Episódio VI: Cair no Esquecimento


Na TV, a cena era clara. O vídeo tinha sido gravado por um celular bem ruinzinho, do alto de um prédio, e a pessoa por trás dele tremia muito, mas não a culparia por isso. Mesmo com as interferências, via-se bem.

O Matéria Escura, sob a forma de uma ave negra gigante, pela primeira vez em décadas, estava lutando com um supervilão.

E estava perdendo.

ALGUM MOMENTO NO PASSADO

Terça-feira

(a mesma do episódio passado)

— Deixa eu adivinhar: você tem poderes de invisibilidade, não tem?

A garota nova tinha dito a frase com tanta tranquilidade que Baekhyun chegou a achar que fosse uma brincadeira. Entretanto, em muito pouco tempo, todo mundo estava olhando para ele. Ouviu alguns suspiros surpresos, mas o que o fez compreender que a menina não estava brincando foi o olhar horrorizado de Yerim.

Sem conseguir conceber o tamanho do problema, Baekhyun saiu correndo.

— Droga, Joohyun! — ele conseguiu ouvir Yerim gritando, mas quanto mais se afastava, mais baixa a voz da amiga ficava. — Você tem que fazer isso com todo mundo? Qual o seu problema?! Já deu dessa mer...

Baekhyun desviou da maior quantidade de pessoas que podia enquanto fugia, mas sabia que nunca ia conseguir desviar dos olhares delas. Internamente, rezava para que as coisas não ficassem tão feias, contudo, depois daquela saída dramática, duvidava que fossem esquecer o tópico tão cedo.

Parou em frente a uma árvore que ficava nos fundos dos laboratórios de ciência. Naquela manhã, último dia de abril, Baekhyun tentou recuperar o fôlego. Sentia como se tivesse uma corrente apertando seu peito e que, sempre que ele tentava fazer afrouxar, ficava mais apertada. O que era aquilo? Ansiedade? Desespero?

Desespero... Baekhyun estava desesperado?

— Baekhyun! — uma voz familiar o abordou, tão ofegante quanto ele. Era Chanyeol. — Me desculpa, cara, eu deveria ter avisado! A aluna nova sabe o poder das pessoas, ela ficou famosa fazendo isso. Ela até fez o Sehun arrumar uma consulta com um médico! Foi mal mesmo, eu esqueci completamente, e...

— Não tem que se desculpar — Baekhyun retornou, tirando a mão da árvore e limpando a palma suja em seguida. — A culpa não é sua que aquela menina sai por aí explanando os poderes das pessoas. A responsabilidade é dela.

— Baekhyun, ela foi encorajada por todo mundo a fazer isso. Tava todo mundo amando... eu faria a mesma coisa se as pessoas me dessem tanta corda — Chanyeol tentou racionalizar. — Ninguém falou pra ela parar, tirando as suas amigas, que deram uns toques. Acho que elas tavam tentando impedir isso de acontecer.

Baekhyun deixou a cabeça cair novamente e tapou os olhos com as mãos assim que notou as lágrimas ameaçando descer.

— Foi mal — Chanyeol pediu desculpas outra vez, e no mesmo instante em que colocou uma mão no ombro de Baekhyun, o garoto se rendeu ao choro.

Chanyeol não sabia se abraçava o amigo, se continuava ali, se falava mais coisas, se dava espaço a Baekhyun... Por um instante, quis chorar também.

— E agora, Chanyeol? — Baekhyun perguntou, tentando controlar a própria fala, mas sem muito sucesso. — O que acontece agora?

O coração de Chanyeol apertou. Ele também não sabia.

Baekhyun contemplou suas opções. De alguma forma, o choro tinha parado, e as suas lágrimas pareciam que iam secar logo. Não pode ser tão ruim assim, né?, ele pensou. Talvez as pessoas não fossem ser tão cruéis com ele quanto ele achava que seriam.

E quando Baekhyun estava prestes a erguer a cabeça e dizer para irem andando, muito menos melancólico e mais positivo sobre as coisas, Chanyeol juntou a coragem necessária para dar um abraço grande, desengonçado e caloroso no amigo. Queria ajudá-lo a se sentir melhor.

— Vai ficar tudo bem, Baekhyun — Chanyeol falou, confiante, para um Baekhyun pego de surpresa, sentindo o cheiro do cabelo comprido de Chanyeol e a vibração da voz dele naquele espaço tão pequeno entre os dois. — Eu prometo que não vou deixar falarem mal de você, e se você precisar de ajuda, eu tenho vários amigos doidos o suficiente pra apanhar contigo.

Baekhyun riu, porque era verdade, e também porque a situação era meio esquisita. Ele, ali, sendo engolido pelo abraço de um colega que tinha quase o dobro do seu tamanho e pelo menos a metade das suas paranoias. Logo no fim, envolveu os próprios braços ao redor de Chanyeol e se sentiu ainda melhor com aquele apoio todo.

— Obrigado, cara — Baekhyun disse, iniciando o processo de afastamento com a cara vermelha, não se sabe se pelo choro ou pelo abraço... talvez os dois. — E o Sehun, hein? Poderes? Quem diria...

— Pois é... — Chanyeol encolheu os ombros.

— Mas agora vamos pra aula, né? A gente não pode deixar isso estragar o dia.

— E não vai!

Provavelmente, Baekhyun estaria certo sobre a consequência daquela revelação se, no passado, não tivesse feito algumas declarações duvidosas. Nunca tinha sido um cara muito conhecido, porque fazia muito bom uso dos seus poderes para permanecer irrelevante e sem perturbações. Contudo, não dá pra existir e não ser notado pelo menos uma vez.

Enquanto Baekhyun e Chanyeol andavam pelos corredores a caminho da aula de física, todos os olhos estavam voltados para a mesma pessoa. Naquele momento, as coisas ainda não tinham começado a ficar difíceis; Baekhyun estava sendo encarado porque tinha feito uma cena enorme depois do que Joohyun disse. Aquilo, por si só, já era um grande material de fofoca... e falando nela...

Você viu, o tal do Baekhyun? É, eu vi, ele saiu correndo bonito.

Esse Baekhyun aí não era aquele que dizia que o Matéria Escura era um privilegiado? Algo assim? Ah, sim, eu lembro dessa parte... Mas, espera, ele tem poderes?

Byun Baekhyun tem poderes? Que surpresa! Ele disse que odiava heróis! Ele já disse muitas coisas. Uma piada, esse Byun Baekhyun... ainda bem que a Joohyun desmascarou ele.

Cara estranho. Por que tá sempre falando sozinho, ein? Ei, eu também falo sozinho! Mais respeito! Acho que ele pensa em voz alta, ou só é um efeito colateral do poder dele.

Invisibilidade! Muito da hora, não acha? Imagina quantas coisas ruins ele pode ter feito com isso até agora?! Crendeuspai... Nunca mais chego perto daquele cara. Queria poder fazer o mesmo.

Ele deve ser um vilão, né? Pra não querer dizer que tem poderes. Nossa, vocês pulam pras conclusões bem rápido, né? Quem não quer dizer que tem poderes? A melhor parte é se gabar! Ave Maria.

Vilão? Vilão? Tão dizendo que ele é um vilão... Bem, teoricamente, não deixa de ser. Ele roubava com o poder dele, mas aí aquele cara, o Chanyeol, descobriu e ameaçou contar pra todo mundo se ele não parasse. Ah, sim, isso com certeza faz muito sentido. Pois é, ouvi dizer que ele é um vilão.

Baekhyun é um vilão. Byun Baekhyun é um vilão! Vilão. Vilão. Vilão! O cara é um vilão.

(...)

Na aula de física do segundo ano C, ninguém dizia nada. O professor, que desconhecia o que tinha acontecido mais cedo, estava meio murcho com a falta de participação da turma.

Baekhyun conseguia ver algumas pessoas passando bilhetinho, outras mexendo no celular. Também conseguia ver perfeitamente a nuca de Bae Joohyun, que tinha se sentado bem na primeira fila, como se para ganhar mais protagonismo. Alguma coisa sobre ela deixava Baekhyun estarrecido. Claro, além do fato de ela ter exposto seu maior segredo pro colégio inteiro, aquela desgra...

Pausa! Baekhyun parou dois segundos para refletir se o ódio que estava sentindo por Bae Joohyun era justificável ou misoginia internalizada. Ele não queria ser cancelado, muito menos agir irracionalmente. Mas cancelado, ui, isso é barra pesada.

Como não ia chegar a lugar nenhum, já que suas motivações para autorreflexão eram fracas, deu-se por satisfeito com o fato de que, às vezes, você só precisa xingar algumas pessoas em pensamento. Aquela pi...

— Ei. — Seulgi, que sentava na carteira da frente, virou-se para Baekhyun quando o professor passou a escrever no quadro. Sussurrando para não chamar atenção, ela disse: — Foi mal, a gente tentou evitar isso, sério. Mas não deu certo... eu e a Yerim achamos que se a gente só dissesse pra Joohyun não fazer mais isso ia resolver, mas ela não ouviu a gente.

— Não tem problema — Baekhyun assegurou a amiga. — Vocês tentaram. Obrigado.

Seulgi suspirou, então voltou a olhar para frente. Baekhyun xingou Joohyun em pensamento mais um pouco.

No intervalo, Baekhyun tinha passado de "principal" tópico de conversa para "único" tópico de conversa. Os olhares foram ficando piores. Tinha alguma coisa muito errada.

— Aí, cara — Jongdae abordou Baekhyun com uma pose desconfiada. Sehun vinha logo atrás, já acostumado a escoltar o amigo. — Você tem poderes?

Baekhyun revirou os olhos antes de responder:

— Bem, foi isso que a Joohyun disse.

— E já ouviu o que tão falando de você? — Jongdae prosseguiu. — Tão te chamando de mentiroso, de metido, e até pior.

— Tão te chamando de vilão — Sehun completou, dizendo o que Jongdae não tinha coragem. Silêncio. — Acho melhor você andar com a sua credencial por aí pra não te encherem o saco.

Baekhyun engoliu em seco e não se moveu enquanto os dois rapazes se afastavam cuidadosamente. Pareciam meio preocupados, mas também decepcionados.

Foi só então que Baekhyun aceitou a perspectiva de que a sua vida tinha acabado de se complicar bastante.

E ainda precisava encarar a sua mãe.

NO DIA SEGUINTE

Quarta-feira

A boa notícia era que a fofoca não tinha chegado aos professores ainda. A má notícia era que, uma hora ou outra, ia chegar, e a mãe de Baekhyun receberia uma ligação nada animadora da diretora da escola. Ou seja, Baekhyun precisava agir rápido. Não tinha tomado coragem ainda, mas estava trabalhando nisso.

— Vou dizer que não sabia — Baekhyun falou para Yerim, Sooyoung e Seulgi na hora do intervalo, sentados nos bancos da parte mais afastada do pátio. — Que eu nunca soube que tinha poderes.

— Isso é só negar o que todo mundo já sabe — Yerim constatou. — Ou o que todo mundo acha que sabe, né. Tão inventando cada coisa bizarra por aí.

— Eu acho que você devia fazer a credencial — Sooyoung sussurrou para o amigo, como se alguém os pudesse ouvir ali, tão longe de outros olhos e ouvidos. — É mais seguro. Podem te processar e, você sabe, geralmente cobram uma multa, mas às vezes pode ser pior.

— Credo! — Baekhyun disse, sentindo um arrepio. — Que horror! Não sei nem como eu vou falar isso pra minha mãe... ela vai me matar.

— Não tinha nada que você pudesse fazer — Sooyoung respondeu, dando de ombros. — A sua mãe deve entender isso.

Baekhyun suspirou. Tomara que ela entenda. Tomara mesmo.

— Alguém quer ir ao banheiro também? — Yerim sugeriu. As outras garotas concordaram.

— Vão lá, eu vou ficar aqui mais um pouco — Baekhyun sugeriu, com os olhos presos numa figura alta e familiar que o encarava de longe.

— Tem certeza? — Seulgi inquiriu. Baekhyun fez que sim.

Quando as garotas saíram de vista, a figura distante finalmente se moveu da sua posição inicial em direção a Baekhyun. Quanto mais se aproximava, mais Baekhyun tinha certeza: Chanyeol estava realmente tentando cortar um mullet sem que as pessoas percebessem, né?

— Ei, mano — Chanyeol o abordou cuidadosamente e se sentou bem do seu lado. Daquela distância, dava pra ver claramente a parte da frente, mais curta do que no dia anterior, contrastando com a parte de trás, que só crescia. Estava ficando horrível. Baekhyun gostou. — Tá tudo bem? Como foi em casa?

— Não contei pra ela ainda — Baekhyun confessou num sussurro. Apertava as mãos uma na outra, tentando dispersar a aflição. — Vou ver se falo hoje.

— Boa sorte — o outro garoto desejou, abrindo um sorriso singelo e sincero.

— A Sooyoung disse que uma acusação de vilania, às vezes, pode ser bem ruim... você acha que eu tô lascado, Chanyeol?

Chanyeol mordeu o interior da boca e olhou para o lado, pensando no assunto. Baekhyun constatou que, daquele ângulo, o rapaz estava parecendo um personagem de desenho animado, e que os olhos arregalados pareciam mesmo uma paródia caricata de alguém num traço divertido, exagerado. Tiraria uma foto daquele momento, se pudesse.

— Não sei se o Governo tá muito interessado em investigar a vida de um adolescente que mentiu sobre poder ficar invisível, não. — Chanyeol riu, descontraído, mas Baekhyun não achou a mesma graça. Pelo contrário: estava mais preocupado. — Né?

— Eu não sei. — Baekhyun pôs as mãos no rosto, o desespero crescendo no peito. Ele quase conseguia ver a imagem do rosto da mãe, pressentir o furacão; e a pior parte era saber que levar uma bronca só seria a pior das hipóteses na melhor das hipóteses. — Acho que não pra adolescentes normais, mas por causa do meu pai...

Pausa. Baekhyun sabia que tinha falado demais, mas dessa vez, não tinha sido sem querer. Moveu os olhos lentamente para observar Chanyeol, que, pasmo, o encarava de volta com uma pergunta proibida entalada na garganta.

— Acho que eles devem estar de olho em mim... — Baekhyun continuou, "eles" significando todo mundo e ninguém ao mesmo tempo. Não sabia se dizia mais coisas ou se parava por ali; tudo dependia da reação do amigo.

No fundo, no fundo, Baekhyun rezava para que Chanyeol não ficasse assustado com aquele início de assunto suspeito e macabro. Queria poder falar mais coisas, porque aquilo o consumia dia e noite; um segredo guardado apenas por ele, pela sua mãe, e por um homem morto. Baekhyun precisava desabafar.

Esperava que Chanyeol pudesse ouvi-lo.

— O seu pai era um vilão? — Chanyeol perguntou depois de cuidadosamente examinar a área. Ninguém por perto. Ele parecia curioso, nada de incomum para o cara alto e cheio de ideias. Baekhyun suspirou.

E confiou a Chanyeol uma coisa importante:

— Pior. Ele trabalhava pro Matéria Escura.

O TEMPO NÃO PASSOU

Isso é só uma pausa dramática na narrativa. Pode continuar.

— O quê?! — Chanyeol quase berrou. Precisou tomar um momento para se recompor, depois de notar que tinha agarrado os dois braços de Baekhyun com as mãos por causa do susto. — Pera, o que você disse?

Baekhyun chegou mais perto e falou mais baixo, contando todos os detalhes:

— Tinha uma época em que o Matéria Escura ocupava um cargo importante, general não sei o que, ou líder, sei lá... mas ele tinha um time de pessoas que ajudava ele em algumas missões específicas, a maioria sem poderes. O meu pai era um deles. Essa equipe foi dissolvida no mesmo ano em que o Matéria Escura se aposentou.

— E por que o Governo te processaria por causa do seu pai?

— Porque eles não sabem que eu existo.

Baekhyun parou por um instante para analisar seu ouvinte: Chanyeol continuava impressionado, mas investido no assunto. Sendo assim, continuou:

— Quando meu pai morreu, minha mãe nem sabia que ela tava grávida. — Baekhyun engoliu em seco e, inconscientemente, agarrou a gola da camiseta de Chanyeol como se estivesse prestes a dar um soco nele. — Ela foi embora, recusou o auxílio que dão quando alguém morre em serviço e, quando eu nasci, registrou o nome de um amigo dela na minha certidão.

— Então como eles podem saber que você é filho do seu pai? — Chanyeol fez uma cara engraçada.

— Porque eu tenho os mesmos poderes que ele.

Silêncio.

— Ah — Chanyeol respondeu. — Entendi. Pode me largar agora?

— Ah, sim, sim, foi mal, cara. — Baekhyun rapidamente soltou a camiseta de Chanyeol, que agora tinha ficado amassada na gola. — Desculpa.

— Tudo bem — Chanyeol assegurou, ajeitando a roupa e dando um suspiro. — É bem complicado mesmo. Eu queria poder ajudar, mas não sei como... o que pode acontecer de ruim se descobrirem que você é filho do seu pai?

— Não sei. Acho que a minha mãe vai estar encrencada por causa de todas as mentiras. Será que podem prender ela?

— Ela pode dizer que se enganou com a coisa do pai, sei lá... — Chanyeol tentou acalmar o amigo, que já estava nervoso outra vez. — Ó, eu tenho certeza que vai dar tudo certo, tá bom? Pessoas têm poderes iguais, ou muito parecidos, não vão te caçar por causa disso. — Chanyeol, então, chegou ainda mais perto de Baekhyun; perto o suficiente para abraçá-lo de lado e acariciar as costas dele, tentando deixar a situação um pouco melhor. — E se tudo der errado, a gente literalmente conhece o Matéria Escura da segunda geração.

Baekhyun concordou com a cabeça.

— Verdade. Tudo bem que isso é a origem de metade dos meus problemas, mas né... conhecer ele deve ter alguma vantagem. Se bem que ele não foi ajudar quando atacaram a gente na saída do shopping no domingo, né?

Chanyeol parou de passar a mão nas costas de Baekhyun, que imediatamente notou que alguma coisa estava errada. Chanyeol tinha uma cara de confuso, de quem tentava lembrar de alguma coisa específica que tinha visto na TV.

— Do que cê tá falando? — Chanyeol disse, por fim, perdido. Baekhyun achou que o seu estômago tinha desaparecido.

— Daquela coisa que atacou a gente no domingo, empurrou nós dois no chão e tudo. Não lembra? Que a gente saiu correndo pra dentro da lojinha de conveniência?

Chanyeol balançou a cabeça para os lados, sinalizando um claro e perceptível não.

— Como assim não lembra? — Baekhyun uniu as sobrancelhas.

Chanyeol não respondeu.

O pior de tudo era que Baekhyun sabia que ele não estava escondendo nada. Chanyeol, verdadeiramente, não se lembrava.

O DIA SEGUINTE

Quinta-feira

Era quinta-feira e Baekhyun não tinha conseguido dizer nada para a mãe.

Enquanto rumava para mais um dia de aula e uma inevitável prova de matemática, olhava para o chão tentando lembrar das fórmulas que estudara na noite anterior. Quando deu por si, já estava no meio de uma rodinha de pessoas que ele conhecia, mas que estava tentando evitar.

— E aí, Senhor Incrível? — Jongdae o cumprimentou, sarcástico. Levou uma cutucada de Chanyeol. — Seja bem-vindo de volta.

— Ah, oi. — Baekhyun abriu um sorriso sem graça. — E aí?

— Pronto pra prova? — Chanyeol perguntou, tentando soar animado para que Baekhyun não se sentisse muito deslocado. Falhou. A energia pesada era palpável.

— Acho que sim — respondeu com simplicidade à pergunta do amigo. Deu de ombros depois.

— Vocês dois tão se falando? — Sehun apontou para Chanyeol e Baekhyun, genuinamente confuso. Chanyeol abriu a boca, mas não disse nada; pego no pulo.

— Você não disse que tava chateado com não sei o que, não sei o que lá? — Jongdae se virou para Chanyeol com um tom acusativo. Baekhyun não fazia a mínima ideia do que estava acontecendo ali. — Porque não sabia que ele tinha poderes. Aí tava dando um tempo.

— Sim, é, claro, mas isso já passou — Chanyeol tentou remendar seus erros, coçando a nuca discretamente.

Chanyeol mentia muito mal.

— Você sabia que ele tinha poderes, Chanyeol? — Jongdae questionou; sobrancelha erguida, braços cruzados. Chanyeol não conseguia encará-lo nos olhos.

— Ei, eu tô bem aqui, falou? — Baekhyun interrompeu a discussão antes que aquilo ficasse pior. — Fui eu que pedi pra ele não falar pra vocês sobre isso.

Baekhyun não estava necessariamente mentindo. Podia nunca ter dito aquilo em específico — ele não lembrava —, mas o pedido sempre esteve, no mínimo, subentendido.

Jongdae não fez mais do que dar de ombros e ficar em silêncio. Sehun ergueu as sobrancelhas por um segundo, não muito convencido, mas não disse mais nada.

E naquele mesmo instante, como se tivessem marcado para chegar bem na hora em que a casa caísse, uma dupla inesperada deu as caras: Junmyeon e Joohyun.

O silêncio pareceu aumentar mil vezes, mesmo que ainda estivessem no mesmo local cheio de alunos barulhentos esperando os portões abrirem.

— Oi — Joohyun disse, meio acanhada, sinalizando o cumprimento com uma mão tímida. Não era difícil perceber a indisposição daquela rodinha de adolescentes. — Eu e o Junmyeon acabamos de descobrir que a gente mora na mesma rua.

— Legal — Baekhyun comentou, tentando soar pelo menos decente. Ainda não conseguia não achar Bae Joohyun irritante.

Antes que o pobre do Junmyeon pudesse acrescentar alguma coisa à conversa, os portões abriram e os alunos finalmente puderam, desordenada e ruidosamente, ir até suas respectivas salas. Chanyeol, Jongdae, Baekhyun e Joohyun tinham o infortúnio de precisar ir para o mesmo lado. Sehun tinha a sorte de ter outros amigos no segundo B, e Junmyeon quase sempre caminhava sozinho para o segundo A.

A prova de matemática que se seguiu àquele "incidente" foi, para Baekhyun, como uma experiência extracorpórea. Fez os exercícios com destreza e concentração, despejando as fórmulas e organizando os números como se ele mesmo os tivesse criado. Quando acabou, foi como se o tempo nem tivesse passado. Ele ainda estava pensando na conversa de mais cedo.

Portanto, depois de duas aulas de gramática em que não prestou atenção numa vírgula, foi direto para o lugar em que Chanyeol e os amigos passavam o intervalo. Procurou, procurou e procurou, murmurando coisas desconexas enquanto seus neurônios juntavam pecinhas... se antes já achavam que ele era estranho, imagina agora.

Ah! Ali estava a pessoa que estava procurando.

Baekhyun se aproximou de Junmyeon como se fossem super íntimos e, por sorte, o cara estava sozinho, então podia ir direto ao assunto.

— A Joohyun te falou alguma coisa?

Junmyeon quase engasgou com o suco de caixinha.

— Oi pra você também — respondeu, se recuperando do susto. — Você fica invisível de verdade, né, cara? Nem te vi chegar.

— Eu não usei o meu poder, que saco! — Baekhyun bufou, se acomodando melhor no banco de pedra em que estavam sentados. — Todo mundo tá sempre me dizendo isso. Mas e aí, ela te falou alguma coisa?

— Como assim? — Junmyeon encarou Baekhyun com uma dúvida genuína nos olhos, mas uma expressão geral de quem só queria ser deixado em paz.

— Sobre poderes. Você sabe que o poder dela é ver quem tem poderes, né? E depois contar pra todo mundo sobre isso.

— Você tá meio traumatizado, não tá? — Silêncio. — Ela não me disse nada sobre nada.

— Não te deu diagnóstico nenhum? — Baekhyun entortou a cabeça, achando curioso.

— Não, né, cara — Junmyeon fez soar como se fosse óbvio. — Ela ia me dizer o quê? Eu não tenho poder nenhum.

Baekhyun abriu a boca, mas não chegou a dizer nada. Ficou olhando Junmyeon mastigar o lanche enquanto seus neurônios juntavam mais pecinhas.

Quando Chanyeol e os outros garotos chegaram, Baekhyun pensou em levantar e ir embora, mas Chanyeol tinha sentado bem do seu lado e oferecido um pedaço de KitKat, então ficou. Eles eram engraçados no fim das contas, e mesmo que Jongdae ainda o olhasse torto por causa da fofoca dos poderes escondidos, sabia que poderia ser pior, então aceitou aquilo que recebeu. Pelo menos Chanyeol... Bem, acho melhor parar essa frase por aí. O protagonista tem outras coisas para se preocupar.

ALGUMAS HORAS DEPOIS

Ainda é quinta-feira

Na saída, Baekhyun alcançou Chanyeol antes que ele pudesse ter a chance de ir embora.

— Tudo bem? — Chanyeol perguntou, se virando para encarar Baekhyun com alguma preocupação no olhar.

— Não sei — Baekhyun respondeu. — Mas acho que não. Você viu que hoje o Junmyeon e a Joohyun chegaram juntos?

— Baekhyun, será que você pode esquecer essa garota por um segundo? — Chanyeol bufou, desgastado não tanto pelo assunto, mas pela forma como o amigo falava daquilo.

— Não dá! Isso é suspeito demais.

— Como pode ser suspeito? Eles moram na mesma rua e vieram pra aula juntos, é só isso. — Silêncio. Baekhyun estava com os braços cruzados, encarando Chanyeol com um bico teimoso nos lábios. — O que é, tá com ciúme, é?

— Não! — Baekhyun retornou imediatamente, mas não conseguiu não ficar meio encabulado. Ciúme do que, afinal? De quem? — Não é isso. É que a Joohyun vê quem tem poderes e quem não tem, mas não disse nada sobre o Junmyeon.

— E daí? — Chanyeol coçou uma orelha, muito perdido naquilo que o outro estava dizendo.

Baekhyun puxou Chanyeol pelo pulso e saiu andando, devagar, num trajeto mais afastado dos estudantes que iam embora.

— E daí que o Junmyeon claramente já tem poderes — Baekhyun cochichou, e Chanyeol precisou se aproximar demais dele para compreender alguma coisa. Aquilo seria estranho; a proximidade, a mão de Baekhyun no braço de Chanyeol, os sussurros... mas como era algo estritamente profissional (porque, àquela altura, já eram fofoqueiros profissionais), Baekhyun evitou pensar nos detalhes. Só continuou a falar: — Ele não conseguiu assumir o poder do pai dele porque ele já tem um poder, que provavelmente deu interferência com a... como era o nome? A fumacinha preta.

— Sim, sim — Chanyeol disse, para mostrar que estava acompanhando.

— Então! Se todo mundo sem poderes pode ser o Matéria Escura, talvez as únicas pessoas que não possam são as que já têm algum poder. Eu achei que isso fosse óbvio.

— Você é genial — Chanyeol comentou, se afastando gradativamente e colocando uma mão sobre os lábios para processar a informação. — Faz todo sentido.

— Pois é, eu até achei que o Junmyeon já soubesse disso, mas ele disse pra mim que não tem poder nenhum e que a Joohyun não falou nada pra ele também... Então ou ele realmente não tem, ou ela não viu, ou...

Pausa. Chanyeol ficou até com medo de ouvir o que vinha depois, mas como ainda era um grande curioso, apressou Baekhyun.

— Ou?

— Ou a Joohyun escondeu do Junmyeon de propósito — Baekhyun soltou, por fim.

— Ou ela simplesmente não conseguiu ver, né? — Chanyeol produziu outras hipóteses. Baekhyun era muito conspiracionista. — Ou melhor ainda: ela parou de expôr as pessoas publicamente, provavelmente porque deve ter aprendido alguma coisa com o episódio... Você sabe...

E Chanyeol apontou a mão, com a palma virada para cima, na direção de Baekhyun. O garoto não pensou duas vezes antes de dar um tapão na mão de Chanyeol, que reclamou, mas não revidou.

— Não sei, não — Baekhyun refletiu. Antes que Chanyeol escapasse das suas garras paranoicas, ele se lembrou de perguntar uma coisa: — Ei, e o Sehun? Ele conseguiu o diagnóstico?

— Ah, isso... não conseguiu, não. — Chanyeol deu de ombros. Baekhyun ficou de queixo caído. — Talvez o poder da Joohyun não seja tão confiável, sabe...

— Mas por que ela iria ver um poder que não existe?

— Sei lá. Ela falou pro Sehun que talvez tenha dado interferência, mas disse pro Jongdae que foi só uma piada.

— Ahá! — Baekhyun gritou, depois bateu as mãos. Chanyeol fez shhh para que o rapaz parasse de gritar; as pessoas estavam começando a olhar. — Viu só?! Ela tá escondendo alguma.

— Como você sabe? — Chanyeol ergueu uma sobrancelha. — Tipo, eu sei que você tem poderes pra isso, mas você nem tava lá quando ela falou essas coisas. Ela pode muito bem só ter feito uma piada, ou dito que fez só pra tirar com a cara do Jongdae.

— Tá defendendo ela tanto por quê, hein?

— E você tá perseguindo a garota por quê?

— Eu não tô perseguindo ela! Não precisa ser um gênio nem ter poderes de clarividência pra ver que ela tá tramando alguma coisa!

— Já chega, Baekhyun — Chanyeol pôs um fim na conversa com um gesto bem claro de pare. — Eu não aguento mais esses assuntos. A gente não vive num filme de suspense, ninguém vai atacar a gente no meio da rua.

Baekhyun observou atentamente enquanto Chanyeol dava um passo para trás, depois um suspiro decepcionado, afastava o cabelo com uma expressão frustrada e ia embora.

Mas nós já fomos atacados no meio da rua, pensou. Quis dizer isso. Quis correr atrás de Chanyeol e brigar com ele, discutir por mais tempo, sei lá... mas a vontade morreu cedo. Baekhyun sabia que não valia a pena.

Talvez Chanyeol estivesse certo. Baekhyun tentou se colocar no lugar do amigo, que não se lembrava do ataque e que não tinha uma vozinha irritante e insistente dentro da sua cabeça lhe dizendo que Joohyun era suspeita. É, talvez Baekhyun estivesse ficando louco. A vida não é, de fato, um filme de suspense.

E ele ainda tinha problemas maiores para resolver...

Mas, se lhe pedissem para ser sincero, ele diria que não estava nem aí.

CONTINUA NO PRÓXIMO EPISÓDIO...

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oi gente! voltando aos trilhos aqui finalmente aaa

queria dizer 2 coisas: primeiro, minhas aulas acabaram de votlar, ou seja, talvez eu não tenha tanto tempo de escrever, mas prometo não demorar demais com isso. em segundo lugar, a minha beta está se aposentando e também é uma pessoa ocupada, então sim, talvez os updates venham aí numa marcha mais lenta, mas eles vão vir. tenho fall for it bem pensadinha aqui, sem surtos. (um milagre isso, eu escrever sem surtos).

teorias sao super bem vindas!! quero ver o que vocês tão achando hehe muito obrigada as pessoas que comentam, vocês sempre fazem o meu dia aaaaa até a próxima!

ps. o cap 7 já tá feito, só falta revisar e enviar pra betagem :)

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