Capítulo 3
À noite, já acomodado na casa de seus pais, Mitchel finalmente pôde perguntar com calma para eles, o que está acontecendo na cidade. O que não foi tarefa fácil, pois estavam com muito medo de contar.
_ Mãe, pai... por favor, entendam. Houve duas mortes por aqui na cidade e do mesmo jeito! Tem algum assassino à solta por aí e inventando histórias de terror para assustar o povo!
Seus pais se olharam entre si e se envergonharam perante o filho, que era um homem estudado com diploma, "sabido da ciência" como se dizia no interior. E como também o conheciam melhor do que ninguém, sabiam que ele não acreditaria.
_ Bom, pelo menos podem me contar como foi que o delegado Mathias e o veterinário da Fazenda Andaluz morreram?
Vendo que ele não ia desistir, contaram:
_ Olha meu filho... _ Disse seu pai, Ernesto Junqueira, empregado aposentado da Fazenda Andaluz. O senhor de cabelos grisalhos, que um dia já foram castanhos como os de seu filho, olhou para o céu por horas, como se pedisse ajuda a Deus: _ A gente só escutou os boatos... mas ver mesmo não vimos nada e também preferimos não ver!
Mitchel só prestava atenção na explicação do pai, não querendo perder nenhum ponto.
_ Ficamos sabendo que o delegado Mathias, amigo nosso de tanto anos... morreu pisoteado!
_ Pisoteado? _ estranhou o porquê de tanto rebuliço. Sabia que por aquelas redondezas, aconteciam estouro de boiadas e infelizmente acontecia de haver acidentes com algum vaqueiro ou outro alguém morrer pisoteado.
_ É este o motivo de todo esse alvoroço? Porque o delegado Mathias morreu pisoteado por alguma manada de bois?
_ Não foi por uma manada de bois... _ Foi a vez de sua mãe contar, Maria Isabel: _ Antes tivesse sido isso... ele foi morto por uma... uma "coisa"...
_ E que "coisa" é esta?
Mais uma vez seus pais olharam-se entre si. Um silêncio tenebroso tomou conta da cozinha. Não aguentando mais todo aquele suspense, falaram de uma vez só:
_ Ele foi morto por uma... mula sem cabeça!
Mitchel olhou para seus pais com expressão de espanto, ficando totalmente sem ação diante daquela revelação. Só não deu risada por respeito ao finado delegado Mathias e a eles. Mas não pôde deixar de perguntar:
_ Vocês não acreditam mesmo nesta história, né?
_ Mas é o que estão comentando...
Como jornalista investigativo, já notou que tem muita coisa errada naquela conversa. Em sua mente, começou a levantar hipóteses e pistas para investigar, começando ali mesmo:
_ Como ficaram sabendo? Por favor, me falem pelo menos o que sabem!
Seu pai contou primeiro sobre a morte do veterinário da Fazenda Andaluz. Tudo começou quando a égua campeã do Coronel Vivar adoeceu e estava para morrer, mas parece que recebeu um "certo tratamento" e foi curada.
_ Mas como foi que ele morreu?
_ Parece que alguns dias depois do tratamento, a égua começou a agir de uma forma muito estranha... estava arisca, arredia, agressiva... Parecia até que estava possuída pelo demo...
_ Pode ser algum efeito colateral do suposto tratamento...
_ Era o que todos achavam... até aquela noite...
_ E o que houve "naquela noite"?
_ Bom... do nada, a égua começou a relinchar de um jeito muito estranho e... assustador! Começou a galopar e dar coices em seu estábulo... aquela égua era tão especial que o ele mandou fazer um espaço somente para ela... aquilo assustou os outros cavalos, que também ficaram muito agitados e todo aquele relincho infernal chamou a atenção dos empregados da Fazenda... alguns peões chamaram o veterinário... ele e o capataz entraram sozinhos no espaço dela e...
Mitchel chegou mais perto do pai, ansioso para saber o que houve:
_ ... Só escutaram os gritos de horror deles! Quando foram abrir a porta do estábulo, a égua praticamente a botou abaixo e saiu galopando noite a dentro!
_ E onde se encaixa uma mula sem cabeça no meio de todo esse rolo? _ Perguntou ainda confuso.
_ Quando entraram no espaço da égua... encontraram o corpo do veterinário totalmente pisoteado e a cabeça da égua caída no chão!
_ E o capataz? Ele está bem?
_ Ficou em estado de choque! Não falava coisa com coisa... dizia o tempo todo que a própria eguá quebrou o próprio pescoço e arrancou a própria cabeça fora!
_ Mas isso não tem o menor cabimento! Aonde que um animal vai arrancar a própria cabeça e sair galopando assim sem mais nem menos? _ Mitchel não queria chamar o pai de mentiroso, pois sabia que ele jamais inventaria uma história absurda dessas, mas não dava mesmo para acreditar.
_ E o delegado Mathias, morreu como?
_ Da mesma maneira que o veterinário, na noite seguinte. Ele também não acreditou nessa história de mula sem cabeça. Assim como você, também achou que era algum outro fazendeiro, tentando prejudicar o Coronel... sabe como é, ele não é lá muito querido por estas redondezas... eu mesmo já trabalhei lá na fazenda como tratador dos cavalos dele e mesmo nos pagando muito bem, todo mundo aqui sabe o quanto aquele homem era carne de pescoço. E também todo mundo sabe que os coronéis da região vivem em constante guerra pela posse das terras aqui em Nova Andaluzia, desde a colonização espanhola.
_ E foi por isso que o delegado Mathias nos pediu para que você viesse à cidade... para ajudá-lo a resolver o caso, pois ele sabia o quanto você é um ótimo investigador. _ Completou a sua mãe.
_ Mas que horas foi isso?
_ Foi quando deixava a delegacia tarde da noite... os policiais que estavam de plantão encontraram o corpo dele... também pisoteado, como o do veterinário lá na Fazenda!
_ Mas ninguém viu nada?
_ Não, infelizmente na hora ele estava sozinho. Quando ouviram os gritos dele, tentaram socorre-lo, mas era tarde demais. Só viram uma figura sinistra sumir na escuridão, junto com um barulho de cascos de cavalos... e um fedor de carniça ficou no ar, junto com uma gosma verde... porém, antes de morrer, ele conseguiu dizer que foi atacado pela tal da mula sem cabeça.
_ Pai, mãe... só uma dúvida. Esse veterinário que trabalhava na fazenda e morreu... era o mesmo cara que namorou com a Lívia?
Mitchel só viu seu pai abaixar a cabeça e olhar para as mãos calejadas pelos anos de trabalho, postas em cima da mesa, com um olhar de pena. Não era bem para as mãos que ele olhava. Depois viu a mãe dirigir o olhar para a porta da cozinha, na direção do quarto da filha mais velha. Voltou a encarar o filho e confirmou que infelizmente sim, era ele mesmo.
_ Poxa... tadinha dela... e coitado do pobre desse homem também.
_ Tudo bem filho, eles não estavam mais juntos. E não era exatamente um namoro, estavam só se conhecendo, o que achamos uma pena, pois formavam um belo casal. O trabalho em excesso da Fazenda quase não permitia que o pobre rapaz saísse de lá. E você sabe como é a sua irmã, ela é muito dedicada ao trabalho dela lá na escola. Não tem muitos professores disponíveis em nossa cidade e os poucos que tem, precisam trabalhar dobrado para ensinar as crianças daqui e por isso decidiram se afastar... mas pelo modo como ficou abalada, acho que ela ainda gostava dele...
_ Pois é, foi uma grande perda... era um rapaz tão bom. Ele sempre vinha aqui em casa e me pedia dicas de como tratar dos cavalos lá da Fazenda. O que chegava até engraçado, um doutor como ele pedir conselhos a um mero tratador, que Deus o tenha.
A filha mais velha dos Junqueira pode até ter ficado triste como a morte do ex-namorado, mas a população em peso estava com medo do mais novo conto de terror que se espalhava pelas redondezas.
Aquela história doida de mula sem cabeça estava e muito da mal contada e ele tinha que descobrir do que se tratava.
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