Capítulo 20
"Eu estou tentando fazer tudo isso por minha conta." — You & Me, Marshmello

2020.
Havia uma bola de tênis perdida em meio às coisas de Paloma e fiquei jogando contra a parede do quarto sentado no chão, sem nada para fazer.
Não queria conversar com o Charlie. Já fazia algumas horas que nos falamos na varanda e ele estudava no notebook depois de eu dizer que não queria mais papo naquele dia. Eu estava com uma raiva que não fazia sentido e que ele não tinha culpa, mas eu estava mesmo assim e foda-se. Não pedi para ele ficar me analisando e tentando me encaixar em uma coisa que eu não queria ser.
Mesmo o desgraçado tendo argumentos tão convincentes.
"— Tu não é insensível, sei que mesmo com esse teu jeito, bem lá no fundo tu te apega às pessoas que tu gosta. Só não tem aquele desejo de se envolver amorosamente com alguém. Do mesmo jeito que uma pessoa pode ter uma orientação romântica em que ela se atrai pelo mesmo gênero, tua orientação romântica é não se atrair por ninguém."
Até parece que eu iria acreditar nisso.
Eu não era arromântico, respeitava quem era, claro, mas isso não me servia. Eu ainda tinha muito pra viver e quem sabe eu me apaixonaria algum dia...
Nem eu acreditava naquela piada.
Senti um incômodo na garganta e a massageei, a bola de tênis ficou esquecida e quicou pelo quarto. Por que Charlie plantou aquela semente da dúvida na minha cabeça?! Agora não conseguia mais parar de pensar naquilo.
De repente, meus pensamentos foram interrompidos por um grito curto e rápido vindo da sala, seguido de um choro instantâneo. Me levantei rápido e corri pelo corredor até chegar ao cômodo, assustado ao ver Charlie tirando o telefone do ouvido, chorando sem parar.
— Guri?
— João tá no hospital, João tá no hospital... — Ele começou a repetir e cobriu o rosto com as mãos, o notebook já estava deixado de lado.
Corri até ele e me sentei ao seu lado, assustado. Charlie soluçava como um bebê e tentei abraçá-lo pelos ombros.
— Charlie...
— Ele pegou, os pais, ele, eles pegaram, eles tão lá, eles....
— Charlie, me abraça. — Segurei o guri forte e ele se agarrou em mim, chorando ainda mais.
Um arrepio horrível percorreu meu corpo e me deu náuseas. Enquanto estávamos trancados em casa, aquela droga de coronavírus continuava existindo. Já fazia quase um mês de quarentena e aquele vírus não tinha nenhum sinal de ir embora.
— E se... Jason e se ele-
— Cala a boca, só me abraça. — falei firme, sentindo um gosto amargo na boca pelas palavras não ditas de Charlie. Eu sabia o que se passava em sua cabeça, mas não podia deixá-lo se contaminar disso.
Mesmo sem ter argumentos convincentes.
Não havia cura, nem remédio. Eu não tinha ideia do que os médicos faziam para conter o vírus, poucas pessoas estavam sendo curadas. Em algumas, era mais leve e elas podiam apenas ficar em repouso. Em outras, era terrível. Eu não sabia as condições de João Vitor, mas se ele e os pais haviam pegado provavelmente era grave.
— Vai ficar tudo bem, tá? — Aninhei meus dedos no seu cabelo crescendo e apoiei minha cabeça na sua, abaixada em direção ao meu peito, molhando minha camisa pelo seu choro.
— E se não ficar? — A voz de Charlie saiu rouca e desastrosa, o guri estava um caco.
— Shhhii, vai sim. Confia em mim. — Apertei um pouquinho mais seu abraço como um sinal de conforto.
Eu sabia que Charlie não confiava em mim.

2018.
Entrei de surpresa na cabine de estudos de Charlie enquanto ele estudava — ou tentava estudar — mas me surpreendi com seu rosto caindo de sono.
Não nos falávamos há alguns dias e eu soube que Charlie fugira de casa, isso me deixou preocupado. Eu queria saber o que estava acontecendo, ele tinha uma cara péssima.
— Charlie? Tu tá bem?
— O que você acha? — resmungou, passou a mão no rosto e fechou o livro de marketing.
— Eu soube do que aconteceu. Quer falar sobre isso? — Sentei ao seu lado e ajeitei as mangas do meu casaco dos Beatles.
— Por que você é assim? Eu tentei conversar antes e tu não quis. Mas aí quando algo acontece comigo, tu vem atrás de mim.
— Só fiquei preocupado. — Apoiei os braços na mesa e desviei o olhar. Charlie era meio duro comigo às vezes, mas eu entendia seu jeito.
— Ficar preocupado e depois parar de falar comigo não é uma coisa muito normal de se fazer. E o que você sabe que aconteceu?
— Ouvi tua mãe falar que tu e o teu padrasto brigaram e aí cê' saiu de casa com raiva. Ela só não disse o motivo, falou umas merdas tipo má influência e tal, e... Charlie?
Fiquei assustado quando o guri apertou as mãos no rosto e começou a soluçar, o chamei novamente e tentei ver seu rosto, mas ele estava irredutível.
Me levantei rapidamente para fechar a porta e abaixar as persianas, o guri estava chorando e eu queria dar um tempo para ele extravasar sem ninguém bisbilhotando.
— Charlie?
— Eu não aguento mais. — Sua voz saiu desastrosa. Meu coração se apertou de uma forma inexplicável e dolorosa, queria dar um jeito de tirar aquele sofrimento, mas era impossível. A única coisa que eu podia fazer era ser um ombro amigo....
Amigo. Sim, só isso que eu poderia ser.
Tentei abraçá-lo, sem jeito. Passei meu braço ao redor do seu ombro e dei um aperto leve. O guri tremia e se segurou em mim, eu estava tenso com aquele contato, não por ser ruim, mas por não saber como agir naquele momento.
— Eu sinto muito. — Foram palavras inúteis, mas era só o que eu podia falar.
— Ele não tinha esse direito! — Charlie falou no meio dos soluços, a respiração descontrolada. — Ele não tinha!
Senti um nó em minha garganta, eu já sabia do que ele estava falando. O desgraçado do seu padrasto me dava nojo.
— Charlie, calma. — Consegui passar meus dois braços em volta do seu corpo, em uma posição que o segurava enquanto ele tremia. — Tá tudo bem.
— Não tá. — Sua voz estava cortando meu coração. — Não tá.
— Eu sinto muito, guri, eu sinto muito.
Ele se segurou em meu moletom e apertou o tecido com força. Naquele momento, ele parecia tão frágil e pequeno que eu só queria cuidar dele e me abrir, falar toda a verdade, dizer que ele poderia ficar tranquilo pois eu estaria por perto, que iria protegê-lo porque eu o entendia mais do que poderia imaginar e que não estava sozinho. Quase quis tirar aquela máscara que havia criado para esconder quem eu era e as merdas que eu passava, só para mostrar a ele que éramos tão semelhantes que poderia confiar em mim.
E foi assim que percebi estar começando a cair em pedaços e me afundar num sentimento que não conhecia, mas Charlie o havia provocado em mim.
Aquilo até podia não ser amor, mas era tão forte quanto.

2020.
Charlie tomou um banho quente para se recuperar do choque de descobrir que seu amigo estava no hospital, com Covid-19. Eu fiquei sentado na mesa de jantar, passando o dedo pela borda da xícara que havia café há minutos atrás. Não havia algo que pudesse me distrair, então me contentei em observar o lustre simples pendurado acima da mesa de vidro.
Meus olhos estavam concentrados na trajetória de uma formiga na parede quando perdi o foco ao ver Charlie saindo do banheiro.
Eu tinha consciência de que Charlie Stewart era bonito, constantemente. Contudo, ver o guri em roupas de frio todo dia corcunda no sofá me fazia esquecer isso às vezes, então vê-lo após o banho, de toalha na cintura e o cabelo molhado me fez até esquecer como se falava por cinco segundos.
— Tá bem? — Ele me olhou confuso e pisquei varias vezes para voltar à sanidade mental.
— Tô, é... Achei diferente essa... Fita aí cobrindo os intrusos. — Desconversei e Charlie olhou para baixo.
— Ah! A fita tape? Ela é muito boa, esconde bem e não pressiona meu peito igual o binder, e dá pra tomar banho com ela também.
— Tu disse peito e não intruso. — falei com curiosidade e Charlie sorriu para mim.
— Pois é, aprendi a aceitar essa parte do meu corpo. Continuo escondendo, mas não me dói como antes.
— Isso é legal. — Dei um sorriso simples e fiquei mexendo na xícara vazia, em um silêncio desconfortável. Charlie pigarreou e avisou que iria para o quarto, apenas balancei a cabeça.
Queria um cigarro, mas dessa vez iria me controlar, mesmo sendo eletrônico. Virei a cabeça para trás a fim de olhar as horas no relógio analógico em cima da geladeira e fiquei surpreso por ser cinco horas da tarde, o dia passava devagar quando não se tinha algo para fazer.
Em poucos minutos, Charlie apareceu novamente usando uma calça moletom nova na cor marrom e um casaco com o símbolo do Lanterna Verde. Estranhamente, ele puxou uma cadeira e se sentou ao meu lado.
— Tá com fome?
— Ainda não, mas daqui a pouco vou fazer alguma coisa.
— Quer comer o que hoje? — Ele colocou os braços na mesa e se inclinou. Neguei com a cabeça.
— Não precisa se preocupar, eu mesmo faço.
— Gosto de cozinhar, só não sei tanta coisa. — Ele desviou o olhar. — Queria saber como você tá.
— Uma merda porque não aguento mais ficar em casa, mas sem querer sair por causa desse vírus miserável. — Desabafei.
— Só isso te incomoda? — Charlie estava me analisando de novo.
— É. — respondi rápido.
— Por que tu mente tanto? Fica difícil ter alguma intimidade contigo. — Seus ombros caíram e ele parou de me olhar, estava triste. Quis me dar um soco por ter tratado ele assim.
— Tu... Quer ter intimidade comigo? — Quase sussurrei, de tão incrédulo que estava com a constatação. Charlie apenas balançou a cabeça em um "sim" e passou a mão no cabelo.
— Só que intimidade começa com confiança e tu esconde muita coisa, é difícil.
— Tu também esconde bastante coisa.
— Mas eu tô disposto a mudar isso. — A voz de Charlie saiu mais confiante.
— Ah, é? Como vai mudar isso?
Charlie ficou em silêncio por alguns segundos, sem olhar para mim de imediato. Por fim, sustentou seus olhos nos meus e falou com seriedade, o que foi tão impactante de ver que chegou até a ser atraente.
— Quero te contar o que aconteceu entre Samantha e eu.

Fazia tanto tempo q eu não escrevia q to inseguro, vcs tão gostando? Tá confuso? Sejam sinceros kkkk
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