Capítulo 1

Como muitos já sabem, Mitchel Junqueira é um jornalista investigativo que por incrível que pareça, consegue resolver os mistérios mais intrigantes. E para cada caso que resolve, ganha uma cicatriz de brinde. Uma delas é o seu famoso olho vermelho.

Mas será que ele desvendará um certo caso sobrenatural que assombra Nova Andaluzia, a sua cidade natal lá no interior de São Paulo?

Esta é a sua história da vez!

Mitchel soube do caso pelo seu editor-chefe e melhor amigo Jonas, no escritório do jornal onde trabalha.

_ Qual é, Jonas? Sabe muito bem que eu não acredito em histórias de fantasmas... nem mesmo quando eu morava lá, já não acreditava! _ Disse ao seu editor-chefe.

Em muitas regiões do interior, era muito comum e por várias vezes tradição, ouvir histórias sobre vales e fazendas mal assombradas e contos de terror. E em Nova Andaluzia não era diferente...

Mas Mitchel, que desde criança sempre foi muito cético, não acreditava nessas histórias que eram narradas em volta da fogueira.

Porém, ele acreditava que por trás de todo boato, seja bom ou mau contado, sempre tinha uma verdade muito bem da disfarçada, ou seja, sempre havia alguém se aproveitando dos contos da roça e das lendas urbanas para dar o golpe do baú.

Ele mesmo já perdera a conta de quantas matérias já publicou sobre gangues de traficantes, contrabandistas, assassinos em série etc, que inventavam lendas e assombrações para assustar a população para que seus crimes e atividades ilegais não fossem descobertos.

_ Vamos lá Mitchel, preciso de você neste caso! Sua presença foi solicitada pelo próprio delegado da cidade. E outra, esse rolo está ocorrendo em sua cidade natal, isso não o incomoda nem um pouco? Aproveite a ocasião para tirar umas férias. A quanto tempo você não tem alguns dias de folga e não visita a sua família?

Ele só o observou de cima a baixo. Ficou na dúvida entre tirar uma com a cara dele, ficar indignado com o seu argumento ou as duas coisas.

Jonas era um senhor de idade com os cabelos grisalhos, que começou no jornalismo bem na época da ditadura militar no Brasil. Foi dado como rebelde, o que o fez ser preso e torturado. Viu muitos de seus amigos morrerem e alguns deles ainda estão na lista de desaparecidos políticos.

_ Ok, deixa-me ver se eu entendi... você quer que eu entre de férias, apenas para investigar uma suposta história de terror? _ Perguntou com sarcasmo a ironia de seu editor-chefe, que o respondeu da mesma forma.

_ Ora vamos, meu caro, sei o quanto você adora esse seu trabalho. Se não estiver atrás de alguma reportagem, não é você. E além do mais, é o meu melhor jornalista investigativo. Não tem mais ninguém aqui na redação, que tem a sua determinação, coragem e astúcia para resolver este caso!

_ Hum... você quer dizer o seu único jornalista investigativo que tem a cara de pau o suficiente para quebra-la, né Jonas?

Tirando os elogios, a parte de sair pelo mundo a fora investigando por aí era a mais pura verdade. Mesmo não ganhando lá essas coisas e ciente dos riscos que a sua profissão lhe traz, Mitchel adorava bancar o detetive. Por mais estranho que pareça e por muitas vezes impossível, ele consegue desvendar mistérios, descobrir falcatruas e solucionar os casos praticamente impossíveis até mesmo para os detetives mais experientes.

Desde moleque, Mitchel sempre fora apaixonado por literatura policial. Também gostava muito de suspense e terror, mas os seus favoritos eram os contos policiais, cheios de mistérios que fazem o leitor se sentir parte da história e sonha em um dia, publicar um livro com os seus contos ou um romance policial.

Mas enquanto o seu sonho não se realiza, segue trabalhando com jornalismo investigativo mesmo.

O seu primeiro contato com o mundo jornalístico foi com um amigo de seu pai, que teve a ideia de montar uma banca de jornal na época, para trazer mais comunicação ao povoado. Fascinado com aquela novidade, foi trabalhar com ele, vendendo jornais e nos intervalos, lia as notícias. Foi a primeira e a única da banca da cidade, ficou neste serviço por anos, até o dia em que o dono faleceu e a família vendeu o comércio.

Muitos se perguntavam porque Mitchel não entrou na polícia para tentar uma vaga como detetive. A ideia não era ruim, mas ele tinha medo de pegar em uma arma. E além do mais, não queria se prender àquela cidade, onde infelizmente as únicas opções de vida eram trabalhar como peão em uma das fazendas da região, algum comércio local ou ser policial.

Ele queria muito mais do que aquela vidinha simples do interior. Não que ela fosse ruim, mas queria estudar, viajar pelo mundo e achou que o jornalismo poderia lhe proporcionar isso e muito mais. Aliás, foi o próprio dono da banca que o incentivou a seguir a carreira de jornalista. Via que ele levava jeito, pois sempre que havia algum mistério na região, era ele quem solucionava o caso e fazia questão de contar como descobriu.

E como o seu pai mesmo lhe dizia, o mundo é muito grande para ele se limitar apenas àquela cidade.

O problema era que quando ia atrás de uma pista para alguma matéria, às vezes acontecia de ser descoberto e para não ser pego, sofria algum acidente durante a fuga. Mas quando era realmente capturado, sofria torturas dos inimigos. Era por isso que possuía cicatrizes por todo o corpo.

O seu olho vermelho, que lhe dava a impressão de sofrer do caso mais estranho de heterocromia, é uma delas...

Ao investigar um contrabando de material radioativo, um dos bandidos tinha as mãos sujas de Cobalto na hora e lhe desferiu um golpe no rosto, contaminando o seu olho esquerdo, atingindo-lhe a Íris. Por sorte não danificou a sua visão, ainda enxergava bem, mas uma boa parte da "menina dos olhos" ganhou uma coloração avermelhada, como se tivesse sofrido um derrame.

Mas voltando ao assunto sobre o suposto caso de terror, seu chefe continuava a argumentar que não havia mais ninguém naquela redação mais indicado para tal tarefa, que ele já conhecia a cidade, as pessoas etc. E vendo que não tinha como discutir, ele aceitou investigar o caso. Ainda mais que foi um pedido do delegado Mathias, a quem ele conhece desde criança. Era um amigo de longa data de sua família, então não tinha como recusar.

Até porque, por um lado seria muito interessante desmascarar quem está por trás de toda essa loucura. Sua intuição, que nunca o deixava na mão, lhe dizia que havia alguém de carne e osso e vivinho da Silva por trás dessa história mal assombrada.

E também, como disse o seu querido chefe e amigo, aproveitaria a ocasião para rever a sua família e amigos. Realmente já fazia muito tempo que não os via, tanto que o número de cobranças e promessas para visitá-los aumentava a cada dia.

A última notícia que teve de lá foi que sua irmã mais velha Lívia estava namorando com o veterinário da Fazenda Andaluz, a mesma onde seu pai trabalhou durante anos como tratador de cavalos, mas parece que eles terminaram... pelo menos foi o que sua mãe lhe disse.

_ Ok Jonas, já que você está insistindo tanto e para o bem geral de toda a nação, eu vou pegar o caso. Mas só porque fiquei curioso sobre esta história e também quero provar que assombrações não existem! Farei o que sempre faço, jogarei essa merda no ventilador.

_ Poxa, eu pensei que fosse pela nossa amizade! _ Disse fingindo estar ofendido com a sua declaração. Mitchel só fez cara de paisagem para o seu chefe e completou:

_ Se isso vai fazer você se sentir melhor... também!

E os dois caíram na risada.

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