dezoito.
EuTeAmo.com | dezoito.
27 de novembro – Terça-feira.
Assunto: Acusações injustas.
Caro Matthew,
Dizem que nada acontece por acaso, e que tudo que fazemos de ruim para as pessoas, acaba voltando para nós de alguma forma. Lei do retorno. Acho que tem alguma coisa relacionada com a energia do universo ou algo assim. Juro que estou bem. Acredito que tudo vai melhorar a partir de agora.
O inverno e as festas de fim de ano estão chegando. Estamos no final de novembro, e o frio está começando a ficar mais rigoroso nesta parte do país. Cada dia tenho mais saudade de você e da minha antiga cidade, mesmo não lembrando de tantas coisas sobre ela. É estranho, mas esqueci boa parte das coisas que vivi em minha cidade natal. Nunca parei para pensar sobre isso, mas não consigo lembrar dos últimos dias antes de mudar. E é ainda mais estranho, pois acredito ter uma boa memória para acontecimentos.
Tenho novidades não tão boas para te contar. Apesar disso, não me preocupo tanto. Estou vivendo o melhor momento da minha vida.
De manhã, fiquei conversando com Thomas e Nina antes de entrarmos no colégio. Todos estão ansiosos para o próximo jogo do campeonato, que acontecerá na primeira sexta-feira de dezembro. Achei que seria neste final de semana, mas me enganei. Zach entrou no colégio sozinho. Arthur e Asher não chegaram com ele como em todas as manhãs. Estava um clima chuvoso e não haveria treino de basquete por causa do mau tempo.
— Arthur e Asher não vieram comigo hoje, Alec — disse Zach, respondendo minha pergunta enquanto guardava as coisas dele no armário.
— Mas eles vão vir?
— Vão sim, não se preocupe!
— Obrigado, Zach — agradeci, virando para voltar ao encontro de Thomas e Nina.
— Alec, espera! — chamou Zach, correndo em minha direção.
Ele estava sério e parecia incomodado com alguma coisa. Foi estranho, pois ele é famoso por sempre ser alegre, amigo e brincalhão.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntei.
— Você está bem, Alec? — Zach estava com um tom estranho e preocupado.
— Estou bem — respondi, não entendendo o motivo daquela pergunta.
Zach entortou a boca e suspirou.
— Qualquer coisa que você precisar, pode vir falar comigo, ok?
— Okay.
— Arthur e Asher pensam muito no basquete, em vencer e em formar o melhor time possível para o campeonato regional.
— Vocês estão bem focados em vencer o campeonato, não é? — perguntei, descontraidamente.
Zach confirmou com a cabeça.
— Asher está tentando trazer o Arthur para o time titular. Ele falou com o treinador e, pelo pouco que ouvi, tudo depende da decisão do capitão do time.
— Como capitão, Asher tem o poder de decidir se o Arthur jogará como titular?
— Sim — confirmou, olhando para os lados como se procurasse por alguma coisa.
— Isso seria tudo para o Arthur! Ele ficaria muito feliz se pudesse jogar como titular nos dois últimos jogos do campeonato — comentei, animado com aquela ideia.
— Sim, mas as coisas não são tão fáceis assim — disse Zach, mantendo o tom sério.
Franzi o cenho.
— Por quê?
— Asher e Arthur têm discordado de algumas coisas.
— Como o quê?
— Não sei se sou a pessoa mais indicada para te explicar, mas Asher quer fazer uma coisa e o Arthur está tentando impedi-lo.
— Isso vai trazer problemas para o time?
— Se eles continuarem com essa rixa, talvez.
Não lembro exatamente do final da conversa, mas segundo Zach, Asher tinha o poder de decidir se o Arthur entraria no time titular para os dois últimos jogos do campeonato. Zach deu a entender que Arthur e Asher estavam discordando sobre alguma coisa, e que aquilo poderia dificultar a entrada do Arthur como titular, já que Asher é o capitão e tem muita influência com o treinador. Não entendi o motivo do Zach parecer tão preocupado em me dar uma notícia tão boa quanto aquela. Estranhei o tom que ele usou na conversa. Talvez ele tenha me contado para eu tentar ajudar o Arthur a resolver as diferenças que ele tinha com o Asher. De qualquer forma, não encontrei com o Arthur no colégio para entender melhor aquela história. Cheguei a procurá-lo na hora do almoço e no corredor entre as aulas, mas não consegui localizá-lo. Pensei em enviar uma mensagem de texto perguntando onde ele estava, mas desisti no último segundo por medo de ele achar que eu era algum tipo de doido possessivo.
Mas eu vi o Arthur hoje, Matthew... Calma que já vou te explicar.
Na hora da saída, Phillip estava me esperando no estacionamento para mostrar o carro que tinha acabado de comprar. Ele não me avisou que ia me ver no colégio e muito menos que queria me levar para o trabalho.
— Oi, gatinho — disse Phillip, antes de me abraçar.
— Este carro é seu? — perguntei, mesmo já sabendo a resposta.
— Acabei de comprar. Juntei dinheiro por meses — disse, orgulhoso de si mesmo.
— Meus parabéns!
— Quer uma carona para o trabalho? — perguntou. — Seu bumbum será o primeiro, além do meu, a sentar nesta belezinha.
Phillip me levou para o Cyber Café, mas não chegou a entrar. Ele disse que tinha alguns assuntos para resolver, mas que voltaria no final do meu expediente para me levar para casa e conversarmos um pouco mais. Pensando agora, fico feliz por Phillip não ter entrado comigo. A vergonha que eu estava prestes a passar já tinha bastante plateia...
— Aí está você! — resmungou a Sra. Walsh, assim que eu entrei.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntei, tirando a mochila das costas e indo até o balcão.
— Está faltando uma grande quantia em dinheiro do caixa de ontem — disse ela, mostrando o relatório de fechamento do caixa que eu tinha feito antes de ir para casa.
— Contei duas vezes o caixa de ontem e não estava faltando nada — afirmei.
— Como você explica a diferença de valores do caixa de ontem? — questionou ela, na frente de todos os clientes da loja.
— Não sei, pois eu contei e...
— Você roubou o dinheiro! — gritou.
Não entendo bem sobre assédio moral no trabalho, mas acredito que chamar a atenção de um funcionário de maneira rude e ainda acusá-lo injustamente na frente de outras pessoas não seja algo legal.
— Quanto está faltando? — perguntei, depois de respirar fundo para não perder a paciência.
— Quase duzentos dólares em dinheiro!
— Não tenho esse valor aqui comigo. Tenho trinta dólares, mas vou te pagar assim que eu...
— Você não vai pagar nada, Alec! — exclamou Arthur, levantando de um dos computadores.
Não percebi que ele estava lá. Confesso que eu queria que tivesse um buraco no chão para eu poder entrar e me esconder para sempre.
— O assunto não é com você, rapaz — disse a Sra. Walsh para ele.
— O Alec não roubou nada! A acusação que você está fazendo é muito grave, sabia? — continuou ele, no mesmo tom ríspido que a Sra. Walsh usou comigo.
— Jura?! Então o dinheiro criou asas e saiu voando por aí? — ironizou a Sra. Walsh.
— Você tem provas de que ele roubou alguma coisa? — perguntou um cliente que estava em um dos computadores.
— Não, mas não pode ser outra pessoa! — exclamou ela, ficando mais nervosa. — O envelope de fechamento estava guardado com o relatório que ele preparou!
— Meu pai é advogado e eu sei que você não pode acusar uma pessoa dessa maneira sem provas! O Alec pode te processar por isso, sabia?! — disse Arthur, se aproximando de mim, pegando minha mochila e me puxando pela cintura para longe do balcão.
Fiquei com raiva e completamente ofendido pelo que estava acontecendo, mas me mantive quieto e estranhamente paralisado. Eu estava com muita vergonha do Arthur e dos outros clientes testemunhando tudo. Sinceramente, não sei o que fiz para merecer aquilo.
— Você não vai sair daqui antes de eu chamar a polícia! — gritou a Sra. Walsh, começando a ficar histérica.
— Você é louca?! Eu não roubei nada! — exclamei, começando a tremer de nervoso.
— O problema são duzentos dólares? — perguntou Arthur, me soltando, abrindo a carteira dele e pegando quatro notas de cinquenta.
— Não, Arthur, por favor... — murmurei, querendo começar a chorar.
— Não vou ficar aqui ouvindo esses absurdos sobre você, Alec! Eu te conheço e sei que você não é um ladrão. — Arthur colocou o dinheiro no balcão, minha mochila nas costas e me puxou pela cintura para sairmos do Cyber.
Eu tinha todos os motivos para estar triste por conta dos acontecimentos de hoje à tarde, mas, sinceramente, estou aliviado e agradecido. Aliviado por ter me livrado de uma chefe maluca e escrota como a Sra. Walsh, e agradecido pelo Arthur ter me defendido daquela forma.
— Vou falar com o meu pai e vamos abrir um processo contra aquela mulher — disse Arthur. Ele ainda me puxava pela cintura, mesmo depois de já termos nos afastado do Cyber Café.
— Arthur, me desculpe?
— Por que está se desculpando?
— Não queria que você visse aquilo.
— Foi bom eu ter testemunhado tudo isso, pois vou ajudar você no processo que vamos abrir.
— Não quero processar aquela maluca — falei, parando de repente por sentir minha cabeça começar a girar.
Mais uma vez aquela sensação de pânico e uma angústia gigantesca subiram por meu corpo, quase me fazendo perder os sentidos. Minha visão embaçou e eu não conseguia caminhar ou ter noção do espaço à minha volta. Minhas pernas tremeram, meu coração disparou e eu tinha dificuldade para respirar. Eu estava completamente apavorado.
— Alec?! — Ouvi a voz do Arthur me chamar, mas não respondi por não conseguir enxergá-lo.
Naquele momento agoniante de pânico, senti o perfume e o calor corporal do Arthur me afagar. O abraço que ele me deu foi me acalmando e me tirando, pouco a pouco, daquele lugar escuro e tenebroso para onde minha mente tinha me levado por alguns segundos. Não faço ideia de quanto tempo levou para eu recobrar os sentidos, mas sei que assim que acordei, eu estava nos braços dele.
— Me desculpe? — pedi mais uma vez.
— O que você tem, Alec? Não é a primeira vez que te vejo assim — disse Arthur, com um tom preocupado.
Suspirei. Eu não queria falar sobre aquilo, mas devia uma explicação a ele.
— Consultei um psiquiatra há alguns meses em minha cidade natal...
— Um psiquiatra?
— Sofri um acidente antes de mudar pra cá e acabei desenvolvendo estresse pós-traumático e síndrome do pânico — confessei, pela primeira vez depois de muito tempo sem falar sobre aquilo.
Matthew, prometo te explicar. Sei que ainda não falei com você sobre isso, mas eu não quis te trazer mais preocupações do que você já tem.
— Que acidente? — Arthur perguntou, me apertando ainda mais contra o corpo dele.
— Um ônibus... — murmurei, tentando lembrar dos detalhes.
Enquanto eu tentava lembrar o que tinha acontecido há alguns meses, senti o pânico e a angústia voltarem a me assombrar. Coloquei as mãos na cabeça, apertei os olhos franzindo o cenho e gemi quando senti meu corpo estremecer.
— Alec?! — chamou Arthur, de novo. — Tudo bem se não quiser falar sobre isso agora. Você precisa se acalmar e descansar. — Ele me soltou, mas continuou a meu lado enquanto eu me acalmava.
Arthur ficou comigo o resto da tarde. Comemos na cafeteria em que ele costuma comprar café e biscoitos, antes de caminharmos pelo parque próximo ao colégio. Conversamos sobre games, séries, músicas, comidas que gostamos e até planos para o futuro. Em um momento da conversa, ele deixou escapar que seu maior desejo era casar, ter dois filhos, morar em um lugar tranquilo e envelhecer ao lado da esposa.
— E você, Alec? — perguntou Arthur, assim que chegamos ao gira-gira do parque.
— Também quero casar, mas não sei se vou ter filhos.
— Eu adoro crianças! Quero muito ter um menino para jogar basquete comigo, e... — Arthur não concluiu o que ia dizer. Talvez tenha percebido que não estava me incluindo naquele futuro.
Acredito que nem teremos um futuro.
— Espero que você consiga tudo o que deseja — falei sinceramente, antes de sentar no gira-gira.
— Obrigado, Alec. — Arthur agradeceu sentando a meu lado.
Ficamos tão próximos um do outro... Estar assim com ele aliviava todas as coisas ruins que tinham acontecido naquele dia.
— Sobre o dinheiro que você deixou no Cyber... — Tentei começar.
— Não se preocupe com isso. Fiz o que precisava ser feito para te proteger daquela mulher maluca.
— Eu vou te devolver o valor assim que...
— Não precisa!
— Eu insisto! Duzentos dólares é muito dinheiro.
— Já disse que não precisa, amor — disse Arthur, colocando a mão em meu rosto. — Minha mãe me deu aquele dinheiro além da minha mesada, então não precisa se preocupar com isso.
— Am... Amor?! — Arfei, começando a sentir meu corpo amolecer.
— Você é o meu amor — disse Arthur, envolvendo o braço em meu pescoço.
Matthew, tem como eu me sentir mal depois de momentos como esse? Me belisca, pois acho que estou sonhando.
— Arthur... — murmurei, querendo dizer pela primeira vez que eu o amava, mas não consegui juntar coragem suficiente para isso.
— Melhor irmos embora, Alec. Está quase escurecendo — disse ele, beijando meu rosto, levantando do gira-gira e me puxando para acompanhá-lo.
Precisei de um momento para descer da nuvem em que eu estava flutuando. Novamente não houve o primeiro beijo, mesmo com o parque vazio e livre para esse desejo finalmente virar realidade. Apesar disso, me sinto satisfeito e grato por Arthur ser tão maravilhoso comigo. Ele chamou um táxi para nos levar para casa, me acompanhou até a minha, e depois partiu com o mesmo motorista para a casa dele. Assim que chegou, me enviou uma mensagem dizendo: "Estarei sempre ao seu lado e não vejo meu futuro sem você." Não há como eu ficar triste depois de uma mensagem assim.
Entrei em contato com o Phillip contando o que tinha acontecido no Cyber, pois ele tinha ficado de me buscar naquela noite. Concordamos em nos encontrar amanhã, depois do colégio. Não contei para a minha mãe o que aconteceu, apenas disse que pedi demissão e que ia procurar outro trabalho nos próximos dias. Ela me tranquilizou, disse que as coisas estavam melhorando e que era para eu pensar em terminar o ensino médio primeiro, pois ela daria um jeito para não faltar nada em nossa casa.
Joanne é uma verdadeira heroína! Tenho muito orgulho de ser filho dela.
Como eu disse no início deste e-mail: tudo que fazemos de ruim para as pessoas acaba voltando para nós de alguma forma. Não vou processar o Cyber ou a Sra. Walsh. Respeito muito a memória do irmão dela para fazer uma coisa dessas. Eu não roubei dinheiro nenhum e tenho certeza de que aquele lugar não será o mesmo sem a minha presença. Não acredito que ela ou o sobrinho vão dar conta do trabalho sozinhos. Saber isso é suficiente para mim.
Estou feliz, Matthew. Juro que estou muito feliz! Chateado, mas feliz! Não entendo como alguém pode ficar chateado e feliz ao mesmo tempo, mas é assim que me sinto.
Até o próximo e-mail.
Obrigado por sempre estar aqui comigo.
Alec Stevens.
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