38 - Perdão
Mal amanheceu e Helena já estava de pé. Graças aos deuses, não teve problemas em se readaptar ao fuso horário de sua cidade. Era habituada a mudanças.
Samantha também já estava de pé, pronta para ir para casa. Ela mora com seus pais em uma luxuosa cobertura triplex localizada na mais nobre área de São Paulo, mas pediu para ter o seu próprio espaço. Assim, área destinada aos empregados foi reformulada para ser uma quitinete, dentro do grande apartamento de seus pais. E prefere usar o elevador da criadagem, como costuma dizer a sua mãe, indo assim direto para sua casa para não correr o risco de encontrar ninguém.
_ Não sei como vocês conseguem viver desse jeito. _ Disse Helena ao se referir a família da amiga: _ A criação de lá de casa foi totalmente diferente. Não consigo imaginar eu e minha família no mesmo espaço e um virando a cara para o outro.
_ Não é para mim que você tem que falar. Até tenho lá uma boa convivência com os dois, mas na medida do possível. São eles que insistem em viver daquele jeito, em nome do poder e das colunas sociais. Eu tento evitar ao máximo para não levar um tiro no meio daquele fogo cruzado e mesmo assim, ainda saio ferida ao impedir dos dois se matarem!
Helena se sentiu culpada ao ouvir o desabafo de Samantha. Sabia que a amiga não tinha culpa por seus pais não ligarem muito para ela.
_ Oh amiga me perdoe. É que é difícil ver você nesta situação.
_ Nem todos tem a sorte que você tem, de ter pais amorosos e sempre poder contar com a família.
_ Bom eu não sei se isso te serve de consolo, mas pode se considerar parte da família Petropoulos.
Ao ouvir aquilo, Samantha sorriu. Ela adorava os pais de Helena, Constantino e Sophia, a quem ela chamava de tio e tia. Eles eram empregados de Rogério Duarte e Marta Ferreira, os donos da maior empresa de empreendimentos imobiliários do Estado, a Ferreira e Duarte S/A, até se aposentarem. E eram mais presentes em sua vida do que os próprios pais.
_ Vou mais tarde até o bairro Bom Retiro visitar meus pais. Tem certeza de que não quer ir comigo? Mamãe e papai vão adorar te ver.
_ Bem que eu queria..., mas tenho que me acertar com meus pais. Uma hora terei de fazê-lo. Mas manda um beijo para eles.
_ Ok, eu mando sim. Quer que eu te acompanhe até lá embaixo?
_ Imagina, não precisa. Já pedi um Uber. E você tem que terminar de se arrumar para ir ao trabalho. Mas valeu. E obrigada pela viagem, estava mesmo precisando. Nada melhor do que a companhia das melhores amigas para levantar o astral.
Era por este motivo que Helena admirava Samantha. Ela tinha tudo para ser uma garota mimada ou uma pessoa problemática, mas não. Procura sempre ver o lado bom da vida, mesmo com aquele jeitão marrento de ser dela.
Elas se despediram. Helena voltou aos seus afazeres, quando ouviu alguém bater na porta. Achando ser Samantha que provavelmente esqueceu alguma coisa em sua casa e voltou para pegar, foi atender.
_ O que você esqueceu, sua cabeça de vento?
Porém ao abrir a porta, viu que não era a sua amiga..., mas sim a Dona Maria, a mãe do Luiz. Helena ficou muito surpresa ao vê-la, depois de tanto tempo.
_ Será que a gente pode conversar... se você tiver um tempinho, é claro. Prometo que não vou tomar muito o seu tempo.
_ Sim claro. Eu ainda tenho alguns minutos. E tudo bem eu me atrasar um pouco. _ A convidou para entrar. Enquanto ela entrava, Helena só se perguntava o que aconteceu para a mãe de seu ex-namorado estar ali.
_ Sente-se por favor... a senhora aceita um café ou uma água?
_ Na verdade... o que eu queria mesmo era o seu perdão.
Helena a olhou confusa. Por que ela está lhe perdido perdão?
_ Pelo que eu safado do meu filho fez com você... Como ele pôde, meu Deus do céu, aprontar uma canalhice dessa com uma moça de família? _ Olhou para o teto com as mãos juntas e começou a chorar. Naquele momento, Helena ficou com muita pena de Dona Maria. Ela não tem culpa pelo que ele fez. Imaginou o que ela deve ter passado devido as safadezas do filho. Se ela passou horrores por causa de Luiz, imagine então a mãe dele.
_ A senhora não precisa me pedir perdão. Não me fez nada...
_ Ah, mas eu preciso sim, pois desde o dia que eu soube da cachorrada que ele mais aquela rameira aprontara com você, eu não consigo dormir direito. Não tenho um segundo de paz. Sou hostilizada em tudo quanto é lugar. Eu tenho até vergonha de ser mãe daquele traste! Pois saiba que não foi essa a educação que eu e o meu finado marido, que Deus o tenha, demos a ele. Essa mania de correr atrás de tudo quanto era rabo de saia, deve ter puxado daquele cabra da peste do meu irmão, tio dele. E foi por causa dessa mania de se enrabichar com a mulher dos outros, que o Luiz perdeu o pai.
Helena já conhecia a história da família de Luiz. Quando ele era pequeno, o pai foi assassinado por um grupo de jagunços, tudo porque o cunhado, irmão da Dona Maria inventou de se envolver com a mulher, irmã ou filha de algum fazendeiro, político, não se sabe... ou talvez de algum deles e aconteceu de o pobre homem estar no lugar errado e na hora errada... não se sabe se foi um engano ou de proposito, mas com medo de serem os próximos, ela fugiu do sertão nordestino com o filho.
_ E o Luiz?
_ O expulsei de casa. Homem safado não fica debaixo do meu teto. Ele que fique com aquela rapariga sem eira bem beira dele.
_ Mas ele é seu único filho, não pode expulsá-lo de casa. E se os Deuses que a livrem acontecer alguma coisa com a senhora?
_ Pois que aconteça. Prefiro morrer do que aceitar a ajuda daquele sem vergonha.
Por mais que tenha ficado magoada com a traição de Luiz, Helena não queria o mal dele. Sabia que a mãe era tudo para ele e os dois só tinham um ao outro no mundo. Tentou convence-la a aceitá-lo de volta em casa, não por ele, mas sim por ela.
_ Oh minha filha... _ Dona Maria se comoveu com o pedido de Helena: _ realmente você tem o coração do tamanho do céu. O engraçado é ele mesmo disse isso. Eu fiquei tão contente quando ele te levou lá em casa. Achei que finalmente havia se endireitado..., mas acho que me enganei. _ Abriu a bolsa, tirou de lá de dentro uma caixinha de veludo e entregou para Helena
_ O que é isso?
_ É o seu presente de Natal. Foi o que ele me pediu para comprar.
Ao abrir a caixa, Helena se surpreendeu ao ver que se tratava de um anel prateado com pequenos diamantes em volta do maior... era um anel de noivado.
_ Eu queria tanto que ele te pedisse em casamento... _ explicou com lagrimas nos olhos. Em hipótese alguma, Helena não podia aceitar aquele presente. Até porque era apenas a vontade dela... Talvez nem fosse à vontade dele. Devolveu.
_ Desculpa, mas eu não posso aceitar.
_ Aceite por favor. Também não posso ficar com isso lá em casa. Olhe, aceite como um presente meu.
Helena somente aceitou para não fazer desfeita. Mas prometera a si mesma que fará com aquele anel o mesmo que fizera com alguns dos presentes dados pelo Luiz, vai vende-lo.
_ Bom eu já vou indo embora. Obrigada por me receber viu, minha querida. Saiba que é muito bem-vinda em minha casa e sempre será. Eu sei que não devo te pedir para ir lá, mas adoraria que fosse... farei aquele bolinho de macaxeira que sei que você tanto gosta. E não se preocupe com Luiz. Marcaremos no dia em que ele não estiver em casa.
Mesmo sendo fã do bolo de Dona Maria, ela não estava muito a fim de voltar a casa de Luiz. Mais uma vez só concordou para não fazer desfeita. Se despediu da velha senhora com um abraço e a acompanhou até a porta. Voltou a se arrumar para ir ao trabalho quando resolveu olhar de novo o anel. Se perguntou o que aconteceria se eles realmente tivessem dado certo... guardou a caixa em sua bolsa para passar em alguma joalheria no caminho.
"Com certeza ele ia me trair de um jeito ou de outro... e dentro da minha casa".
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top