Amor de mentirinha

A cada dia Milena estava pior. Ela era minha melhor amiga desde o Fundamental II. Contávamos quase tudo um para o outro. E eu sabia o quanto ela estava afundada naquela depressão. Por isso fiz uma coisa complicada, mas pensei em sua integridade física e emocional. Eu li o diário dela escondido enquanto ela tomava banho um dia desses.

Foi aí que descobri que a depressão da Mih era pior do que eu pensava. E descobri, também, que ela tinha uma quedinha por mim. Eu achei engraçado. Mas, nos víamos todos os dias. E quando não estávamos juntos, trocávamos mensagens pelas redes sociais. Ela conhecia tudo sobre mim. Menos uma coisa. Que até eu estava tentando entender.

De uns tempos para cá percebi que sentia atração por garotos. E tinha um em particular que chamava muito a minha atenção. Rodrigo era lindo. Cabelos castanhos médios e olhos de um verde intenso. Bom aluno. Destacava-se principalmente nas ciências exatas. Eu o considerava um gênio da física. Já que essa era a matéria que eu tinha as piores notas. Tinha um físico de dar inveja e quando entramos no Ensino Médio seus músculos ganharam um destaque ainda maior. Não perdia nada para os atletas da turma.

Já eu era o que se considera, um cara comum. Nem alto nem baixo. Cabelos castanhos. Olhos castanhos. Nem gordo nem magro. Alguém invisível na multidão humana. Tinha um certo destaque em literatura e história. E parava por aí.

A Milena era linda. Super popular na escola. Não era muito alta. Magra. Cintura de pilão. Olhos verdes claros e cabelos ruivos. Era uma ruiva natural. Saca. Que tem sardinhas no rosto e olhos verdes. Inteligente. Simpática. E..... deprimida. Eu não conseguia entender a depressão. Eu era ignorante sobre o assunto e confundia depressão com tristeza. Como a maioria das pessoas. Mas, pela minha amiga eu fui pesquisar sobre o assunto.

Estávamos no quarto dela. A decoração era bem menininha ainda. A cama estava coberta com uma colcha rosa de babados. Ela tinha alguns ursinhos de pelúcia numa prateleira em cima da cama. Uma escrivaninha daquelas de fechar. Devíamos estar estudando para a prova de matemática. Mas, resolvi falar com ela sobre a depressão.

- Gu.. para de se meter na minha vida. Eu já estou indo no psicólogo. Graças a sua traição de ir contar pra minha mãe. – Ela sorriu sem alegria.

- Mas, Mih... dá pra perceber que não está adiantando muito. Será que não é o caso de mudar de psicólogo ou procurar um psiquiatra. Li que muitas vezes a depressão tem causas bioquímicas. Às vezes precisa tomar remédios.

- Nem vem Gustavo. Eu não vou andar por aí parecendo uma zumbi dopada. Pode tirar seu cavalinho da chuva.

"Mas, você já está parecendo". Pensei, mas não falei.

- E você não larga esse celular. O que foi? Tá me escondendo alguma paquera? Eu conheço. Pode ir falando senhor Gustavo.

- Não é nada. Só estava pesquisando a matéria da prova. Nada de mais.

Não sei como começou. Eu e o Rodrigo estávamos trocando mensagens. Fizemos parte do mesmo grupo de história e todos compartilhamos o número de celular. Assim, otimizamos as tarefas para a apresentação do trabalho. Logo depois do seminário deletei os números, mas deixei o dele. E buscando uma coragem que não era minha comecei a mandar textos sobre banalidades. Tipo. "E aí, como foi seu dia". E o mais impressionante foi que ele respondeu e assim chegamos no ponto de algumas vezes estudar juntos na biblioteca da escola. Eu era um pouco tímido. Aos poucos fui contando coisas minhas; comida favorita, filme favorito, cor, livro... essas coisas. Coisas de começo de namoro. Sim... isso martelava na minha cabeça. Mais cedo ou mais tarde teria que conversar com Rodrigo sobre meus sentimentos.

Só que agora eu tentava lidar com a doença da minha melhor amiga. E ela nem queria admitir que era uma doença. Ela falava que era uma condição. Como se fosse uma topada no pé e que sem perceber um dia parava de doer. Ela tinha emagrecido muito. Estava com olheiras. Vivia sozinha pelos cantos. Não sorria mais. Foi se afastando de suas amigas. Se eu não fosse tão teimoso, também teria deixado ela de lado.

- Mih, vou indo. O clima aqui tá pesando e eu não quero brigar com você. Acho que já estudamos tudo. Te vejo amanhã na hora da prova.

Estranhei ela não responder. Eu estava de cabeça baixa arrumando o caderno e livro na mochila. Levantei o rosto e a vi com o olhar perdido. Desligado.

- Mih! Milena!

Ela olhou espantada pra mim.

- Que foi?

- Já vou indo. – Eu estava muito preocupado. – Já vimos toda a matéria. Te vejo amanhã, na prova. certo?

- Hum hum. – ela respondeu acenando afirmativamente com a cabeça.

- Vê se come alguma coisa antes de dormir. Tchau, flor. – Dei um beijo de despedida no rosto dela e saí do quarto.

Passei pela cozinha para me despedir da mãe dela. Aproveitei e disse que estava preocupado por Milena estar emagrecendo tanto e tão rápido. Dona Lúcia só me olhou com os olhos cheios de água. Depressão é uma coisa que desestrutura a família inteira. Só a pessoa doente que não percebe e acha que ninguém liga.

Saí da casa da Mih com o coração apertado. Um sexto sentido de amigo. Sei lá. Parei na pracinha perto de casa e sentei em um dos bancos. Fiquei observando o sol se pôr no horizonte e só percebi um vulto sentando do meu lado. Eu sabia quem era. Eu o tinha chamado.

Sem dizer nada, Rodrigo me abraçou me confortando, enquanto minhas lágrimas caíam. Tinha medo que de uma hora para outra Milena se matasse. Eu estava com o coração esmigalhado de medo e de tristeza. Não sei quanto tempo ficamos assim. Sua respiração calma me tranquilizava. Afastei-me um pouco dele e encarei aqueles olhos verdes. Um magnetismo nos atraía e o beijo foi inevitável. Meu primeiro beijo. Foi terno e delicado. Minha mente estava em branco. Todas as preocupações desapareceram por alguns instantes. Fechei meus olhos para internalizar as sensações. Gravar na memória o gosto, o calor, o frio na barriga. Quando o beijo acabou nos encaramos novamente. Ele acariciou meu rosto e eu apoiei minha cabeça em seu ombro.

A noite foi chegando e sem palavras nem nada. Nos levantamos. Com um selinho rápido nos despedimos e cada um seguiu para casa. Minha mãe ia dar uma bronca daquelas por chegar atrasado para o jantar. Apressei os passos.

**

Na manhã seguinte cheguei cedo na escola. Não mandei nenhuma mensagem pro Rodrigo de noite e ele também não. Eu estava feliz. Estranhei que a Mih não tivesse na sala. Em dia de prova ela sempre chegava primeiro. A sala foi enchendo, Rodrigo chegou e ao cruzar nossos olhares ele sorriu e eu devo ter sorrido bem bobo. O professor chegou e começou a distribuir a prova. E nada da Milena. A prova acabou e peguei o celular para mandar uma mensagem para ela. Estava esperando o celular ligar quando alguém chega correndo e gritando.

- Tem uma menina no terraço da escola. Acho que vai pular.

Eu não pensei duas vezes. Larguei tudo o que estava em minhas mãos e saí correndo. Eu sabia quem era. Subi as escadas de dois em dois degraus. Meu coração parecia sair pela boca. Abri a porta do terraço e a vi sentada na beirinha. O que mais eu poderia fazer? Suas pernas balançavam e seus cabelos esvoaçavam com o vento. Do verde límpido dos seus olhos ondas de tristeza batiam e escorriam por sua face.

Mih é uma pessoa tão meiga. Tão linda. Sua vontade de se perder na profundidade daquela escuridão era tão grande que eu conseguia sentir de onde estava.

Num rompante corri até ela. Abracei forte seus ombros. E menti.

Fiz isso pra salvá-la. Não que meu sentimento por ela fosse pequeno. Mas, sabia que só uma simples amizade não seria o suficiente.

Então. Eu menti. E naquele momento percebi que mesmo não caindo daquele terraço. Eu tinha morrido. Senti o momento que ele chegou sem fôlego pela corrida. Tentei pedir perdão com os olhos.

Joguei meu amor fora, meu coração foi lançado daquele abismo de 7 andares. No momento em que joguei o salva-vidas pra ela com aquelas três palavras.

- Eu te amo!

Virei o rosto dela pra mim e a beijei nos lábios. Tentando confirmar minha mentira com meu corpo. Olhando de canto vi Rodrigo fechar os punhos ao lado do corpo e tremer. Lágrimas saíam de seus olhos. Eu não seria perdoado. 

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