem dormindo, iria até o porão e chamaria Harry. Iriamos sair pelas portas dos fundos. Me certifiquei também em entregar um casaco reforçado do meu avô para Harry, pois o frio de madrugada consegue ser intenso.
Estava indo para o meu quarto quando vovó me chama.
"Elena, venha aqui por um momento."
"Oi vó, está tudo bem?" Pergunto adentrando ao quarto de costura.
"Sim, só quero conversar com você um pouco. Provavelmente seu avô voltará com seu marido nesse final de semana. E queria ter uma conversa de mulher com você. Aproveitar que as outras meninas já foram deitar, e seu avô está ausente. Sente aqui.'' Me aproximo perto dela, sentando ao seu lado.
''Bem, acho que você já está na idade de saber o que acontece entre um homem e uma mulher não é mesmo? Bom, após seu casamento, seu marido vai querer reivindicar sua virtude, provavelmente irá te machucar, não será intencional, mas faz parte. E você como mulher não pode dizer não entende?'' Vovó diz calmamente, jogando as palavras sem rodeio, como se não fossem nada demais.
''O que? Como assim me machucar? Não quero ser machucada pelo meu marido, e ainda não poder falar nada, que papo é esse vovó?'' Digo irritada.
''É um processo natural Elena, isso só vai ocorrer na sua primeira relação íntima. Depois só quando seu marido quiser filho.'' Confesso que não compreendo nada do que ela disse, e nem sei se quero entender, apenas quero fugir dessa conversa, e fingir que ela nunca aconteceu.
''Não estou entendendo vovó, e se eu não quiser ter esse tipo de intimidade, eu não tenho minha escolha?''
''Larga de ser boba minha filha, não tem como você fugir disso, é o dever da mulher dar filhos ao homem.''
Ah, mas tem sim. Se antes eu estava com alguma dúvida sobre minha fuga com Harry, ela não existe mais. Nem que o inferno congele, deixarei um homem me machucar, mesmo que ele não queira. Não entendi nada sobre essa conversa com minha vó, mas estamos falando do meu corpo aqui, então são minhas decisões.
''Esta bem vovó, falamos disso depois, não quero pensar no meu futuro marido asqueroso no momento.'' Digo fazendo cara de nojo.
''E por favor minha neta, controle sua língua e não diga nada inapropriado que poça assustar o homem, as vezes acho que você não tem filtro. E pelo amor da Virgem Maria, não fale nada de faculdade com seu futuro marido, vai afugentar ele. "
"É impróprio uma mulher querer estudar, ter sua própria casa, e ter o seu dinheiro para que homem nenhum mande nela?" Pergunto de uma maneira irônica, que sei o quanto minha avó odeia.
"Exato. Controle esse seu gênio, que será melhor para todos. Agora pegue aqui --diz ela me entregando um sacola, que parece estar cheia de roupa-- aí está algumas roupas da sua mãe, agora que você vai se casar, deve ter mais roupas, e eu não terei tempo de faze-las, então terá que usar essas. Na minha opinião as roupas de sua mãe eram horrorosas, mas devem servir por um tempo, até que seu marido compre novas.''
Fingindo descontentamento pego a sacola e agradeço minha vó, com a vontade de sair logo desse quarto e ver todas as roupas da minha mãe. Nesse momento estou muito feliz. Assim que chego na porta para sair, vovó grita:
''Elena, verifique se as meninas estão dormindo, Anne está com mania de dormir tarde, ela acha que eu não percebo a cara de sono dela pela manhã, e depois vá se deitar também. Amanhã cedo irei de ensinar a fazer um banquete no café da manhã, você precisa aprender dotes culinários para encantar seu marido."
Respiro fundo, e só concordo com a cabeça, decido por ignorar minha vó. Afinal, se tudo der certo, amanhã de manhã já estarei longe daqui. Vou em direção ao quarto das meninas, e vejo Anne lendo o livro em quadrinhos que dei para ela.
"Oi meu amor, já não está na hora de dormir não?" Pergunto me sentando na cama dela.
"Não Lena, por favor, me deixe terminar só esse capítulo. Odeio deixar as coisas pela metade." Diz ela com a voz manhosa.
"Tudo bem, só vim aqui te dar um beijo e abraço de boa noite." Digo me emocionando quando ela estende os braços na minha direção. Como sentirei falta dela, ela é a luz dessa casa. Se pudesse levava ela comigo. Mas sei que ela ficará melhor aqui.
No meu quarto sozinha, começo a pensar nessa minha escolha imprudente de fuga. Mas o que vovó me disse agora a pouco, só confirmou o que eu já sabia, estava na hora de ir. Vou ao banheiro e após tomar um banho quente, abro a sacola de roupas que eram da minha mãe. Todas vestimentas presentes na sacola, são melhores que as minhas. Fico encantada com um vestido azul escuro, com um leve decote na região dos peitos. Mas o que me prende mesmo, é um conjuntinho de moletom, com calça e casaco. Realmente, mamãe deve ter deixado vovó doidinha.
Decido por fim colocar todos os pertences que eram da minha mãe em uma mochila, coloco lá dentro também meus documentos, uns trocados que peguei mais cedo do escritório do vovô, o retrato dos meus pais e o que Harry fez de mim, a carta de mamãe, e um lampião. Enfim todos os meus pertences, que não eram de muito valor material, e sim sentimental. Coloco a mochila pequena de baixo da cama, e tento dormir um pouco.
Passaram-se algumas horas, e julgo que está na hora de me preparar. Opto em usar a calça, e uma blusa fina, coloco a arma que roubei de Harry no dia de sua chegada dentro da minha calça, e com meu casaco mais quente por cima, fica imperceptível ela ali, coloco minha toca e luvas, pois o inverno esse ano está rigoroso. Pego minha mochila, e me retiro do quarto, indo em direção ao quarto das meninas e depois o da vovó, e vejo que esta tudo ok, então vou em direção ao porão.
Abro a porta com cuidado, e vejo Harry com sua roupa militar. Assim que ele nota minha presença se levanta e vem em direção a porta, saímos silenciosamente do porão, e fomos rumo a saída da casa. No momento em que pisamos fora do terreno de vovô, consigo ficar ainda mais nervosa, mas não irei desistir agora. O amanhecer ainda parece estar distante, mas para nossa sorte a neblina deu uma trégua, pois se não, mesmo eu conhecendo o caminho, ficaria impossível chegar até Vilnius sem iluminação.
''Você não está arrependida não né?'' Pergunta Harry quebrando silencio, com certo tom de preocupação.
''Não, claro que não. Por que acha isso?''
''Você está muito quieta.''
''Na verdade, estou nervosa, me sinto como a protagonista de um livro, que foge com o mocinho.''
''Eu não diria que sou um dos mocinhos, cuidado Lena.'' Diz ele rindo.
''Devo pisar no seu pescoço agora mesmo então?'' Respondo brincalhona.
''E obviamente você não é como as mocinhas dos romances, sabe se defender sozinha, não precisa de um herói.'' Diz ele me encarando.
''Não preciso, mas gostaria de conhecer um. Sabe, quando eu era criança, achava que meu pai era meu herói, ficava horas e horas sentada na varanda da casa esperando ele chegar, pensava que ele me tiraria daquele lugar, e que iriamos conhecer a França, não sei por que a França, mas na minha imaginação iriamos para lá, e iriamos encontrar minha mãe, e juntos assistiríamos a alguma peça de Shakespeare em Paris. Como eu era inocente, esperei até os 15 anos, aí vovô finalmente me contou, que meus pais tinham partido, e me abandonado, mas nunca, nem por um segundo, senti raiva deles, apesar de não compreender uma coisa ou outra.'' Confesso a ele um pouco envergonhada.
''Você não foi inocente em sonhar com isso, geralmente nossos pais são nossos maiores exemplos. Os seus deveriam ser extraordinários, participar de uma revolução, tipo, eles fizeram parte de algo que mudou o sistema, não ficaram omissos ao que acontecia aqui na época do Czarismo. Queria eu ter orgulho dos meus pais assim, mas minha mãe morreu, e pelo que eu sei não era nenhum exemplo, e meu pai é um merdinha.'' Diz Harry com um tom raivoso.
''No que seu pai trabalha?'' Pergunto, e vejo que ele exista por uns segundos, mas logo responde:
''Ele faz parte do gabinete do parlamento de Londres, ou seja, ele é só um fantoche aristocrata do meu avô preconceituoso. Não achava que meu pai era uma pessoa ruim, meu avô sim, e ele quem influenciava meu pai, mas no meio dessa guerra eu finalmente entendi, a omissão diante de algo errado, é tão fodida quanto a maldade de quem manda.''
''Sinto muito, sei como é viver com alguém semelhante.'' Inevitavelmente penso na minha vó.
Continuamos andando por mais um tempo, e o rádio de Harry começou a dar indícios de funcionamento. O que nos provocou certa euforia.
''Soldado Harry Jones na escuta, alguém aí? Câmbio.'' E nada de uma devolutiva, apenas chiados do rádio. Na quinta tentativa de contato, conseguimos uma comunicação.
''Tenente Steven na linha, Harry? é você?'' Emite o rádio.
'' Sim senhor tenente, meu avião caiu a cerca de um mês e pouco próximo da Polônia, no momento estou no lado oriental, domínio soviético, no qual fiquei preso.''
''Entendido, venha ao sul da fronteira de Bielorrússia. Ao se aproximar da área, entre novamente em contato.''
''Sim senhor.'' Responde Harry.
''Nossa, que conversa mais demorada.'' digo ironicamente.
''Tática de guerra Murray. Na verdade falamos mais que o necessário.''
''Bem estamos próximos a Vilinius, que faz fronteira com Bielorrússia, é melhor nos apressarmos, se passarmos antes do amanhecer, provavelmente encontraremos algumas tropas do exército vermelho, e eles estranharam.'' Digo, e Harry concorda.
Assim que o sol começa a dar sinal, já estamos em Vilnius. O local parece meio assustador, não há quase ninguém na rua. Me aproximo de uma banca de jornal, e vejo as notícias da guerra, as quais não são felizes. Avanço nazista à Noruega e Dinamarca. Provável avanço nazista na França, e bombardeios relâmpagos na Inglaterra.
''Você está fugindo da guerra minha filha?'' Pergunta o senhor da banca de jornal.
''Bom, acho que sim. A Europa não está mais segura.'' Acabo por fim mentindo. Noto Harry me encarando com uma expressão confusa, por não entender o idioma.
''Você está certa, logo Hitler irá nos invadir também, e não vejo nenhuma preparação do exército vermelho. Nossas fronteiras com a Polônia estão abertas, e muitos dos nossos que vivem ao extremo norte já foram levados.'' Diz o vendedor pensando alto, como se ele fosse o próximo.
''Como assim? O que o senhor quis dizer com levados? E porque Hitler invadiria a União Soviética? Temos um tratado de não agressão.'' Respondo um pouco afobada, e me sento no chão, próxima a cadeira em que o senhor está sentado. Percebo que o olhar preocupado de Harry perante a mim, não foi embora, mas por hora ignoro.
''E desde quando um nazista tem palavra minha filha? Ele disse que jamais invadiria a Polônia, e olhe só, estão quase dominando o centro Europeu todo. Fuja que ainda a tempo, mas vá de madrugada, parece que as saídas para o sul da cidade durante o dia estão mais vigiadas, e seu amigo não parece ser daqui, vai ser interrogado.'' Diz o senhor me dando uma piscadinha.
''Como percebeu que ele não é da região?'' Pergunto somente por curiosidade, não sei porque, mas esse senhor me transmite verdade.
''Por que ninguém da região toma chá a esse horário.'' Responde ele rindo, o que faz com que eu sorria também.
''Desculpe, mas qual o seu nome?'' Pergunto por educação.
''Jack Karennevik, e o seu moça?''
''Elena, Elena Murray.'' Respondo sorrindo, recebendo um olhar de espanto do senhor.
''Murray? Só Murray?'' Indaga ele, o que me assusta a princípio.
''Não, esse é o meu sobrenome por parte de pai, o por parte de mãe é...'' E antes que eu possa completar minha fala, Harry me interrompe.
''Está na hora de irmos Lena.'' Diz ele sério ao meu lado, olhando de cara feia para Jack.
''Bom, foi um prazer senhor Jack, te desejo sorte com a guerra, até mais.'' Dou um tchauzinho com a mão para o senhor, o qual continua me encarando surpreso, como se me conhecesse -- o que é impossível, já que eu nunca sai da casa dos meus avós--, Harry segura minha mão, e caminhamos em direção ao centro sul da cidade.
''O que vocês tanto conversaram? E porque disse seu nome a ele?'' Pergunta Harry assim que nos afastamos.
''Falamos sobre o avanço nazista. Parece que o centro Europeu já foi dominado, e que o próximo alvo é a França, e provavelmente a posteriori a União Soviética, começando talvez por aqui mesmo, já que a cidade está repleta de comunista e judeus.'' Respondo um pouco triste.
''Esses vermes nazistas precisam morrer logo. O que mais o velho disse?'' Pergunta Harry um pouco mais calmo. Com os cabelos repletos de neve agora, por conta da temperatura que caiu severamente agora.
''Bom, que não é seguro sairmos da cidade de dia. Muita movimentação nas fronteiras.''
''Imaginei isso mesmo, tendo em vista o quanto a cidade está tensa. Mas dormiremos aqui hoje, e sairemos de madrugada, acho que é mais seguro.''
Eu apenas concordo a cabeça e aperto mais sua mão. A situação está pior do que eu pensava, na cidade, é notável a falta de abastecimento nos mercados, escolas fechadas e olhares desconfiados por todas as partes. Harry por conta de seu cumprido casaco, não aparenta ser um soldado, e sim um civil, o que não dificulta nossa passagem pela cidade. Conforme vamos caminhando, notamos também o medo no semblante das pessoas, medo esse justificável, já que aqui possui uma vasta comunidade judaica, e o exército nazista não está distante.
Desde que saímos da banca de jornal, sinto um nervosismo estranho, como se estivesse sendo seguida. No entanto, acredito que seja por conta do ambiente de guerra, mas mesmo assim fico com os sentidos mais atentos, e seguro mais forte a mão de Harry, forçando-o a parar e olhar para mim.
''Harry, não é melhor encontrarmos um lugar para ficar já? A neve está aumentando, e precisamos descansar um pouco.''
''Sim, estou pensando nisso a uns minutos já, mas só tem um problema Lena. Não temos dinheiro.'' Diz ele envergonhado.
''Bom soldado, aqui vai uma notícia. Eu tenho alguns trocados, e pelo visto a cidade está vazia, deve ter alguma pensão barata.'' Respondo com um sorriso convencido nos rosto.
Rodamos por mais meia hora na cidade, e encontramos um restaurante comunitário. Com decoração um pouco exagerada, imagens de Stalin e famílias felizes em todas as paredes. Propaganda para mostrar que o comunismo aqui era é perfeito, que o ensino e refeição eram gratuitos. Só que tinha um problema nessas propagandas, tais direitos não chegavam a todos, e aqueles que se rebelassem contra Stalin, era considerado inimigo. Então não, o comunismo de Stalin não é o verdadeiro, não o proposto por Marx e Hegel, e muito menos aquele que Lênin iniciou aqui.
Após nossa alimentação, fomos a procura de algum lugar para nos hospedar, já que estava praticamente impossível ficar na rua, por conta da neve, a qual estava mais intensa. Assim, achamos um hotel um pouco distante do centro, e próximo a saída sul. Pagamos por uma diária, a qual incluía uma refeição, mas que provavelmente iriamos ignorar. O quarto não era grande de coisa, tinha uma cama de casal, um armário pequeno próximo da cama, com cobertas em cima, e um banheiro. Mas para nossa sorte, era bem aquecido, então não morreríamos de frio.
''Finalmente um chuveiro com água quente, obrigado Deus.'' Diz Harry gritando de dentro do banheiro.
''Mas como sou um cavalheiro, damas na frente.'' Diz ele saindo do banheiro, e segurando a porta para mim. Assim que entro de baixo do chuveiro, me sinto mais leve, como se eu estivesse livre. Após o banho, coloco um dos vestidos da minha mãe, e saio da banheiro, que logo é ocupado por Harry.
Diferentemente de mim, Harry não sai vestido de lá de dentro. O mesmo, está apenas com uma toalha em volta da cintura, com o corpo pingando algumas gotas de água, o que eu acho estranhamente adorável. Droga Harry, por que tem que ser tão bonito?
''A água estava uma delícia não acha?'' Pergunta ele com um sorrisinho malicioso.
''O que? Ah sim, o chuveiro quente, estava sim.'' Respondo um pouco desnorteada, desviando o olhar de Harry, tenho certeza que minha cara deve estar extremamente vermelha de tanta vergonha.
O mesmo coloca um calção e se senta na cama. Sei disso por que ele diz em tom que me da vontade de beijar e bater nele ao mesmo tempo:
''Senta aqui do meu lado Lena, já estou vestido, e prometo não fazer nada.''
Ignorando seu tom, me aproximo da cama e me sento ao seu lado.
''Sabe, desculpa não ter falado no início, mas esse vestido fica bem melhor em você do aquele cobertor que você usava na casa dos seus avós.'' Diz ele com um sorriso bobo na cara.
''Obrigada. Acho que um dia de liberdade me fez bem.'' Respondo sorrindo, e sinto Harry cada vez mais próximo de mim. Segurando meu cabelo com uma das mãos, e meu rosto com a outra, e ele praticamente sussurra para mim:
''Mas eu não consigo parar de imaginar você sem ele. Desde o dia em que nos beijamos pela primeira vez, me pergunto, como é você por de baixo desses panos. Sei que prometi não fazer nada, e não farei, e nem irei insistir se você dizer não, mas sinto que você me quer também.''
Diferentemente do que eu pensava, não estou assustada e muito menos envergonhada. Estou de novo com um frio gostoso na barriga, sensação que me impede de dizer qualquer coisa.
''Você deixa Lena? Deixa eu sentir você?'' Pergunta Harry dando leves beijos no meu rosto, e indo em direção ao meu pescoço. E eu incapaz de dizer qualquer coisa, apenas confirmo com a cabeça, pois sei que mesmo se tentasse, minha voz não sairia com clareza.
Harry volta seu olhar para mim, e me beija, dessa vez de um modo mais necessitado que nas outras vezes em que nos beijamos, dessa vez ele me guia com mais desejo, nossas línguas travam uma batalha interna, na qual ele me domina. O desejo fica maior quando sinto suas mãos explorando meu corpo, deixando uma na cintura, e outra na minha bunda, trazendo meu corpo para mais perto dele.
Por instinto, acabo sentando em seu colo, e sinto sua ereção encostando em mim, o que me deixa mais excitada, e começo a me movimentar sobre ele. Harry começa desfazer os laços nas costas do meu vestido com rapidez, deixando o mesmo deslizar por meu corpo, assim meu tronco fica nu, meus seios agora estão expostos para ele, mais firmes e sensíveis. Harry para de beijar a região do meu pescoço por um tempo e me olha, com seus olhos verdes mais dilatados que o normal.
''Porra, você é muito gostosa.'' Diz ele, elevando suas mãos para os meus peitos, apertando-os, e depois chupando e mordiscando com seus lábios. Arrancando de mim gemidos e aumento da minha temperatura corporal.
Harry se levanta da cama, comigo ainda em seu colo, e me coloca delicadamente no centro da cama. O mesmo se deita sobre mim, e começa beijando primeiro meus olhos, bochechas, depois lábios, e vai descendo em direção ao meus seios novamente, que já estão muito sensíveis. E Deus, essa a melhor sensação que eu já tive na vida. Ele continua descendo com seus beijos pelo meu corpo, até chegar a região em que o resto do vestido ainda se faz presente.
Sentado na cama, ele retira calmamente o resto do meu vestido, com os olhos presos aos meus ele retira minha calcinha, e me olha com devoção.
''Tão linda.'' Diz ele, deitando sobre mim novamente, colocando uma de suas pernas escandalosamente entre minhas pernas, tornando nossos corpos ainda mais colados. Harry, beija meus lábios, e direciona uma de suas mãos por meu corpo, chegando na região que nem eu mesma, nunca me atrevi a tocar.
''Nossa, você está tão molhada, porra.'' Diz ele gemendo, o que me deixa ainda mais desesperada por ele.
Passando seus dedos pela minha intimidade, sinto que fico com ela ainda mais úmida. O mesmo começa a esfregar um de seus dedos na região, fazendo com que eu arqueie minhas costas da cama e gemo mais freneticamente seu nome. ''Ai Harry, mais.''
Achei que não poderia melhorar, mas então ele começa a se abaixar pelo meu corpo, chegando com sua boca, onde seus dedos estavam. Inicialmente ele começou com beijos na minha barriga, separando minhas coxas com as suas mãos, para ter mais acesso a mim. E quando eu menos esperava sinto sua língua, juntamente com seus dedos, e a combinação é perfeita. Harry começa chupar uma região interna minha, e é uma delícia. Ainda não compreendi qual sensação é essa, e que lugar tão prazeroso é esse do meu corpo, que me deixa assim, mas meu corpo estava respondendo muito bem a ele, minhas pernas já estavam ficando moles, parecia que algo em mim iria explodir. Mas Harry não parou, sinto que ele introduz dois de seus dedos dentro de mim, causando um leve incômodo inicial, como se eu tivesse apertando seus dedos, e seus dedos tivessem me abrindo. Mas logo a sensação é substituída por prazer.
''Porra, você é uma delícia.'' Diz Harry levantando seu rosto rapidamente para dizer isso, mas logo em seguida volta a me chupar naquele lugarzinho, que estou literalmente amando.
E então o prazer me consome, sinto meu corpo relaxado e leve, como se tivesse me desligado de tudo em volta, e a única coisa que eu sentia era bem estar. Ainda com olhos fechados, sinto Harry se levantando e vindo em minha direção, sinto seu olhar preso no meu rosto, e algo me diz que ele está com um sorriso bobo na cara.
''Como você se sente?'' Pergunta ele carinhosamente, com o rosto próximo ao meu, e com uma das mãos tirando meu cabelo de meu rosto.
''Bem, um pouco cansada, mas muito bem.'' Digo suspirando. E o encaro, também com um sorriso no rosto.
''Fico feliz em saber.'' Diz ele se aproximando mais de mim, e me beijando calmamente.
''Obrigada Harry, nunca senti nada parecido como eu senti agora a pouco.''
''Eu quem agradeço, você é uma delícia.'' Diz ele me encarando com aquele olhar cafajeste, o que me deixa vermelha.
''Você adora me deixar sem graça de propósito não é mesmo?'' Pergunto de modo brincalhão.
''Sempre --responde ele rindo--, agora vamos dormir, temos que sair de madrugada, e você precisa descansar depois dessa tarde.'' Responde ele em um tom provocador.
No entanto, não tenho argumentos para discutir, porque na verdade ele está certo. Assim, ele se deita com o corpo grudado ao meu e nos cobre com a coberta, e rapidamente caímos no sono. Sei que amanhã será um dia cheio e tenso, mas por hora, só quero fingir que estou em uma cidadezinha do interior a passeio, com o cara que eu gosto em um hotel de beira de estrada.
Oii, como vocês estão?
Confesso que esse capítulo ficou um pouco extenso, mas estava com muito preguiça de editar de novo. Então espero que gostem, e comentem o que acharam, e por favor aproveitem esse leve suspiro de paz entre Elena e Harry, que as coisas estão prestes a mudar.
Bjsss e até semana que vem.
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