Capítulo 19

"Eu nunca tive alguém para chamar de meu." — Silence, Marshmello ft. Khalid

2018.

— Você tá gostando de algum garoto?

Foi a pergunta que Charlie me fez quando passamos o seu intervalo da Comffy juntos, na pracinha do centro de Esplendor. Eu devia ter ficado pálido na hora, pois senti meu rosto gelar e ele parou de andar para ficar me encarando.

— Como assim?! Eu tô agindo como se tivesse a fim de um? — Na tentativa de enrolar na resposta, acabei me entregando. Parabéns, Jason.

— Ahn, não até agora, agora você tá tão branco que nem papel que tá meio óbvio. — Ele deu uma risadinha e cruzou os braços. — E quem é?

Consegui me recompor em alguns segundos e balancei a cabeça. Meus olhos se estreitaram para ele.

— Na minha terra, o nome disso se chama Maria fifi! Teu fofoqueiro do caramba, vamo' voltar logo pra loja!

Charlie gritou o meu nome em protesto, mas o segurei pelo braço para obrigá-lo a voltar a andar, eu já estava rindo de novo.

— Tu é chato! — Ele se desvencilhou do meu braço para caminhar sozinho e atravessamos a rua. — Mas é sério, é alguém que eu conheço? É da sua turma?

Paramos de andar quando chegamos na entrada da loja e Charlie ficou de frente para mim, de sobrancelhas erguidas, esperando por minha resposta.

Ele era bobo demais, não conseguia enxergar nada. Dei uma risada e baguncei seu cabelo, eu estava com medo à toa; Charlie nunca descobriria que eu era a fim dele. Não estava apaixonado, não, nem queria algo sério, só... Gostava dele mais do que das outras pessoas. Queria ficar perto dele e, se pudesse, dar uns beijos naquela boca que só sabia falar coisas irritantes. Contudo, era provável que ele não acreditasse mesmo eu falando com todas as letras.

— Tu é tão inocente que me dá até dó, vai trabalhar, vai. — Pisquei e me afastei dele, dando um último aceno e gritando um "até amanhã!".

2020.

A desgraça da aula online começou.

Fala sério, eu fazia Engenharia, como eu faria EAD disso? Só fingi que estava na aula enquanto a videochamada do professor estava minimizada e no mudo em meu celular.

Sem poder comprar cigarro, curiosamente eu havia me lembrado de deixar o eletrônico sempre carregado. Por isso, fiquei fumando na varanda durante a aula e foi assim pela maior parte da tarde. A área externa de Paloma era grande e revestida por piso que imitava madeira, com diversos vasos de planta ao redor. Eu estava sentado na cadeira de metal que havia por lá, junto com uma mesa redonda e mais outro assento. Um pequeno vaso de cactos ficava ali, eu me lembrava vagamente de há uns dias Charlie ter passado um pano úmido na mesa e tirado o vaso do lugar, e nunca mais foi visto.

Foi só pensar no guri que ele resolveu aparecer.

A porta de correr transparente que dividia a sala da varanda foi arrastada devagar e Charlie caminhou até mim. Olhei para ele rapidamente e desliguei o cigarro.

Desde aquele beijo estúpido, não nos falamos. Isso já tinha mais de vinte e quatro horas — não que eu estivesse contando — e eu quis deixá-lo quieto, pois a merda foi feita por mim e eu me sentia idiota demais para me aproximar. Felizmente Charlie quem fez isso.

O guri se sentou na cadeira ao lado e cruzou os braços, o olhar fixado no chão.

Era bom que ele falasse alguma coisa, porque eu não iria dizer nada.

— Eu tenho algumas perguntas pra te fazer.

Era melhor ter ficado sem falar nada mesmo.

— Que perguntas, Charlie... — Eu deveria ter soado mais tranquilo e minha frase em forma de pergunta, mais saiu mais como uma reclamação exasperada. Respirei fundo e cocei minha sobrancelha com dois dedos.

— Por que tu tá assim? — Ele me confrontou.

— Porque tu ficou um dia inteiro sem falar comigo e agora chega querendo me fazer pergunta, eu queria saber como tu tá, antes de tudo.

— Eu estou bem. — Disse de uma vez. — Não se preocupe.

— Então tá. — Rodopiei o cigarro prateado entre meus dedos. — Pode fazer tuas perguntas.

Charlie se mexeu na cadeira e ficou virado para mim, mas eu estava de lado, olhando para a parede de tijolos falso da varanda que separava a área da Paloma do vizinho de trás.

— Como foi quando tu ficou com alguém pela primeira vez?

— Por que isso agora?

— Tu não consegue responder uma pergunta que eu faço?

— Puta que pariu. — Liguei o cigarro e olhei para cima, ainda sem virar para Charlie. — Tu fala ficar ou transar?

— Os dois. — Revirei os olhos. A gente deveria estar falando sobre o que rolou e como estavam as coisas entre a gente, e não sobre as pessoas que eu já peguei. Charlie estava tramando alguma coisa.

— A primeira pessoa que eu beijei foi uma guria chamada Amanda, ela literalmente disse que ia me ensinar a beijar.

— Deu certo? — Eu controlei minha vontade de responder "me diz tu que me beijou ontem", ah, como eu controlei...

— Deve ter dado né. — Puxei o cigarro eletrônico para soltar a fumaça branca. — Bah, enfim, transei pela primeira vez com um guri, o nome dele era Guilherme.

— E tu se sentiu bem?

— Achei que não iria, mas sim, foi bem de boa. Ele foi legal comigo, essas coisas.

— E como foi aquela vez com uma garota?

— Não foi bem uma garota, ela era uns dez anos mais velha. — Ri nervoso e traguei mais uma vez. — Era uma puta conhecida do meu pai que trabalhava numa boate.

Charlie demorou para fazer mais uma pergunta, deveria estar assimilando a informação nova.

— Tu quer falar disso?

— Não.

— Ok. — Ele respirou fundo. — Mais uma coisa... Tu já se apaixonou por alguém?

— Que pergunta ridícula é essa? — Dei outra risada e foi a primeira vez que olhei para ele, mas Charlie sustentou seu rosto sério para mim e percebi que ele não estava mesmo de brincadeira.

— Estou te perguntando de verdade, tu já se apaixonou por alguém?

O clima na varanda ficou estranho, pelo menos para mim. Charlie ficou me encarando e seus olhos pareciam prestes a me julgar. Tomei sua pergunta como algo a considerar e pensei nisso, provavelmente pela primeira vez na minha vida.

Eu já me apaixonei?

— Bah, tchê... Paixão é um negócio forte! — Como sempre, desconversei.

— Então tu já gostou muito, muito de alguém?

"De você", foi o que meu inconsciente falou e eu quis materializá-lo só para dar um socão bem no meio da sua cara. Contudo, descartei Charlie porque eu sabia que ele estava perguntando a respeito do meu histórico do passado. Mesmo se eu fosse incluí-lo, eu não poderia dizer que era algo realmente romântico, porque romance era algo fora de cogitação para mim. Eu não sabia como explicar isso.

Minha cabeça estava uma confusão e Charlie percebeu isso, pois ergueu as sobrancelhas para mim, esperando minha resposta.

Eu já havia desistido de fumar de novo, minha expressão para o guri à minha frente era de choque. Eu não tinha um nome sequer para dizer a ele de que já gostei de tal pessoa, e nunca havia me dado conta disso, não era algo que me fazia pensar.

— Eu... Não. — Um bolo se fez na minha garganta, fiquei angustiado de repente. Por que eu estava tão envergonhado só por ter percebido que nunca havia gostado de alguém? — Vendo assim, tu deve me achar um insensível do caralho, né?

— Não acho, não. Mas por que tu acha que nunca gostou de alguém?

— Sei lá, eu... — Dei de ombros e voltei a olhar para frente. — Eu nem tinha pensado nisso, tô pensando agora só porque tu falou.

— E alguma pessoa já gostou de você? — Charlie parecia um psicanalista falando comigo, mas pelo menos estávamos conversando então me deixei levar.

— Ah, acho que sim, as gurias e os guri' também, ficavam com raiva quando eu não demonstrava essas coisas de carinho, e de dar atenção... Mas eu só não via necessidade. — falei com uma careta. — Tipo assim, sei lá... Eu realmente não sei. Só nunca entrou na lista de coisas da minha vida, gostar de alguém.

— Entendi... — Charlie começou a bater com os dedos na mesa de metal. — Mas não é assim com a atração sexual, né?
Tu te atrai com mais facilidade nesse sentido?

— Não sei aonde tu quer chegar com tudo isso, real. — Suspirei e me relaxei na cadeira, já cansado da sessão de terapia. Charlie encostou suas costas na sua cadeira também.

— Eu sou o contrário de ti, posso sentir atração romântica com mais frequência do que sinto atração sexual, por isso digo que sou demissexual.

— Mas tu já namorou, como tu beijou a Samantha?

— A gente demorou pra fazer isso, e àquela altura eu já tinha uma conexão forte o bastante pra começar a sentir atração por ela. Às vezes nem é só conexão, eu só... Não sinto com facilidade, nem frequência, tipo você. Descobri que sou panromântico, me atraio por qualquer gênero de forma romântica, mas é diferente de estar dentro do espectro assexual.

Eu já conhecia aquele termo pelos vídeos do Charlie, e ele falou com naturalidade como se já imaginasse que eu entendia do assunto. Como não fiz expressão de dúvida, ele não precisou explicar nada.

Agora tudo fazia sentido. Charlie queria me explicar por que não correspondeu ao meu beijo.

— Então... É por isso que... — Minhas bochechas esquentaram de repente e não consegui terminar a pergunta, mas o guri entendeu mesmo assim.

— É, eu... — Ele também ficou sem graça ao tocar no assunto. — Eu não consigo me atrair da mesma forma que ti, não o suficiente pra... Te beijar. — Ele respirou fundo, devia estar tão incomodado quanto eu.

— Eu só tava bêbado, não foi nada demais. — falei com meu maxilar trincado, um pouco duro na voz.

— Sério? — Charlie perguntou surpreso.

— Sim, foi besteira. Não quero ter nada contigo não.

— Ah, entendi. — Ele estalou os dedos. — Eu só queria esclarecer isso contigo, pra não parecer que eu não queria corresponder.

— Mas tu não queria mesmo, direito seu também.

— Só que não é pelo motivo que tu pensou! — Ele bateu a palma da mão na mesa, mas nem me importei. — Isso é difícil, às vezes eu não gosto de ser assim! Eu não sou como você que não liga de não sentir atração romântica, eu queria ter a mesma atração sexual igual outras pessoas, só que não faz parte de mim!

— O que tu quis dizer de eu não sentir atração romântica? — Interrompi o assunto bruscamente e o questionei em choque. Charlie piscou algumas vezes, surpreso com minha reação, pois eu o olhava muito desconfiado e com meu rosto virado para ele de novo.

— Achei que tu já tinha percebido, Jason.

— Percebido o que? — Estreitei os olhos. De repente, Charlie riu com minha confusão e sua expressão mudou, estava achando minha cara divertida.

— Tu não percebeu até hoje que é arromântico?

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