quatorze.
EuTeAmo.com | quatorze.
22 de novembro – Quinta-feira
Assunto: Surtos.
Querido Matthew,
Esta semana está estranha. Todo mundo que conheço parece estar em seu limite. Tenho medo que essa epidemia de surtos acabe me afetando também.
O primeiro surto foi na hora do almoço da segunda-feira. Thomas e Nina brigaram no final de semana passado e não conseguiam resolver o problema tranquilamente. Ou melhor... Nina que não conseguia resolver o problema tranquilamente.
— Ele não liga pra mim! — exclamou ela, no meio do refeitório. — Ele só liga para os amigos e joguinhos dele!
— Isso não é verdade. — Thomas retrucou tranquilamente. — Eu apenas preciso de um tempo para jogar videogame, ir na padaria ou andar de bicicleta. É pedir muito ter um tempo sozinho?
— Você foi a um fliperama com dois amigos e nem pensou em me chamar! — exclamou Nina, aumentando ainda mais seu tom de voz.
— Passamos o final de semana todo juntos — disse ele. — Chamei dois amigos para tomar um refrigerante e jogar um pouco no domingo à tarde. Qual é o problema nisso?
— O único amigo que você deveria chamar para sair é o Alec — disse Nina, apontando para mim. — Ele não é uma má influência como os outros.
— Má influência? — questionou Thomas, começando a rir.
— Pensa que eu não sei que eles levam você para esses lugares estranhos para conhecerem e flertarem com garotas? — resmungou ela, cruzando os braços.
— Nina, por que você não se acalma um pouco? — sugeri para tentar parar aquela discussão, já que todos em volta estavam nos olhando.
— Alec, a Nina não entende que eu não posso e nem quero dedicar vinte e quatro horas do meu dia a ela — disse Thomas.
— Eu sei que você precisa de um tempo sozinho, mas não saindo para lugares cheios de garotas com seus amigos! — exclamou Nina, voltando a subir o tom de voz.
— É um fliperama! — exclamou Thomas, inconformado e aumentando o tom de voz pela primeira vez. — Quase não vão garotas lá!
— Nina, acho que você só está com ciúmes — falei baixinho.
Eu não queria me meter na discussão, mas confesso que me senti um pouco desconfortável com a injustiça que Thomas estava sofrendo. Nina é muito legal, mas acho que ela estava exagerando um pouco com meu amigo.
— Eu vou sair com meus amigos sempre que eu quiser e você não vai me impedir — disse Thomas, batendo com a mão na mesa.
— Então procura outra namorada! — gritou Nina, enquanto jogava um copo cheio de suco de uva no rosto do Thomas, antes de levantar da mesa e sair do refeitório.
Todos os nossos colegas ao redor começaram a rir do ocorrido e, por incrível que pareça, Thomas também deu risada e pareceu se divertir com aquela cena. Eu fui um dos únicos que permaneceu em silêncio. Tanto por não ter achado engraçado quanto por não entender o motivo de tanto estresse.
— Deve ser tensão pré-menstrual — disse Zach, passando por nossa mesa junto com Arthur e Asher.
— Deve ser — concordou Thomas, tentando se limpar com os guardanapos.
Matthew, essa briga não durou muito. No final do dia de aula, Thomas e Nina estavam juntos novamente como se nada tivesse acontecido. Os dois ficaram na escadaria da entrada do colégio trocando beijos e carícias antes de irem embora.
Não conversei com o Arthur nesse dia. Eu o vi andando pelo corredor com os amigos na troca de aulas, mas acho que ele não me viu quando eu estava guardando alguns livros em meu armário. Ele também não me enviou mensagens de texto.
Na terça-feira, o surto foi da Sra. Walsh. Na parte da manhã, enquanto estou no colégio, a Sra. Walsh contratou o sobrinho dela, Ryan Walsh, para assumir o atendimento do Cyber. Ele não aparenta ser inteligente e vive reclamando do serviço. Além disso, ele costuma colocar a culpa em mim por tudo que acontece de ruim na loja.
— Foi o Alec, não eu! — exclamou ele para a Sra. Walsh.
— Alec, por que você não recolheu as mercadorias que caíram no estoque? — perguntou a Sra. Walsh assim que assumi meu lugar no balcão de atendimento.
— As mercadorias caíram? — questionei.
— Quando cheguei, haviam muitas caixas jogadas no estoque, e muitas mercadorias quebraram por sua culpa — disse Ryan Walsh, enquanto arrumava as coisas dele na mochila para ir embora.
— Quando saí daqui ontem estava tudo no lugar — falei, mas não ia adiantar.
— Alec, eu entendo que você é inteligente e dedicado, além de precisar muito desse emprego para comer, pagar a internet que usa no MacBook que meu falecido irmão te deu, e sei lá mais o que você faz com o salário que ganha trabalhando aqui — disse Sra. Walsh, começando a subir o tom de voz —, mas tome cuidado com as coisas que não são suas! Se eu fosse descontar do seu salário cada prejuízo que você dá para esta loja, você ia trabalhar de graça para mim por semanas!
— Não fui eu quem derrubou o estoque — falei rápido e seriamente, antes que ela começasse a tagarelar novamente.
— Não foi você? — questionou, ironicamente. — Então quem foi?
— Não sei, mas não fui eu — afirmei. — Sempre olho o estoque antes de ir embora.
— Se não fui eu e nem minha tia, é óbvio que foi você, Alec — disse Ryan, terminando de arrumar as coisas dele e saindo antes de ouvir qualquer resposta.
Respirei fundo.
— Eu não...
— E também não quero saber de você acabando com o café da loja! Não houve tantas vendas de café para ele ter acabado dessa forma.
— Eu não tomo o café daqui.
— Por que está mentindo pra mim?
— Eu não estou mentindo!
Prendi a respiração.
— Você mentia assim para o meu irmão? — questionou a Sra. Walsh, começando a ficar histérica.
— Sra. Walsh, eu sei muito bem o que está acontecendo aqui. Você começou a me acusar de tudo e a me tratar mal a partir do momento em que o seu sobrinho começou a trabalhar com a gente — falei, começando a ficar nervoso.
Tentei ao máximo manter minha calma para não perder a razão.
— Está me chamando de mentirosa? — perguntou ela, rispidamente.
— O quê?... Não! — exclamei. — Eu disse que o seu sobrinho é que...
— Alec, não vou mais falar com você sobre isso! Ou você entra na linha ou pode procurar outro emprego. Você pode até ser inteligente, mas não vou tolerar sua insolência e falta de respeito! — gritou a Sra. Walsh tão alto, que as pessoas na rua pararam para ver o que estava acontecendo.
Matthew, eu sei... Não desrespeitei a Sra. Walsh nem uma única vez, mas não há condições de falar com uma pessoa que não escuta e não dá abertura para defesa. Sem falar que discutir sobre as coisas que o sobrinho dela faz escondido na loja é praticamente impossível.
O resto da tarde no Cyber foi insuportável, pois a Sra. Walsh não me deixava nem um segundo em paz com tantas exigências e conversas sem fundamentos. Ela não me ajudava em nada, e quando tentava ajudar, só atrapalhava o meu trabalho. Confesso que tive que me segurar mais de uma vez para não dar dois ingressos para ela ir para aquele lugar.
Arthur também não falou comigo na terça-feira. Lembro de tê-lo visto treinando com o time de basquete na quadra um pouco antes das aulas acabarem. Até pensei em descer para falar com ele, mas não sabia como iniciar uma conversa depois de tudo o que aconteceu no final de semana passado em minha casa. Enviei uma mensagem de texto para ele na terça-feira à noite desejando boa sorte no campeonato de basquete e nas provas que ele faria esta semana.
Hoje o surto foi do Asher. Não foi um surto de estresse ou algo do tipo, mas ele estava fora de si, e apesar de isso explicar muitas coisas que eu não entendia, confesso que fiquei com medo.
Fui à quadra de basquete atrás do Arthur depois da aula, mas não encontrei outros jogadores além do Asher. Ele estava sozinho guardando os materiais que ele e o time usaram no último treino.
— Onde está o time? — perguntei.
— Já foram pra casa. Hoje fiquei de castigo limpando a quadra — disse Asher, sorrindo estranhamente assim que me viu.
— Quer ajuda? — perguntei para não levantar suspeitas de minhas reais intenções.
— Não precisa, Alec. Só falta levar estes uniformes para o vestiário — disse ele, me entregando um cesto de camisas sujas.
Acompanhei Asher até o vestiário e coloquei o cesto de roupas na porta da lavanderia. Não havia alunos ou professores no vestiário, pois todos já tinham ido para casa.
— Bom, Asher, foi bom ver você! Preciso ir para o trabalho agora — falei, acenando com uma das mãos.
— Espera, Alec! — chamou ele, fazendo sinal com a cabeça para que eu o acompanhasse.
— Precisa de alguma coisa? — perguntei assim que cheguei na porta de saída do vestiário.
— Me ajuda com uma coisa? Não consigo fazer isso sozinho — disse ele.
Asher estava sem camisa na frente do armário dele. Isso é normal para alguém que estava tirando a roupa para entrar no chuveiro depois de um treino.
— Preciso da sua ajuda, Alec — insistiu Asher, jogando uma das camisas dele dentro do armário.
— Com o quê? — perguntei, me aproximando inocentemente para ajudá-lo.
— Estou com um tesão incontrolável — disse, avançando contra mim.
Ele tentou me beijar, mas consegui desviar o rosto e dar dois passos para trás. Bati minhas costas no armário e me assustei tanto com o barulho do choque quanto com a segunda investida do Asher.
— O que você tá fazendo?! — exclamei, surpreso.
— Eu sei que você gosta. — Ele respondeu forçando o corpo contra o meu enquanto beijava meu rosto e meu pescoço.
— Asher... Para!
Tentei empurrá-lo, mas Asher é muito mais forte e rápido que eu. Ele segurou meus pulsos e me dominou antes que eu tivesse a chance de me defender. Por um lado, admito que não tentei escapar com todas as forças que eu tinha, tanto pela surpresa quanto pela curiosidade. Por outro lado, eu sentia que estava traindo o Arthur, mesmo não tendo absolutamente nada com ele e sabendo que possivelmente ele estava me evitando por causa do que aconteceu entre nós no sábado passado.
— Gosta do meu corpo? — perguntou Asher, pegando minha mão, me fazendo acariciar o peito dele e descê-la até quase chegar em sua bermuda.
— Asher, melhor pararmos por aqui — falei, puxando minha mão com tanta força que bati meu cotovelo no armário do vestiário.
— Por quê? Não me acha atraente? — perguntou, antes de tentar me beijar novamente.
— Asher, você é muito atraente, mas não posso ficar com você — falei, virando o rosto mais uma vez.
— E por quê? — questionou, surpreso. — Vai me dizer que você gosta de outro cara do colégio?
— Claro que não — menti.
— Quem é o cara, Alec? — Asher forçava ainda mais o corpo contra o meu, não me dando espaço para fugir.
— Meu ex-namorado que mora em minha antiga cidade, lembra?
— Mentira! É o Arthur? Ou é o Thomas? — questionou Asher.
— Ficou louco? Não sinto nada por eles — menti novamente.
— Se não sente nada por eles, por que você não quer ficar comigo? — perguntou, começando a relaxar o corpo dele e aos poucos me soltar. — Podíamos aproveitar que não tem ninguém aqui para transar ou sei lá!
— Transar? — repeti, incrédulo. — Do que você está falan...
— Olha só... Eu não sou gay e quero que isso fique claro entre a gente — falou.
Não dê risada, Matthew, pois a coisa foi séria. Se eu te conheço bem, a esta hora você está gargalhando e doido para saber o que aconteceu depois. Eu não deveria te contar, mas como você é meu melhor amigo...
— Eu não sou gay, mas curto transar com garotos às vezes — sussurrou Asher, me soltando completamente, mas permanecendo à minha frente.
— Transar? — questionei.
— Sim! Só sexo, sabe? — disse ele, rindo como se aquilo fosse alguma piada. — A gente podia ficar e você poderia fazer um oral em mim se quiser.
Franzi a testa, apertei os olhos e suspirei.
— Você só quer... Transar comigo e... Um oral?
— Basicamente isso. Nada demais, não é?
— Desculpa, Asher, mas... Eu sou virgem e gostaria que minha primeira vez fosse...
— Não vem com esse papo de mulherzinha, Alec — disse Asher, voltando para o armário dele. — Somos homens e a coisa é diferente entre nós.
Não vou dizer como aquela conversa acabou, pois não houve nada demais depois. O que você precisa saber é que Asher ficou aborrecido por ter recebido uma resposta negativa. Não sou ninguém para julgá-lo, e as escolhas que ele faz para a vida dele são problema dele, mas aquela situação me pareceu errada e preocupante. Ele me fez jurar que jamais contaria esse segredo a alguém e concordei sem precisar de muita argumentação, pois as escolhas e preferências sexuais de uma pessoa não devem ser expostas sem consentimento.
Enfim... Minha semana está péssima.
Thomas e Nina estão estranhos comigo. Tenho medo que o ciúme da Nina acabe afetando a minha amizade com o Thomas. Apesar de ainda andarmos juntos, senti um certo distanciamento deles. Talvez seja coisa da minha cabeça, pois como estou cheio de problemas, posso acabar vendo coisas onde não existem. Meu trabalho está com um clima pesado e estressante. Sinto que sou vigiado e que qualquer passo em falso será motivo para eu ser mandado embora. Sem falar que não aguento mais ouvir a voz enjoada da Sra. Walsh durante minhas horas de trabalho. Minha mãe tem tentado se desculpar comigo de todas as formas possíveis. Ela já fez minha comida favorita, minha sobremesa favorita e até lavou todas as minhas roupas favoritas. Apesar de eu ter ficado chateado com ela, compreendo o estresse.
Não considero mais o Asher uma ameaça, pois finalmente entendi o que se passa na cabeça dele. Não estou mais preocupado com a possibilidade de ele dizer alguma coisa para o Arthur. E Falando no Arthur... Será que ele está me evitando? Eu ficaria arrasado se descobrisse que o Arthur me odeia e não quer mais me ver por causa do que aconteceu sábado passado.
Matthew, as coisas estão ruins e eu me sinto perdido. Sei que tenho você a meu lado e que posso chamar o Sam, a Danna ou o Phillip para conversar e não me sentir tão sozinho. Vou ver se chamo o Phillip para sair comigo amanhã à tarde...
Obrigado por sempre estar aqui comigo.
Alec Stevens.
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