vinte e oito.
EuTeAmo.com | vinte e oito.
30 de dezembro – Domingo.
Assunto: Recebi duas visitas: uma ótima e a outra...
Caro Matthew,
Queria descrever o que estou sentindo neste momento, mas é complicado. A ansiedade e o medo deram lugar a outro sentimento que mistura vazio e tristeza. Não é uma dor física... É algo estranho que sinto em meu peito. Ontem à noite, quando terminei de te enviar aquele e-mail, não consegui chorar, mesmo sentindo vontade a cada palavra digitada. Sem contar que tive que tomar dois remédios para dormir, além do remédio que controla minha ansiedade.
Você é a única pessoa com quem posso conversar sobre esse assunto, pois não quero preocupar meus pais ou meus outros amigos. Não quero que eles achem que eu tive uma piora em meu tratamento contra a síndrome do pânico e o estresse pós-traumático.
Hoje de manhã, Joanne estranhou meu silêncio e disse que eu estava com os olhos vermelhos e o rosto inchado. Ela perguntou se estive chorando e se havia algum problema, mas forcei um sorriso, respondi que estava tudo bem e que não passava de cansaço. Meu pai também estranhou o meu jeito enquanto eu tomava café da manhã. Ele disse que eu parecia distante e que minha linguagem corporal demonstrava que eu estava começando a ficar doente. Novamente, forcei um sorriso e insisti que nada estava acontecendo. Inventei que só estava indisposto por causa do efeito dos remédios.
— Você não nos contou como foi o jogo e a festa de final de ano do seu colégio, Alec. Você se divertiu? — perguntou minha mãe, terminando de arrumar a cozinha depois do café da manhã.
— Foi tudo ótimo — menti, levantando da mesa para sair da cozinha e não prolongar aquele assunto.
— Aonde você vai? Ontem, depois de chegar da casa do Thomas, você ficou trancado o dia todo no quarto — disse meu pai.
— Thomas e eu ficamos acordados à noite toda conversando sobre o jogo e a festa. Estou com sono e indisposto, pois dancei e me diverti demais — menti de novo, mas era necessário.
— Vai continuar trancado no quarto à tarde toda? — perguntou minha mãe.
— Vou! Quero aproveitar a semana de descanso do colégio — respondi, retomando o caminho até meu quarto.
Antes de eu chegar à escada, a campainha tocou. Meu pai, ainda me olhando com desconfiança, se adiantou para atender a porta. Assim que ele a abriu e vi o Arthur esperando do lado de fora, voltei para a cozinha rapidamente. Se eu tivesse subido para o quarto naquele momento, Arthur provavelmente teria me visto.
— Mãe, é o Arthur — sussurrei, apavorado.
— O que você tem, Alec? Você ficou pálido — disse ela, vindo ao meu encontro e colocando a mão em minha testa para ver se eu estava com febre.
— Estou cansado e não quero receber visitas.
— Talvez ele tenha vindo trazer alguma coisa do colégio.
— Por favor, se livra dele. Não quero ver ninguém hoje.
Minha mãe assentiu, mas percebi que ela começou a desconfiar de alguma coisa por conta do meu comportamento. É muito difícil enganá-la, pois acredito que, depois de você, Matthew, ela é a pessoa que mais me conhece.
— Arthur, que prazer em te ver! — disse minha mãe, saindo da cozinha para atender àquela indesejável e inesperada visita.
— Posso falar com o Alec? — perguntou ele.
— Sinto muito, mas ele está indisposto e acabou de subir para o quarto — respondeu Joanne.
— É muito importante, Sra. Stevens. Preciso falar com ele — insistiu Arthur, com a voz ansiosa.
Nem imagino o que ele queria comigo depois de tudo o que ouvi na sexta-feira. Escutando escondido atrás da porta da cozinha, percebi que o Arthur não parecia tão bem quanto costuma estar. Talvez ele quisesse se fazer de coitado e continuar com aquele joguinho. Arthur Arthit preza muito sua reputação de bom moço, e só agora notei que sempre foi fingimento. Aquela pose de garoto sério, maduro e respeitoso era mentira. Ele é muito falso!
No decorrer da tarde, recebi uma mensagem do Thomas perguntando se podia me fazer uma visita. Por um lado, não achei uma boa ideia, pois parte de mim queria ficar sozinho e não ter contato com ninguém daquele colégio durante essa semana de descanso. Por outro, eu sentia falta do meu melhor amigo e, por mais que eu ainda estivesse envergonhado, Thomas e eu teríamos que ter aquela conversa cedo ou tarde.
— Estou tentando entender o que aconteceu, Alec — disse ele, colocando a mochila em cima da escrivaninha assim que chegou.
— Aconteceram muitas coisas que você não sabe, Thom.
— Quando você subiu correndo a escada de emergência, confrontei o Asher e perguntei o que estava acontecendo. Ele disse que você...
— Asher é um idiota — comentei, pois percebi que ele não concluiria aquela frase.
— Ficou claro que o Arthit fez alguma coisa suja com você, pois o Asher disse que ele ganhou uma aposta.
Lutei contra o desejo de me manter em silêncio. Não consigo me abrir para as pessoas, mas guardar meus sentimentos têm me deixado triste e com um peso gigante nas costas. Matthew, acho que não consigo mais carregá-los sozinho.
— Arthur me enganou. Ele fingiu gostar de mim para entrar como titular nos jogos do campeonato regional. Ele fez uma aposta com o Asher, provavelmente de qual dos dois conseguiria me seduzir e... Arthur conseguiu.
— O que ele fez com você?
— É mais fácil você perguntar o que eu fiz com ele.
— Não me diga que vocês dois...
— Foi apenas uma noite e não passou das preliminares.
— Você fez um... — Thomas gesticulou o ato com uma das mãos. — Você fez isso nele?
— Sempre fui apaixonado pelo Arthur — afirmei. — Não me julgue por isso, por favor.
Thomas entendeu muitas coisas durante nossa conversa. Tive que explicar toda a história para ele tentar me compreender e me perdoar por não ter contado tudo desde o começo. Foi bom, pois ele reagiu de uma forma diferente da que eu tinha imaginado.
— Você é meu melhor amigo, Alec. Não se preocupe, pois vou te defender desses idiotas — disse Thomas, pegando o celular.
— O que você vai fazer? — perguntei, estranhando a atitude dele.
— Vou falar com o diretor do colégio e com o treinador do time de basquete. Isso não pode ficar assim.
— Thom, não faça isso, por favor!
— Por quê? Vai deixar que eles saiam impunes?
— Não quero que ninguém saiba, por favor!
— Se você falar com o diretor ou com o treinador, Asher e Arthit podem ser expulsos do time, ou até do colégio. No semestre que vem vai ter o campeonato nacional, e eles não poderão participar.
— Essa não é a solução, Thom. Não vou me sentir melhor se isso acontecer.
— Tudo bem! Eu não tenho o telefone do diretor ou do treinador mesmo, então deixa pra lá! — exclamou Thomas, naquele tom de brincadeira que sempre usava.
Respirei aliviado e sorri pela primeira vez desde que descobri que o garoto que amo é um mentiroso.
Thomas alegrou minha tarde de uma forma agradável e inesperada. Conversar com ele sobre o que tinha acontecido com o Arthur me tirou um grande peso das costas. Além disso, ganhar no videogame contra o Thomas é muito engraçado, pois ele se revolta e solta as mais engraçadas piadas e palavrões. Um dos pontos altos de nossa conversa foi quando ele perguntou de você e do meu tratamento. O que mais gosto nele é que por mais que saiba que tenho um problema, ele não me olha ou me trata de maneira diferente. Até com problemas sérios ele continua contando piadas para tentar me fazer sorrir.
— O Matthew nunca respondeu àqueles e-mails. Esse garoto realmente existe ou é fruto dos seus desejos sexuais? — perguntou Thomas.
— Claro que ele existe! Ele demora um pouco, mas responde quando você menos espera.
— Acho que ele não foi com a minha cara.
— Impossível não gostarem de você, Thom!
Thomas assentiu, balançou os ombros e sorriu.
— Como vai o seu tratamento?
— Bem, eu acho.
— Você está tomando os remédios e visitando seu médico?
— Estou e me sinto bem melhor. Não tenho tido mais crises de ansiedade ou ataques de pânico.
— Pesquisei na internet e vi que a depressão é uma doença silenciosa. Em muitos casos, as pessoas não demonstram que tem. Você sempre foi alegre e brincalhão, mas agora percebo que sempre foi fechado e nunca compartilhou seus sentimentos — disse Thomas, me descrevendo de uma forma tão direta e séria que tive que pensar por um momento antes de responder.
— Me desculpe por ser assim — murmurei.
— Está se desculpando por ser um garoto tão especial comigo e com todos à sua volta?
— Thom...
— Nunca vi você dar às costas para seus amigos ou ser idiota com as pessoas. Você me ajudou com a Nina, ajudou aquele idiota do Arthit nos trabalhos do colégio e ainda se corresponde com seu amigo da sua cidade natal, pois nunca o esqueceu. Não conheço seus outros amigos, mas tenho certeza que você ajudou cada um deles — disse Thomas e, se me lembro bem, com essas mesmas palavras.
Eu não soube o que responder. As palavras de incentivo e motivação que Thomas disse preencheram, mesmo que por alguns segundos, aquele espaço vazio que Arthur havia deixado na sexta-feira passada. Tudo o que consegui fazer foi abraçá-lo e agradecer por ele estar a meu lado.
Agora à noite, um pouco depois de eu sair do banho, recebi uma mensagem do Phillip me perguntando quando poderíamos nos encontrar. Amanhã tenho terapia em grupo na parte da tarde, então Phillip e eu marcamos para ele me acompanhar.
Arthur me mandou milhares de mensagens de texto na parte da tarde, mas não li nenhuma delas. Ele ligou para meu celular umas quinze vezes, mas bloqueei o número dele pouco tempo depois que Thomas foi embora. Ele não vai mais me incomodar.
Gostaria de poder te dizer como estou me sentindo agora, mas não faço a menor ideia do que escrever. Ainda o amo com cada pedacinho do meu corpo, mas odeio o que ele fez comigo e não me perdoo por ter me iludido tanto. Ao mesmo tempo que desejo saber como o Arthur está, quero que ele desapareça para nunca mais vê-lo em minha vida.
Em relação aos ataques de pânico, fico feliz por estar conseguindo me controlar. Não vou dizer que não sinto medo às vezes, ou que aquela sensação de morte não me incomoda, mas agora consigo controlar bem mais facilmente esses sentimentos ruins, e eles somem em poucos segundos.
Então, não se preocupe, Matthew... Juro que vou ficar bem.
Obrigado por sempre estar aqui comigo.
Alec Stevens.
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