Quinze.

Camila

Ontem à noite, cinco minutos depois que eu e Lauren conversamos sobre a minha necessidade de ter uma nova conversa com Connor, meu celular voltou a pular e a vibrar novamente. Desliguei o aparelho. Um sorriso de satisfação tomou conta do rosto de Lauren e ela se juntou a mim, dando um passo além e desligando da tomada o telefone da minha casa, após desligar seu próprio celular. Não que alguém me ligue no telefone fixo... Eu nem sei por que ainda tenho essa coisa, mas Connor com certeza tentaria uma nova forma de contato após algumas horas caindo na caixa postal do meu celular.

Já estamos juntas há quase dois dias e passamos metade do tempo explorando o corpo uma da outra. Toda vez que começávamos, a mesma paixão que nos consumia só parava quando a exaustão nos atingia, com as duas saciadas e caindo num sono abençoado. Na noite passada, após termos pedido comida chinesa, nos deitamos entrelaçadas por horas e assistimos filmes antigos, comendo a refeição uma da outra. De uma maneira esquisita, isso me pareceu natural, confortável e inexplicavelmente certo.

Depois de desligar a TV em algum momento após as duas da manhã, ficamos conversando até o sol nascer. Quanto mais conheço Lauren Jauregui, mais descubro que gosto dela. Ela é inteligente, atenciosa e tem boas maneiras. Bom, boas maneiras do tipo que abre a porta para mim ou puxa a cadeira para eu sentar. Definitivamente, essa mulher se transforma quando a porta do quarto fecha. O por favor se transforma em "Mantenha as mãos onde eu as coloquei" e o obrigado vira "De joelhos agora". Não há nada mais sexy do que uma mulher bem-educada quando está vestida, mas que seja um pouco das cavernas dentro do quarto. Infelizmente, tudo o que tive como comparação até agora foi apenas o estilo homem das cavernas. O tipo que não trata uma mulher como uma dama nunca.

Dois dias seguidos de cochilos e longos períodos no quarto quando nem é noite fizeram meu relógio interno ficar desordenado. Não faço ideia de que horas são quando acordo. Tento me desprender discretamente do abraço de Lauren enquanto ainda dorme, mas ela está com um dos braços segurando fortemente a minha cintura e começa a acordar quando eu gentilmente retiro seus dedos, um a um. Decididamente, é quase impossível sair sem acordá-la. Tento me espreguiçar ainda em seus braços, buscando alcançar meu celular na cabeceira próxima. Demora umas duas tentativas e tenho que usar a ponta dos dedos, mas consigo girar o telefone na minha direção aos poucos, até que finalmente fica ao meu alcance.

Religo meu iPhone e não fico surpresa quando o relógio mostra que é quase meio-dia, mas fico surpresa com a quantidade de mensagens de voz e de texto. Sabendo que Connor ficaria transtornado por não ter conseguido falar comigo, esperava uma dúzia de mensagens raivosas. Mas é mais do que isso... Minha caixa de mensagem de voz está completamente lotada e há sessenta e duas novas mensagens de texto. Mais de cinquenta são do Connor, e meia dúzia do Shawn. Começo com as do Shawn. Desço o cursor e leio a mais antiga de todas.

Lindo banho na fonte. NY Post - Página 6.
Fico feliz que o animal esteja viajando 
ou ele perderia a cabeça com certeza.

Duas horas depois:

O Animal mandou mensagem para o
meu correio de voz. Não sei como
conseguiu meu número. Parece com raiva.
Será que ele viu a foto?

Dez minutos depois:

O Animal está voltando para casa hoje.
Vai perder a cabeça com certeza.

Cinco horas depois:

O Animal me ligou cinco vezes hoje. Ele
está puto. E viu a foto.

E dez minutos depois:

Onde você está? Por que não me
responde? Me liga.

Uma hora atrás:

Acabei de ver seu banho na TV. Uh oh.

Merda. Merda. Merda.

Ligo para Shawn e tento sussurrar, mas estou em pânico.

— Sério? Estou tentando falar contigo há quase dois dias. Estou indo aí agora. Você espera até eu estar a uns três quarteirões de distância para me ligar? É melhor estar me ligando para dizer que está morta — Shawn dispara antes mesmo de eu ter a chance de dizer "Alô".

— Desculpe. Desliguei meus telefones. Eu estava com a Lauren.

— Então, você não falou com o Connor?

— Não.

— Você já viu a foto?

— Não tenho nem certeza do que você está falando. Que foto?

— De você. E da Lauren. Na fonte. Aliás, é a Bethesda? Aquela coisa é nojenta. Você provavelmente está agora com a doença dos legionários.

— Uma foto da gente na fonte? — Eu me viro para Lauren. Seus olhos estão abertos agora; minha conversa definitivamente chamou sua atenção. Ela estreita os olhos, me perguntando silenciosamente do que estou falando.

— Você parece a Natalie Portman numa versão ruim do Cisne Preto.

Cisne Negro. E é a Natalie Portman em um comercial de perfume da Dior que está em uma fonte, e não no filme. — Não faço a menor ideia de por que sinto a necessidade de corrigi-lo.

— Tanto faz. O Sr. Dior vai bater na sua porta daqui a um minuto. Vocês ficam ótimas juntas. É apenas uma imagem, mas consigo visualizar você passando a mão por todo o corpo musculoso dela. Garota de sorte.

— Shawn. — Eu me sento. — Quem tirou a foto?

— Como eu vou saber? Um paparazzo, acho.

— O que estamos fazendo na fonte?

— A Lauren está te levantando no ar e a água da fonte está caindo na sua cabeça. Você está olhando para baixo e ela está olhando para cima. Os rostos de vocês talvez estejam a centímetros de distância... mas vocês duas estão sorridentes.

— Merda.

— Poderia ser pior.

— E como isso poderia ser pior?

— Você poderia estar feia. Mas você está linda. É uma foto ótima.

— Maravilha.

— Alguém está de mau humor. Sua cavaleira de armadura brilhante a manteve acordada a noite inteira? Percebeu o que eu fiz? O trocadilho foi intencional.

— Shawn! — eu o repreendo. Ele perdeu muito o foco de para onde quero que essa conversa se encaminhe.

— Ai, meu Deus, ela a deixou acordada! Estou a dois quarteirões de distância. Me conta os detalhes antes de eu chegar aí.

— Shawn!

— Que foi? Nossa, você é chata.

— O que o Connor falou?

— Ah. Isso. — Ele soa desanimado. — Ele está meio que pirando. Viu a foto no noticiário.

— Você sabe quando ele volta?

— Hoje à noite.

Fecho os olhos. Lidar com Connor será um desastre. Ele fica com ciúmes quando um desconhecido olha de forma diferente para mim. Não quero nem pensar em como ele ficará por ter visto minha foto Lauren no jornal.

— Ok, tenho que ir. Preciso estar no trabalho em duas horas.

— Chego aí em cinco minutos.

— Não.

— Por que não? — Shawn soa descaradamente insultado.

— Porque... — Hesito. — Preciso conversar com a Lauren.

— A gente pode ir visitá-la juntos. Daí, você me conta tudo no caminho.

— A Lauren está aqui. Te ligo mais tarde, ok?

Shawn dá um gritinho tão alto que afasto o celular da orelha. Lauren sorri com gosto e balança a cabeça, em seguida, retira o telefone da minha mão. Ouço apenas um lado da conversa.

— Shawn? — Lauren para e ouve antes de responder. — Você sabe quando ele chega? É. Eu também não confio nele. Não vou perdê-la de vista. Está bem. Até mais tarde.

Ela aperta um botão e me entrega o celular de volta.

— Parece que vamos ter que ter aquela conversa com o Connor mais cedo do que pensávamos.

— Lauren, você não o conhece. Ele não é uma pessoa lógica.

Lauren dá de ombros.

— É por isso que não vou perdê-la de vista até termos conversado com ele.

— Talvez ele não saiba que era você na foto. — Estou me agarrando a qualquer possibilidade.

— E daí? Eu conto pra ele.

Meus olhos se arregalam.

— Por que você faria isso?

Lauren se levanta e coloca a calça de moletom calmamente.

— Porque eu não vou fugir dele. O que temos não é uma coisa de uma só noite para mim, Camila.

— Ele vai pirar, Lauren.

Lauren se inclina até seu rosto ficar na altura do meu.

— Não se preocupe. — É mais um aviso do que uma sugestão. Em seguida, ela me beija ternamente nos lábios. — Vou fazer o café. Surte por cinco minutos, se quiser. Depois, me encontre no chuveiro.

Lauren se encaminha para a cozinha e faço exatamente o que ela falou. Fico sentada, entrando em pânico por cinco minutos até ela retornar com duas canecas de café fumegante para a gente.

— Já acabou?

Tomo um gole. Está exatamente como eu gosto. Por um segundo, me sinto melhor.

— Acabei o quê?

— De entrar em pânico.

— Na verdade, não? — respondo com uma pergunta em vez de uma afirmação.

Ela toma outro grande gole do café e coloca a caneca na mesinha de cabeceira.

— Beba outro gole — ela ordena antes de retirar a caneca das minhas mãos e a colocar ao lado da dela. Em seguida, me pega nos braços e o lençol que me cobre cai, revelando meu corpo nu.

— O que você vai fazer? — pergunto, sem de fato me importar com o que ela vai fazer agora que estou no calor de seus braços.

— Tomar banho.

***

A imprensa do lado de fora da academia quadruplicou da noite para o dia. Lauren envolve o braço na minha cintura e faz o possível para me proteger dos cliques das câmeras. Não faço ideia de que horas Connor vai aparecer na academia, mas fico feliz por ele não estar lá quando chegamos.

Vou para trás da mesa da recepção e me instalo. Lauren fica parada, observando-me mexer nervosamente nas coisas.

— Você vai ficar bem?

— Vou — minto, tentando ao máximo desviar os olhos, pegando uma pilha de cartas que chegaram. Mas Lauren apenas espera, calmamente. Ela fica parada ali, parecendo destemida com o fato de que em breve isso tudo aqui ficará um caos total, um verdadeiro inferno. Ela aguarda até que meus olhos encontram os dela e fico imóvel enquanto ela fala:

— Vai ficar tudo bem. Ele não vai ter a oportunidade de levantar a voz, muito menos de encostar um dedo em você. Eu prometo. Confie em mim. — Ela para, seus olhos sondando os meus. — Deixe que eu cuido disso, ok?

Inacreditavelmente, eu acredito nela. De alguma forma, sei que tudo vai ficar bem, desde que ela esteja perto de mim. Sorrio. É um sorriso fraco, mas genuíno, e conquista um sorriso cheio de covinhas da Lauren. Jesus! Mesmo estando preocupada e cansada após dois dias marcantes de escapadas sexuais com esta mulher, meu desejo não se reprime quando ela joga charme.

— Vá! — Aponto na direção da academia, dando-lhe uma ordem. — Você me distrai terrivelmente. Não tem ninguém para bater ou algo de magnata para fazer?

As sobrancelhas de Lauren se levantam em surpresa, mas ela ri e vai embora, balançando a cabeça, divertindo-se.

A tarde voa. Sem mim e Ray aqui por um dia e meio, acabo levando horas para dar conta de todos os e-mails, correspondências, telefonemas e conseguir montar os horários da semana seguinte. De vez em quando, olho para cima, e meus olhos vasculham a sala à procura de Lauren. Em todas as vezes ela já estava olhando para mim quando meus olhos encontram os dela. Acho que Lauren deve estar em um nível mais alto de alerta do que eu. Percebi que ela ficou em um lugar estratégico para treinar e lutar esta tarde, de modo a ficar de olho em mim. Isso foi muito gentil da parte dela, muito diferente da forma como Connor mantém os olhos em mim. Com Connor, nunca foi de forma protetora ou acolhedora, mas sim possessiva, territorial. E não a forma sexy de ser possessiva que eu vi em Lauren. A possessividade dela tem a ver comigo. A do Connor tem a ver com ele.

Às oito da noite, uma hora antes de fechar, meus nervos já estão me controlando totalmente e quase pulo toda vez que a porta abre. O chacoalhar dos sinos me treina como o mestre filósofo do reflexo condicionado, Pavlov, a prender a respiração de alguma forma enquanto aguardo a pessoa entrar. Tento rascunhar, mas a criatividade não se mistura bem com cansaço ou ansiedade.

Lauren vem à recepção. Ela instalou um escritório improvisado no canto da pequena cozinha e eu a flagrei mais de uma vez passando os dedos pelo cabelo, parecendo estressada.

— Você está bem? Parece estressada. — É a minha vez de sondá-la.

— Estou, apenas alguns incêndios no trabalho que tenho que apagar.

— Hum... — provoco. — Eu gosto de bombeiros.

Lauren apoia um cotovelo no balcão, nivelando nossos rostos.

— Mais do que de magnatas? — ela pergunta com desafio e flerte na voz.

Estou prestes a responder quando os sinos me interrompem, trazendo-me de volta à desgraça iminente que estou encarando. Lauren não parece nem um pouco afetada e sequer se mexe com o som da porta abrindo. Deixo escapar um suspiro de alívio quando vejo que é apenas um cliente noturno. O sujeito acena e vai direto para a academia.

— Você realmente tem medo dele, não é? — Lauren pensa alto.

— Honestamente, não acho que ele possa me machucar. Não fisicamente. Mas há um lado dele que me assusta um pouco. Não enxerguei no início... e isso é uma outra conversa. Um dia, talvez. Mas há algo que se esconde nele logo abaixo da superfície que tenho medo de ver escapar.

Lauren passa gentilmente os nós dos dedos em minha bochecha. Meus olhos fecham com o seu contato. Deus, eu amo até a simplicidade dos toques dela! Cada um diz tanto sobre ela!

— Não sei se consigo ouvir muito mais sobre quando você e Connor estavam juntos. Embora eu seja grata por ele ter estado ao seu lado quando você precisou, gostaria que tivesse sido eu. — Gentilmente, ela retira o cabelo que caiu no meu rosto e o coloca atrás da orelha. — De agora em diante, quero estar ao seu lado se você precisar de alguém de novo.

Com isso, outra marquinha é tirada na lista de coisas da pessoa perfeita. Perceptiva. Ela não apenas me ouve, mas ouve aquilo que não estou dizendo. Só conheci uma pessoa assim e ela teve meu coração e a minha alma: meu pai. Meu coração se contorce pela lembrança do homem que amei e por encontrar um pedaço dele em Lauren.

Como não respondo de imediato, Lauren delicadamente ergue meu queixo, fazendo com que meus olhos novamente encontrem os seus. Os meus estão cheios de lágrimas não derramadas.

— Você está bem? — ela pergunta numa voz doce e calmante. Faço que sim com a cabeça, com dificuldade de engolir, lutando com o pensamento de que meu pai faleceu. Gentilmente, Lauren se inclina e beija minha testa.

— Vou trancar a porta e correr lá em cima para pegar minhas coisas. Não acho que seja uma boa ideia colocar o Ray numa posição de segurar o sobrinho para não destruir tudo. — Ela força um sorriso. — Não abra a porta a não ser que seja um cliente que você conheça, ok?

— Está bem.

— Você fecha às nove, não é?

— Sim.

Lauren verifica seu relógio.

— São quase oito e quarenta e cinco. Vou pegar minha bolsa de viagem e estarei de volta em alguns minutos.

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