vinte e sete.

EuTeAmo.com | vinte e sete.

29 de dezembro – Sábado.
Assunto: [SEM ASSUNTO]

Caro Matthew,

Não sei como estou tendo forças para escrever este e-mail. Achei que, depois de tudo o que aconteceu, eu estaria perdido. Por que fui tão teimoso? Por que sou tão idiota? Como não consegui ver o que estava claro diante dos meus olhos todo esse tempo? Phillip estava certo, e eu não quis ver a realidade. Arthur Arthit é um completo idiota! Ele me enganou esse tempo todo, e eu fui burro e ingênuo por ter caído nessa brincadeira cruel.

Descobri toda a verdade na sexta-feira, depois do último jogo do campeonato regional de basquete, no baile da escola. O jogo aconteceu na quadra do meu colégio. Thomas, Nina e eu estávamos na arquibancada, próximos ao banco de reservas, pois Arthur e Asher haviam reservado lugares especiais para nós. Arthur entrou como titular novamente e participou de todas as jogadas importantes que levaram o time à vitória. Asher foi o que mais fez cestas na partida, boa parte delas graças aos passes do Arthur e do Zach. Os três juntos jogaram como verdadeiros profissionais e levantaram toda a torcida.

— Ganhamos! — exclamou Arthur, correndo ao meu encontro no corredor das salas de aula do segundo andar, pouco depois da partida acabar.

— Parabéns, Arthur! Vocês jogaram muito bem — comentei, retribuindo o abraço dele.

— Onde está o Harris e a namorada dele? — perguntou, olhando para os lados.

— Não se preocupe. Inventei uma história para deixá-los na quadra e vir te encontrar. Você disse por mensagem que queria falar a sós, não foi? 

— Sim, amor! Tenho um pedido muito importante para te fazer — disse Arthur, colocando a mão no bolso do uniforme e pegando uma pequena caixinha aveludada.

Matthew, eram alianças de prata. Duas alianças prateadas com desenhos dourados, que imagino que fossem banhados a ouro.

— Não podemos usar no colégio, as pessoas vão perceber — afirmei. Meu coração estava acelerado e eu não estava acreditando que aquele momento havia chegado.

— A minha vou usar no pescoço com uma correntinha, por baixo da camiseta. Você pode usar a sua como quiser — disse ele, pegando uma das alianças antes de pegar minha mão carinhosamente.

— Mas, e se as pessoas...

Tentei falar, mas além de estar tomado pela emoção, ele me interrompeu para finalmente fazer o pedido...

— Quer namorar comigo, Alec? — perguntou, abrindo um grande sorriso.

Falso! Como alguém consegue fingir um sentimento de maneira tão convincente? Será que a culpa é minha por estar cego de amor e não ter percebido que ele foi falso desde o primeiro momento?

— É tudo o que mais quero, Arth — respondi, querendo começar a chorar, mas respirando fundo e segurando aquela emoção.

— Estou querendo fazer isso há muito tempo — disse ele, colocando a aliança em meu dedo, envolvendo os braços em minha cintura e encostando carinhosamente seu rosto no meu.

Foi então que Arthur Arthit me beijou pela primeira vez. Ele encostou nossos lábios e me beijou de forma carinhosa e apaixonada. Não se preocupou com a possibilidade de alguém nos ver, mas àquela altura, eu estava tão feliz que também não me importei com mais nada. Tinha valido a pena esperar tanto tempo... Foi isso que pensei durante algumas horas.

A festa de final de ano do colégio começou quatro horas depois do jogo. Eu estava muito feliz. Thomas e Nina estavam lindos de branco e pulavam comigo pela quadra, enquanto o DJ tocava as melhores músicas que já ouvi na vida.  Nós gritávamos, dançávamos e comemorávamos tanto... Naquele momento, eu não comemorava só o final do semestre, ou a vitória do time de basquete no campeonato regional, eu também comemorava o momento mais feliz da minha vida...
Infelizmente, aquele momento durou pouco.

— Preciso beber alguma coisa! Estou ficando tonto de tanto dançar! — exclamei para Thomas, que assentiu e continuou dançando com a Nina.

Fui até a mesa de bebidas pegar um refrigerante, pois minha garganta estava seca e meus pés doendo de tanto que eu havia pulado na pista de dança. Assim que dei alguns goles naquela bebida gelada, vi Arthur e Asher discutindo em uma das portas que dava acesso ao corredor dos armários. Eles pareciam bem nervosos, e Asher empurrou o Arthur pouco antes de deixar a quadra. Matthew, não sei o que me deu, mas precisei segui-los para entender o que estava acontecendo. Arthur, naquele momento, era meu namorado, e eu não queria que ele discutisse com seus amigos. Principalmente com o Asher, que tinha o poder de decidir o futuro dele nos próximos jogos dos campeonatos.
Os segui até o banheiro masculino do térreo. Eles entraram juntos e não perceberam que eu estava perto. Encostei na parede do corredor, ao lado da porta, para ouvir e tentar entender o motivo daquela briga.
Foi a pior conversa que já ouvi em minha vida...

— Não vou deixar você expor o Alec. Eu ganhei e isso já acabou! — exclamou Arthur, irritado.

— Sei que você está mais preocupado em não ser exposto, Arthur. Não se preocupe, vou dar um jeito de não envolver seu nome na história — disse Asher, menos irritado e mais debochado.

— Eu ganhei a maldita aposta que você inventou! Você cumpriu com a sua parte e ganhamos o campeonato! Você não precisa levar essa história adiante — respondeu Arthur, parecendo irritado. — Não vou deixar você fazer mal ao Alec.

— Já falei para não se preocupar. Ninguém vai saber que o Alec te fez um oral para você entrar nos jogos como titular. Confesso que até tive curiosidade para saber como é receber um oral de um gayzinho como ele. Verdade que eles engolem tudo? — zombou Asher, gargalhando em seguida.

Minhas pernas começaram a tremer e meu corpo começou a amolecer naquele momento. Eu não acreditava no que estava ouvindo. Por um momento pensei que minha mente estava traindo meu corpo novamente e me causando alucinações. Não senti medo e nem tive um ataque de pânico. O que eu sentia era muito mais doloroso e cruel... Senti como se minha alma saísse do meu corpo e meu peito fosse esmagado por um gigante.

— Não é certo contar para todo mundo que o Alec é gay e inventar histórias para zoar com ele — disse Arthur, em um tom mais irritado. — Ele é nosso amigo, Asher!

— Você é muito certinho, Arthit! O cara é gay e fica olhando a gente todos os dias na quadra. Imagina as milhares de safadezas que ele pensa enquanto nos vê tirando a camisa — disse Asher, ligando a torneira para lavar aquelas mãos nojentas.

— O que você quer? — perguntou Arthur, abaixando o tom de voz. — Estou disposto a dar o que você quiser para deixá-lo em paz.

— Jura? — questionou Asher. — Até o que combinamos se eu ganhasse a aposta?

— Tudo o que quiser para esquecer essa história e não olhar mais na cara do Alec — respondeu Arthur.

— Por que você se importa tanto? — perguntou Asher, desconfiado.

Naquele momento, Thomas e Nina entraram no corredor. Thomas me viu encostado na parede ao lado da porta do banheiro e percebeu que eu não estava me sentindo bem.

— Alec! — exclamou Thomas, correndo ao meu encontro.

— Alec?! — exclamou Arthur, em tom de surpresa, saindo do banheiro junto com o Asher.

— O que você tem?! — perguntou Thomas, preocupado.

— Alec, a quanto tempo você está aqui? — perguntou Arthur, tentando se aproximar de mim.

Não sei explicar o que eu estava sentindo naquela hora. Não sabia se gritava, se chorava, se xingava o Arthur e o Asher, ou se abraçava o Thomas e implorava para ele me tirar dali. Subi correndo as escadas de emergência até chegar ao terceiro andar do colégio. Para tentar me acalmar, me apoiei em uma das janelas e respirei fundo enquanto observava a movimentação da festa do lado de fora. A quadra de basquete estava toda iluminada, cheia de balões brancos e fitas coloridas. Todos cantavam e dançavam. O clima era de muita alegria, mas eu não parava de chorar e de sentir uma dor intensa em meu peito. A dor era diferente, não era física, era além. Não sei explicar que tipo de dor é essa, mas é como se não existisse um coração dentro de mim. Eu me sentia oco e sem vida. Matthew, como pude ser tão estúpido?

— Alec, espera! — chamou Arthur, entrando no corredor depois de me seguir.

— Fica longe de mim! — exclamei, soluçando.

— Eu não queria que isso acontecesse, juro! — disse ele, correndo ao meu encontro.

— Não quero te ver, sai daqui! — gritei, socando o peito dele várias vezes quando se aproximou o suficiente.

Eu não tinha mais forças e, mesmo tentando afastar o Arthur com meus socos, tudo que consegui foi perder o equilíbrio e cair de joelhos, ainda chorando e soluçando.
Eu amo o Arthur, e isso era o que mais me doía. Ele me fez ficar mais apaixonado, mas só queria brincar comigo e ganhar uma aposta para jogar como titular no time do colégio.

— Alec, me escuta? — insistiu ele, ajoelhando no chão à minha frente e segurando meus braços.

— Eu já ouvi tudo e não há explicação! — exclamei. — Tudo está muito claro!

— Eu juro que não é isso que você está pensando. Se acalma e me escuta, por favor?! — pediu ele, também começando a chorar.

Eu não queria continuar mais com aquele jogo. Eu sabia, desde o primeiro momento, que qualquer tipo de relação com o Arthur acabaria daquela forma, afinal ele é hétero e não se importa com meus sentimentos. Eu só não queria ver.

— Como você pôde fazer isso?! — questionei, soluçando.

— Deixa eu explicar?!

— Eu te amo, droga! Por que me deixou apaixonado por você?!

— Eu também te amo, Alec! Eu me apaixonei por você!

— Quem ama não faz o que você fez comigo! Você levou esse joguinho idiota e cruel até o fim para conseguir o que queria, e ainda contou para o Asher! Você contou para ele nosso momento de intimidade para ganhar uma aposta?! Por que você fez isso?!

— Me perdoa?! Por favor, me perdoa?! — exclamou Arthur, me abraçando com força.

Matthew, não se preocupe comigo, pois já está decidido. Eu não quero vê-lo nunca mais em minha vida. Tudo estava cruelmente claro, e Phillip estava certo desde o começo. Sempre fui motivo de piada para Arthur, Asher e, provavelmente, todos os amigos deles. Como pude ser tão cego?

— Arthit! — gritou Thomas, batendo a porta de emergência e correndo em nossa direção.

— Thomas, espera! — gritou Nina, passando pela porta logo em seguida.

— Seu desgraçado! — exclamou Thomas, segurando Arthur pela gola da camisa antes de socá-lo no rosto.

Nina deu um grito que ecoou pelo corredor e pelas salas de aula. Mesmo assustada com a situação, ela correu ao meu encontro e me ajudou a levantar. As lágrimas caíam, mas eu não emitia mais sons ou grunhidos de choro. Eu respirava de maneira rápida como se fosse começar a ter um ataque de pânico, mas não ia ter ataque algum... Daquela vez, o sentimento era diferente.

— Levanta, seu desgraçado! Eu mandei levantar! — gritou Thomas, furioso.

— Harris, me escuta? — murmurou Arthur, chorando.

— Você é um canalha! Eu vou quebrar sua cara, seu idiota! — gritou Thomas, partindo para cima do Arthur e o socando mais uma vez.

Arthur não revidou. Ele permaneceu no chão, enxugando as lágrimas e limpando o sangue que começou a escorrer de sua boca. Apesar de nervoso, Thomas recuou para ver como eu estava. Preocupados, meus amigos me levaram até a entrada do colégio.

— Quero ir embora — afirmei, saindo pelo portão principal.

— Vou te levar pra casa, Alec — disse Thomas.

— Vou chamar um táxi — disse Nina, pegando o celular.

— Não precisa. Vou ligar e pedir ao Phillip para vir me buscar — falei, sentindo minhas pernas tremerem.

— Você não pode ir pra casa nesse estado. O que seus pais vão pensar? — questionou Thomas, envolvendo o braço em meu pescoço de forma amigável e carinhosa como sempre fazia.

— Não vou para casa — respondi, sentindo minhas lágrimas secarem por causa do vento gelado daquela noite.

— Então para onde você vai? — perguntou Nina, confusa e aflita.

— Nã... Não sei — gaguejei.

Como eu não estava em condições para tomar decisões, Thomas decidiu me levar para seu apartamento. Quando chegamos, ele me ajudou a tirar as roupas e a tomar um banho antes de me deitar. Ele até preparou um lanche para eu comer, mas não consegui reagir naquela noite... Eu me sentia morto por dentro.
Queria poder falar com Thomas sobre tudo o que tinha acontecido, mas eu estava tão envergonhado que não consegui dizer uma palavra sequer. Matthew, para você ter uma ideia, fui embora do apartamento dele ontem de manhã e não consegui me despedir, pois as palavras não saíram. Ainda não consegui dizer nenhuma palavra, nem mesmo para minha mãe. A única forma que encontrei para desabafar e falar sobre o assunto foi escrevendo este e-mail para você. Matt, você é a única pessoa que não tenho medo ou vergonha de contar essas coisas. Você é meu melhor amigo desde quando éramos pequenos, e é como se fosse um irmão para mim.

Como eu queria estar ao seu lado agora, Matthew.

Desculpe, mas não consigo mais escrever. Tomei dois remédios para dormir enquanto escrevia este e-mail, e acho que eles começaram a fazer efeito.

Obrigado por sempre estar aqui comigo.

Alec Stevens.

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