Capítulo 27
"Há uma dor no meu coração e ela não vai embora, agora eu sei que estou caindo profundamente." — Here with me, Marshmello ft. CHVRCHES
(Alerta de conteúdo sensível: menção a cutting/automutilação e agressão)

2014.
Minha mãe ajeitou a gola da minha blusa social azul marinho pela milésima vez antes de sairmos do carro, que foi estacionado em frente à igreja.
— Levanta a manga dessa blusa, Jason! Tá calor!
— Tem ar condicionado lá dentro, não quero amassar a roupa. — falei sem reação e ajeitei a calça social preta. Tirei os óculos escuros de aviador do rosto e pendurei na gola, o que causou um suspiro revoltado da minha mãe.
Andressa usava um vestido longo de cor azul claro com um pequeno casaco de mesma cor para cobrir os ombros, pois o vestido era tomara-que-caia. Ela usava um salto alto que a deixava na mesma altura de Maximiliano, e ele nos esperava do outro lado, já na calçada da igreja.
Se eu tivesse escolha nunca pisaria em um lugar daquele, mas como a igreja do meu pai se expandiu para outro bairro e ele estava indo lá para inaugurar o primeiro culto, ele queria a família completa na hora da foto.
Eu me sentia desconfortável. Já recebia uma boa passabilidade como garoto por ter tido meus hormônios femininos bloqueados; minha voz não era fina e o cigarro a deixava cada vez mais rouca, o que a engrossava — eu não sentia orgulho disso —, e meus ombros largos e o corpo começando a tomar forma pela academia me ajudavam a ser tratado no masculino, assim nenhum crente naquele lugar iria pensar, em sã consciência, de que o filho do pastor era trans.
O plano de Max havia se concretizado.
Quando entramos na igreja repleta de cortinas na cor veludo e gravuras de castiçais, bíblias e pombas, senti um desconforto. Todos me cumprimentavam, diziam que era um prazer me conhecer e que era uma honra ter a família do pastor na igreja.
Eu sabia que eles teriam repulsa se soubessem quem eu era.
Max era um homem simpático, atencioso com minha mãe por estar sempre ao seu lado fazendo questão de apresentá-la, e alguém tão educado que nem parecia a mesma pessoa de casa. Por várias vezes, ele me puxava para perto e me apresentava aos outros, como se eu fosse um filho que o enchia de orgulho, e se ele tivesse a chance de dizer que eu estava estudando para o vestibular de Engenharia, o seu ego ficava maior ainda.
Era tudo o que meu pai queria: um filho homem futuro engenheiro. Só faltava eu arranjar uma namorada. Do jeito que Max não batia bem da cabeça, seria capaz até de sugerir netos sem se lembrar de que eu não era capaz de fazer isso como ele queria.
Minha mãe também estava desconfortável com toda a atenção que recebia, mas ela disfarçava bem melhor do que eu. Ria de piadas ruins e sorria para pessoas falsas com muita facilidade, eu não conseguia esconder meu desgosto. Quando nos sentamos e Max fez uma pregação longa e insuportável, eu só queria que me dessem um soco na cara para desmaiar na hora e só acordar no fim do culto.
De um lado, estava a minha mãe. Do outro, uma garota que olhava para mim o tempo todo. Em algum momento, ela chegou mais perto de mim e tentou falar comigo, parecia extremamente tímida.
— Teu pai prega muito bem. — Ela disse com um sorriso de crente inocente que me deu vontade de rir, mas me controlei. Tudo o que fiz foi olhar rapidamente para ela e sorrir, o que a fez arregalar os olhos, surpresa com o contato visual.
— Linda, eu sou ateu. Tô nem aí pro que meu pai prega. — Pisquei e me endireitei no banco, e ela não disse mais nada.
O sermão foi a mesma coisa chata de sempre que eu já vira outras vezes quando ia para a igreja com meus pais quando mais novo: céu, inferno, pecados, perdão, salvação, justiça de Deus. As pregações do meu pai sempre possuíam uma parte que deixava os outros com medo de transgredir a lei e ir para o inferno, ele era bom em persuasão.
E eu era bom em demonstrar estar impaciente.
Mas aquele culto poderia ter sido como outro qualquer, se do lado de fora não estivesse tão quente para me fazer erguer as mangas da blusa, e eu havia esquecido que não poderia fazer isso.
E meu pai me mandou cumprimentar as pessoas como despedida. Eu estava tão irritado que sequer reparei nos olhares que recebia quando apertava a mão das pessoas e elas se demoravam um ou dois segundos a mais enquanto minha mão ficava parada no ar, no aperto, e elas olhavam para baixo e tentavam disfarçar o que viram.
Então Max notou, e seu rosto fechou na mesma hora. Eu estava fodido quando chegasse em casa.
Pedi a chave para minha mãe discretamente e ela me entregou para que eu fosse logo até o carro, e fiquei esperando por lá mesmo até os dois entrarem depois de quase todo mundo já ter ido embora.
Quando Max entrou, não disse nada. Sua máscara de bom pastor já havia saído perto da família. Minha mãe também ficou calada, a cada ano que passava ela se mostrava cada vez mais quieta, mesmo consciente do tratamento de Max comigo.
Chegamos em casa, meu pai estacionou o carro e saí rapidamente rumo ao meu quarto, mas ouvi seu grito ao longe chamando meu nome, o que me assustou, mas continuei andando.
Já na porta do quarto, Max estava por perto novamente. Entrei no cômodo e ele veio atrás de mim, fechando a porta logo em seguida.
— Vem aqui agora! — Ele me puxou e levantou meu braço para olhar meu pulso. Eu estava uma mistura de vergonha e raiva, ele não tinha direito algum de ficar inspecionando meu corpo. — Qual foi a última vez que tu fez isso?
— Não te interessa. — murmurei e sua outra mão livre voou até meu rosto, estalando um tapa alto que me fez virar a cabeça. Fechei os olhos de dor e passei a minha mão na região que ardia, com o olhar em choque para Max.
— Não tem nem uma semana! Olha como essa merda tá vermelha! E tu ainda deixou aquelas pessoas verem!
Max me puxou pela gola da roupa para me deixar na frente dele outra vez e desferiu outro tapa no mesmo lado do rosto, meus olhos lacrimejaram de dor, aquilo era humilhante mesmo não sendo a primeira vez.
— É dor que tu quer sentir? Então tem que sentir dor de verdade pra virar homem! Não é fazendo essa porra não! — Max me empurrou para a cama e começou a tirar o cinto de sua calça do paletó. Assim que se livrou da peça, dobrou ao meio e acertou minhas pernas, o que quase me fez chutá-lo no meu reflexo de me defender.
— Para com isso, caralho! Eu sou seu filho! — Tentei me sentar, mas ele virou bruscamente na cama e me deixou de costas.
— Tu é uma aberrarão! — Ele me acertou por trás e me encolhi, segurava o lençol com força por entre os dedos para extravasar a dor. — Eu tentei te consertar, fiz tudo por ti! Só pra tu poder ser o homem que queria! E é assim que tu me agradece!
Estava preparado para sentir o cinto me machucando de novo, mas ele parou. Deu passos para trás e ouvi a porta do quarto batendo forte, e em seguida a maçaneta sendo trancada.
A dor era insuportável, mas não a que vinha de fora: era a de dentro. Eu preferia só apanhar, mas passar por aquilo ouvindo as coisas que Max falava era pior. Eu sentia uma falta de ar absurda e minha visão embaçada pelo choro me dificultava na hora de ir cambaleando até a escrivaninha, pois minhas pernas e costas doíam.
Max errou quando disse que eu me machucava para sentir dor. Eu sempre sentia e odiava aquilo, mas foi a melhor forma que encontrei de me punir. Tudo em casa estava de mal a pior e as discussões eram sempre sobre mim; se eu não tivesse sido mais cuidadoso, essa situação não teria acontecido — de novo. Nem minha mãe me defendia mais, até ela parecia cansada de mim.
Por isso, a sensação de segurar uma lâmina nos dedos e voltar a usá-la na pele não era só para sentir dor externa e abafar a interna, porque a interna nunca seria abafada. Eu fazia isso porque eu merecia, porque eu só havia desapontado meus pais e causado problemas desde que contara a eles que não era uma garota.
Eu já era um fardo há dez anos.

2020.
A coberta grossa e felpuda que ficava com Charlie estava na minha cama e era confortável. Eu mexia minhas pernas sem parar, incomodado por estar usando absorvente. Eu não usava aquilo há mais de dez anos, mesmo que em algumas vezes tenha acontecido durante a hormonização, o que era comum, mas bastava usar um protetor diário e eu nem sentia a dor que sentia naqueles dias.
Hormônios realmente eram uma coisa para a vida toda. Dois meses sem usar já haviam causado aquilo.
Eu não sabia o que poderia acontecer se eu simplesmente parasse; eu já ouvira que a voz não alterava, a probabilidade maior seria da minha massa corporal mudar, mas eu imaginava que demoraria um longo tempo para notar alguma mudança. O pior mesmo era a menstruação.
Insuportável.
Charlie apareceu no quarto com um copo de água e um remédio. Durante dois dias, eu tomava um comprimido diário que aliviava minha cólica. O guri deixou o remédio na cômoda ao lado da cama e se sentou perto de mim.
— Como tá te sentindo?
— Hum. — resmunguei e fiquei olhando para a janela do quarto. Charlie subiu a coberta para cobrir meus braços.
— É sério, Jason, como tu tá te sentindo? — ele insistiu.
— Mal. — me limitei a isso. Charlie suspirou e se levantou, achei que ele fosse embora, mas foi para o outro lado vazio da cama de casal de Paloma e se deitou.
Senti-o se mexendo atrás de mim, eu estava de costas para ele e não queria me movimentar, continuei na mesma posição, olhando a janela. Sem dizer nada, Charlie se enfiou embaixo da coberta e ficou com o corpo colado ao meu. Sua mão passou por minha cintura e ele começou a tatear em busca da minha. Quando a achou, meio desengonçado ele entrelaçou nossos dedos e ficou abraçado ali, comigo.
Seu rosto estava próximo do meu e eu sentia sua respiração quente em minha nuca, mas minha energia havia sido tão reduzida que eu nem consegui formular uma piada ou comentário indecente.
E enquanto meu coração batia devagar, com meu corpo quase parando de tanta apatia e desânimo, o coração de Charlie acelerou.
— Por que tá fazendo isso? — perguntei o mais baixo possível, pois não tinha forças mentais nem para falar direito.
— Gosto de ti. — Ele se apertou mais no abraço. Não reclamei. — Tu tá há dois dias sem falar nada e descobri que sinto falta das coisas idiotas que tu diz. Só queria te ajudar a melhorar, mas tu não se abre pra mim.
Seu polegar começou a fazer carinho em minha mão. Charlie fungou e percebi que ele estava em um choro silencioso, me senti ainda pior por pensar que eu era a causa daquilo. Mesmo assim, continuei sem dizer nada.
— Eu não sei o que te fizeram pra tu ser assim, mas eu queria resolver. Tu sempre tá disposto a me ajudar quando eu preciso e nunca me deixa fazer igual. A gente tá junto nessa e vai continuar por mais um bom tempo, agora eu confio em ti, mas tu também tem que confiar em mim. Por favor, nenis.
Não aguentei e dei um pequeno sorriso, seguido de uma careta confusa.
— Tu me chamou de quê?
— Desculpa, tava lendo uma fanfic do BTS antes de entrar aqui e o Jimin chamou o Jungkook assim.
A dor da cólica não me impediu de me mexer por rir, e Charlie acabou rindo também. Isso o fez se aconchegar ainda mais ao redor de mim.
— Tu me fala todas essas coisas pra depois me vir com fanfic de coreano, tu é ridículo.
— Sou, e eu tava com saudade de te ouvir falar assim. — Ele ergueu seu rosto o suficiente para me dar um beijo na bochecha. — Tu tem que tomar teu remédio.
— Daqui a pouco, a dor não tá tão forte.
— Então dorme um pouco, tem que descansar. Vou ficar aqui, tudo bem?
— De boa, nenis. — repeti seu apelido com humor e Charlie riu nas minhas costas, foi uma sensação boa.
— Não estraga meu posto de Jimin, eu que estou cuidando do neném.
— Primeiro que eu não gosto de kpop, e segundo que não sou um neném, Charlie, eu hein.
— Cala a boca, é sim. Agora vai dormir.
Resmunguei com as ordens de Charlie e senti suas pernas se mexendo para entrelaçar às minhas, o guri queria ficar literalmente grudado em mim.
Foi impossível não sorrir antes de pegar no sono.

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