42 - No Restaurante
Mais tarde, Helena foi se encontrar com Roberto para conversar sobre o processo contra Núbia. Ela indicou uma cantina italiana ou um sushi bar da qual ia sempre com alguns amigos da empresa e com Samantha. Mas ele foi insistente, dizendo que não sabia onde era ou que poderiam encontrar algum conhecido por lá e isso poderia gerar algum tipo de fofoca. E como ele sabe que ela não gosta muito de ser exposta, concordou meio que a contragosto.
Roberto fez exatamente tudo o que Helena já havia dito que não era para fazer. Primeiro mandou o seu motorista pessoal buscá-la na casa de seus pais, mesmo ela tendo o endereço do local. Estava em seu antigo quarto se arrumando para sair, quando um de seus irmãos a avisou que um senhor de meia idade uniformizado estava lá, esperando por ela com um imenso buquê de rosas vermelhas, as suas favoritas... e uma grande caixa branca.
_ Boa noite senhorita Helena, o Dr. Roberto pediu para levá-la até o restaurante em segurança. E também para entregar isto. _ ofereceu-lhe a caixa. Por curiosidade, foi abrir para ver o tinha dentro e ficou boquiaberta com o que viu, um elegante vestido Versace pretinho nada básico, exatamente do seu tamanho.
Até que do buquê e do vestido ela gostou... o que ela não gostou foi daquela atitude de Roberto. Não era preciso pensar muito para saber qual era a sua verdadeira intenção. A sua maior vontade era de devolver tudo e mandar o motorista embora, mas não o fez com medo do pobre homem acabar no olho da rua. Ele até chegou a comentar que estava apenas cumprindo as ordens de seu patrão, mesmo não concordando com elas.
_ A gente sente muito moço, mas a nossa irmã não vai se encontrar com o esnobe do seu chefe. Se ele tá achando que vai comprá-la com roupa de marca, a levando para passear de carro, ele está redondamente enganado. _ Disse Heitor, o irmão do meio. Ele e o irmão mais novo Hermes foram ensinados desde cedo a defender as mulheres de seu povo, principalmente as da família.
_ Não precisam me defender, eu sei me virar. _ Deu uma bronca nos dois e depois se virou para o motorista: _ não se preocupe moço, eu vou com o senhor. Só vou terminar de me arrumar, enquanto isso aceita um cafezinho?
O motorista se sentiu muito honrado quando Helena lhe ofereceu um café. De certo o seu patrão deve trata-lo com desdém e ao ver que finalmente alguém o tratou com respeito, ficou feliz. Alguns minutos depois, ele a levou naquele restaurante do qual Roberto havia comentado no dia anterior. Era de fato um local muito chique, onde toda a alta sociedade paulistana costuma ir. Não se sentiu muito à vontade naquele lugar... e ele estava na recepção, esperando por ela.
_ Roberto como vai conseguir uma mesa? Por acaso fez reserva?
Para a sua surpresa, ele havia feito uma reserva... sem o consentimento dela.
"Dou a minha cara a tapa que ele deve ter subornado o maitre do restaurante!" Pensou se roendo de raiva. E deve ter sido um belo de um suborno, pois ela estava de calça jeans, sandálias Anabela e blazer esportivo e o restaurante exigia somente roupa social e só pôde entrar no local por ordem ele. Deve ser por este motivo que ele lhe deu o vestido.
_ Por que não veio com o vestido? Mandei trazer diretamente de Milão para você.
_ Eu já estava pronta para sair de casa quando o seu motorista apareceu para me buscar e não quis deixá-lo e nem você me esperando. Por isso decidi não usar. _ mentiu fazendo pouco caso da história de Milão.
_ tudo bem, deixe então no nosso próximo encontro. _ Deu uma piscadela para ela, junto com um sorriso malicioso. Helena só pensava no que depender dela, nunca haverá um próximo, pelo menos não nesta vida.
O maitre os acomodou na mesa e lhes ofereceu o menu. Roberto pediu o melhor champanhe da casa. Ela só observava a cena.
_ Eu vou quer filé de faisão ao molho holandês... para a senhorita, talvez uma salada para controlar o peso.
Se ela tivesse raio laser nos olhos, teria desintegrado aquele advogado de merda. Já que queria conquistá-la, fizesse direito!
"Filho da puta!" Pensou. Para se vingar, lembrou da cena do filme "As Branquelas", onde um dos agentes disfarçado de mulher, estava no restaurante com um cara e pediu um monte de comida.
https://youtu.be/z7LP0ddMPlo
_ Quero uma porção gigantesca de batata frita, macarrão com bastante queijo e filé mignon malpassado com bastante cebola e uma salada de palmito para controlar o peso... melhor ainda, traga só o palmito.
_ Senhorita, nós não servimos batata frita, a não ser que seja a la carte... _ informou o maitre muito constrangido com aquele pedido.
_ Então tratem de servir, porque senão eu vou dizer que esse restaurante se recusa a atender.
Roberto somente fez um gesto para maitre trazer o que ela pediu. Não acreditou no que acabou de ver. Ela realmente fez isso?
"Foi você que quis vir para cá. Agora toma!" Pensou enquanto o olhava com um sorriso maquiavélico.
_ Eu não sabia que você gostava de comer bem...
_ Pois fique sabendo que sou boa de garfo. Estou acostumada a comer bem. Lá na comunidade grega, sempre assamos um cordeiro quando fazemos festa. Se deixar, eu como até o olho do cordeiro. _ Na verdade Helena detestava olho de cordeiro, só falou para tirar uma com a cara dele.
Na tentativa de disfarçar o seu nervosismo, ele tirou do bolso do terno uma caixa preta de veludo e entregou a ela. Quando abriu, teve outra surpresa: um bracelete cravejado de diamantes. Segundo ele, era para usar junto com o vestido. E pelos seus cálculos, aquela joia deveria valer mais de... bom, não vale mais do que a sua integridade. Mesmo ciente das suas intenções, perguntou o que significa aquilo.
_ É apenas um presente.
_ Um presente..., nem é meu aniversário. O que estamos comemorando mesmo?
_ O seu novo cargo na empresa, o seu sucesso no acordo... Bom eu só queria te fazer um agrado.
_ Bom Roberto, obrigada pela gentileza, mas não precisava...
_ Ah precisava sim, assim você pode jogar essa sua pulseira cafona comprada no camelô no lixo.
A "pulseira cafona", feita de pequenas esferas de olhos gregos, foi um presente feito pela sua querida vovó Tina. Ela trabalha com artesanato desde que veio da Grécia e ver aquele bocó falar mal dela a deixou furiosa. Devolveu o "presente" alegando que estava muito feliz com ela. Bem que ele tentou apaziguar a situação, mas como mesmo diz o seu pai, a merda já havia sido cagada então não tem como mais voltar para o orifício anal.
_ Ah então como foi a viagem? _ Ele perguntou para mudar o assunto.
_ Oh foi muito boa. Como você sabe o acordo entre as duas empresas deu certo.
_ Sim eu já soube..., mas e de resto? Eu soube que ficou hospedada na casa de uma amiga sua, a estilista qual o nome dela mesmo?
_ Dayane Remy. Sim nós ficamos na casa dela e...
_ Nós?
_ Sim, eu e a minha amiga Samantha. Não sei se você a conhece, é uma moça bem alta, já foi modelo e...
_ Espera... você está falando de Samantha Ferreira e Duarte, a supermodelo que foi casada com o magnata John Robinson?
_ Sim é ela mesma... por quê?
_ Eu não acredito, você é amiga da herdeira de uma das maiores fortuna do país?
_ Bom eu sou amiga da Samantha, a menina que eu conheci no parquinho perto do serviço do meu pai, junto com a Dayane. Ele trabalha na empresa dos pais dela.
_ Isso mesmo, faça amizade com quem pode lhe trazer algum benefício!
Aquele cara estava praticamente dando mancada uma atrás da outra, uma pior do que a outra e em tempo recorde com ela... olhou para ele e olhou para o garfo à sua direita. A sua maior vontade era de fazer o mesmo que os seus compatriotas faziam nas tradicionais festas gregas lá no Bom Retiro quando todos queriam comer o olho do cordeiro, espetar com tudo o garfo no seu globo ocular, arrancar e metê-lo na boca. Contou até cem para não o fazer, contudo fez questão de lhe falar umas boas verdades.
_ Olha, eu não sei que educação você recebeu, mas a que eu recebi foi a seguinte: se você não pode ser um amigo de verdade, não seja por falsidade. E sim, eu sou mesmo amiga dela, mas nunca pensei em tirar proveito da nossa amizade, mesmo tendo a chance. Nós três sempre fomos as melhores amigas desde crianças. A viagem foi como um reencontro para nós. Foi divertido sem deixar de ser produtivo.
_ Puxa três belas mulheres passeando pelas ruas de Paris... devem ter chamado a atenção de muitos homens... _ comentou para não demonstrar que ficou sem graça com o fora que levou.
_ Oh sim... E de algumas mulheres também.
Helena se segurou ao máximo para não rir da cara de espanto de Roberto. Estava claro que ele queria saber se durante a viagem, ela conheceu alguém. Ela ficou com muita vontade de falar que conheceu, mas preferiu manter o foco da conversa.
_ Bom Roberto, eu não vim aqui para contar como foi a minha viagem, mas para conversar sobre outro assunto.
_ E qual seria? _ Perguntou esperançoso.
_ Algum tempo atrás, antes da viagem, você disse que eu podia processar Luiz e Núbia pela difamação na internet. E eu não sei se você chegou a ver, mas a Núbia postou dois vídeos no YouTube, falando mal de mim e de Samantha.
Helena somente viu a expressão de Roberto mudar de Dr. Jekyll para Mr. Hyde (ou médico e o monstro). Foi a vez dela de se assustar.
_ Está tudo bem?
_ Oh o que? Sim está tudo bem, o que você disse mesmo?
_ Sobre o vídeo da Núbia no YouTube. Você disse que eu podia processar os dois.
_ Eu disse isso? Não me lembro!
Helena não estava gostando daquela conversa. Para quem queria e muito ajudar, não estava ajudando. Vendo que continuar ali não ia lhe ajudar em nada, decidiu encerrar a noite ali mesmo.
_ Aonde você vai?
_ Vou para casa e procurar um outro advogado que realmente queira me ajudar.
_ Espere, eu realmente não lembrava desta conversa..., mas acho que posso te ajudar.
_ Olha se você não puder ou não quiser me ajudar, tudo bem. Sei que não é o seu departamento e muito menos a sua obrigação, mas pode pelo menos me indicar alguém que possa?
Depois da patada que acabara de levar, ele viu que precisaria mudar de estratégia.
_ Bom... eu tenho um amigo que trabalha com pequenas causas..., mas ele trabalha na defensoria pública, então pode ser que leve semanas para você ser atendida e...
_ Quero o número do celular dele e o endereço.
_ Eu não sei o número do celular dele... mas prometo conseguir para você. Mas pensa bem se realmente você quer levar o caso adiante.
Helena achou muito esquisito Roberto ter comentado aquilo. Teve de perguntar.
_ Como assim?
_ Bom, sabe que para acusar alguém precisa ter provas e testemunhas. Sem isso, pode até ser o caso de os acusados quererem lhe processar por falsa acusação.
Na hora em que ele disse isso, Helena pegou o seu celular, procurou os vídeos e quase esfregou na cara dele. Roberto ficou horrorizado quando os viu. Aquilo era prova suficiente para botar Núbia na cadeia. Mesmo assim arriscou em dizer que aquilo não provava e que tinha de ver o ela fez contra Núbia para ter postado os vídeos. Ela se controlou ao máximo para não dar nas fuças dele.
_ Roberto você me conhece há anos, eu não sou prostituta, eu não sei quem é essa garota e muito menos o porquê ela fez isso comigo! E como ela sabia que eu estava em Paris?
_ Bom você pode ter comentado algo com o seu ex-namorado...
_ Não, eu não falei nada para ele. Eu ia falar com ele sobre a viagem... na verdade era para ele ir comigo, mas deu aquele rolo no Facebook, ele não foi e a Samantha foi no lugar dele.
_ E você vai precisar de testemunhas...
_ Eu já tenho: as minhas amigas Samantha e Dayane e...
_ O testemunho delas não vale. _ Soltou sem pensar.
_ Como assim não vale?
_ Bom... _ tentou improvisar: _ Como você mesma falou agora pouco, são suas amigas desde crianças. Algum promotor ou juiz pode alegar que você as coagiu ou as subornou para testemunharem a seu favor. E outra, acha mesmo que elas vão querer se envolver em uma confusão que é somente sua? Você sabe que quando chega a hora da verdade, ninguém é amigo ninguém. No fim das contas é cada um por si.
_ É claro que elas vão me ajudar.
_ Tem certeza? Veja bem o caso da sua amiga estilista. Primeiramente ela está investindo em sua carreira e não vai querer se envolver em uma confusão da qual você criou. E segundo, ela é estrangeira. Nenhum juiz irá ouvir o testemunho dela.
_ Mas Dayane tem cidadania brasileira. O pai dela era brasileiro...
_ Sim, mas a quanto tempo ela não vem ao Brasil? O prazo da dupla nacionalidade dela deve ter expirado a muito tempo.
Helena nunca ouviu falar desse prazo, mas tinha a certeza de que Dayane viria ao Brasil para ajudá-la naquele processo... ou quase certeza, uma vez que a história de Roberto era muito convincente. Realmente faz anos que ela não vem ao país... Perguntou pelo caso de Samantha.
_ O caso dela é pior. Primeiro porque os Ferreira & Duarte jamais permitiriam que a sua única filha, mesmo sendo maior de idade, se envolver em um escândalo, ainda mais da filha de um dos empregados. E outra, ela é separada. A maioria dos juízes é ultraconservadora e não vão acreditar na palavra de uma desquitada.
Apesar de todos aqueles argumentos de Roberto serem muito convincentes e ela não entender muito de procedimentos jurídicos, ela sentia que havia alguma coisa errada em toda aquela explicação. Tentou uma última cartada:
_ Tenho mais uma testemunha... o jornalista Mitchel Junqueira.
Quando Helena disse o nome de Mitchel Junqueira, Roberto se engasgou com o champanhe. Ela se assustou com aquela reação dele.
_ De onde você conhece este sujeito?
_ Conheci em Paris, ele é namorado da minha amiga Dayane.
_ E você vai confiar no testemunho dele?
_ Bom foi ele quem me falou do primeiro vídeo da Núbia, aquele onde ela briga com a Sam e...
_ Ah foi ele? E quem não garante que não foi tramoia dele com essa garota?
Helena ficou muito surpresa com a pergunta de Roberto. Não podia ser golpe dele, pois se foi ele mesmo que falou do vídeo. O que ganharia com isso? Contudo, não deixou de pensar em todas as possibilidades.
_ Bom ele próprio se ofereceu em ajudar, até falou para a gente dar uma entrevista no blog dele e...
_ E você acreditou? Helena, esse sujeito é um caipira sem eira nem beira. Ele não passa de um jornalista chave de porta de cadeia. Sabia que ele é conhecido no mundo jornalístico por jogar merda no ventilador, não importa quem se suja? Minha mãe é juíza, já o condenou várias vezes por trabalhar para a imprensa marrom.
Ao ouvir aquilo, ela sentiu uma imensa vontade de chorar. A sensação foi como se tivesse perdido uma guerra sem ter ao menos lutado. Será que tudo àquilo que Roberto lhe disse era verdade?
Quando seus pedidos chegaram, ela mal tocou na comida. Se já não estava com fome, agora perdera de vez o apetite.
_ Minha flor, sei o quanto ouvir a verdade é doloroso, mas é necessário! Não deveria se misturar com este tipo de gente. Deveria arrumar alguém com o mesmo nível superior que o seu.
"Alguém como você? Nem fudendo!" Pensou Helena.
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