Capítulo 39🦋

Nathan Martins...

A vida nem sempre foi fácil para mim e muitas vezes eu apenas escolhi o que me beneficiaria mais. Talvez você não entenda e muito menos concorde com as minhas atitudes. Mas quando você tem uma irmã de apenas cinco anos e um pai alcoólatra, você sempre vai achar que o fim justifica os meios. Sendo eles bons ou ruins.

Minha mãe morreu há três anos e desde então a minha família virou ruínas. Meu pai parou de trabalhar uns meses depois que ela se foi. Minha irmã Sofie e eu, estamos sozinhos desde que isso aconteceu, não podemos contar com ele para nada e se não fosse por eu ter dado um jeitinho de resolver da maneira que consegui, já teríamos morrido de fome.

Conheci a Lavínia no final do ano passado quando tive que levar minha irmã às pressas ao posto de Saúde pois ela estava febril e vomitava sem parar. Mas como eu não sabia o que era, levei ela correndo. Lavínia foi muito atenciosa e me tranquilizou dizendo que a Sofie ficaria bem e que logo os remédios iriam fazer efeito. Fiquei mais aliviado e parei de me culpar por tê-la deixado sozinha com aquele canalha que chamo de pai.

Como não era maior de idade ainda, pediram que eu chamasse meu pai para responder pela Sofie. Menti dizendo que ele estava trabalhando como vigia noturno e me deixaram responder no lugar dele. Mas Lavínia parece que tem a habilidade de saber quando alguém está mentindo. Depois que respondi um questionário na recepção, voltei à sala onde minha irmã tomava a medicação e ela estava lá com a Sofie, como havia dito a mim que ficaria.

Nunca pensei que aquela mulher tão gentil seria um monstro para a própria filha.

Ela me chamou até o canto da sala para falarmos a sós e então me contou que tinha um objetivo e precisava de alguém como eu para cumpri-lo. Não quis saber o motivo daquilo e muito menos quis saber sobre a garota que teria que enganar. Ela ia me arrumar um emprego e ainda pagar meus dois últimos anos no melhor colégio da cidade e também iria pagar pra minha irmã. Não pensei duas vezes antes de dizer que topava. Pela minha irmã eu faria qualquer coisa.

Só não esperava me arrepender tão rápido de ter feito o que fiz. E tenho total consciência de que nada que eu faça vai fazer com que ela me perdoe.

Alícia é uma garota incrível. Fiquei tão obcecado em fazer o que a Lavínia me pagou para fazer, que arrumava desculpa para estar perto da Ali o tempo todo. Fui negligente comigo mesmo ao deixar meu coração falar mais alto que minha razão. Estava atrás dela por um motivo: fazê-la se apaixonar por mim e ficar longe do playboy que está na faculdade. Era simples! Mas quando dei por mim, me envolvi além do que era permitido.

Quando eu a beijei, em frente a loja que trabalho no shopping, tive uma das melhores sensações que já senti. O lance das borboletas no estômago é mesmo real. Estávamos rindo de uma bobeira que ela falou sobre a professora de química, enquanto acabávamos de tomar um milkshake. Ela estava linda de cabelo solto, argolas grandes prateadas que ela mexia toda hora para desprender dos cachos de seu cabelo. Sua boca brilhava com algum tpo de batom que transparente que ela havia usado e aquilo fazia eu lamber meus próprios lábios toda vez que eu olhava seu sorriso. Ela usava uma calça skinny e uma blusa curta que deixava uma parte de sua barriga à mostra.

Tínhamos terminado de tomar nosso milkshake e ela se ofereceu para jogar os dois copos na lixeira que ficava próxima ao ateliê. Fiquei parado encostado na parede ao lado da porta do ateliê observando-a ir e voltar. Ao se aproximar de mim novamente, um senhor passou rápido falando ao telefone e esbarrou nela, fazendo a garota praticamente cair nos meus braços. Ajudei ela a se equilibrar novamente, mas nosso olhar tinha se encontrado. Pelo menos o meu tinha encontrado o dela. Alícia xingou o homem que não se virou para se desculpar e olhou para mim de volta. E foi aí que perdi a razão. Ela sorriu pedindo desculpas, mas não consegui me segurar e a puxei para um beijo desesperado. Ela demorou a responder a minha atitude e quando respondeu parou rapidamente.

Desde então ela não fala comigo do mesmo jeito. Eu sei que aquele beijo mexeu com ela, da mesma forma que mexeu comigo. E não vou descansar até que diga o que sente por mim! E por isso estava atrás dela hoje no shopping. Deixei que fosse sozinha para o ponto de ônibus, pois precisava comprar um presente para minha irmã atrasado. Semana passada foi aniversário dela e fiquei de levar um presente assim que recebesse meu salário. Comprei um ursinho de pelúcia que ela vive me pedindo.

Quando me aproximei do ponto de ônibus, vi Alícia abraçada a uma pessoa que deduzi ser o cara que eu deveria ter afastado. Parei de correr assim que vi eles se beijando. Me virei e continuei caminhando até o próximo ponto. Tudo que tinha que fazer era torcer para não pegar o mesmo ônibus que eles. O ônibus veio, logo assim que parei no ponto. Foi uma sorte dupla, o ônibus chegou rápido e ao olhar em volta, notei que não estavam lá. Parecia muita sorte usada de uma vez só!

Desci no ponto de ônibus mais próximo de casa, passei na casa da dona Matilde, minha vizinha que olha minha irmã até que eu chegue do trabalho. Ela cuida da Sofie e em troca, faço pequenos reparos em sua casa, o que posso afirmar que ocorre com bastante frequência. É aquilo, uma mão lava a outra.

Assim que peguei a Sofie, e troquei o refil do filtro para ela, fomos para casa. Meu pai estava jogado no único sofá que fica na sala, abraçado a uma garrafa de 51. A casa estava fedendo a bebida e urina. A pia tinha alguns copos sujos e o pote com a comida que deixei para ele. Bati a porta um pouco mais forte para que ele acordasse.

— Sofie! - Coloquei minha irmã no chão e me abaixei para falar com ela — Vai tomar um banho rapidinho para você ir dormir pois já está tarde.

— Tá bom, Neto. Mas você tem que me contar uma historinha hoje! — Ela falou sorrindo

— Pode deixar pequena! Não demoro a ir lá! — Baguncei seus cabelos e ela saiu correndo até o quarto.

Meu pai continuava largado no sofá, sem se importar com o barulho que fiz ao entrar. Passei pelo sofá, joguei minha mochila ao lado da estante onde a televisão fica e dei um chute no pé do sofá para acordar o velho bêbado, que apenas resmungou um palavrão. Parei em frente a pia e comecei a lavar a louça que estava ali. Peguei o resto de comida e joguei no lixo. Limpei a sujeira em cima da mesa redonda que temos na cozinha para quatro pessoas e passei uma vassoura também.

— Onde você esteve o dia todo seu bastardo? — Meu pai se aproximou de mim aos tropeços e falando alto e embolado.

— Trabalhando, já que você é incapaz de fazer isso! — Respondi no mesmo tom

— Não preciso trabalhar! Eu tenho você para fazer isso! — Ele riu sarcástico, balançando a garrafa de vidro na mão — Agora me dê o dinheiro da cerveja! Vou para o bar!

— Não vou sustentar seu vício! — Fali mais alto — Se quer beber e fuder a sua vida, ganhe seu próprio dinheiro!

— Você está na minha casa, precisa pagar para viver aqui! Seja útil e me dê o que é meu por direito!

— Essa casa é da minha mãe! Você não tem e nunca teve nada aqui! Minha mãe era uma santa por te aturar por tantos anos! — Não terminei de falar, pois ele me acertou no rosto com a garrafa de 51 que estava vazia e só senti o gosto de ferro na boca, devido ao sangue que saia do corte na minha boca.

— Lava essa boca para falar da minha Adriana! Seu moleque miserável! Sai da minha casa agora! — Ele falou aos gritos, fazendo o ódio que tenho dele se multiplicar. Apertei os dentes para conter um pouco da dor que eu sentia no maxilar, passei a mão no lábio cortado e respirei fundo para não quebrar a cara dele.

— Não precisa pedir duas vezes!

Cuspi as palavras empurrando ele, colocando as duas mãos nos ombros fazendo ele se desequilibrar e me xingar mais uma vez. Peguei o presente da Sofie na minha mochila e fui até o quarto dela. Ela estava encolhida na cama com as mãos tampando os ouvidos. Entrei e tranquei a porta.

— Sossô! - Falei baixo me aproximando dela e me sentei ao seu lado. — Sossô, tá tudo bem agora. Deite para dormir um pouco.

— Vocês estavam brigando de novo? — Ela me olhou com os olhos redondos e cheios de lágrimas — Não gosto quando vocês brigam, Neto!

— Eu sei Sossô! Me perdoa, tá bem. Agora deite e feche os olhos pois eu tenho um presente pra você.

— Um "pesente"? O que é, Neto? O que é? — Ela falou animada e seu sorriso aqueceu meu coração, e me fez lembrar o porquê de eu fazer tudo que faço!

— Anda, fecha os olhos, se não, não vai ganhar! — Ela fez o que eu pedi e abriu um sorriso assim que eu coloquei o embrulho nas mãos dela — Pronto, agora pode abrir.

Em poucos segundos ela rasgou o pacote e tirou o ursinho de tamanho médio marronzinho, vestido com uma blusa vermelha e uma gravatinha da mesma cor.

— Você "compô", Neto? Você "compô" o Chiquinho para mim?

— Xiu! Fala baixo! É seu presente de aniversário. Eu prometi, lembra?

— Obrigada, Neto! — Ela se jogou no meu colo e me apertou em um abraço carinhoso.

— Eu te amo pequena! Nunca esqueça isso. Agora você precisa dormir. Amanhã de manhã eu venho pegar você para ficar com a tia Matilde. Eu trabalho amanhã o dia todo.

— Tudo bem. Eu também te amo, irmão!

— Se você acordar de madrugada com medo de alguma coisa, abraça o Chiquinho. Ele vai te guardar e nada de ruim vai acontecer!

— Pode deixar! Eu não vou acordar hoje. Estou muito cansada! — Comecei a rir do jeito que ela falou, dei um beijo em sua testa e me levantei da cama!

— Boa noite, Sossô! Durma bem!

Saí do quarto, e tranquei a porta pelo lado de fora. A outra chave fica do lado de dentro, então aquele bêbado desgraçado não pode chegar perto dela. Pelo menos assim eu fico mais tranquilo. Caminhei com pressa até a sala, peguei minha mochila e já estava saindo pela porta quando meu celular tocou. Eu tinha deixado ele em cima da mesa na cozinha e me esqueci de pega-lo de volta. Corri até lá e peguei meu celular. Meu pai continuava jogado no mesmo lugar que tinha caído. Aproveitei para pegar uma maçã na geladeira e saí.

Peguei meu skate e comecei a vagar pelas ruas até cansar e achar um lugar para passar a noite.

Meu celular vibrou com a chegada de uma mensagem e tirei ele do bolso da calça jeans. A tela acendeu com o nome da Alícia e senti meu coração disparar.

Parei na calçada e sentei num ponto de ônibus para poder ler a mensagem.

"Precisamos colocar em prática o plano B. Venha até minha casa! Imediatamente"

Me arrependi de ter visualizado, pois eu sabia que era a Lavínia! Não sei o que fazer e não quero mais prejudicar a Cachinhos. (Não me chame de Cachinhos!) Escutei a voz dela na minha mente nitidamente. Sorri com aquilo e balancei a cabeça em negação.

Eu sou um fudido por gostar de você, Alícia!

Me levantei e voltei a deslizar o skate pelo asfalto na direção da casa da Alícia. Preciso pensar em um jeito de ajudar a Alícia sem que a Lavínia descubra que sou eu que estou ajudando.

O caminho pareceu mais longo do que eu me lembrava. Levei quase meia hora para chegar. Parei em frente a casa dela e enviei uma mensagem.

"Já estou aqui! Posso entrar?"

A mensagem foi vista e a porta da frente foi aberta. Entrei e me sentei no sofá. Esperei até que ela começasse a falar.

Ela fechou a porta lentamente e veio até mim em silêncio!

— Achei que não viria mais! Onde estava? — Ela perguntou falando baixo para não ser ouvida.

— Problemas em casa. Mas já resolvi. O que precisa que eu faça e por que não podia esperar até amanhã? — Falei apoiando os cotovelos nos joelhos e encarando a mulher à minha frente, com roupa de dormir.

— Fale baixo, Alícia está trancada no quarto, mas se estiver acordada ela pode nos ouvir — Acenei com a cabeça para que ela continuasse falando — Amanhã eu trabalho e não tenho hora para voltar, então tinha que falar com você hoje! Vamos ter que partir para o plano B. Como o idiota do Jhonatan perdoou ela facilmente, vamos ter que inverter a situação. Você vai continuar tentando se aproximar dela, com muita insistência, e quando for o dia certo você terá que levá-la ao lugar certo na hora certa que eu vou te avisar.

— Mas o que vamos fazer?

— Vou tentar fazer com que ela pense que ele e eu tivemos um caso.

— Acho muito difícil isso acontecer.

— Você pode se surpreender com o poder que uma mulher tem sobre o homem, quando ela sabe usar!

— Então me diz o que preciso fazer e farei!

— Na hora certa você vai saber! — Ela se levantou e andou até a escada — Você tem onde passar o resto da noite?

— Na verdade não!

— Pode ficar ai. Mas faça silêncio! Alícia não pode saber que você esteve aqui! Mesmo que seja impossível ela saber, já que está trancada a sete chaves.

— Por que ela está trancada?

— Castigo por ser quem é! — Dito isso, ela subiu as escadas e foi para o quarto dormir.

Fui até a cozinha e vi que tinha comida nas panelas em cima do fogão. Frango com batata é meu prato preferido, não tinha como resistir. Esquentei a comida e me sentei para comer. Aqui sozinho nessa casa que cabe três da minha dentro, eu consigo ver quanto tenho que me esforçar para ter algo assim um dia. Um lugar pra mim e pra minha irmã vivermos em paz.

Termino a refeição e me dou conta de que são quase três horas da manhã. Pra quem vai trabalhar daqui a algumas horas eu realmente preciso dormir. Lavei a pequena louça que eu sujei e me joguei no sofá confortável. Algumas almofadas tem o perfume da Cachinhos e isso me faz pensar que ela ainda está lá em cima trancada, talvez com fome, e eu não posso fazer nada, isso me tirou todo o sono que eu estava a sentir.

Me levantei e subi as escadas. Nenhum sinal de chave perdida. Como não sei qual é a porta do quarto dela, preferi não mexer. A janela do lado de fora eu sei qual é, pois já vi várias vezes ela pelo lado de fora. Se eu conseguir acordá-la vai ser perfeito para tentar tirá-la de lá antes que a Lavínia acorde.

Sai de fininho, coloquei a mochila nas costas e andei com o skate até a janela do quarto dela, que fica na lateral da casa, mas perto da calçada da rua. Depois de um tempo jogando pedrinhas bem pequenas na janela, vi surgir seu rosto um pouco sonolento na janela.

Não foi difícil deduzir o que ela falava já que eu já sabia que ela estava trancada. Peguei o telefone do pai dela e liguei pra ele. Demorou um pouco mas ele atendeu. Contei o que estava acontecendo e ele pediu que eu esperasse aqui e desligou o telefone. Pelo jeito ele iria vir com a polícia e o conselho tutelar. O que me preocupa bastante, pois eu posso ser levado, minha irmã pode ser levada e agora a Alícia também!

Liguei de novo, e disse que a Alícia pediu que ele viesse sozinho. Mesmo sem ela saber de nada do que eu falei com ele. Ele pensa que sou um vizinho que ouviu um barulho e acha que a Alícia está em apuros.

Voltei a escrever no caderno e vi ela me olhar com expectativas

"— Seu pai virá sozinho! Eu preciso ir embora agora."

Ela acenou para mim com os polegares apontando positivo.

"— Não foi nada!"

Ela colocou as mãos no coração e sorriu para mim

"— Tchau, Cachinhos."

Ela cruzou os braços e balançou a cabeça em negação. Eu sorri para ela e guardei o caderno na mochila, olhei para cima mais uma vez e vi ela com os olhos fechados e as mãos unidas como se estivesse fazendo uma oração. Sorri mais uma vez, subi no skate e voltei para casa. A essa hora meu pai já não deve estar sabendo nem quem é!

Que o cara lá de cima que olha por ela, olhe por mim e pela Sofie também!

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🦋 Contém 2889 palavras🦋
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Olá Clichezeiros
Passando aqui com mais esse capítulo!

E aí, o que acharam do ponto de vista do Nathan?
Eu confesso que estou balançada. Tomara que ele tenha final feliz...
Ops... 🙈🤭
Não vou prometer nada!

Obrigada por lerem!
Até logo!
Beijos Izah 💖🦋

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