Episódio II: Pulo do Gato
O herói apelidado de "Matéria Escura" iniciou sua carreira de super-herói nos anos 80, quando era muito mais difícil encontrar aprimorados tão poderosos quanto ele.
Mesmo tendo esse nome, os seus poderes não tinham nada a ver com a matéria escura do Universo. Suas habilidades eram guiadas por uma espécie de fumaça escura e brilhante que se movimentava da forma que ele preferisse — daí o nome — e que tornava possível alterar características de objetos, como se os fizesse voltar no tempo ou como se rearranjasse os seus átomos para formar algo completamente novo.
Também era um metamorfo, o que significava que podia ter qualquer feição, forma ou aparência que quisesse. Seu nome ou rosto real nunca foram divulgados, mas seu nome de herói ressoa pela identidade nacional até os dias de hoje. Matéria Escura ajudou milhares de pessoas ao redor do mundo em resgates, campanhas de conscientização e ações secretas contra a criminalidade cujos detalhes nunca, de fato, vieram a público.
No fim dos anos 2000, chocou o país com o anúncio da sua aposentadoria, e desde então nunca mais se ouviu falar nele. Não tinha uma identidade, uma família conhecida, ao menos um registro de super-herói perante o governo; Matéria Escura era, literalmente, uma lenda viva.
Bem... ele é.
E agora, pensando sobre isso, Baekhyun sente um arrepio escalar a espinha. Bem na sua frente, sentado a centímetros de distância numa mesa de jantar, está o Matéria Escura — em carne, osso e poderes ilimitados.
ALGUMAS HORAS ANTES
Sexta-feira
De certa forma, pessoas com poderes sempre existiram, mas os super-heróis só surgiram, efetivamente, nos anos 60. Desde então, todos os aprimorados precisavam registrar os seus poderes em cartório e portar um documento que comprovasse que mantinham o sistema atualizado com as características dos seus poderes. Logo, quem não tivesse essa documentação, ou quem a tivesse desatualizada, poderia levar multa ou até ser detido por crime de vilania, já que a lei pressupunha que quem escondia as suas habilidades planejava fazer coisas ruins com elas.
Toda a legislação acerca de super-heróis e vilões foi implementada no início dos anos 70, incluindo o sistema de isolamento das famílias dos heróis. Se você tivesse um super-herói profissional na família, então você seria obrigado a viver numa comunidade específica de famílias como a sua. Seus filhos iriam estudar em escolas separadas e você iria frequentar hospitais e supermercados separados, como se estivesse de quarentena do planeta para sempre. Apesar disso, esse tipo de isolamento era visto como de status elevado, chique. O governo pagava todas as suas contas e você tinha tudo o que sempre quis, além de conviver com pessoas como você.
O pensamento incomodava Baekhyun — como alguém poderia achar que isso era normal?
Mesmo que achasse horrível, Baekhyun sabia que mudar esses procedimentos seria dificílimo, já que todos os países usavam o mesmo sistema e toda e qualquer modificação precisaria ser aceita por todos os representantes de todas as nações com super-heróis ativos — e você já deve imaginar que países com poucos ou nenhum super-herói não tinham nenhum poder de decisão, e as "grandes nações heroicas" mandavam em tudo. Além disso, os super-heróis, principalmente os mais famosos, não atuavam apenas em seu país de origem: eles também tinham permissão para atuar em qualquer outro país, da forma que preferissem, independentemente da legislação local.
Baekhyun pensava se o retorno de uma figura tão importante quanto o Matéria Escura poderia colocar um ponto final no assunto, mas sabia que não era muito provável, afinal de contas, o Matéria Escura também fazia parte do sistema.
— Baekhyun. — A mãe cutucou o seu braço e ele finalmente acordou para a realidade. — Não vai comer?
— Vou, vou sim.
Tratou de terminar o café da manhã e ir imediatamente para a escola, ainda pensando no assunto. Ia a pé porque gostava de andar pela cidade ouvindo música, tranquilamente, sabendo que estava seguro em qualquer lugar que fosse, pelo menos fisicamente.
A primeira pessoa que viu quando cruzou os portões da escola foi Seulgi, revirando a mochila desesperadamente enquanto Yerim tagarelava ao seu lado.
— Yerim, será que dá pra fazer silêncio? Eu tô tentando me concentrar!
— Oi, gente.
— Mas eu preciso te falar sobre essa série antes que eu enlouqueça!
— Oi, gente — Baekhyun repetiu, um pouco mais alto. Seulgi e Yerim levaram um susto.
— Oi, sumida. — Yerim cutucou o braço do amigo. — E aí, como foi ontem? Você não mandou mensagem no grupo contando sobre os detalhes, achei suspeito. Tá tudo bem?
— Pois é, você não disse nada — Seulgi acrescentou, parecendo ter encontrado o que quer que estivesse incessantemente procurando um segundo atrás.
— Deu tudo certo sim, relaxem — Baekhyun mentiu um pouco. Não tinha ido tudo tão bem assim, mas também não foi o pior dia da sua vida. — Como vocês estão pra prova de hoje?
— Bem mal — Yerim foi sincera.
— Mais ou menos — Seulgi foi humilde. — Você deve estar ótimo, né, nem vou fazer pergunta.
Baekhyun deu risada e a conversa logo mudou de rumo. Faltavam cinco minutos para entrarem, então usaram aquele tempinho para tentar relembrar alguns conceitos, como se uma revisão relâmpago fosse fazer alguma diferença na hora de responder às questões. Mesmo assim, acalmava um pouco pensar que estavam fazendo o possível até nos quarenta e cinco do segundo tempo.
Ao longe, Baekhyun avistou Park Chanyeol e seus amigos; num segundo frustrante, sentiu um déjà-vu irritante perturbar o seu estômago. Assim que notou o que tinha provocado tal sensação, congelou. Depois piscou algumas vezes, achando que estava alucinando. Seulgi precisou estalar os dedos na frente do seu rosto para que ele acordasse.
— Tudo joia, cara? — Yerim ergueu uma sobrancelha.
Fingiu que tinha se distraído com um pensamento e apressou as amigas para irem logo para a sala de prova. Ficou com aquela pulga atrás da orelha durante a prova inteira.
SEIS AULAS DEPOIS
Park Chanyeol estava próximo da saída, conversando com um amigo sobre os erros que cometera na prova de química, quando Baekhyun o cutucou no ombro e o chamou para conversar em outro lugar. Park Chanyeol pareceu confuso, mas seguiu Baekhyun mesmo assim, com os dois olhos espertos de Kim Jongdae seguindo seus passos.
— O seu amigo tem alguma coisa a ver com o que a gente viu ontem?
Chanyeol franziu a testa com a pergunta.
— Quem? O Jongdae? — Quis rir.
— Não, o seu amigo que foi embora antes da gente ir pro shopping — Baekhyun explicou, olhando em volta, mas não encontrando o rapaz de quem estava falando.
— Você quer dizer se ele tem alguma coisa a ver com o... — e Chanyeol hesitou. Acabou apenas mexendo a boca de uma maneira exagerada para deixar Baekhyun sabendo que se referia ao Matéria Escura.
— É claro que é isso que eu quero dizer! Eu vi a mochila dele ontem jogada na parte de fora do shopping, logo quando eu fui embora.
Chanyeol ergueu uma sobrancelha incrédula.
— Eu tenho certeza — Baekhyun acrescentou, antes que o outro fizesse mais perguntas. — Era a mochila dele. Além disso, ele é meio estranho.
Park Chanyeol cruzou os braços, parecendo irritado.
— Como assim estranho?
— Você não percebe? Parece que ele tá sempre com algum lugar mais importante pra ir.
— E você tirou essa conclusão dois segundos depois de conhecer o Junmyeon?
— Olha, quer saber de uma coisa? Você não vai me ajudar mesmo, então deixa que isso eu resolvo sozinho!
— Epa, espera aí! — Park Chanyeol não deixou que Baekhyun fosse embora. — Você não pode sair espalhando pra todo mundo o que a gente viu, cê sabe, né?
— Eu sei que não, fica tranquilo. Eu não vou fazer nenhuma besteira.
Cinco minutos depois, no estacionamento da escola, Baekhyun encurralou Kim Junmyeon entre o portão da saída e uma árvore. Ele não era a pessoa mais amedrontadora, mas Junmyeon parecia ser a pessoa mais amedrontada, porque seus olhos arregalados só comunicavam medo — e Baekhyun juntava coragem muito facilmente.
— Você é o Matéria Escura, não é?
Ok, parando pra pensar, foi algo meio idiota de se fazer, mas Baekhyun confiava na sua intuição mais do que qualquer um. Um adolescente deveria ser proibido por lei de dizer uma coisa dessas...
Mas como Kim Junmyeon parecia assustado, o pressentimento de que ele escondia alguma coisa grande continuava a consumir as entranhas de Baekhyun como fogo queimando palha.
— Ei! — Park Chanyeol gritou, apertando o passo para alcançar Baekhyun e Junmyeon. Ele sabia que Baekhyun iria fazer alguma besteira.
Baekhyun soltou um resmungo descontente e voltou a encarar Junmyeon.
— É, não é?
— Baekhyun! — Chanyeol estava irritado, e meio preocupado também. — O que você tá fazendo?!
— Eu tô tirando satisfação com o mentiroso. Diz, cara! Eu vi a sua mochila ontem, eu sei que é você.
— Baekhyun, pelo amor... — Chanyeol revirou os olhos, prestes a reconsiderar a quedinha que tinha por aquele imbecil. Baekhyun parecia bem mais legal quando não precisava conviver com ele. — Isso é ridículo.
— Na verdade... — E Junmyeon limpou a garganta. Baekhyun ergueu as sobrancelhas em expectativa. Chanyeol engoliu em seco. — É verdade. Quer dizer, é verdade que eu estava lá!
— Eu sabia!
— O quê?
— Esperem! — Junmyeon acalmou os ânimos dos outros dois. — Eu não sou o Matéria Escura.
— Então quem é? — Chanyeol cruzou os braços. Aquela conversa estava dando voltas demais pro seu gosto!
— Se vocês pararem de desconfiar de mim, eu conto.
Baekhyun e Chanyeol, curiosíssimo àquela altura, concordaram veementemente. Naquele mesmo momento, um carro velho parou do outro lado da rua e uma figura conhecida desceu o vidro, acenando para os adolescentes. Junmyeon apontou para o homem.
— O meu primo. Ele é o Matéria Escura.
(...)
O trajeto foi silencioso e desconfortável.
Baekhyun conseguiu rapidamente mandar uma mensagem para a mãe avisando que ia passar na casa de um colega antes de voltar para a sua; mas Chanyeol precisou implorar no telefone para que a mãe, que conhecia a família de Junmyeon há dez anos, o liberasse pra almoçar na casa do amigo.
Dentro do carro, o primo de Junmyeon foi dirigindo, com um sorriso incerto de quem não fazia ideia do que estava acontecendo, mas ainda assim queria parecer simpático. Junmyeon foi no banco do passageiro, e para Baekhyun e Chanyeol só restou o silêncio incômodo do banco de trás. Ninguém realmente disse nada. O primo de Kim Junmyeon sussurrou você contou pra eles? e recebeu do garoto apenas um olhar derrotado.
— Podem entrar — Junmyeon informou assim que chegaram a sua casa. Morava lá com o primo, a tia e a mãe, que já estavam prontas para almoçar, apenas esperando as visitas.
Comeram como se nada estivesse acontecendo. Tinha suco de limão, o favorito de Baekhyun, então ele resolveu que podia simplesmente esperar. Park Chanyeol parecia muito mais apreensivo, e o cabelo que vivia caindo na frente do seu rosto estava começando a irritar Baekhyun.
A mãe de Junmyeon era muito divertida; ela adorava encher a paciência da irmã, que resmungava uma ou outra coisa de vez em quando, mas ria mesmo assim. O primo já era mais quieto, tinha um sorriso tímido como o próprio Junmyeon, apesar de ser levemente mais extrovertido que ele.
— Então — o primo de Junmyeon puxou assunto quando a mãe e a tia foram para a cozinha, conversando animadamente sobre algo em que ninguém estava prestando atenção. — Jun, por que você não vai ajudar elas? Eu converso com eles.
Junmyeon parecia hesitante, mas fez como o primo sugeriu.
Chanyeol engoliu em seco, Baekhyun reparou. Tinha uma mecha de cabelo enorme tapando o olho esquerdo dele, e Baekhyun não resistiu ao impulso de tirá-la de lá. Recebeu um olhar esquisito quando pôs o cabelo atrás da orelha de Chanyeol, e finalmente percebeu que aquilo tinha sido esquisito. Droga.
— Você é o Matéria Escura, então? — foi o modo que arranjou de tirar a atenção do momento constrangedor, mas só deixou tudo pior. O primo de Junmyeon ficou vermelho.
— Meu nome é Dongwoo. Acho que a gente não se conhece formalmente ainda — o rapaz ignorou a pergunta de Baekhyun, e talvez tenha sido a melhor escolha. — O Chanyeol eu já sei quem é.
— Oi — Chanyeol acenou desconfortavelmente.
— Então...? — Baekhyun estava tão impaciente que nem reparou que não tinha se apresentado. Ficou parecendo um mal-educado.
— Fica calmo, cara — Park Chanyeol tentou chamar sua atenção, o que só o deixou mais contrariado. Contudo, resolveu manter a bola baixa.
— É uma história complicada. — Dongwoo coçou a cabeça. Olhou na direção da cozinha, como se quisesse ter certeza de que ninguém estava ouvindo. — Eu sou o Matéria Escura. Mas também não sou.
— Claro. — Baekhyun cruzou os braços e assentiu com a cabeça como se tivesse entendido tudo (spoiler: não tinha entendido nada).
— Quê? — Chanyeol franziu a testa.
Dongwoo chegou mais perto, ainda meio intimidado pelos olhares inquisidores que recebia, e mostrou aos garotos um fio de fumaça negra que saía da ponta dos seus dedos e dançava no ambiente. Baekhyun quase ficou sem ar; Chanyeol arregalou os olhos e chegou mais perto, mas Dongwoo tirou a mão do alcance dele antes que o tocasse.
— Desculpa — Dongwoo pediu, mais acanhado ainda. — Não sei controlar direito ainda, então não é bom deixar outras pessoas tocarem nela.
— Nela? Na fumaça? — Baekhyun disparou. Tinha tantas perguntas...
— Como assim você não sabe controlar direito? — Park Chanyeol destacou o detalhe com uma confusão crescente no tom de voz. Subitamente, alguma coisa clicou na cabeça de Baekhyun.
— Ele não é o primeiro Matéria Escura — Baekhyun falou ao mesmo tempo em que compreendeu a situação. Imediatamente fez parecer como se soubesse daquilo desde o princípio com um cínico: — Dã!
E realmente deveria ser óbvio. Dongwoo era jovem demais para ter sido o Matéria Escura que salvava o mundo em oitenta e nove.
— É, é isso. Eu herdei o poder do meu tio.
— Seu tio era o Matéria Escura?! — Chanyeol sussurrou, como se estivesse falando uma heresia. Naquela altura, seus olhos já estavam maiores que o próprio rosto e Baekhyun achava aquele detalhe engraçado. — Isso é tão legal, cara.
Dongwoo deu uma risada entretida.
— Não é tão legal assim, é muita responsabilidade, sabe? O Junmyeon me ajuda muito com o treinamento.
— Que da hora — Chanyeol interrompeu, meio sem querer, sem conseguir conter a empolgação.
Baekhyun suprimiu um palavrão, pensando... Matéria Escura era, literalmente, uma lenda viva! E estava logo ali, tomando suco de limão como uma pessoa normal, bem na sua frente. Queria poder achar aquilo tão incrível quanto Chanyeol achava, mas não conseguia. Talvez tivesse crescido rápido demais, porque não sentia a adrenalina, não tinha o brilho nos olhos, nem a imagem de um herói na cabeça. Só via o cara tomando suco e, de alguma forma, isso era pior.
— Olha, ter esbarrado em vocês ontem foi um deslize meu — Dongwoo continuou. — Eu não deveria ter deixado ninguém ver, e vocês dois saberem disso agora também não é o melhor dos cenários... então se vocês pudessem só manter esse segredo, seria ótimo.
— A gente guarda o seu segredo, sim — Baekhyun confirmou, ainda afoito com as palavras. — Mas você tava lutando com quem? E por que ali?
Dongwoo coçou a cabeça outra vez.
— Não posso deixar vocês saberem de mais coisas. Não é justo. Vocês são só crianças, têm outras coisas pra se preocupar.
Baekhyun bufou, sem conseguir esconder seu descontentamento. Park Chanyeol, ao seu lado, só fez um biquinho apreensivo.
— Mas o Junmyeon sabe? — Baekhyun voltou ao assunto, sem deixar que Dongwoo se levantasse. — De todas essas coisas. Você disse que ele te ajuda com os treinamentos... mas como?
Dongwoo suspirou.
— Ele sabe bem mais sobre a matéria escura, a fumaça, sabe? Ele estava se preparando pra assumir o poder, mas as coisas saíram um pouco dos trilhos.
— Se preparando pra assumir? — Chanyeol chegou mais perto, quase derrubando Baekhyun da cadeira ao se inclinar para ouvir melhor. — Pra assumir o poder? Tipo a passagem da tocha olímpica?
— Mais ou menos — Dongwoo disse tão rapidamente que Baekhyun ainda estava revirando os olhos com a comparação boba de Chanyeol sobre a tocha olímpica. Dongwoo já não queria mais falar do assunto, nem explicar mais nada. Já tinha aberto demais a boca. Seus ancestrais estavam envergonhados. — Mas, por favor, se vocês puderem só focar em não contar isso pra ninguém... seria perfeito.
Os dois garotos anuíram, sem muitas opções restantes. Se despediram da família de Junmyeon alegremente, e Baekhyun agradeceu umas vinte vezes pelo almoço — já parecia outra pessoa. Chanyeol saiu de lá intimado a voltar com os pais qualquer outro dia, e Kim Junmyeon os levou até a porta com um sorriso mais aliviado no rosto. Já não parecia esconder mais nada.
— Desculpa por ter te intimidado na escola — Baekhyun pediu, envergonhado. — Eu passei do ponto.
— Tudo bem, não tem problema. Obrigado por entenderem.
— Cara, eu ainda não acredito que você nunca falou pra gente disso! — foi a frase que Park Chanyeol usou pra se despedir do amigo. Estava animadíssimo, por alguma razão. — Mano, dá pra acreditar? — ele repetiu enquanto caminhavam, voltando para suas casas. — A gente conheceu o Matéria Escura! Isso é incrível!
— É mesmo... — Baekhyun sorriu, involuntariamente contagiado pela energia de Chanyeol.
— E agora a gente sabe de uma coisa que mais ninguém sabe. A gente vai guardar o segredo de um super-herói. Isso é a coisa mais doida que já aconteceu na minha vida! Eu adorei!
Chegaram numa esquina e Baekhyun parou, sem saber para que caminho Chanyeol iria, tentando descobrir se já precisavam se despedir. Chanyeol congelou por um segundo, como se só então tivesse se lembrado de um detalhe.
— Droga! — praguejou, batendo com a palma da mão na própria testa, amaldiçoando a sua falta de noção. — Eu esqueci de pedir pro Dongwoo me dar carona pra casa... agora eu vou ter que voltar lá ou ligar pra minha mãe.
— Você não sabe o caminho pra sua casa? — Baekhyun ergueu uma sobrancelha e Chanyeol ficou vermelho.
— Não é isso. — E o rapaz tirou do bolso um elástico para prender o cabelo. Finalmente! Baekhyun já estava ficando agoniado com a franja longa encostando nos cílios de Chanyeol. — É que pra chegar em casa eu preciso passar por uma zona meio perigosa e a minha mãe não gosta que eu ande a pé sozinho por lá.
— Eu vou com você, então — Baekhyun ofereceu, meio que dando de ombros, como se para deixar claro que não tinha nada de melhor para fazer e que aquilo não seria um incômodo.
— Não! Tá doido? Daí vai ser eu e você passando por um lugar perigoso, não vai mudar nada. Além do mais, a menos que você queira passar a noite lá em casa, vai ter que voltar sozinho.
— Não tem problema, não vai acontecer nada. Eu te levo lá e depois volto.
Chanyeol achou esquisito; franziu a testa e fez uma cara desconfiada, mas como era um adolescente inconsequente em idade de fazer burrice, estava tentado a aceitar. Já Baekhyun, sabia que aquilo soava como uma loucura, mas estava confiante de que daria tudo certo se Chanyeol aceitasse.
— Não gosto de desobedecer a minha mãe... — Chanyeol confessou, pensando sobre o assunto. Ele nem sabia se a rua perto de casa era tão perigosa assim, só sabia que a mãe não deixava que ele passasse por lá sozinho. Como estava de dia, resolveu ceder sem culpa, porque tinha achado uma ótima ideia essa de andar até a sua casa com a companhia do carinha de quem ele gostava. — Mas já que você insiste...
Baekhyun abriu um sorriso pequeno e o coração de Chanyeol errou uma batida. Balançou a cabeça e olhou para frente, guiando Baekhyun pelas ruas. Não morava tão longe dali.
— Você vai saber voltar depois?
— Eu conheço bem a cidade. E é só voltar por onde a gente veio.
— Você é esquisito — Chanyeol deixou escapar, mas logo tapou a boca com a mão. Baekhyun riu.
— Valeu, cara. É o que dizem.
— Não quis dizer isso de um jeito ruim, mas você realmente não parece nem um pouco preocupado, sabe?
— É um dom que eu tenho.
Chanyeol não disse mais nada. Continuaram andando, vez ou outra puxando um assunto curto que morria em pouquíssimos segundos. Estava começando a ficar desconfortável.
— Mas e aí, como foi a prova de química? — Baekhyun perguntou, por fim. Chanyeol bufou.
— Foi péssima. Acho que a pior que eu já fiz.
— Nossa... a aula de ontem não ajudou nem um pouquinho?
Chanyeol engoliu em seco lembrando do dia anterior.
— Assim, acho que eu já tava fadado ao fracasso de um jeito ou de outro... mas a sua aula deve ter me ajudado a garantir pelo menos um pontinho. — Abriu um sorriso tímido.
— Você vai se sair bem, eu tenho certeza.
— Você tem certeza de muita coisa, hein, bicho...
— Na verdade, eu não faço ideia de como vai ser a sua nota, só disse pra te acalmar — Baekhyun confessou.
Chanyeol gargalhou, leve e distraído — e quando se deu conta, já estavam perto de casa.
— É essa a rua que a minha mãe não gosta — avisou, sussurrando, olhando para os lados. Não tinha muita gente por perto, e a única forma de vida próxima o suficiente para ser vista era um cachorrinho que vivia por aquelas bandas. — A minha casa fica mais pra frente.
— Okay — Baekhyun respondeu, parecendo bem tranquilo, e depois segurou o braço de Chanyeol, que não sabia o que estava acontecendo, mas também não queria questionar. Talvez fosse algum tipo de apoio psicológico que ele estava oferecendo para que Chanyeol não surtasse; soava provável.
Andaram o restante do caminho daquele jeito: em silêncio, Chanyeol guiando os dois pelo caminho e sem conseguir parar de pensar no braço de Baekhyun encostando no seu, como se fossem amigos de longa data, ou então... você sabe. Aquilo que começa com n.
— É aqui. — Chanyeol apontou para o prédio em que morava. — Tomara que a minha mãe não tenha me visto subir a rua pela janela, porque eu vou falar pra ela que o primo do Junmyeon me trouxe.
— Boa sorte — Baekhyun desejou, soltando o braço de Chanyeol. — Mas acho que ela não viu a gente, não.
— Tomara que você esteja certo, viu... Aliás, obrigado por ter vindo comigo.
— Não foi nada. Bom final de semana! A gente se vê na segunda.
— A gente se vê!
E Baekhyun voltou por onde os dois tinham vindo.
Chanyeol suspirou, meio sonhador, e virou-se para abrir a porta do prédio. Tinha um sorrisinho insistente enfeitando o rosto corado, e num ímpeto de coragem, girou os calcanhares outra vez para observar Baekhyun descendo a rua, bobinho, bobinho... Mas Baekhyun não estava mais lá.
Cara rápido, pensou, mas ficou com uma pulguinha atrás da orelha... Por que Baekhyun estava tão confiante de que não aconteceria nada com eles mesmo passando por uma rua perigosa?
Chanyeol foi dormir com ideias.
CONTINUA NO PRÓXIMA EPÍSODIO...
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