Capítulo Cinco
David
Meu turno no hotel hoje começou cedo. Geralmente sou escalado para trabalhar durante a noite e sinceramente prefiro o horário noturno, tudo para não ter que voltar para casa.
Coloco meus fones de ouvido e começo a limpar as mesas para o café da manhã dos hóspedes.
O restaurante, Ecos do Mar, fica do lado do hotel onde trabalho, disponibilizando um espaço reservado entre os dois estabelecimentos para que os hóspedes possam ter acesso ao café da manhã e almoço. Um acordo feito entre os donos.
A vista fica de frente para o mar, coberta por um pergolado de madeira, envolto por trepadeiras, que brotam muitas flores de várias tonalidades por todo canto. O único problema com essa parte é que faz muita sujeira, então toda manhã a pessoa escalada para servir as mesas precisa fazer toda a limpeza do local, especialmente limpar as folhas e flores que caem na areia.
Termino a limpeza e desligo o celular, guardando meu fone no bolso. Começo a me preparar para receber os hóspedes que começam a chegar com sua sede em explorar a cidade e ser atendido o mais rápido possível aumenta a chance disso acontecer. Em instantes o local começa a encher de gente com fome e com pressa em ser atendido.
Em Jeri a pressa é justificável, pois cada tempo que se perde, como, por exemplo: tomar o café da manhã, pode ser um ponto turístico que você pode está deixando de conhecer.
Meu atendimento precisa ser rápido e acolhedor, nunca transparecer cansaço, estresse ou raiva. Tenho que andar com um sorriso no rosto e ser simpático, o que não é problema para mim. Foi treinado minha vida inteira em tampar a tristeza com um sorriso no rosto.
Volto para a cozinha que está trabalhando a todo vapor, com as comandas quase acabando em cima da bancada e entrego meu último pedido para Gustavo, o cozinheiro que faz as melhores bebidas de toda cidade.
– Terminou? – Ele pergunta, me entrega dois pratos de tapioca com queijo coalho por cima e carne seca temperada com tomate, acompanhada de duas bebidas de melancia com limão.
– Meu último pedido de hoje. – Digo, pegando o pedido da mesa sete e colocando na bandeja. – Depois estou livre até o horário de almoço.
Meu turno da manhã termina e volto para guardar minhas coisas nos armários dos funcionários. Encerro meu turno da manhã, agora só volto na hora do almoço para começar todo o serviço novamente, de limpeza e atendimento.
Moro próximo do hotel, coisa de meia hora andando pela avenida principal, então decido voltar para casa a pé.
Meu celular começa a vibrar com mensagens de áudio que começam a chegar. Vejo o nome do Guilherme no topo da tela e logo abro. Toda vez que ele manda qualquer mensagem de áudio ou quando deixa de mandar também, sinto um leve pânico, com medo que algo possa ter acontecido com ele, principalmente estando tão longe de mim.
Guilherme: Irmão, estou indo para casa com o papai.
Davis: Aconteceu alguma coisa?
Guilherme: O pai terminou o projeto hoje e disse que pretende voltar mais cedo. Disse que quer passar as férias em casa, porque tem umas coisas para resolver na cidade.
Guilherme tem dez anos agora e ainda não sabe escrever direito e nem ler, então nos comunicamos por áudio.
Escutar a vozinha dele me faz voltar no tempo e por um momento vejo os vizinhos entrando em casa e Ricardo (o homem que diz ser nosso pai) pedindo socorro para as pessoas que entram assustadas pela porta aberta, querendo saber o que está acontecendo. Elas ficam horrorizadas vendo aquela cena na sala de estar. Guilherme chorando no braço do Ricardo e meu corpo estendido no chão com uma fratura a mostrar no braço direito, desmaiado, enquanto Ricardo grita pedindo socorro, alegando que seu filho havia caído e quebrado o braço e ele não podia dirigir por estar muito bêbado.
Ninguém nunca estranhou nada de errado, até porque fazia pouco tempo que ele descobriu que foi traído e perdeu a mulher no acidente de carro. Descontar a dor na bebida era o de menos para os vizinhos.
Guilherme não fala nada como é morar sozinho com o Ricardo longe de mim. Só comenta que queria voltar a morar comigo, mas não pode.
Toda vez que escuto isso me sinto um merda por não conseguir lutar mais por ele e me sinto ainda pior por sentir medo diariamente que aquele homem volte para destruir o resto que chamo de vida. Esses sentimentos costumam vir com algumas noites sem conseguir dormir, acompanhada de falta de ar por não poder me livrar dessa situação. Sentindo alguém me sufocando, apertando com força minha garganta e torcendo meu peito, quando penso nele sofrendo longe de mim.
Sento em um banco na rua principal da cidade e mando outro áudio para ele.
David: Você está bem?
Guilherme: Estou, só quero voltar logo para casa. Quero ver você.
David: Tudo bem, Gui, você vai voltar e eu estou com muita saudade de você também.
Nossa, como eu queria que minha vida mudasse e fosse um pouco como esses turistas que passeiam na minha frente. Ter como preocupação escolher o que deve fazer: tomar o café da manhã ou conhecer um ponto da cidade? Ou qual local devemos conhecer depois do almoço?
Quando era mais novo tinha costume de me imaginar vivendo a vida de outra pessoa, como tudo seria mais fácil se fosse assim. Mas não posso me dar ao luxo de imaginar isso por muito tempo.
Vejo tantos filmes com essas reviravoltas na vida dos protagonistas que fico imaginando se vou chegar a conhecer minha reviravolta.
Pena que a realidade seja tão cruel.
Meu coração começa a acelerar só em pensar nele voltando para casa e tendo que mostrar que nada mudou na sua ausência. Só pode existir um rei naquela moradia e como ele insiste em não me deixar esquecer, nunca serei eu a sentar naquele trono.
Preciso de mais turnos no hotel, antes que eles cheguem. Somente assim posso focar no trabalho e evitar voltar para casa, nesse período de visita dele.
Desisto de ir para casa e volto para o hotel, entro na sala da Sr. Ligia, dono do estabelecimento. Uma mulher extremamente empreendedora e acolhedora, uma mistura perfeita para ser chefe.
Ela aceitou me contratar depois de muita insistência da minha parte. Tenho certeza que durante esses três anos que trabalho para ela, Ligia saiba do que vinha aturando em casa e do quanto precisava de ajuda para sair de lá. Ligia já tentou falar comigo algumas vezes sobre o que estava acontecendo, com medo acabei explicando que estava tudo bem. Precisava muito de um emprego naquela época. Mesmo que eu desejasse muito que aquele homem fosse preso pelo que fez e provavelmente ainda faça com o Gui longe de mim, não posso deixar meu irmão parar em um orfanato, então decidimos não contar nada para ninguém.
Ligia aponta para a cadeira livre em frente à sua mesa grande de madeira escura. Sento e espero ela terminar a ligação.
– Desculpa atrapalhar.
– Não tem problema algum, pode dizer. – Ela fala cruzando as pernas e se ajeitando na cadeira
– Quero pedir o turno noturno durante essa semana ou, se possível, posso trabalhar os três turnos, caso for preciso mais funcionários para trabalhar nessas férias. – Digo rápido, gesticulando muito com as mãos de tanto nervosismo dela negar meu pedido.
Ligia levanta e se senta na cadeira do meu lado, me olhando nos olhos.
– Seu pai está voltando para a cidade novamente? – Respiro fundo e respondo.
– Está sim. – Digo apenas e olho para outro lugar, me interessando pela vista de sua janela.
– David, como você já sabe, as férias começaram, então esses dias vamos ter muitos hóspedes chegando. Irei precisar de toda ajuda possível. Faça seu horário e me entregue no final do mês seus pontos. Podemos fechar assim?
Seu celular começa a tocar novamente. Ela levanta e vai para perto de sua mesa, atendendo. Respiro de alívio por ela autorizar, prefiro passar o dia inteiro trabalhando do que ter que ficar inventando desculpas para não vê-lo.
Agradeço com um gesto de mão.
– Obrigado Ligia. – Levanto e abro a porta quando ela me chama de volta, pedindo um minuto à pessoa no telefone.
– Quero te pedir um favor especial, David. – Aceno com a cabeça em concordância. – Você poderia me ajudar em uma coisa?
– Claro, no que precisar.
– Queria saber se você poderia ser o guia turístico de três pessoas que vão chegar hoje? Eles ficarão hospedados por cinco dias aqui e como você é um dos meus melhores funcionários e conhece tudo da cidade, pensei em você como guia.
– Tudo bem, sem problemas. Vai ser um prazer. – Digo.
– Se por acaso precisar, vou deixar um quarto livre para você. Pode trazer seu irmão também, não terá problema algum ter ele correndo pelos corredores. – Ligia diz sorrindo.
– Obrigado!
Encosto na porta, segurando a maçaneta com força entre meus dedos. Sempre sentir vontade de abraçá-la e agradecer por cuidar tão bem de mim e escutar que vai deixar um quarto disponível, sem precisar que eu explique o motivo de não querer voltar para casa, me faz ficar encarrando a porta de madeira da sua sala, segurando na maçaneta para evitar abraçá-la.
Faço a única coisa que sempre consigo fazer, sem acabar surtando de vez, respiro fundo e agradeço.
– Obrigado, mesmo.
-xxx-
Termino de comer meu jantar em um barzinho na rua principal de Jeri, observando os turistas andarem de um canto para o outro e apontando para todo lugar.
Olho o horário no meu celular e vejo que são sete e meia da noite. Verifico se chegou alguma mensagem do Guilherme e desligo. Pago a conta e levanto para iniciar meu trabalho noturno no hotel.
As ruas de Jeri nunca descansam, a energia que circula pela cidade é sempre renovada diariamente pelas novas pessoas que vêm nos visitar. Tudo é tão contagiante e único que fico feliz por ter nascido nesse lugar. Ando por esse lugar todo santo dia e não canso de enaltecer a beleza que esse lugar tem, onde a cada dia a cidade se renova com a chegada de novos turistas, com sua alegria contagiante.
No centro da rua principal existe uma praça pequena com uma canoa em cima de um altar, onde várias pessoas tiram fotos em várias posições diferentes com a vela da canoa balançando ao vento escrito "I LOVE JERI" e um coração no canto. Passo por um casal de idosos que falam comigo em uma língua que não entendo. Eles apontam para a canoa e mostram o celular tirando uma fotografia. Tento avisar que posso, sim, tirar uma foto deles.
O senhor me entrega seu celular, posiciono a câmera em um ângulo que pegue a canoa toda com a vela grande escrita "I LOVE JERI" em negrito com um coração embaixo vermelho brilhante e o casal de idosos sorrindo. Bato algumas fotos deles sentados, se beijando e apontando para a vela. Entrego para eles o celular. A senhora fala alguma coisa que entendo como agradecimento pelas fotos. Sorriu para eles, "dizendo de nada" na minha língua.
Continuo minha caminhada até o hotel.
Ligia não brincou, a recepção do hotel está lotada, vejo toda a equipe trabalhando, andando de lado para o outro, sem descanso, ajudando como pode.
Lucas passa por mim fazendo um gesto limpando o suor da testa, enquanto empurra um carrinho lotado de malas quase transbordando para fora de tão cheia que está dos novos hóspedes. Não tenho tempo de falar nada e ele some no elevador dos funcionários.
– Vamos lá né, turno noturno. – Digo para mim mesmo.
Termino meu expediente quando da meia-noite e vinte e dois.
Entro no quarto que Ligia deixou reservado para mim e começou a tirar a roupa de serviço. Sento na cama e como previsto não estou com sono.
O quarto onde fico não é espaçoso, mas também não é tão pequeno. Estou tão cansado que queria somente que esse dia terminasse, quero tanto deitar e dormir um pouco e descansar desse dia corrigindo, mas não consigo.
Começo a sentir uma pressão no peito e logo tento relaxar minha mente. Preciso relaxar, não posso ficar trancado aqui dentro, se não meus pensamentos vão acabar me sufocando.
Minha mente, corpo e energia estão esgotados, meus pés doem de tanto andar e meus braços estão duros e pesados de tanto carregar malas para cima e para baixo pelos corredores do hotel. Estou tão cansado e, ao mesmo tempo, não consigo me deixar relaxar, isso é torturante. Parece que tenho que me punir de alguma forma por não conseguir relaxar.
Saiu do quarto e encontro Lucas encostando na porta dos fundos, destinados somente aos funcionários, onde fica às cabines para troca de roupa, nossa cozinha e também um pequeno espaço, dando acesso aos três quartos para funcionários que ficam de plantão.
Encosto do outro lado da porta aberta e olho a rua movimentada com Lucas.
– Vai dormir em serviço hoje? – Lucas me pergunta.
Trabalhamos juntos há um ano e às vezes, como hoje, eu o ajudo com a entrega das malas aos quartos dos hóspedes. Não temos tempo para conversar durante o serviço, mas quando trabalhamos no turno noturno, sempre conversamos nessa hora da noite, depois de tudo entregue e finalizado.
– Vou, só não estou conseguindo dormir e você?
– Também não. – Ele tira o celular do bolso e olha a mensagem que chegou. Respondendo rapidamente. – Está acontecendo uma festa agora na parte norte, na casa de um gringo que chegou. Topa ir? Todos vamos nos encontrar lá.
Ouvi falar dessa festa que alguns de nós funcionários marcaram de se encontrar, mas não estou no clima de festa. Estou tão cansado e preciso trabalhar amanhã cedo.
– Não posso, vou trabalhar amanhã de manhã, preciso só relaxar um pouco para tentar dormir. Hoje foi bem puxado o dia.
Minto, porque estou com um passe livre para fazer meu próprio turno, posso ir nessa festa e chegar a hora que quiser, porém, não quero. Não quero desapontar a Ligia.
– Eu sei bem do que você precisa. – Ele tira do bolso um cartão de acesso aos quartos preto. – Quarto 4C e não faça bagunça ou barulho, esse quarto é responsabilidade minha.
Ele me entrega o cartão e entra dentro do vestiário masculino, falando para entregar o cartão a ele amanhã de tarde.
Sei muito bem de que quarto ele está falando.
Volto para meu quarto e troco a roupa de trabalho por bermuda de banho e uma camiseta simples, coloco uma toalha limpa no ombro. Vou para o elevador dos funcionários no fim do corredor sem ninguém me ver. Ando devagar pelo corredor dos quartos vips e libero o acesso de Lucas ao quarto 4C. Entro fechando a porta com cuidado, evitando fazer barulho.
Ando no escuro até a suíte principal ainda sem acender a luz. Abro as duas portas de correr e deixo a luz da lua cheia iluminar todo o quarto escuro.
Ligo o aquecedor da piscina de borda infinita dentro do quarto e espero um pouco, até a água começar a aquecer.
Entro na piscina aquecida e meu corpo relaxa na mesma hora.
O barulho vindo da cidade funcionando a mil bloqueia todos os pensamentos ruins que se passam na minha mente, me tranquilizando aos poucos.
Coloco os dois braços na borda de vidro da piscina e fico olhando para o mar silencioso na minha frente. Acabo me perdendo no barulho das ondas calmas e nas risadas dos turistas comemorando qualquer coisa a distância, e por um momento penso que tudo está bem, até alguém aparecer atrás de mim apontando uma faca para minhas costas.
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