Episódio III: Tirar a Limpo
Chanyeol sentiu as pernas meio bambas pelo impacto da frase — já não estivera numa situação assim antes? O que tinha feito na ocasião? Não, nunca tinha vivenciado nada parecido. Era a primeira vez.
Estava confuso, e nada parecia ser capaz de fazer diminuir o barulho daquela afirmação, que estalava em sua cabeça, reverberava pelos seus ossos... Talvez estivesse delirando. Talvez tivessem pregado uma peça nele. Não sabia dizer.
— Eu sou um vilão, Chanyeol.
Só sabia que precisava fazer algo a respeito.
ALGUNS DIAS ANTES
Sábado
Chanyeol tinha uma desconfiança enorme plantada na cabeça que não queria deixá-lo em paz, logo, a primeira coisa que fez quando acordou foi jornalismo investigativo, ou seja: ligou para Jongdae às nove da manhã com um cafezinho na mão.
— Eu espero que você esteja morrendo — foi a primeira coisa que ouviu ao telefone. Jongdae parecia cansado.
— Juro que é uma emergência!
— Ai, meu Deus, tá morrendo mesmo?!
— Não, só tô com uma ideia...
Jongdae suspirou do outro lado, cansado. Chanyeol mexeu o café para esfriar, depois se aproximou da janela e ficou olhando para fora, do jeitinho que a fofoca gosta.
— Por acaso você já ouviu por aí se o Baekhyun tem algum poder? — Chanyeol testou. Jongdae ficou em silêncio por uns bons segundos; talvez ainda não tivesse entendido a frase direito.
— Não — foi simples. — Na verdade, só o que eu escuto sobre ele é que ele é meio quieto... tipo, sempre falam das amigas dele, mas não muito sobre ele. Por quê?
Chanyeol apertou os lábios. Não podia falar sobre o que tinha acontecido no dia anterior, senão precisaria contar para Jongdae sobre o Matéria Escura — ele sabia que poderia mentir, mas também sabia que não conseguiria se segurar. Era um perigo para a sociedade na hora de guardar segredos, então gostava de se prevenir. Era melhor evitar rodear assunto e simplesmente evitar tudo que envolvesse ele e Baekhyun vendo um super-herói ao vivo.
— É que eu achava que tinha ouvido algo assim antes — mentiu. — Mas aparentemente o meu cérebro inventou essa história... era só isso mesmo. Valeu.
— Não acredito que você me tirou da cama pra isso, cara... Tchau.
Desligaram a ligação; Jongdae voltou a dormir, Chanyeol voltou a olhar para a janela.
Sem ter muito mais o que fazer, Chanyeol terminou o café e botou a sua playlist do Fall Out Boy para tocar enquanto arrumava o quarto. A mãe não tinha acordado ainda, então tentou deixar num volume razoável, e como estava pensando concentradamente, também não queria fazer tanto barulho.
O assunto o consumia. Mas o que é que tinha acontecido, de fato? Ele não sabia dizer se tinha sido real ou uma alucinação. Dois segundos depois de se despedir de Baekhyun, virou-se para vê-lo outra vez e não viu ninguém. Tinha sumido.
Depois de organizar todas as coisas da melhor forma possível no menor tempo disponível, Chanyeol se ajeitou na escrivaninha e se preparou para não fazer nada de útil o dia inteiro. Começou a jornada por arrumar uma playlist milimetricamente calculada que tocasse The Pros and Cons of Breathing a cada cinco minutos, porque estava viciado na música, mas não gostava de ouvir a mesma faixa duas vezes seguidas. Manias.
A próxima coisa em que investiu seu precioso tempo foi em pesquisas no Google. Abriu uma aba para cada dúvida que abalava seu coração: quais são os tipos de poderes que envolvem invisibilidade? É legal não comunicar à escola os seus poderes? Quantas calorias tem uma azeitona? (Chanyeol se distraía fácil.)
Acabou encontrando algumas respostas úteis: vários poderes envolvem invisibilidade, como alguns tipos de telecinese. Inclusive, existe uma categoria de poder em que a invisibilidade é o único sintoma.
Chanyeol achava esquisito quando se referiam a uma característica aprimorada como "sintoma", e, honestamente, não era menos estranho chamar de "característica aprimorada", entretanto, não podia fazer nada sobre o assunto. Os acadêmicos que se virassem com as palavras que inventassem.
E, bem, sobre a segunda pergunta, Chanyeol acabou descobrindo que é impossível se matricular numa escola sem que a direção fique sabendo que você tem poderes, porque se você, de fato, tem poderes, a informação fica nos seus documentos pra sempre — mesmo que o seu poder suma, está tudo no sistema —, mas comunicar às pessoas ao seu redor vai da pessoa. Ou seja, Baekhyun poderia, sim, ter poderes, só nunca realmente ter contado pra ninguém.
Era meio bizarro olhar por esse ângulo, porque geralmente todo mundo sabe quando alguém tem poderes na escola — é algo normalizado, mas ainda raro, e as pessoas gostam de se gabar disso. E Chanyeol pensava... se Baekhyun tinha poderes, e se ajudou Chanyeol com eles, por que nunca mencionou suas habilidades antes? Se tivesse simplesmente dito: ei, cara, eu posso ficar invisível!, a sua proposta de acompanhar Chanyeol até em casa não teria soado inusitada.
A menos que Baekhyun não soubesse que tinha poderes.
Abriu outra aba no computador: é possível ter poderes e não saber disso? Chanyeol nem precisou clicar num resultado, porque os títulos das páginas que apareceram já respondiam à pergunta. Veja a história da garota que tinha poderes de persuasão e não sabia!; 5 sinais de que você tem um superpoder e não sabe dele. Um deles parecia estar conversando diretamente com Chanyeol: Sim, é possível ter poderes sem ter consciência disso!
Parou por um instante, voltou para o segundo resultado — 5 sinais... — e clicou nele, afobado. Um pensamento então lhe acometeu: e se ele mesmo tivesse poderes e não soubesse disso? Seria o máximo!
Ai!, como Chanyeol gostava de sonhar em ser um cara superpoderoso, um herói, alguém que pudesse salvar pessoas e viver algumas coisas malucas... Já tinha passado da idade em que os poderes costumam aparecer, então a existência da possibilidade de que suas habilidades sobrenaturais simplesmente não tivessem sido notadas ainda lhe dava algumas esperanças.
5 sinais de que você tem um superpoder e não sabe dele.
É importante lembrar que poderes que passam despercebidos geralmente são de menor intensidade (Chanyeol suspirou nessa parte) e não interferem na vida de outra pessoa que não seja a portadora. Além disso, o diagnóstico de algum "poder fantasma" (que nome incrível! Imagina poder falar que o seu poder tem superpoderes?) precisa ser feito por um médico especializado a fim de ser contabilizado como um poder legítimo perante a lei. Os sinais listados aqui são apenas indicadores comuns, não são garantia de que você seja um aprimorado.
1. Você não tem muitos amigos.
(Já começou humilhando as pessoas... mas, bem, parando pra pensar, Chanyeol só tinha uns cinco, seis amigos de verdade. Sete, se contasse Baekhyun. Baekhyun tinha mais amigos que ele, não tinha? Talvez tivesse...)
2. Você costuma se sentir muito incomodado com alguma coisa específica sem saber o motivo. (Sim, Jongdae era a coisa específica que incomodava Chanyeol.) Por exemplo, barulho excessivo, pessoas que não parecem confiáveis, lugares altos ou objetos cotidianos.
3. Você tem uma "intuição" apurada ou superstições que geralmente se cumprem dependendo daquilo que você faça.
(Honestamente, uma pessoa que se identifique com o ponto três e que ainda não tenha entendido que tem poderes já é demais.)
4. Você não entende como algumas pessoas não conseguem fazer certas coisas que são muito simples para você.
(Nada era simples para Chanyeol porque ele gostava de pensar. Baekhyun talvez se identificasse com esse ponto, já que fazia tanta coisa como se tivesse nascido para aquilo... talvez o superpoder de Byun Baekhyun fosse ser perfeito. Outro suspiro.)
5. Você sente necessidade de esconder aspectos do seu comportamento por medo de não ser aceito.
(Chanyeol se identificava um pouco com aquela, mas porque era gay.)
Deixou escapar um gemido de derrota. Talvez não fosse muito saudável ficar achando que era um cara cheio de poderes e que só não sabia disso, até porque estava mais do que claro que não tinha nem sombra de "aprimoramento", e os únicos "sintomas" que apresentava eram de paixonite aguda por um rapaz muito bonitinho.
(E antes que eu me esqueça, azeitonas têm 115 calorias por cada 100g.)
DOIS DIAS DEPOIS
Segunda-feira
O fim de semana foi longo, mas a segunda-feira chegou rápido. Chanyeol, depois de muita reflexão, tinha chegado a duas conclusões: a primeira era que não gostava da música Something I Can Never Have porque ela era realmente ruim, não porque não entendia; e a segunda, que Byun Baekhyun tinha poderes sem saber.
Baekhyun odiava super-heróis, foi o que tinha dito. (Claro, tinha achado um máximo conhecer o Matéria Escura, mas todo mundo sente a adrenalina de conhecer uma celebridade.) Se soubesse dos próprios poderes, não sairia por aí dizendo que odeia heróis, certo? Fazia algum sentido para Chanyeol.
Parando pra pensar, o raciocínio não fazia sentido nenhum, mas Chanyeol precisava admitir que não estava nem aí. Era um rapaz meio supersticioso, e, naquele momento, foi como se tivesse recebido um sinal divino. Não podia duvidar da sua intuição!
E ficou tão apegado àquelas ideias bonitas que acabou se atrasando pra escola.
Precisou sair correndo, sexta-feira de manhã, por todo o pátio do colégio. Subiu as escadas com o coração na mão — estava tudo vazio. Era um milagre ter chegado antes de os portões fecharem.
Odiava se atrasar, ainda mais no primeiro dia da semana: as duas primeiras aulas eram de química, e o professor odiava os alunos. Os alunos também odiavam o professor.
Esperou um ou dois segundos até bater na porta; a corrida tinha acabado com Chanyeol, inimigo mortal do exercício físico. Quando finalmente abriu uma fresta grande o suficiente para colocar a cabeça para dentro da sala e pedir desculpas ao professor, notou instantaneamente o clima horroroso. Tinha escolhido o pior dia para se atrasar.
— Pode entrar, Chanyeol — o professor respondeu, num tom de quem já estava irritado antes mesmo da intromissão.
O professor de química tinha um papel na mão e um olhar nada satisfeito no rosto. Chanyeol não queria fazer perguntas, mas nem precisou; foi só sentar atrás de Jongdae, na última cadeira da fila perto da porta, que descobriu a razão.
— Ele vai entregar a prova, e pelo visto todo mundo foi mal.
— Mas já? — Chanyeol tentou falar baixo, mas o professor o encarou feio. Ficou quieto e fez Jongdae virar para frente.
Todos estavam de bico calado, e o professor era a única pessoa que não parecia estar com vergonha de alguma coisa. Chanyeol engoliu em seco, prevendo o desastre natural que cairia na sua mão quando as provas fossem finalmente entregues.
— Essa questão era facílima! — exclamava o professor, batendo com a folha no quadro. Chanyeol não tinha respondido a tal questão facílima...
O professor terminou de explicar todas as questões e as provas foram entregues. A sala virou um burburinho só.
Jongdae olhou a sua nota imediatamente; Chanyeol viu a expressão do amigo suavizar enquanto absorvia o resultado. É; não estava tão ruim assim pra ele, mas Chanyeol talvez não tivesse a mesma sorte.
— E você? — Jongdae perguntou. Chanyeol apenas abanou a cabeça numa negação medrosa.
— Vou olhar não. Deixa isso pra lá.
— Larga de ser besta, cara, olha aí. Já foi. Você precisa saber o resultado.
— Depois eu vejo isso.
Guardou a prova dobrada na mochila. Não tinha sido o único.
Saiu para o intervalo com o estômago na mão, todo revirado, como se o café da manhã tivesse explodido lá dentro. Tentou não pensar no assunto, mas aquele pedaço de papel dobrado na mochila carcomia o seu juízo como se já soubesse que a nota era horrível.
Chanyeol não sabia bem como lidar com a situação — caso ainda não tenha ficado claro. Química era uma matéria de que gostava, mesmo que se embolasse todo às vezes, e uma das poucas em que achava que se garantia. Não estava preparado para uma nota baixa, e sabia que não tinha se saído muito bem.
Começou a roer uma unha, buscando conforto, e só encontrou mais problema. Agora tinha um estômago revirado e um dedo sangrando.
E Sehun perguntando sobre a nota dele em química.
— Não sei — Chanyeol retornou facilmente. — Não quero falar disso.
— Tá bom. — Sehun deu de ombros, buscando mudar de assunto. — Ei, você foi almoçar na casa do Junmyeon sexta-feira e nem chamou a gente, né?
— Também não quero falar disso.
— Ave Maria, tô achando que não quer é falar comigo!
— Não é isso, Sehun. É que eu tô meio coisado...
Sehun cruzou os braços; uma camiseta de super-herói qualquer despontando por entre o casaco aberto.
— Isso eu vi. Precisa conversar?
Chanyeol fez que não.
— Então vem, vou te comprar um chocolate.
Como não era de recusar as coisas, Chanyeol seguiu Sehun, um amigo esforçado e atencioso (esquecia o aniversário de todo mundo, mas mesmo assim merecia o título). No meio do caminho, pararam para conversar com Jongdae, que tinha alguma fofoca sobre o terceiro ano C para contar. Enquanto se distraíam, uma figura se aproximava.
Chanyeol foi o primeiro a ver Byun Baekhyun, e quis sair correndo assim que reparou que ele vinha na sua direção.
— E aí, como foram na prova? — Baekhyun perguntou, educadamente interrompendo a conversa dos três.
— Mal — Chanyeol respondeu automaticamente. Sehun lhe deu um murro no braço logo em seguida. — Ai!
— Você não tinha dito que não viu ainda? — Sehun recordou.
— Eu não vi, mas já sei que fui mal.
— Eu tenho certeza que você foi bem, Chanyeol — Baekhyun assegurou-lhe com um sorriso. Tinha uma mania fofa de falar o nome de Chanyeol quando afirmava alguma coisa. — E você, Sehun?
— Faltou um pontinho, né, mas acontece.
— Um pontinho pra média? — Baekhyun ergueu as sobrancelhas, curioso.
— Um pontinho pra nota máxima — Jongdae explicou, bufando. — Esse daí come resumo no café da manhã, mas fica achando ruim tirar nove. Eu tirei seis e meio e acho que já posso me formar.
— Mas você é sem noção, né, Jongdae, é diferente — Chanyeol respondeu, e os três riram.
— Então você já tá melhor, né? — Sehun reclamou. — Já tá até dando coice.
— Você tava doente? — Baekhyun questionou. Chanyeol não quis gaguejar, mas se embolou um pouco.
— M-Mais ou menos. Quer dizer, não tava doente, só... coisado.
— Ah... — Baekhyun não entendeu nada. — Melhoras, eu acho.
— Aí, Baekhyun, falando na prova de química, você tem as respostas das de marcar xis? — Jongdae, cara de pau, perguntou. — Eu quero fazer a refacção da prova pra ganhar umas décimas, mas o Sehun não me passa nem receita de bolo.
— Você é folgado demais — comentou Sehun.
— Na verdade, eu fui bem mal — Baekhyun confessou, coçando a nuca. — Vim até ver como tinha sido pra vocês, já que eu meio que dei uma aula pra vocês na quinta, né... Inclusive, foi mal se eu disse alguma coisa errada.
— Que isso, cara, relaxa. Ninguém aqui foi mal por sua culpa — Jongdae tranquilizou o rapaz.
— É, ninguém nem tava prestando atenção mesmo — a matraca de Sehun deixou escapar. Foi a vez de Chanyeol dar um murro no braço dele. — Ai, ai!
Byun Baekhyun não disse nada; só deu de ombros e se despediu.
Chanyeol procurou por ele na saída, mas não o encontrou.
Precisou voltar pra casa com duas coisas pesando na sua consciência: a prova de química e a conversa que não tivera com Baekhyun.
Se enfiou no quarto quando chegou em casa, encarando os pôsteres na parede e voltando às mesmas inconclusões de antes. Parecia que o tempo não tinha passado.
Olhou para a estante em que deixava os livros da escola. Dali conseguia ver, despontando quase que timidamente, o caderninho de anotações em que escrevia suas ideias mirabolantes. Tirou ele do meio dos livros; o coitado estava espremido entre uma apostila de física e uma de matemática, provavelmente assustado e com medo de apanhar daqueles dois monstros — Chanyeol compreendia o sentimento.
Abriu numa página qualquer e se deparou com uma letra antiguíssima, talvez até fosse do ano passado, de quando queria escrever como o Fall Out Boy porque achava bonito. Continuava achando bonito, mas desistiu de tentar virar o Pete Wentz; não queria ser um adolescente chato que fala que "nasceu na época errada" (se bem que não reclamaria se pudesse ter vivido melhor alguns anos do passado).
Não queria, mas acabou pensando em Baekhyun de novo. O seu coração esquentou, como se só a imagem dele, no seu cérebro, se igualasse à presença física do carinha de quem Chanyeol gostava.
Quer dizer, será mesmo que gostava? Não tinha certeza. Achava ele bonito? Com certeza. Daria uns beijinhos nele? Com certeza... Isso fazia de Chanyeol um cara gay? Provavelmente não, mas com certeza... Chanyeol não tinha dúvidas.
Era algo que sempre tinha sabido, mais ou menos. Na realidade, começou com uma dúvida, que levou a uma ideia, depois a uma série de perguntas, e finalmente se transformou num conhecimento do qual Chanyeol não podia fugir — e nem queria. Tal qual a poesia, que começa com um verso, vira uma estrofe, se transforma num poema e depois permanece, imutável ou não, sem muita pretensão ou cheio de convencimento.
Lembrar do dia em que viram o Matéria Escura cair no chão do estacionamento era uma tortura para Chanyeol. Sabia que Baekhyun tinha jurado esquecer o que ele tinha dito, mas ainda assim, não conseguia evitar a vergonha. O que tinha na cabeça, afinal de contas?
Resolveu esquecer aquele detalhe. Tinha assuntos mais importantes para tratar com Baekhyun.
(...)
Não conseguiu falar com Baekhyun a semana inteira. Sempre voltava para o mesmo lugar, a mesma linha de raciocínio, a mesma dúvida cruel. Não se olhavam no rosto, e sempre que Chanyeol tentava encontrá-lo na escola, falhava. Baekhyun sumia como se nunca estivesse estado ali, e aquilo estava começando a deixar Chanyeol irritado.
Na terça-feira, contudo, ainda antes de se frustrar por completo, Chanyeol viu Jongdae chegar com uma postura diferente. Atrasado, sentou-se no seu lugar habitual e não disse nada; não virou para trás nem uma vez. No intervalo, quando conseguiu olhar Jongdae nos olhos, reparou num arranhão na sua têmpora esquerda e uma vermelhidão que começava na maçã do rosto. Parecia que tinha ralado o rosto no asfalto.
— Tá tudo bem? — perguntou cuidadosamente. As coisas estavam claramente nada bem, mas Jongdae deu uma risada despreocupada:
— Levei um arranhão do gato.
— Você agora tem gato? — Chanyeol cruzou os braços.
— O gato da minha tia, mano! Fui pra casa dela no domingo.
— Mas o arranhão só apareceu hoje?
— O arranhão sempre esteve aí, se você não viu antes, o problema é seu, meu chapa.
Deixou o assunto pra lá no restante das aulas, mas como Jongdae mentia muito mal, voltou a mencionar a história no almoço.
— Jongdae — Chanyeol sussurrou, preocupado. — Você apanhou?
— Não, Chanyeol, não apanhei. Dá pra esquecer esse assunto?
Chanyeol suspirou, então sentou ao lado do amigo na hora do almoço. Pensou em convidar Jongdae para passar o sábado na sua casa, porque não sabia como as coisas estavam na casa dele. Talvez alguma coisa estivesse errada e ele não quisesse dizer — Chanyeol sabia que Jongdae tinha um relacionamento difícil com os pais, e que adorava mentir sobre estar bem quando estava um caco. Também convidaria Sehun e Junmyeon, é claro, para não dar na cara. Jongdae era esperto e tinha alguma coisa contra solidariedade, aparentemente.
— Eu juro que eu tô bem — Jongdae insistiu, falando de boca cheia. Chanyeol queria acreditar. — Esse arroz aqui que tá duro. Credo.
Resolveu deixar o assunto pra lá, não queria pressionar o amigo, mesmo que estivesse preocupado. Talvez Jongdae estivesse falando a verdade, no fim das contas, mas ficaria atento por via das dúvidas.
ALGUNS DIAS MAIS TARDE
Sexta-feira
Jongdae já tinha voltado ao normal, e o arranhão no rosto estava sumindo rapidamente à medida que o ferimento sarava. Ele manteve a história do gato, e confessou ter coberto a ferida com base algumas vezes, mas mesmo assim Chanyeol avisou Sehun e Junmyeon para manterem um olho no amigo.
Na manhã de sexta, planejou matar a primeira aula depois do intervalo — a de inglês —, só pela preguiça de fazer atividade. Então, no lugar de ir para a sala, foi espiar alguns livros na biblioteca.
Enquanto folheava um exemplar qualquer de Percy Jackson, ouviu duas vozes abafadas fofocando na seção ao lado — dicionários e enciclopédias. Logo reconheceu as donas: Kim Yerim e Park Sooyoung conversavam sobre alguma pessoa famosa; Chanyeol não conseguiu captar, mas atrás delas, viu Byun Baekhyun segurando um monte de dicionários de inglês que Kang Seulgi empilhava sobre os seus braços.
Bingo!
Pôs o Percy Jackson de volta na estante, tirou a franja do rosto e ajeitou o casaco. Ensaiou rapidamente alguma coisa para dizer e, com passos curtos e apressados, mas silenciosos, se ofereceu para ajudar Baekhyun a carregar a pilha de livros.
— Não precisa, cara, a gente já tá voltando pra sala — Baekhyun tentou desconversar.
— Que isso, deixa ele te ajudar... — Seulgi sussurrou, achando que Chanyeol não estava ouvindo. Depois, falou mais alto: — Vocês dois podem ir indo, eu e as meninas precisamos achar um livro pro nosso trabalho de biologia, né?
Sem esperar resposta de ninguém, deu metade dos dicionários para Chanyeol e empurrou os dois garotos para fora da biblioteca.
— A gente precisa conversar — Chanyeol avisou, abrindo a porta e deixando que Baekhyun saísse primeiro. Baekhyun apertou o passo; Chanyeol precisou correr para alcançá-lo. — Você tem poderes.
Baekhyun parou. Com os olhos arregalados, virou-se lentamente e encarou Chanyeol por longos segundos, mas não disse nada.
— Quer dizer, eu acho que você tem poderes e não sabe deles.
— Você acha que eu não sei dos meus próprios poderes? — Baekhyun retornou, erguendo uma sobrancelha confusa.
— Você tem poderes? — Chanyeol, embasbacado, chegou mais perto de Baekhyun e derrubou um dicionário com o seu movimento abrupto e curioso. — Droga. M-Mas você tava falando sério?
Baekhyun suspirou. Deixou os livros que segurava no chão e foi ajudar Chanyeol que, desengonçado como era, já tinha derrubado mais um dicionário — e segurava outro com a pontinha do indicador pressionada sobre a capa.
— Você não pode contar pra ninguém isso — Baekhyun confessou indiretamente, na forma de uma súplica sussurrada. — Eu tenho poderes.
— Que legal! — Chanyeol sorriu ao exclamar, no mesmo tom de voz abafado e segredado. Mostrou um pouco dos dentes, mas depois tentou esconder um pouco da sua empolgação. Engoliu em seco antes de perguntar: — Deixa eu ver a sua credencial? S-Só se você se sentir confortável, claro!
Ergueu os braços no ar para gesticular, mas esqueceu que estava usando as mãos e deixou outro dicionário cair. Baekhyun riu, mas depois ficou sério.
— Eu não tenho credencial, Chanyeol.
Fizeram silêncio.
Baekhyun terminou de juntar os dicionários; deu a metade para Chanyeol e o fitou novamente, com uma súplica no olhar. Chanyeol, que já precisava guardar o segredo do Matéria Escura, não sabia se poderia guardar mais um, mas não tinha outra opção.
— Por favor, não conta pra ninguém — Baekhyun reiterou, e Chanyeol estava cansado de ouvir aquela frase tantas vezes nas últimas semanas.
— Você não tem credencial?
Baekhyun fez uma pausa.
— Não — respondeu, finalmente. Respirou fundo antes de arrematar. — Eu sou um vilão, Chanyeol.
Chanyeol congelou, sem reação. Baekhyun ainda estava ali, olhando pra ele, enquanto o rapaz procurava alguma pista sobre como proceder dali pra frente, mas sem sucesso. Nunca tinha estado numa situação assim.
Ter poderes e não declará-los era crime e, de fato, Baekhyun já poderia ser considerado um vilão apenas por não ter credenciais. Chanyeol não sabia o que poderia acontecer caso alguém descobrisse; será que ele poderia ser preso? Será que Chanyeol poderia ser preso como comparsa?!
Não entendia por que Baekhyun tinha contado aquilo pra ele — seria melhor se Chanyeol simplesmente não tivesse ouvido. Baekhyun poderia apenas ter mentido, dizendo que não queria mostrar documento nenhum e que Chanyeol era insuportável (a última parte talvez fosse verdade).
E quando lembrou de existir, Baekhyun já tinha voltado a andar.
Sem opções, Chanyeol o seguiu com alguns passos de distância, ainda meio fora da realidade, encarcerado numa linha de raciocínio meio fora de órbita. No fim das contas, teve que assistir à aula de inglês.
Tinha acabado de ganhar mais um problema. Na verdade, Baekhyun, por si só, já era um problema para Chanyeol — e um que só ficava pior.
Talvez precisasse tirar umas férias de si mesmo; seria ótimo ir dormir no corpo de outra pessoa, sem precisar se preocupar com as coisas da sua própria vida. Também poderia fingir que não era com ele, mas tudo era com Chanyeol, até as coisas que não eram da sua conta.
Pensou nisso enquanto fazia as atividades.
TRÊS AULAS MAIS TARDE
Na saída, por um milagre divino, conseguiu interceptar Byun Baekhyun antes que ele sumisse da face da Terra. Parou bem na frente dele, com os braços cruzados e o cabelo amarrado, desejando conseguir imprimir qualquer coisa de intimidante na sua performance. (Não conseguiu, porque demorou para falar e, quando falou, Baekhyun não entendeu.)
— Você usou os seus poderes naquele dia?
— Quê?
Suspirou, cansado, desistiu da pose e repetiu:
— Aquele dia em que você me levou de volta pra casa. Você usou os seus poderes?
Baekhyun desviou o olhar, depois deu uma resposta genérica.
— Eu sempre uso os meus poderes.
— Então usou?
— Sim, Chanyeol, eu usei. Será que dá pra gente esquecer isso agora?
— Não. — Chanyeol balançou a cabeça. Voltou para a pose. — Desculpa, Baekhyun, mas a gente agora é uma equipe, ok? A gente viu o Matéria Escura, a gente falou com ele, e você usou os seus poderes na minha presença.
— Não vejo como isso faz da gente uma equipe. Até agora você não citou nada de importante.
— Meu Deus! — Chanyeol revirou os olhos. — Como você é difícil! Você acabou de me contar um segredo seu, e a gente tá guardando um segredo do maior super-herói do país. Nós somos uma equipe agora!
E estendeu uma mão, confiante, mesmo que o seu coração estivesse nervoso com a ação. Baekhyun olhou em volta, depois encarou Chanyeol nos olhos, como se contemplasse suas opções. Ele estava sorrindo até dois segundos atrás — Chanyeol tinha quase certeza —, como se achasse graça da postura, falas e meneios de Chanyeol; as coisas que fazia quando tentava convencer alguém de algo. Era fofo.
Chanyeol morria de medo de ser rejeitado uma segunda vez — e pelo mesmo cara, ainda! Quando Byun Baekhyun saiu correndo na cena do estacionamento, o Matéria Escura caiu do céu para distrai-los. Ali, com a mão pendendo no ar, no meio da escola, não teria nenhum herói dramático fazendo uma aparição especial para livrá-lo da humilhação. Se Baekhyun virasse de costas e fosse embora, seria uma derrota que precisaria aceitar.
Mas, para a sua sorte, Byun Baekhyun apertou a sua mão.
— Se queria tanto sair comigo, era só ter me pedido, cara.
E, simples assim, foi embora.
CONTINUA NO PRÓXIMO EPISÓDIO...
+
(n/a) oi!! é a primeira vez que eu escrevo notas do autor nessa história aa
bem, queria pedir desculpa pelo pequeno atraso da fic essa semana, mas voces nem devem ter percebido skdndsjk ah, e também dizer que o proximo cap ta beeeem grande, acho que vai dar uns 10k de palavras, entao se tiver alguem lendo isso: voces preferem que eu divida ele em 2 ou poste o capitulo 4 inteirinho?
até mais!
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