Episódio IV: Mudança de Foco


Todos os seres humanos têm o potencial para manipular a energia primordial.

— Você não tem uma boa conexão com ela — disse o homem, encoberto pela névoa escura e densa.

O garoto não conseguia encará-lo bem por detrás de toda aquela fumaça; o seu coração batia, vivo, mas a sua mente tinha morrido — não tinha nada nela. A única coisa que ouvia era o ecoar eterno daquela frase amaldiçoada que para todos se tinha provado verdade, menos para ele.

Todos os seres humanos têm o potencial para manipular a energia primordial.

Todos.

Menos você.

ALGUNS DIAS ANTES

Domingo

Baekhyun tinha ido longe demais e sabia disso.

Sentado de frente para a tarefa de matemática, encarava a porta do quarto como se quisesse que o tempo passasse para que ele não precisasse mais terminar aqueles cálculos — quase como se esperasse que a aula acabasse para poder ir para casa. Mas não tinha aula nenhuma e Baekhyun já estava em casa, além de que a sua mãe não tinha gostado nem um pouco de como as notas andavam aparecendo.

Teve que recusar o convite de Chanyeol para passar o sábado na casa dele, porque estava de castigo e não podia passar nem cinco minutos num lugar que não fosse a escola ou o seu quarto. Se soubesse a quantidade de tempo que o garoto tinha gastado até tomar coragem para enviar uma mensagem, talvez tivesse reconsiderado...

Mas já tinha levado uma bronca enorme por ter demorado para entrar no carro quando a mãe o foi buscar na sexta-feira, uma vez que o castigo também incluía a proibição de andar pela cidade a pé, então não queria arriscar pedir nada pra ela.

Sinceramente, Baekhyun estava cansado, com vontade de sumir; mas nem sumir podia — se ficasse invisível no meio de uma briga, a mãe aumentava o castigo.

Se sentia muito mal pela nota que tirou em química. Cinco e três décimos; nem cinco e meio tinha conseguido. E ainda tivera a pachorra de ensinar química para os amigos de Park Chanyeol no dia anterior, como se soubesse muito! Talvez tivesse cedido todo o seu conhecimento para eles, porque, aparentemente, todos foram muito melhores que ele — até mesmo Chanyeol, que nem tinha olhado o resultado ainda. Baekhyun não precisava ver a nota pra saber que ele tinha se saído bem.

Além de tudo isso, ainda tinha exposto seu segredo fatal — o sobre ter poderes — para mais uma pessoa.

Baekhyun não achava grande coisa, pra falar a verdade; os seus poderes eram apenas uma leve conveniência que não lhe trazia problemas, mas a sua mãe não gostava que soubessem, então ele os escondia o máximo que conseguia. Mesmo assim, todas as suas amigas sabiam; e, agora, Chanyeol.

O rapaz tinha reagido até que bem, na opinião de Baekhyun, mas isso levando em conta que os dois já tinham passado por algumas coisas juntos (a queda teatral do Matéria Escura aos seus pés).

Parando pra pensar, talvez realmente fossem uma equipe — Baekhyun achou bobo quando ouviu da boca de Chanyeol, mas ele não estava totalmente errado. Baekhyun também não desaprovava por completo a ideia de formar um time com Park Chanyeol — uma parceria —, mas sempre que lembrava que Chanyeol tinha se declarado para ele na primeira vez em que tinham passado mais de uma hora juntos, ficava todo encabulado.

Ninguém nunca tinha notado Baekhyun por tempo suficiente para começar a gostar dele e, honestamente, era assim que as coisas deveriam ser. O único plano de Baekhyun era chamar a menor quantidade de atenção possível, e até em ser insignificante tinha falhado.

O pensamento o prendeu por um instante, triste realização.

Talvez a sua mãe estivesse certa...

NO DIA SEGUINTE

Segunda-feira

Baekhyun piscou, distraído. Olhou em volta, para a manada de alunos vagarosamente caminhando até as salas, rumo à primeira aula do dia. Já era segunda outra vez...? Só depois de levar um cutucão é que percebeu que Yerim tinha feito uma pergunta.

— Desculpa, o que você disse?

— Tem como você ir comigo até a casa da Sooyoung hoje? — ela repetiu, arrumando o cabelo e ajeitando a mochila. — É meio longe, e é sempre mais seguro andar por aí com você, cê sabe...

Ele sabia.

Baekhyun continuou em silêncio, andando lentamente para pensar no assunto, mesmo que não tivesse nada a se pensar — a sua mãe nunca ia deixar. Ela não sabia que ele usava seus poderes para andar por aí com as amigas, e se algum dia descobrisse, o castigo iria durar pra sempre.

— Acho que não vai dar — respondeu finalmente. — Foi mal. Ainda tô de castigo.

— Tudo bem, eu peço um Uber. — Yerim deu de ombros, mudando de assunto logo em seguida: — Como foi o fim de semana?

Baekhyun suspirou.

— Ruim, né. Passei sábado e domingo fazendo revisão, tô quebrado. — E passou uma mão no ombro esquerdo, dolorido, consequência de ter dormido de mau jeito. Ao desviar o olhar levemente, avistou Park Chanyeol e Kim Junmyeon a alguns segundo-anistas de distância. — Já volto, só um minuto.

Pediu licença algumas vezes para alcançar os dois rapazes, e assim que Chanyeol notou a sua presença, parou de andar.

— Oi, Chanyeol — Baekhyun cumprimentou. — Junmyeon — acrescentou nervosamente, mas logo voltou a atenção ao seu parceiro de crime. — A gente pode conversar mais tarde?

— Claro — Chanyeol concordou imediatamente, um sorriso crescendo devagar em seu rosto. — Se quiser, pode passar o intervalo com a gente. C-Com as suas amigas também, claro. E com a gente.

— Beleza. — Baekhyun riu da agitação de Chanyeol, reparando algo de diferente nele. — Você fez alguma coisa no cabelo?

— Ah, sim! Eu cortei um pouco — explicou orgulhosamente, passando os dedos pelos fios castanhos. — Na verdade, o Junmyeon que cortou.

— É — Junmyeon confirmou, ficando ainda menor com toda a atenção voltada pra ele. Parecia até mais tímido do que quando não se conheciam, foi o que Baekhyun notou, mas não deu tempo de falar nada a respeito porque precisaram correr para alcançar os outros alunos.

Assim que chegou na sala do segundo ano C, Baekhyun sentou, se aprumou na carteira, tirou o caderno de química da mochila e, ao invés de copiar a matéria, ficou encarando as linhas vazias, pensando longe... Se a mãe o estivesse vendo, não pararia de falar para o resto da vida. Tá vendo? Por isso que não tira uma nota boa!

Realmente foi passar o intervalo com Chanyeol naquele dia, e na terça-feira também. Levou Yerim a tiracolo nas duas ocasiões, porque ela conversava pelos cotovelos e era ótima quebrando o gelo. Além do mais, tinha medo de acabar sobrando no grupo de amigos de Park Chanyeol, mas não foi o que aconteceu.

Sehun falava bem mais do que aparentava e, pelo visto, adorava usar camisetas de super-herói. Jongdae era engraçado, mas não tanto quanto o próprio Chanyeol, que fazia tudo de um jeito adorável. Até Yerim tinha percebido.

Junmyeon era, expectavelmente, tranquilo e silencioso, mas sempre parecia estar incluído. Ouvia atentamente e, quando participava, todos prestavam atenção.

Infelizmente, Baekhyun não tinha tido oportunidade nenhuma de ficar a sós com Chanyeol — não que ele quisesse! Quer dizer, ele queria, mas por razões estritamente profissionais. Não eram uma equipe? Então: Baekhyun já estava tratando o assunto como um emprego.

Na quarta-feira, Baekhyun e Chanyeol já tinham virado carne e unha — farinha do mesmo saco —, e Baekhyun era constantemente zoado por Seulgi por causa disso.

— Tem certeza que você esqueceu o que ele te pediu pra esquecer? — ela alfinetou, escondendo o rosto atrás de um livro sobre botânica. A biblioteca estava vazia, exceto por eles, dois alunos muito dedicados fazendo pesquisas científicas em livros hiper ultrapassados.

— Para, Seulgi! — Baekhyun reclamou, o mais baixo que pôde. — Concentra no trabalho!

— Não consigo. — Ela riu. — Ai, mas falando sério, você pode assumir se tiver gostando dele. Não te julgo!

— Maldita hora que eu fui te dar detalhes... você não falou isso pra mais ninguém, né?

— Claro que não! — Seulgi retornou, ofendida. — Quem você pensa que eu sou? Eu sei guardar segredo, tá?

— Vou ver se eu acredito — debochou, tirando o livro das mãos da amiga e colocando de volta na estante. O trabalho nem era sobre botânica. — Mas eu tenho certeza dos meus sentimentos, e no momento eles não existem.

— Ai, no momento, no momento... — ela imitou. — Fofo. Mas ó, também não vai dar esperança pro garoto, tá? Se você não acha que pode corresponder os sentimentos dele, talvez não seja a melhor ideia você se aproximar dele.

— Ele sabe que não vai rolar. Não foi ele que me pediu pra esquecer o assunto?

Seulgi revirou os olhos e seguiu Baekhyun por entre as prateleiras, malemá tocando em alguns livros só para fingir que estava fazendo alguma coisa.

— Não significa nada. Ele pode ter dito porque ficou com vergonha. Você não falou que literalmente saiu correndo quando ele confessou?

Baekhyun parou por um instante, a cena ainda fresca na memória. Lembrou-se imediatamente do que tinha acontecido em seguida — o Matéria Escura despencando de cima de um prédio —, e como aquele acontecimento talvez tivesse sido a única razão pela qual tinha olhado nos olhos de Park Chanyeol uma segunda vez.

— Exatamente — Baekhyun resolveu usar aquele fato a seu favor. — Ele sabe que isso não vai dar em nada.

— Mesmo assim — Seulgi se manteve firme no seu julgamento. Ela tinha um pouco de razão. — Ainda é um movimento arriscado.

Todavia, Baekhyun e Chanyeol não tinham apenas aquele assunto selando o elo entre eles. Também tinham o Matéria Escura.

ALGUNS MINUTOS MAIS TARDE

Quarta-feira, aula de Biologia

Baekhyun pôs o jaleco na velocidade da luz e aproveitou que todos estavam de pé, distraídos com seus trajes de laboratório, xuxinhas de cabelo e fofocas de terceiro-anistas, para puxar Park Chanyeol pelo braço e garantir que fossem os primeiros a sair da sala.

— Espera, eu não peguei meu caderno... — Chanyeol tentou, mas foi interrompido por um Baekhyun que andava rápido demais.

— Eu te dou uma folha do meu!

— E o meu estojo também...

— Eu tenho uma caneta a mais. Vamos por aqui, ó!

Subiram as escadas para o segundo andar e pegaram o caminho mais longo para o laboratório, passando pela entrada da sala dos professores e da biblioteca, onde ficavam as salas dos terceiros anos.

— A gente precisa falar sobre o Junmyeon — Baekhyun declarou, em algum lugar entre a sala do terceiro B e C.

Chanyeol fez uma cara confusa e levou alguns segundos para raciocinar.

— Ok. Mas antes, você tem elástico de cabelo?

Baekhyun suspirou, cansado, mas entendeu a situação. Não deveria ter tirado Chanyeol da sala com tanta pressa, só que não tinha outra opção. Só podia falar com ele na escola enquanto o castigo perdurasse.

— Não tenho, mas a professora deve ter quando a gente chegar no laboratório.

— Beleza... — Chanyeol deixou cair os ombros, evitando o contato visual, parecendo nervoso... Só aí é que Baekhyun reparou que ainda segurava o braço dele. Tratou de soltar imediatamente. — E sobre o que você quer falar? O que o Junmyeon fez?

— Nada — ele foi sincero. — Mas você não achou nem um pouquinho esquisita aquela dinâmica entre ele e o primo dele? Tipo, o Junmyeon ajuda o Matéria Escura a treinar...?

— O Dongwoo disse que o Junmyeon tava se preparando pra assumir — Chanyeol justificou, não muito seguro do que Baekhyun queria transmitir. — Por que você diz isso?

— Acho que a gente deveria ver isso com mais cuidado. Quer dizer, não é perigoso um adolescente estar envolvido nisso? Ainda mais a gente sabendo que o Matéria Escura tá na ativa e que o Junmyeon acompanha ele?

— Faz sentido... — Chanyeol parou para pensar, pondo a mão no rosto. Parecia um médico analisando o quadro clínico de um paciente. — Só não sei se faz sentido a gente se meter nisso. Se o problema é ter um adolescente envolvido, por que a gente vai envolver mais adolescentes no assunto?

— Você não se preocupa com os seus amigos?

— É claro que eu me preocupo! — Chanyeol bradou, subitamente ofendido. — É só o que eu faço! É só o que eles me trazem, também: preocupação. Só que o Dongwoo disse pra gente esquecer o assunto e...

— E por que você tá levando isso em conta? O Junmyeon pode estar tendo mais responsabilidades do que ele pode suportar, e nesse exato momento! A gente não pode só chamar o conselho tutelar... Talvez a gente seja as únicas pessoas que podem fazer alguma coisa sobre isso.

— Verdade. Você tem razão. — A expressão de Chanyeol tornou-se séria e as suas mãos se fecharam em punhos. Se ele fosse o protagonista de um filme de herói, talvez essa fosse a parte em que cortaria para uma cena dele em ação, bolando um plano cheio de fases ou montando seu figurino de herói para fazer coisas heroicas. Baekhyun conseguia visualizar aquilo muito bem. — Eu vou conversar com ele sobre isso.

— Epa, eu também quero conversar com ele! Quer dizer, eu quero estar lá, né... a gente não era uma equipe?!

— É... — Chanyeol coçou a nuca, meio incerto. — Mas não sei se a sua presença vai ajudar muito. Ele é meu amigo, no fim das contas.

— E eu sou o quê? — Baekhyun cruzou os braços. Chanyeol ficou vermelho. Bem, talvez não tivesse sido a melhor das perguntas a se fazer no momento, mas a resposta de Chanyeol foi objetiva:

— O cara com quem eu vi um herói cair do céu. — Estalou a língua, como se aceitasse uma verdade difícil de engolir. — Tá, talvez seja destino mesmo. Agora, acho melhor a gente ir pra aula logo.

— A aula!

E saíram correndo.

NO DIA SEGUINTE

Quinta-feira, intervalo

Baekhyun cutucou Chanyeol no estômago, apreensivo.

— O que eu digo?

— Calma! — Chanyeol pedia repetidamente, tentando pensar. — Eu falo, você concorda.

Baekhyun deu um tapa na própria testa; que desastre, que desastre...!

Não tinham combinado nada com antecedência, e Baekhyun tinha medo de ficar muito óbvio para Kim Junmyeon que eles queriam meter o bedelho na história ao invés de simplesmente esquecerem o assunto, como o próprio Matéria Escura tinha sugerido.

Por sorte, Baekhyun passar o intervalo com os amigos de Chanyeol já não era mais algo tão esquisito assim. Já tinha até uma piada interna com Sehun.

— Vai fazer o que essa semana, Junmyeon? — Chanyeol perguntou, casualmente. Baekhyun só ouviu porque estava prestando atenção, mas fingiu que não estava enquanto ria de alguma história mentirosa que Jongdae contava.

— Terminar o trabalho de biologia, começar a quarta temporada de Atypical... e você?

— Ai, o trabalho de biologia... — Chanyeol pôs as mãos na cabeça, frustrado por antecipação. — Tinha esquecido disso.

— A minha sala tá fazendo sobre botânica, e a de vocês?

— Organelas e outras coisas horríveis. Mas, ei, eu queria te fazer uma pergunta.

Baekhyun apurou os ouvidos. Que tipo de desculpa Chanyeol usaria?

— A gente queria saber como o seu primo treina... — E pelo visto a estratégia era não usar desculpa nenhuma. — A gente: eu e o Baekhyun, né — corrigiu.

— Vocês dois, hein... — Junmyeon deu uma risada curta, mais surpresa do que debochada. — Assim, eu posso mostrar pra vocês algumas coisas, tipo o Livro e tal...

Tem um livro?! — Chanyeol sussurrou, interessadíssimo. Junmyeon se afastou um pouco, discreto, para que conversassem com mais privacidade.

— Tem. Eu não posso mostrar coisa demais pra vocês, senão meu primo me mata, mas tem muita coisa da hora, vocês vão adorar — fez uma pausa. — Vocês não falaram pra ninguém, né?

— Não, não — Chanyeol assegurou. — Não teria tanta graça se mais gente soubesse.

— Além de ser arriscado. — Junmyeon puxou a orelha de Chanyeol, que às vezes se preocupava com as coisas menos preocupantes. — Vocês podem passar lá em casa na quarta que vem. O Dongwoo trabalha até mais tarde e vocês podem almoçar lá também. Ah! E leva o seu Uno!

Chanyeol assentiu, depois mudaram de assunto enquanto voltavam para a sala. Baekhyun os seguiu, já que não tinha muito mais o que fazer, e se aproximou de Chanyeol assim que Junmyeon entrou na sala dele. Os dois rumaram para o segundo ano C lado a lado.

— Cara, isso foi muito fácil — Baekhyun comentou. — Eu tava esperando uma operação completa. Sei lá, uma coisa complicada!

— Por quê? — Chanyeol parecia confuso. — É o Junmyeon, ele adora falar sobre poderes e a coisa toda. Parando pra pensar, talvez seja por isso... quanta coisa ele não deve saber sobre...

— Mas ele liberar toda a informação assim pra gente é meio suspeito — Baekhyun insistiu, ainda seguindo Chanyeol. Sentou-se na cadeira de Jongdae até que o professor finalmente aparecesse. — Isso não devia ser um segredo?

— Baekhyun, a gente já sabe uma penca de coisa. Além do mais, você não ia ficar doido pra contar pros seus amigos se tivesse um primo herói?

Baekhyun sentiu a espinha arrepiar com aquela ideia. Chanyeol parecia tão tranquilo que o garoto não sabia dizer qual dos dois era o maluco da ocasião — ele, por desconfiar de todo mundo, ou Chanyeol, que agia como se tudo fosse uma visita ao parquinho.

— Se eu tivesse um primo herói, eu ia ficar desesperado.

— Você mesmo me contou sobre o seu... — E fez um gesto vago. — Muito fácil.

— Mas eu falo isso pra todos os meus amigos! Ah... — Baekhyun coçou a nuca quando reparou. — Ok. Você venceu. Mas ainda assim, eu só falo porque eu sou um irresponsável. A minha mãe me mata se ela descobre que mais alguém sabe disso.

— Você e o Junmyeon são iguaizinhos, então.

Chanyeol sorriu, sabendo que tinha vencido, então pôs o cabelo atrás da orelha e olhou para o caderno, preparando-se para a aula de história.

Baekhyun ficou olhando Chanyeol organizando as canetas, escrevendo a data, rabiscando o canto da página para fazer a caneta funcionar. O cabelo já não caía tanto na cara dele, mesmo que ainda estivesse com um comprimento próximo do que era antes — acima do ombro. Junmyeon, aparentemente, só tinha passado a tesoura na parte da frente. Talvez fosse uma tentativa de mullet... Qual a chance de Chanyeol planejar cortar um mullet gradativamente para que seus pais não percebessem de cara? Baekhyun não conhecia o rapaz tão bem assim, mas algo o dizia que era bem provável. Deu uma risadinha pensando naquilo.

— Vai morar aí? — com essa frase, Jongdae cutucou Baekhyun sem tocá-lo. Quando o intruso finalmente reparou que o professor já tinha chegado e ele ainda estava ocupando a carteira de Jongdae, levantou-se imediatamente.

— Foi mal — pediu, sem saber se estava ficando vermelho ou não, mas esperando que não estivesse na cara o fato de que tinha se distraído legal. Há quanto tempo Jongdae estava ali, de braços cruzados, olhando pra ele?

O dono do lugar não parecia zangado. Mesmo assim, Baekhyun não gostou do sorrisinho que recebeu de Kim Jongdae quando foi embora.

UM FIM DE SEMANA MAIS TARDE

Segunda-feira

— Falou com a sua mãe?

Baekhyun negou a pergunta de Chanyeol sem dizer nada, ainda mastigando a comida. Tinham, pela primeira vez, sentado na mesma mesa na hora do almoço. Ainda que já tivessem compartilhado intervalos — e ele estaria mentindo se dissesse que não estava achando esquisito —, almoçar num grupo diferente era uma novidade meio azeda, ansiosa.

Tinha sentado bem na ponta da mesa grande que Sehun conseguiu reservar para acomodar todos — desde o falatório de Jongdae até a calmaria de Seulgi —, e Chanyeol tinha sentado justamente do seu lado.

Mas o desconforto vinha, na verdade, do assunto que Chanyeol tinha puxado. Mais ninguém prestara atenção na pergunta, pelo visto, o que era bom — só que Baekhyun não era uma pessoa tão tranquila assim.

Fez uma tentativa, todavia.

— Não falei com ela — respondeu num volume tão baixo que Chanyeol precisou abaixar a cabeça e se aproximar dele para entender. — O meu castigo também não terminou ainda. Vou ter que inventar uma desculpa pra ela me deixar sair.

— A gente também pode marcar pra outro dia — Chanyeol ofereceu uma alternativa, mas Baekhyun negou outra vez.

— Eu vou falar com ela hoje, não se preocupa.

ALGUMAS HORAS MAIS TARDE

Segunda-feira, jantar

Baekhyun não tinha tanta certeza de que iria falar com a mãe sobre aquele assunto.

Tinha passado dias e dias ensaiando a mesma frase na cabeça, mas em nenhum momento tinha conseguido externá-la. A mãe não estava mais tão brava, e não era como se ela fosse se transformar num monstro quando Baekhyun dissesse "então, será que eu posso sair na quarta-feira?", contudo, a sensação de incômodo perdurava.

O máximo que poderia receber, no ato, era um não; mesmo assim, ela ainda poderia usar isso contra Baekhyun no futuro. "Por isso que as suas notas caem tanto, você só pensa em bater perna!", ou algo do tipo. Sendo sincero, era imprevisível, mas Baekhyun estava com uma ideia muito clara na cabeça.

Tinha até dito para Chanyeol por mensagem: estavam investigando o Matéria Escura, era esse o objetivo deles. Chanyeol discordava: para ele, estavam apenas se certificando de que Junmyeon estava bem, e não se ocupando com coisas demais. Chanyeol era tão ingênuo.

(E Baekhyun tinha mania de achar que não era.)

— Mãe — ele chamou, antes de terminar a refeição, finalmente tomando coragem para dizer o que queria. A mãe olhou em sua direção com uma expressão neutra. — Eu posso ir na casa de um amigo na quarta-feira depois da aula?

— Que amigo? — A mãe ergueu uma sobrancelha, analisando a situação.

Baekhyun não tinha se tocado que ela faria aquela pergunta, então resolveu falar a verdade para não comprometer a sua credibilidade. Estava fazendo tudo certinho.

— O Junmyeon. A gente vai revisar umas matérias pra prova de biologia.

— Esse é aquele mesmo menino que te chamou pra almoçar na casa dele esses dias?

— É.

— Se é pra estudar, eu deixo. — Ela deu de ombros, terminando a refeição. — E vê se tira uma boa nota em biologia dessa vez. Não adianta ir estudar na casa dos outros se for pra ir mal nas matérias. A gente já conversou sobre isso, não conversou?

Ele concordou, surpreso e aliviado. Tinha sido tão fácil que Baekhyun até estranhou — a sua mãe não tinha ficado irritada, nem mencionado o castigo. Talvez tudo estivesse voltando ao normal, no fim das contas.

Quando foi para o quarto, na hora de dormir, enviou uma mensagem para Chanyeol. Ela deixou, era só o que dizia. Minutos mais tarde, recebeu uma figurinha de um cachorro dançando — pelo visto, Chanyeol tinha ficado feliz.

DOIS DIAS DEPOIS

Quarta-feira

— O Junmyeon disse que não vai dar pra levar a gente porque quem busca ele na escola é o Dongwoo, e o Dongwoo não sabe que a gente vai pra lá, sabe? — Chanyeol comunicou enquanto saíam da sala de aula. — A gente vai ter que ir a pé... se não for problema pra você, claro!

— Tá tudo bem, cara. Eu gosto de andar a pé — Baekhyun falou, simples.

— Okay...

Chanyeol não conseguia esconder o nervosismo. Olhava para baixo, tentando focar a atenção nos passos que dava, e o cabelo acabava caindo na frente do seu rosto da mesma forma como Baekhyun já presenciara milhares de vezes. Não estava mais tão comprido, então a franja não chegava a encostar nos cílios, mas não era por isso que Baekhyun tinha deixado de achar agoniante a imagem de Chanyeol atrás dos fios. Realmente tinha passado a gostar; combinava com ele.

Chanyeol pediu para Baekhyun sair da escola primeiro para que Jongdae não percebesse que tinham ido embora juntos. Baekhyun achou graça naquela preocupação, mas fez mesmo assim; talvez fosse até melhor. Desse jeito, Seulgi também não iria reparar que tinham saído juntos, então não precisaria ser zoado pela amiga por coisas que não estavam nem próximas daquilo que Baekhyun e Chanyeol estavam fazendo. Talvez Chanyeol achasse o mesmo.

— Vamos? — Chanyeol abriu um sorriso tímido, encarando Baekhyun com hesitação.

Baekhyun retribuiu o olhar, achando aquilo tudo muito familiar — os dois, caminhando lado a lado, indo a algum lugar, rodeados por um silêncio irritante e insistente.

Andaram por alguns minutos em silêncio total. Baekhyun apenas seguia Chanyeol, e já estava quase decorando o caminho quando ouviu:

— Você tá usando os seus poderes agora?

Baekhyun parou abruptamente, surpreso pela fala, mas retomou o passo logo em seguida.

— Não — respondeu. — Por quê?

— Ah, sei lá... — Chanyeol coçou a nuca. — Quer dizer, eu supus que os seus poderes são de invisibilidade; quer dizer... — e interrompeu a própria fala — ...não sei se você gosta que falem assim dos seus poderes, na sua frente.

— Pode falar, não tem problema. E, bem, teoricamente meus poderes são de invisibilidade, mas não isso.

Chanyeol fez uma cara de quem tinha acabado de descobrir um novo mundo. Baekhyun já esperava aquele tipo de reação dele.

— Pois é. Você também disse que usou eles naquele dia em que me levou em casa, mas eu parei pra pensar depois e fiquei confuso... você usou só pra ir embora ou quando tava andando comigo também?

— Usei quando tava andando com você.

— Então a gente tava invisível?!

Chanyeol arregalou os olhos numa empolgação extremamente característica. Baekhyun não sabia se ia conseguir se acostumar com aquela energia toda que Chanyeol tinha pra falar de poderes e heróis.

— Não — Baekhyun retornou, esperando que a expressão de Chanyeol fosse do teto ao chão, decepcionada. Entretanto, o rapaz ficou ainda mais atento. — Eu consigo ficar invisível e consigo meio que expandir o meu poder pra fazer outra pessoa ficar invisível comigo, mas não completamente. É difícil de explicar. — E parou de caminhar por um instante, tentando organizar as ideias. Nunca realmente lhe ensinaram nada sobre seus poderes; precisou descobrir tudo sozinho. — As pessoas continuam podendo ver eu e a pessoa que tá comigo, mas elas não se importam. É como se a gente ficasse subitamente desinteressante. A maioria nem é capaz de notar, então é meio que uma invisibilidade incompleta.

Chanyeol parecia fascinado.

— Por isso você não tem medo de nada! — exclamou, batendo o punho direito na palma da mão esquerda, como se gritasse bingo!; Baekhyun riu. — É tipo uma camuflagem, então?

Baekhyun passou uma mão no rosto, pensando.

— Não sei. Acho que não.

Fizeram uma pausa maior e voltaram a prestar atenção no caminho. Baekhyun achou que a conversa já tinha acabado, então estava pronto para puxar outro assunto, mas Chanyeol abriu a boca antes dele.

— Eu sempre quis ter poderes — confessou. Baekhyun não disse nada, querendo ouvir mais sobre aquilo.

Na verdade, quando era mais novo, Baekhyun costumava odiar o papo das outras crianças sobre querer ter poderes — não era algo legal — ou sobre querer ser um herói — não era nem um pouco legal. Ele nunca tinha sido um herói na vida, mas sabia que não era a melhor das carreiras. Quando cresceu mais um pouco, passou a entender as crianças que diziam aquilo; na TV, era lindo ter poderes, era lindo ser herói. As crianças não tinham culpa.

— Quando eu era menor, tinha uma época em que eu realmente achava que tinha poderes — Chanyeol prosseguiu; um sorriso nostálgico no rosto. — Tipo, acho que uma vez eu mexi com a mão ao mesmo tempo em que o vento soprou um pouco mais forte, aí fiquei pensando que era um superpoder acordando. Não falei pra ninguém, acho que porque no fundo, no fundo eu sabia que não tinha condição de ser real, sabe? Ninguém na família tem poderes. Eu ia ser o primeiro. Aí eu mantive isso só na minha imaginação.

Baekhyun não sabia muito bem o que dizer.

Olhou para as próprias mãos, relembrando os momentos da sua vida. A sensação de entender que tem poderes era única, mas aterrorizante.

— Meu pai tinha poderes.

Chanyeol ergueu as sobrancelhas e depois comentou "que legal", como se encorajasse Baekhyun a falar mais sobre aquilo. Foi só nesse momento que Baekhyun percebeu que tinha dito aquelas palavras. Se arrependeu na hora por ter falado mais do que a própria boca e não deu continuidade à linha de raciocínio.

— Ei, o Junmyeon tem poderes? — Baekhyun perguntou, subitamente, depois de se lembrar de um detalhe.

— Acho que não, por quê?

— Porque o Matéria Escura disse que ele tava se preparando pra assumir o posto, você lembra?

— Você pode chamar o cara de Dongwoo, é o nome dele — Chanyeol debochou. Baekhyun virou os olhos. — Olha, mas eu acho que ele não tem poderes. Talvez seja um desses poderes que precisam de ritual de posse pra passar de uma pessoa pra outra, que nem herança de família.

Baekhyun deu de ombros, aberto àquela possibilidade, mas sem achar muito provável. Poderes como aqueles eram muito raros, e só aconteciam com habilidades descomunais, gigantescas. O Matéria Escura fazia coisas incríveis, é claro, mas a base dos seus poderes até que era bem simples. Baekhyun fez um trabalho escolar sobre o herói no quinto ano — o Matéria Escura era tão poderoso por causa das táticas e técnicas que empregava muito mais do que pelo tipo dos seus poderes, que tinha muitas limitações.

— Talvez ele não tenha poder nenhum mesmo — Baekhyun concluiu em voz alta, sem perceber. — Ele não parece esconder nada.

— Detecção de mentiras é uma parte do seu poder também? — Chanyeol fez uma piadinha inocente; Baekhyun até riu, mas só pra fazer o engraçadinho cair do cavalo, respondeu:

— É.

— É sério?!

— Mais ou menos.

Chanyeol deu outra risada; uma bem mais gostosa dessa vez.

— Tudo é mais ou menos com você, né?

— É que, assim, eu não sei quando alguém tá mentindo — Baekhyun explicou. — Só quando tão escondendo alguma coisa.

— Ou seja, quando tão mentindo.

— Não é tão simples; mentir não equivale sempre a esconder alguma coisa, e às vezes as pessoas escondem coisas sem precisar mentir. Tipo, eu só vou saber se você quiser que eu não saiba de algo; se você estiver mentindo pra desviar a minha atenção de uma coisa que você não quer que eu saiba.

— Isso é bem específico. — Chanyeol fez uma cara confusa. — E mesmo assim eu ainda não entendi.

— Por exemplo, quando você me chamou pra ajudar os seus amigos com química, você não mentiu nenhuma vez... eu acho — acrescentou rapidamente, olhando pra Chanyeol com uma cara de desconfiança exagerada. Chanyeol morreu de rir.

— Eu não menti mesmo não!

— Mas mesmo assim você escondeu de mim uma coisa, e eu vi isso — finalizou, ficando instantaneamente vermelho ao lembrar do que Chanyeol estava escondendo dele naquela ocasião. — Só que, assim, imagina que uma pessoa teve noventa e cinco curtidas no Instagram, mas fala pra mim que teve cem só pra parecer mais legal. É muito provável que eu não perceba, porque ela não falou pra esconder o número de curtidas, só pra inflar um pouco a imagem dela, sabe?

— Isso, estranhamente, faz um pouco de sentido — Chanyeol passou a mão no cabelo como se fosse prendê-lo num rabo de cavalo, mas soltou depois. Talvez fosse um tique de quando estava pensando. — Mas e se essa pessoa tem vergonha das noventa curtidas dela e não quer que você saiba?

— Aí, nesse caso, eu vou saber que ela tá escondendo alguma coisa.

— Então se eu tivesse sido super tranquilo sobre gostar de você e não super paranoico, sem querer que você soubesse, você não ia reparar que eu tava escondendo alguma coisa?

Silêncio.

— É-É só uma dúvida — Chanyeol tentou explicar.

— Eu entendi. — Baekhyun riu, nervoso. — Acho que nesse caso eu não iria reparar. É tudo sobre como a pessoa se sente em relação àquilo, sabe? Quer dizer... — e fez uma pausa antes de continuar. — Não, nem eu entendo direito. Eu nunca fiz aquelas aulas preparatórias em que te ajudam a descobrir como funcionam os seus poderes, sabe? Mesmo precisando muito. Minha mãe acha melhor simplesmente fingir que eles não existem.

— Isso é meio triste — Chanyeol acrescentou.

— Não é não. Ela tem as razões dela, e eu honestamente concordo.

— Isso é por causa do seu pai?

Baekhyun quase vomitou o próprio estômago. Como Chanyeol tinha feito a conexão? E ainda tinha a pachorra de olhar nos olhos dele daquele jeito simples, direto, quase terno. Talvez Baekhyun estivesse subestimando a capacidade cognitiva das pessoas... ou talvez Chanyeol realmente tivesse poderes de adivinhação. De um jeito ou de outro, resolveu não responder — nem conseguiria, se tentasse. Já tinha falado muito sobre si mesmo para as suas amigas, mas nunca tinha chegado nessa parte da história — não daquele jeito, não tão rápido. Parecia que estava numa sessão de terapia.

Chanyeol provavelmente notou que não iria ouvir mais do assunto e sabiamente desistiu do tópico. A próxima coisa que falou foi apenas para avisar que tinham chegado.

A casa de Kim Junmyeon sempre foi daquele jeito? Baekhyun ficou confuso até perceber que estavam na rua de trás, entrando pelos fundos. Chanyeol mandou uma mensagem no celular e esperaram até que alguém abrisse a porta. O próprio Junmyeon os convidou a entrar.

— Vem, vamos almoçar — falou, botando os dois amigos para dentro. Baekhyun olhou em volta, mas não reparou em muita coisa, porque não sabia o que dizer e queria fingir que estava pensando em alguma coisa.

— O seu primo tá trabalhando? — Chanyeol perguntou, tirando a mochila das costas e colocando entre a geladeira e a parede; pelo visto, tinham entrado pela cozinha.

— É, ele almoçou mais cedo e só passou aqui pra me deixar em casa mesmo.

Baekhyun acompanhou a conversa sem dar muitos palpites; desde que chegou, não tinha dito nada que não fosse um cumprimento ou uma risada educada. Colocou a mochila do lado da mochila de Chanyeol e almoçou em silêncio, divagando na maior parte do tempo. Estava curioso. O que Kim Junmyeon iria mostrar para eles? Não conseguia tirar as possibilidades da cabeça.

Odiava ser tão previsível como todos os garotos da sua idade. Por exemplo, sabia que Chanyeol também estava doido pra ver o tal livro que Junmyeon prometeu mostrar — e Chanyeol nem fazia questão de esconder a empolgação —, e também sabia que Junmyeon queria falar sobre os assuntos que o seu irmão lhe proibiu de mencionar, tudo de uma vez só — Baekhyun era mais ou menos assim com seus poderes.

Contudo, lá no fundo, ecoava um sussurro de consciência que acabava com toda a jovialidade das expectativas de Baekhyun. Desde muito cedo, a mãe o encorajava a não deixar ninguém sabendo sobre os seus poderes, para que não terminasse como o pai, mas Baekhyun não conseguia evitar a vontade de falar sobre aquilo de vez em quando — ainda mais para os seus amigos! Afinal, por que esconderia suas habilidades se poderia usá-las para ajudar as pessoas de quem mais gostava? Fazia sentido, só que Baekhyun não gostava muito daquela lógica. Era heroica demais, e os heróis só usam esse pretexto de "ajudar os outros" para justificar as atrocidades que fazem quando ninguém está olhando.

Ninguém quer ajudar ninguém no mundo dos heróis.

Quando terminaram de almoçar, foram para o quarto de Junmyeon. Era espaçoso, a cama estava feita, e o guarda-roupas parecia estar na família havia três gerações, porque ali moravam pelo menos três gerações de figurinhas de caderno. Também havia uma escrivaninha com o computador e uma cadeira de rodinhas, que Baekhyun achava sensacional, mas sempre se distraía quando sentava numa dessas. Passava mais tempo girando do que fazendo qualquer outra coisa.

Junmyeon disse que podiam se sentar onde quisessem; Baekhyun estava mirando na cadeira de rodinhas, mas Chanyeol entrou na sua frente e conseguiu chegar nela primeiro. Derrotado e sem a coragem de falar qualquer coisa, sentou na cama de Junmyeon, esperando o dono da casa tirar alguma coisa do topo do guarda-roupa.

Junmyeon pôs um livro e um caderno em cima da cama e sentou no chão, com os braços apoiados no colchão. Chanyeol e Baekhyun se aproximaram ao mesmo tempo.

— Esse é o Livro. — O rapaz apontou para o objeto, de capa escura e misteriosa. As páginas eram amareladas e pareciam bem grossas, olhando daquele ângulo, mas Junmyeon não abriu o livro para que Baekhyun comprovasse o seu chute. — Não posso abrir pra vocês, é contra as regras.

— Isso tudo já não é contra as regras...? — Baekhyun questionou, usando o indicador para apontar para as três pessoas na sala. Chanyeol olhou para ele como se achasse que seria melhor se tivesse ficado quieto, mas Junmyeon só deu uma risadinha.

— Não, não é contra as regras do Livro. Só contra as regras do meu primo... — E fez uma cara desgostosa, irritada. Baekhyun entendeu, então, que os dois não deveriam se dar muito bem quando o assunto era esse. — Esse aqui é o caderno em que eu fazia as minhas anotações quando eu estava estudando — Junmyeon mudou de assunto. Folheou o caderno, cheio de rabiscos e desenhos com setas e círculos interessantes.

— Estudando pra quê? — Chanyeol perguntou, rápido para pegar o caderno na mão. Baekhyun já estava vendo que ele se apossaria de tudo se não dissesse logo que também queria olhar as coisas. — Estudar pra ser o Matéria Escura?

Junmyeon assentiu com a cabeça, ficando meio vermelho, envergonhado talvez pela atenção. Chanyeol se distraiu com a informação e largou o caderno; Baekhyun foi ainda mais rápido para pegá-lo na mão.

— Cara, isso é incrível! Você quase foi o Matéria Escura! — Chanyeol exclamava, de novo e de novo, enquanto Baekhyun passava os olhos pelas páginas do caderno. Não parou para ler nenhuma com mais atenção, mas conseguiu captar vários termos repetidos. Teoria, movimento, matéria, energia, relativo, corpo. Parecia um caderno de física comum, se não fosse por outros termos mais específicos, como magia e poder.

— Pois é, quase fui o Matéria Escura — Junmyeon repetiu. — Não me saí muito bem na prática e acabei perdendo o posto.

— Alguém supervisionava o seu treinamento? — Baekhyun perguntou.

— O meu pai. Ele era o Matéria Escura. — E Junmyeon fez uma pausa para pegar o celular e mostrar para Baekhyun uma foto do seu pai. Na foto, a família toda estava reunida; a mãe, a tia, o primo, o pai e Junmyeon, que parecia levemente mais novo. — Ele morreu em 2017. Ele me treinava desde cedo, mas como eu era muito novo, só fazia as aulas teóricas e bem pouco das práticas. É assim... — E suspirou, sem saber como explicar aquilo de forma resumida. Não tinha como. — Vou falar pra vocês desde o começo.

DOIS ANOS MAIS CEDO

2017

Junmyeon já estava no segundo caderno do ano, tentando acompanhar o ritmo do Livro, mas as coisas estavam ficando densas. Para um garoto do nono ano, aquilo era física demais. Não entendia por que precisava saber tanta coisa, sendo que o pai sempre dizia que o poder que carregava exigia muito mais do coração... — algo sentimental — do que do cérebro. Talvez estivesse mentindo.

O Livro era uma coletânea de descrições feitas pelas pessoas que, no passado, carregaram o poder do Matéria Escura — poder esse cujo nome real era manipulação da energia primordial, conhecida principalmente por ter sido o que tinha dado início a todo o Universo. Todinho mesmo.

Na primeira vez que leu aquilo, Junmyeon arregalou os olhos, admirado, pensando que seu pai era a criatura mais poderosa da Terra. Todavia, a próxima linha dizia, literalmente, que a origem da energia primordial não fazia da pessoa que a manuseasse, necessariamente, a mais poderosa de todas.

Os seres humanos não tinham, nunca tiveram e nunca terão capacidade para manipular a energia primordial por completo; e só conseguiriam usá-la para qualquer coisa se treinassem incansavelmente por alguns anos antes.

E Junmyeon se preparava exemplarmente para quando esse dia chegasse. Estava trabalhando duro na parte teórica do treinamento — sabia milhares de coisas sobre a história e a ciência por trás da energia primordial, as suas possibilidades e as suas limitações... pelo menos para a idade, sabia tudo o que precisava saber. Na realidade, ainda tinha muita coisa para aprender.

O primo estudava com ele, não porque queria — era mais velho, tinha outras preocupações —, mas sim porque o pai não aceitaria treinar apenas uma pessoa para ser seu sucessor. Todos os seus antepassados tinham treinado, no mínimo, dois estudantes antes de finalmente passarem o poder adiante.

O pai de Junmyeon tinha sido o primeiro a fazer muitas coisas — o primeiro a escrever dois capítulos do livro, o primeiro a conseguir manipular a energia primordial com menos de um ano de treinamento, o primeiro a ser, efetivamente, um super-herói —, mas o fato de não ter sido o primeiro a treinar apenas um estudante deixava Junmyeon com uma pulga atrás da orelha, como se já soubesse onde aquilo tudo ia parar.

(...)

Os treinamentos práticos eram a sua morte.

A energia primordial parecia uma fumaça — era preta e embaçada de dia, mas brilhante e suntuosa à noite, alcançando um tom de roxo escuro que Junmyeon achava lindo. Ela era capaz de reorganizar os átomos de qualquer coisa, além de fazer outras coisas mágicas que o garoto não tinha chegado a entender ainda.

Era algo transcendental e imanente — segura e precisa nas fórmulas, mas instável e caprichosa nos detalhes. Junmyeon não tinha a capacidade de segurá-la, ou seja, de manuseá-la diretamente. Então, nos treinamentos práticos, o pai deslocava uma pequena quantidade da energia primordial para o controle de Junmyeon, como se segurasse as mãos do filho enquanto ele empunhava uma caneta, de modo a guiá-lo; ensinar-lhe como se escreve.

Contudo, mesmo com o apoio, Junmyeon não conseguia fazer nada. Ficava parado, olhando aquela imensidão escura rodopiando em círculos ao seu redor, completamente passivo diante da vontade própria da energia.

— Você não tem uma boa conexão com ela — era o que o pai dizia sempre que Junmyeon falhava. Aquele diagnóstico nunca mudava, independentemente do que Junmyeon fizesse: do quanto estudasse, do quanto se concentrasse. Parecia imutável. — Acho que precisamos de mais aulas práticas — o pai completou, num dia incomum. Junmyeon estremeceu.

Marcaram três aulas práticas por semana, e o adolescente viu-se momentaneamente atordoado com a informação. De certa forma, se dava bem com os livros, então estava mais seguro com eles: estudando dentro de casa; desvendando por conta própria cada característica fascinante da energia primordial; imitando, na sua imaginação, seus ancestrais distantes.

Mas não era só de teoria que viveria.

Todos os seres humanos têm o potencial para manipular a energia primordial. Junmyeon esfregou os olhos, relendo a sua passagem favorita do Livro antes de dormir, tentando imaginar um futuro em que não falhasse todas as vezes em que tentasse fazer o mínimo. Todos. Contudo, para não perturbar a paz universal, apenas um manipulador da energia primordial é admitido dentro da Ordem Regulamentadora da Matéria Escura. Junmyeon achava aquele nome péssimo, e a sigla, pior ainda: ORME. Este livro serve como guia para mentores que desejam treinar seus estudantes, e como apostila para os estudantes que... E, antes de reparar que dormia, dormiu.

PRESENTE

Quarta-feira, quarto do Junmyeon

— Caraca... — Chanyeol comentou, passando uma mão curiosa pela capa do Livro. Em algum momento da história, tinha trocado de lugar com Baekhyun, então estava sentado na cama enquanto o outro rodopiava na cadeira de rodinhas, distraído. — Mas e aí, o que aconteceu?

— Eu continuei indo mal nas práticas — Junmyeon respondeu, dando de ombros. — Como o meu primo teoricamente também tava sendo treinado, ele fez uma aula prática pra testar, né, e foi muito melhor que eu. Aí meu pai pediu pra eu ajudar ele com a teoria e, bem... — fez silêncio. — Meu pai morreu no fim daquele ano, então quem assumiu foi o Dongwoo.

Baekhyun e Chanyeol se entreolharam, ambos com a mesma pergunta presa na garganta — assumiu...? O pai de Junmyeon tinha morrido de infarto, aos quarenta e tantos anos, ou seja, não tinha como prever que morreria tão cedo. Como Dongwoo assumiu o poder?

Algum ritual específico? Um testamento? Uma poção mágica? Um sonho vívido?

Nenhum dos dois ousou abrir a boca. Já parecia folga demais estar ali, na casa do garoto, futricando a vida dele; cutucar a ferida e especular sobre os procedimentos tomados depois da morte do pai já seria falta de noção.

— E você ajuda o Dongwoo até hoje? — Chanyeol mudou a sua linha de raciocínio. Baekhyun parou de girar na cadeira.

— É, mais ou menos... — Junmyeon coçou a cabeça. — Assim, o Dongwoo não precisa muito da minha ajuda, sabe? Ele manuseia a energia muito bem, só precisa saber alguns detalhes pra não fazer besteira. Sei lá, parece que a energia primordial gosta dele... Ou talvez ela só me odeie mesmo.

E riu, meio que debochando, mas Chanyeol e Baekhyun perceberam que aquilo o afetava muito. Não deveria ser fácil, Baekhyun pensou. Imaginou como seria trabalhar durante anos a fio para, no fim das contas, falhar numa tarefa simples.

Bem, talvez não fosse uma falha de Junmyeon — talvez fosse apenas um fato que ele não conseguia mudar —, mas aquela tal frase de abertura do Livro, que Junmyeon tinha citado mais cedo, ainda matutava na sua cabeça. Todos os seres humanos têm potencial para manipular a energia primordial...? Não parecia certo. Se todos têm o potencial, por que Junmyeon não conseguia?

A resposta brilhou no topo da cabeça de Baekhyun como se estivesse num desenho animado e uma lâmpada tivesse acabado de ser acesa por ali. Olhou para Chanyeol, tentando ver se o rapaz tinha pensado na mesma coisa, mas ele estava entretido encarando o padrão curioso da capa do livro. Resolveu deixar aquele palpite para si mesmo. Se parecia tão óbvio, então Junmyeon já deveria saber.

Dois toques delicados na porta alarmaram Baekhyun, mas o susto passou rápido. A tia de Junmyeon abriu a porta e disse que tinha bolo e suco na cozinha, e que eles podiam comer se quisessem. Chanyeol levantou sem nem perguntar se os outros garotos concordavam; Junmyeon juntou o Livro e o caderno na velocidade da luz, como se com medo de a tia perceber que os estava mostrando para as visitas. Então elas sabiam, Baekhyun pensou. Sim. Deveriam saber. Por que não saberiam?

Comeram o bolo e conversaram, riram, fofocaram, tudo misturado. O tempo passou tão rápido que Baekhyun até se assustou: já eram quase quatro horas. Não tinha nenhuma chamada perdida da mãe no telefone, então pensou que poderia ficar por ali um pouco mais, já que estava se divertindo. Afinal, Chanyeol tinha um senso de humor meio destrambelhado e Junmyeon falava tanto sobre seus interesses que eles já tinham virado os interesses de Baekhyun.

— Ei — Chanyeol interrompeu a risada e a refeição, duplo homicídio da felicidade vespertina. — O que vocês acham de passar na casa do Jongdae pra ver como ele tá? Eu tô preocupado ainda, sabe, Junmyeon?

Chanyeol e Junmyeon compartilharam um olhar consciente e aflito. Baekhyun não estava entendendo nada.

— O Jongdae mora aqui perto? — Baekhyun perguntou.

— Sim — Chanyeol respondeu. — Se você não puder ir, não tem problema. Eu sei que você tá meio de castigo ainda, então tá tudo bem se não quiser ir. Eu sei como é ter que falar qualquer coisinha com a mãe... — E revirou os olhos.

— A sua mãe sabe que você vai daqui pra casa do Jongdae? — Junmyeon se meteu.

— Não — Chanyeol confessou, rindo. — Mas é aqui pertinho, ela nem precisa saber.

Baekhyun balançou a cabeça, como se desaprovasse o comportamento, mas tinha um sorriso igualmente serelepe no rosto. Resolveu acompanhar Junmyeon e Chanyeol até a casa de Jongdae, sem peso na consciência ou medo de alguma coisa.

Pôs a mochila pesada nas costas e saiu com os outros dois, discutindo calorosamente sobre algum filme de super-herói que tinha acabado de sair nos cinemas. Baekhyun não ousou se meter no assunto — primeiro, porque não entendia nada de super-heróis; segundo, porque mesmo que entendesse, não seria tão interessado assim neles a ponto de entrar numa discussão; e terceiro, porque Junmyeon e Chanyeol tinham argumentos inacabáveis. E bons. Como isso era possível?

Ao virarem à direita numa esquina tranquila, avistaram um burburinho ao longe: um amontoado de pessoas, adolescentes da idade deles, coagulados numa rua vazia e a poucos metros da casa de Jongdae.

Junmyeon e Chanyeol pararam de falar sobre heróis no mesmo instante. Apertaram o passo — Baekhyun seguindo os dois com alguma desvantagem —, ainda que meio incertos do que estava acontecendo. Ao se aproximarem contaram um, dois, três, quatro adolescentes, e um deles era Jongdae.

Chanyeol saiu correndo sem pensamento prévio assim que reconheceu o amigo, e Junmyeon e Baekhyun só foram entender quando repararam que um dos estranhos segurava Jongdae pelo braço.

— Ei! — Chanyeol gritou a plenos pulmões.

O garoto que segurava o braço de Jongdae retrocedeu com o barulho, momentaneamente distraído. Jongdae também recuou. Chanyeol os alcançou no segundo seguinte, vermelho de ódio e fervendo em descontentamento.

— O que é isso? — disse, enfiando os braços entre as figuras desconhecidas e Jongdae, formando uma muralha. — O que vocês querem? Morrer?!

— Chanyeol, você não precisa... — Jongdae tentou intervir.

— Isso é assunto só nosso — um dos garotos retrucou, olhando Chanyeol diretamente nos olhos. Não era tão alto, mas parecia mais velho. — O Jongdae é nosso amigo.

O sorriso que ele deu para os outros não foi nada amigável, e Chanyeol tinha conhecido adolescentes assim vezes suficientes para saber do que eram capazes.

— Não é mais — foi firme. — E eu acho melhor vocês irem embora e não voltarem nunca mais, porque eu não tava brincando quando perguntei se vocês queriam morrer.

— Você é engraçado — o da direita debochou. — A gente não tem medo de voc...

Veja bem, leitor... façamos uma pausa aqui.

Chanyeol nunca tinha lutado nada na sua vida; não lutava bem nem em videogame. Também não tinha o melhor dos preparos físicos. E se for pra ser o mais honesto possível, ele nunca tinha considerado aquela opção na vida — contudo, ali estava, dando um soco na cara de alguém. Foi um momento de grandiosidade; o melhor segundo da sua vida. Surpreendeu o oponente e, o mais importante de tudo, não errou a mira! O seu punho bateu certinho na cara lavada do moleque da direita.

Estava tudo ótimo até o cara do centro resolver devolver o murro para defender o amigo.

Chanyeol caiu nos braços de Jongdae, e se não fosse por Baekhyun e Junmyeon, continuaria apanhando do menino do meio. Tudo virou uma confusão danada e Chanyeol ficou desorientado por uns bons segundos, mas tratou de agarrar dois deles pelos cabelos enquanto seus amigos tentavam se defender da pancadaria generalizada. Eram quatro contra três, então ganharam.

Quando a poeira baixou, Chanyeol começou a sentir a cara latejar. Por sorte, o nariz não sangrou, mas provavelmente alguma outra evidência da porrada ficaria estampada na sua cara nas próximas vinte e quatro horas. Jongdae levou alguns pontapés, mas não estava ferido, e Junmyeon tinha levado na cara também, mas o cara que bateu nele era bem mais fraco. Baekhyun tinha caído no chão no meio da confusão e ralado a mão, mas nada de tão grave também. O dano maior tinha sido psicológico.

De qualquer forma, ninguém sentiria tanta dor enquanto a adrenalina continuasse correndo.

— O que aconteceu aqui? — Baekhyun disse, num volume baixo, olhando nos olhos dos outros meninos, que pareciam tão desnorteados quanto ele.

— Era isso, Kim Jongdae?! — Chanyeol gritou, do nada. Junmyeon, que estava entre os dois, levou um susto e se afastou de mansinho. — Era isso que você tava escondendo da gente? Por que aqueles caras tavam te ameaçando?!

— Ai, o que é, hein?! — Jongdae gritou de volta, e os dois começaram a discutir; um pelo direito de se meter na vida do amigo, e o outro pelo direito de apanhar calado.

— Gente, gente! — Junmyeon tentou acalmar os ânimos dos amigos. — Gente! Pelo amor de Deus! CALEM A BOCA!

Como o esperado, Jongdae e Chanyeol calaram a boca.

(...)

Jongdae abriu a porta de casa e falou que podiam sentar onde quisessem, porque os pais não estavam em casa e ele não ligava. Prontamente, botou gelo numas sacolinhas e saiu distribuindo para quem quisesse.

Chanyeol pôs uma bolsa de gelo de cada lado do rosto, separadas apenas pelo seu nariz vermelho, e sentou num banquinho que na verdade era uma mesinha. Baekhyun e Junmyeon ficaram em sofás opostos — a sala de estar era grande, confortável, mas o controle da televisão estava empoeirado, como se o lugar não fosse tão usado.

Os quatro ficaram, então, em silêncio, cada um com uma bolsa de gelo num lugar do corpo. Baekhyun tinha posto na mão, Junmyeon, na cabeça, e Jongdae, no braço que estava roxo.

— Desculpa por ter gritado com você — Chanyeol pediu, a voz saindo meio abafada por causa das bolsas de gelo. Todos entenderam que era para Jongdae. — Eu só fiquei com tanta raiva quando eu vi aqueles caras!

E praguejou durante um bom tempo. Jongdae só ouviu.

— A gente ficou muito preocupado contigo, você sabe, né? — Junmyeon acrescentou. — A gente podia ter te ajudado antes.

— Acho que vocês só pioraram tudo, na verdade — Jongdae finalmente respondeu, a voz embargada. — Agora eles vão chamar caras maiores pra me encher o saco...

— Pelo menos agora você tem a gente! — Chanyeol exclamou, olhando pelo lado bom, mas já estava começando a parecer gripado falando daquele jeito. — Pra fugir com você, sofrer bullying junto, sei lá...

— Mas por que eles tão te perseguindo? — Baekhyun perguntou, sem conseguir controlar a curiosidade. Jongdae encolheu os ombros.

— Eles não me perseguem — Jongdae explicou. — Eles implicam comigo. Moram aqui na rua mesmo, são um bando de desocupados. Geralmente eu consigo tolerar, eles só falam na maior parte das vezes mesmo, mas de vez em quando eles ficam corajosos.

Voltaram ao silêncio e Baekhyun voltou os olhos para as próprias mãos, introspectivo.

— A gente não vai mais deixar isso acontecer com você — Chanyeol disse. Tinha abandonado as bolsas de gelo, e mesmo com a cara toda vermelha e meio inchada, a sua expressão de bravura era convicta. Parecia mesmo disposto a fazer de tudo para proteger o amigo, e Baekhyun pensou, por uma fração insignificante de tempo, que talvez Chanyeol tivesse todas as qualidades de um herói. Um de verdade.

— Eu não queria preocupar vocês — Jongdae falou, mas foi interrompido por Junmyeon antes que terminasse.

— Não é questão de preocupar a gente, Jongdae, é a sua segurança. E nós somos os seus amigos. Não dá pra gente ver você sofrendo e não fazer nada.

Num movimento limpo e decidido, Junmyeon levantou para ir abraçar o amigo. Chanyeol fez o mesmo.

Baekhyun ficou meio à parte, sem saber o que fazer, encarando os três garotos abraçados que choravam. Mesmo assim, não se sentiu um intruso — a dor da surra que tinha levado não estava deixando. Imagina apanhar por alguém que nem é seu amigo?

Por isso, por mais estranho que tenha soado, Baekhyun foi lá dar um abraço em Jongdae também.

— Como vocês são melosos, eu hein...

Jongdae!

CONTINUA NO PRÓXIMO EPISÓDIO...


+notas+

EU TO VIVA!!! eu sei que a promessa era uma att por semana, e acho que voces ja captaram que isso nao sera possivel... mas de nenhuma forma isso se relaciona com eu nao estar animada ou algo assim, pelo contrario, to super empolgada com fall for it!! e por isso eu vou dar tempo ao tempo, nao vou me forçar demais pra depois nao ficar horrivel skdnsjk enfim, eu comecei na faculdade semana passada!! vai ser uma jornada e tanto, tomara que eu sobreviva.... e ó, vou tentar trazer os capítulos com alguma regularidade, mesmo com a falha dos eps semanais, ok? esse ep eh BEM grandinho entao espero que compense. aliás, a @/hikuno_chan no spirit, como sempre, fez um trabalho de DIVINO na betagem desse monstrinho de 9k. obrigada andy!!! <3

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