74 - Ela vai mesmo

Helena decidiu. Ela vai!

É claro que antes precisou consultar a sua deusa interior. E ela fez questão de gritar lá do fundo de seu subconsciente:

"VAI LOGO MULHER!"

_ Então está decidido. Eu vou!

Sim, ela vai com todas as suas forças, mas vai. Vai com a cara e a coragem que ainda lhe resta, mas vai. Vai com todas as suas dúvidas e incertezas, mas vai. Mesmo estando ciente que existe a possibilidade de não dar certo agora ou daqui a alguns meses ou talvez até anos, ela vai. 

E mesmo achando tudo isso uma tremenda loucura, mas vai.

_ Você vai mesmo? _ Perguntou Samantha que ainda tinha dúvidas sobre a decisão dela. Ela e Thierry foram até o seu apartamento para ver como ela estava e souberam da novidade. E pelo jeito ela estava melhor do que nunca!

_ Sim eu vou. Eu sei que é muita loucura da minha parte, mas sei que se eu não for, vou me arrepender! _ Disse de tão nervosa que acabou até se engasgando.

_ Não é loucura chéri, é amor! E é claro que para viver este amor, precisa de um pouco de loucura... ah quer saber? Dá logo uma de doida e corre para aquele seu bofe de ouro muy caliente! _ Disse Thierry jogando mais lenha na fogueira. Só ele mesmo para concordar com toda essa doideira.

_ Isso! _ Ela estava tão feliz que chegou a dançar a tradicional dança grega.

Samantha e Thierry chegaram a ficar assustados com aquela euforia de Helena. Nunca a viram daquele jeito. Mas apesar de tudo estavam felizes por ela e apoiaram a sua decisão, como bons amigos que eram. Chegaram até a dançar junto com ela. De repente Samantha parou de dançar e perguntou, cortando o barato do momento:

_ Mas amiga... você já pensou no que vai dizer para os seus pais?

Um arrepio correu pela sua espinha. Ela ainda precisava pensar neste detalhe. Na verdade, tinha que pensar em todos os detalhes desta sua decisão. A pior delas era como iria contar à família, principalmente a seu pai que com certeza não aprovaria.

_ Ah qual é mona? A nossa amiga linda e maravilhosa finalmente decide voar para aqueles braços fortes, para aquele peitoral maravilhoso e aquele abdômen tanquinho...

Helena e Samantha só ficaram olhando para o amigo afetado, o esperando terminar de descrever como era o Ray. E pelo jeito ele não ia parar nunca.

_ ... daquele deus grego natural de Porto Rico e você vem com papinho tosco de família?

_ Não Thi, Sam tem toda a razão. Eu tenho mesmo que conversar com a minha família. Ó Christe mou...

Já imaginara o escândalo que o patriarca faria. E pode ter certeza, ele fará o que sempre faz, convocar toda a comunidade grega para um massacre.

E foi o que ele fez. Dias depois, Helena foi até a casa de seus pais no Bom Retiro para conversar sobre a sua decisão de ir viajar para os Estados Unidos para ver Raymond Acevedo e por pouco o teto da casa deles não caiu na sua cabeça.

_ Não! Você não vai atrás dele! Filha minha não fica correndo atrás de homem!

_ Credo Tino, ela não "tá correndo atrás de homem", mas sim da felicidade dela! _ Disse Sophia defendendo a filha. Constantino só olhou para a esposa de rabo de olho. Ele sabia desde o início que Sophia só estava apoiando o romance da filha porque era com Raymond Acevedo. Porque se fosse outro, estaria do lado dele. Teve mais um surto de raiva.

_ Qual é a sua hein ô Sophia? Acha certo isso, da nossa filha ir embora de vez! É bem capaz dela nunca mais voltar!

Nunca passou pela cabeça de Helena de abandonar a sua família, mas entendeu o receio do pai. Estados Unidos não era ali por perto. E se acontecer de ficar por lá de vez, pode ser que fique por um bom tempo sem vê-los. Era a última coisa que ela queria.

Mas também não podia se anular por causa de ninguém. Como costuma dizer a sua vovó Tina, um dia mais cedo ou mais tarde, os filhos precisam deixar o ninho para voar.

E parece que para Helena, este dia chegou. E talvez seja isso que seu pai não queria aceitar, que a sua boneca iria embora. Ele nunca aceitou o fato dela sair de casa para ir morar sozinha, pois segundo a tradição grega, os filhos só saíam de casa casados. E agora estava sendo mais difícil aceitar o fato de ir embora para outro país.

_ Tino entenda, ela não vai embora para sempre. Nunca que a nossa koúkla ia esquecer as suas origens. Sempre ensinamos isso a ela e aos nossos demais filhos. E está mais do que na hora de ela por isso em prática.

Helena ficou muito surpresa ao ouvir o depoimento da mãe. Ela até esperava ouvir tais palavras da sua avó, mas não dela. Mas claro que para não perder o costume, Sophia também soltou o verbo e também disse o que achava sobre a decisão de sua única filha.

_ Também não estou gostando muito dessa história, viu dona Helena? Mesmo sendo Raymond Acevedo. O certo seria ele vir até nós e pedir a sua mão e não ao contrário. Sempre foi a tradição de nosso povo e a senhorita sabe muito bem disso!

_ Sim eu sei mamá. Quando ele esteve aqui, a intenção dele era essa, mas aí aconteceu toda aquela confusão e ele precisou voltar, mas ele me deixou uma passagem. Ele quer que eu vá. Eu sei que é arriscado, mas eu quero correr este risco!

_ Tudo bem, eu entendo. E como sempre acontece na vida de tudo ter uma exceção, vamos permitir que somente desta vez você quebre a tradição.

_ Então isso significa que...

_ Sim. Você tem a nossa bênção para você ir viajar até os Estados Unidos para finalmente se acertar com Ray.

Na hora em que ia agradecer, Sophia lhe impôs uma condição. Ela sempre fazia isso:

_ Mas com uma condição: que vocês voltem para que ele peça a sua mão e se casarem na nossa igreja, em um prazo de dois meses. Estamos conversadas Kori mou? 

_ Sim! Não se preocupe mamá, tem a minha palavra! _ Disse Helena não se aguentando de tanta felicidade.

_ Acho bom mesmo você cumprir com a sua palavra, viu dona Helena, porque se não, eu mesma vou até os Estados Unidos atrás de você e te trago de volta arrastada pelos cabelos!

Como Helena conhecia muito bem a mãe que tinha, não duvidou que ela não fosse capaz de fazer tal proeza. Então por garantia, tinha de cumprir com a sua palavra. Falando nisso... só faltava a palavra do pai. 

Constantino olhou para todas as direções só para não ter de encarar a filha e a esposa. Helena e Sophia repararam que ele piscava o tempo todo. Já sabiam o que aquilo significava. Ele estava se segurando para não chorar.

_ Bampá? _ Helena colocou as duas mãos no rosto dele numa tentativa de acalma-lo e olhou no fundo de seus olhos. Não aguentou aquele carinho da filha e começou a chorar para valer. Ela também não aguentou vê-lo daquele jeito e começou a chorar também.

Os dois derramaram um verdadeiro mar de lágrimas.

_ Oh mas que tragédia grega, não Tino! _ Disse Sophia perdendo a paciência com aquela cena.

_ Ai mãe deixa! _ Voltou para encarar o pai: _ Não se preocupe, vai dar tudo certo. Eu vou ficar bem!

Constantino respirou fundo para não surtar de vez e resolveu conversar com ela.

_ É isso mesmo que você quer?

_ Sim!

_ Tem certeza que é isso mesmo?

_ Tenho.

_ Pensa bem Kori mou, ainda dá tempo de desisti. Aqui é a sua casa. Não precisa ir embora e... 

_ Dá logo a bênção da menina cacete! _ Repudiou Sophia.

Vendo que não tinha mesmo jeito de convencê-la a ficar, finalmente decidiu dar a sua bênção, mas também com as suas condições:

_ Bom se é isso que você realmente quer, então tudo bem. Tem a minha bênção. Mas como a sua mãe disse, assim que se acertar com aquele lá, volte para casa para se acertar com a sua família. E caso aconteça de não der certo, ligue para o seu pai aqui e eu mesmo vou te buscar. Você pode até ser a "chica" de Paris dele, mas sempre será a minha koúkla.

Aquela foi a bênção mais estranha que Helena já recebera do pai. Ela até queria dar risada quando ele falou "chica" do jeito como se lê em vez de falar como se diz na língua espanhola. Mas não podia culpa-lo, ele não sabia. E também estava muito emocionada com a bênção dele.

Então está decidido. Ela vai mesmo.

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