Capítulo Dois
David
Quando eu tinha treze anos e meu irmão cinco acreditávamos que toda lenda tinha um fundo de verdade e a lenda do bicho-papão era a única estória que me apavorava quando a noite chegava.
A história do demônio que andava pela casa, escondido, debaixo da cama, no canto da parede e sentado na cadeira observando enquanto fingíamos dormir, esperando a gente pegar no sono para nos devorar.
Muitas crianças conhecem essa lenda, mas sabem que isso não é real, porque seus pais os tranquilizam. Acariciando seus rostinhos e verificando dentro do armário, debaixo da cama e ainda ficam esperando seus filhos pegarem no sono, finalizando com um beijo de boa noite no topo da cabeça.
No meu caso, não posso me dar ao luxo de pensar dessa forma, esperar que meus pais venham me proteger, pois sei que o bicho-papão é real.
– Feche os olhos irmão e tudo vai ficar bem. – Digo sussurrando no ouvido do meu irmão mais novo, enquanto abraço ele contra mim.
Abraço meu irmão com toda força contra meu peito, tentando de alguma forma impedir que escute ou veja o demônio entrando no quarto, que mal escuto sua respiração irregular em meio ao choro abafado dele. Guilherme tem cinco anos e ele é tão pequeno que consigo abraçar praticamente todo seu corpo com um braço só.
Estamos trancados dentro do guarda-roupa escuro do meu quarto. Meu irmão treme, tentando esconder o choro entre minha blusa, já molhada das suas lágrimas.
Fecho meus olhos para evitar olhar pela brecha da porta ou escutar qualquer som vindo em nossa direção. Talvez assim posso fingir que isso tudo não é real.
Nossa respiração está tão curta, que fico até com dificuldade para respirar.
Não podemos fazer barulho, somente esperar que o demônio vá embora. Mas como ele vai embora, se ele mora dentro de casa?
– Silêncio, não chora, por favor! – sussurro mais baixo em seu ouvido, enquanto tento tapar sua boca com a minha mão.
Tum, Tum, Tum!
A porta do meu quarto se abre e a luz do corredor invade tudo.
– Ele está vindo, David – Começo a chorar também com a pegada forte dele se aproximando de onde estamos escondidos.
Abro meus olhos e a porta do guarda-roupa se abre com força e meu irmão é arrancado dos meus braços e jogado contra o armário do outro lado do quarto. Tento correr para socorrê-lo, dou dois passos para fora do guarda-roupa e vejo meu irmão deitado no chão duro do quarto, sem chorar ou gritar, ele não se mexe mais.
Meu pai me puxa pelos cabelos para trás dele, arrancando um punhado de cabelo quando caio com força no chão chorando.
Grito desesperadamente na intenção de que alguma pessoa possa ouvir meu pedido de socorro, gritos que venho tendo a cinco anos consecutivos sem descanso.
Preciso chegar até meu irmão antes dele, me arrastando no chão. Ele só tem cinco aninhos, não deveria passar por nada disso.
Tento me arrastar um pouco mais, chorando e pedindo para ele parar.
– Você é um merda e covarde David, como a vagabunda da sua mãe era.
Seu hálito está fedendo com o cheiro de cerveja e cachaça misturada.
Tento não olhá-lo e fico em silêncio encarando o chão, toda vez que ele grita dessa forma comigo. Aprendi a não falar nada nessa situação. Me encolho no chão e protejo minha cabeça com as mãos, para tentar evitar sentir tanta dor quando ele começar a me bater.
Não adianta, ele chuta minhas costas com a ponta do sapato fino. Me contorço para trás e grito de dor e ele chuta novamente e de novo.
– PAI PARA! POR FAVOR.
Me arrependo na mesma hora de tê-lo chamado de pai. Ele me levanta pelo meu braço esquerdo sem cuidado algum. Tento ficar em pé para tentar proteger meu irmão com meu corpo, mas minhas pernas estão se tremendo tanto que mesmo que ele me soltasse agora eu cairia no chão, sem forças para protegê-lo.
– Me solta. – Grito de dor em meio a sua risada doentia em ver minha dor.
Meu braço começa a formigar com a força que ele envolve meu braço em uma posição contrária. Consigo ficar na ponta dos pés na sua frente, chorando do seu olhar de ódio em me ver chorando.
Penso por um momento que ele vai me largar e ir embora, mas ao invés disso ele contorce meu braço em duas direções diferentes com suas mãos, quebrando meu osso no meio.
Escuto o osso se partindo e sinto a pele sendo rasgada pelo osso quebrado, não tenho mais força para gritar nem me mexer depois que a dor toma conta de mim.
Não consigo produzir nem um tipo de som em meio às ondas de choque que passa pelo meu corpo. A última cena que vejo antes de desmaiar no chão gelado do quarto, são os sapatos do demônio chutando meu irmão inconsciente no chão e meu braço estendido, tentando como último suspiro parar aquele monstro.
5 anos depois.
Fico sentado em uma rocha em frente ao mar, completamente molhado e olho o relógio no meu pulso, vendo o momento exato que dá cinco e meia da manhã. Não consegui dormir bem a noite passada com os pesadelos que não me deixam descansar, sempre os mesmos. O acidente de carro onde minha mãe faleceu quando o Guilherme havia completado um ano de nascimento, e a noite que o Ricardo me fez desmaiar de tanta dor, gritando por socorro, enquanto estendia minha mão em direção ao meu irmão inconsciente no chão.
Estava esperando ver o sol nascer como acontece toda madrugada, mas hoje o tempo resolveu ser de chuva e o sol não conseguiu se infiltrar em meio às nuvens pesadas. Minha casa não fica longe de onde estou. Toda madrugada costumo correr pela praia, onde o clima aqui na cidade de Jericoacoara é sempre sol, mas quando costuma chover é sempre com tempestades fortes.
A praia onde estou esta deserta como sempre fica essa hora da manhã e escuto de longe os trovões chegando para me receber. Decido ir correndo para casa primeiro para trocar de roupa e ir para o hotel, onde trabalho como garçom. Tiro a blusa molhada e coloco dentro da mochila, prendo meus calçados na parte da frente, dando dois nós firmes na alça.
Desço da rocha e começo a correr pela praia deserta com a areia fria e firme tocando meus pés descalços, sentindo a força da chuva tocando meu corpo, junto com o cheio salgada da maresia do mar.
Tento não pensar em nada e em tudo ao mesmo tempo, enquanto corro, mas tenho medo do que possa surgir dos meus pensamentos.
Novamente a imagem do meu irmão indo embora me faz tremer. Foi muito difícil deixar ele ir com Ricardo toda vez que ele precisa viajar a trabalho, deveria ter lutado mais por ele ou simplesmente já ter desistido. Agora mesmo consigo ver a cena nitidamente na minha cabeça. Ricardo levando Guilherme para outro estado, devido ao seu trabalho que vem sendo prestigiado por várias revistas e sites famosos de arquitetura em São Paulo.
Às vezes penso que teria sido melhor se eu não tivesse nascido, mas esse pensamento me machuca, simplesmente pelo simples fato deu amar demais meu irmão. Fico tão puto com tudo isso que acabo perdendo a cabeça e indo parar dentro dos meus pensamentos mais obscuros novamente.
Tenho a mania de guardar tudo para mim e quando me dou conta já é tarde demais para fazer qualquer coisa e acabo chegando na conclusão que o meu silêncio é meu grito mais alto, porém não consigo usá-lo. Assim como um leão precisa achar seu rugido interior para afastar suas presas e dizer para todos quem é o verdadeiro rei do lugar.
Guilherme é tudo para mim, ele é meu porto, minha âncora. Sem ele sou somente uma concha vazia, como essas que o mar coloca para fora e esmago entre meus dedos dos pés à medida que corro.
Continuo correndo com meus pensamentos a mil e quase atropelo uma pessoa encostada contra umas rochas que serve para conter o avanço do mar. Ela está toda encolhida entre duas rochas, segurando as pernas com os braços e a cabeça baixa. Paro de correr perto dela e escuto em meio a chuva seus soluços baixos e vejo uma garota da minha idade.
O som alto de uma festa acontecendo na casa mais próxima me alcança em meio a chuva forte e a maresia avançando contra as rochas. Por experiência própria sei que as festa aqui em Jeri nunca acaba, então imagino que aquela festa estava acontecendo durante alguns dias, sucessivamente. Dá para perceber por meio do lixo que começa a ser formado pelos hóspedes.
Chego perto da garota e ela treme muito, abraçando o próprio corpo.
– Tá tudo bem, moça? – Tento me aproximar dela devagar. Ela me olha e se assusta, olhando rapidamente para a casa onde está acontecendo a festa em busca da ajuda dos amigos.
– Está tudo bem, sim. Estou esperando meus amigos. – Sei que ela está mentindo, observo pela sua postura rígida e o medo em seu olhar. Seu medo de ser abordada por um estranho a essa hora da manhã.
– Então espero que seu amigo chegue logo ou você vai acabar ficando doente, sozinha na chuva. – Aceno com a mão em despedida e ela fala, me surpreendendo.
– Você está sozinho na chuva também
– Então temos isso em comum. – Sorriu
– O que mais a gente tem em comum? – Ela me olha intensamente e reparo que ela sofre da mesma coisa que eu. Sento na sua frente em meio a chuva forte e falo.
– Bem, acredito que seja tentar ter controle sobre as coisas que não conseguimos ter ou fazer, e isso acaba nos afetando bem mais do que gostaríamos. Acertei? – Levanto e ofereço minha mão para ela. Ela levanta devagar da areia molhada sem minha ajuda e fica me encarando por um momento.
Ela é uma menina muito bonita, pele morena e o cabelo escuro como o mar noturno, caindo pelo seu rosto, ressaltando seus olhos incríveis e belos.
– Quem te magoou dessa forma é uma completa idiota. – Ela diz, me observando de volta.
– Pode acreditar, é bem mais complexo que isso. A propósito sou David. – Estendo minha mão para ela e ela retribui dessa vez.
– Mari.
– Estou indo em direção aos seus amigos, posso te acompanhar até lá, se quiser? – Aponto o local da festa, que está um pouco mais adiante.
– Não sei se estou muito a fim de ficar com eles nesse momento.
– Bom, então aproveita essa viagem, aqui realmente é um paraíso. Tem lugares incríveis para conhecer e explorar. – Lembro que preciso chegar cedo no hotel hoje. As férias começaram e o hotel sempre fica lotado, com os turistas chegando de outras cidades, estados e Países. – Preciso chegar no hotel cedo. Então... – Gesticulo na direção que preciso ir.
– Você está hospedado em qual hotel? – Ela pergunta ainda observando dos pés à minha cabeça.
Começamos a caminhar pela praia, ambos completamente molhados. Seguro o regulador das alças da mochila e rio de sua reação quando digo.
– Não sou hóspede de nem um hotel, na verdade, trabalho em um. – Ela me olha de canto e reformula sua pergunta.
– Qual o nome do hotel onde você trabalha então?
– Blue House, bem americano. – Paro em frente à casa grande, onde o som da festa dificulta qualquer conversa. – Chegamos.
Aponto para a cerca baixa que separa a propriedade da costa da praia. Algumas pessoas próximas começam a gritar chamando-a, levantando copos de bebidas e gritando seu nome.
– Qual a chance de você entrar comigo, uma pessoa completamente estranha, que você conheceu correndo de madrugada sozinho pela praia?
Ela pergunta se aproximando de mim, dando um passo de cada vez, enquanto desliza os dedos pelo meu abdômen. Tento tirar um pouco o cabelo molhado do rosto e falo.
– Desculpa, preciso mesmo ir. – Aponto para a próxima rua que dá acesso à rua principal de Jeri, onde tenho certeza que os turistas devem estar passeando por ela, mesmo debaixo dessa chuva.
– Então nesse caso, tchau. – Ela me abraça e me dá um leve beijo de despedida – Obrigada, pela companhia. – Ela se junta com uns amigos que começam a gritar algo que não entendo.
Chego na rua principal de Jeri e logo escuto a música alta dos estabelecimentos que começam a abrir para receber os turistas eufóricos em conhecer tudo. Caminho um pouco entre os turistas que começam a aparecer em todo lugar, como um formigueiro, quando mexemos e todos saem para tentar proteger o lar da rainha.
Não tem como contestar, realmente aqui é o paraíso! Nunca presenciei um lugar tão estonteante como esse, onde em muitas das vezes acabo me sentindo fora do Brasil com todas essas estruturas complexas e cores vibrantes de cada estabelecimento, com a cultura pulsante do Brasil espalhada em cada detalhe dos estabelecimentos, cada um com seu estilo próprio.
Estou tentando fazer isso, aproveitar o momento, mas como posso realizar isso sentindo um peso enorme nas minhas costas. Retirando a todo momento todo ar que tenta entrar em meus pulmões ávidos por liberdade, me levando para um buraco escuro e sem esperança que algo de bom possa surgir como um brilho de esperança no fim do túnel escuro. Estou tentando ser forte e ajudar quem precisar de mim, mas tentar ser forte sempre não é ser forte, é somente mentir para si mesmo e estou cansado de mentiras.
Passo direto pela rua principal da cidade e dos turistas e continuo correndo pela praia. Chego na porta de casa e olho para o céu e deixo a chuva trazer algum tipo de benção para mim, enquanto peço forças para aguentar mais um dia, somente mais um dia.
Destranco a porta e observo o vazio novamente, me esperando, me convidando a entrar.
Queria que meu irmão ainda estivesse aqui. Sinto falta do seu sorriso, perdido a anos, sinto falta do seu abraço carinhoso e inocente, que também se foi.
Respiro fundo entrando em casa, me preparando para mais um dia.
Fecho a porta atrás de mim.
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