23 - Ressacadas
Enquanto isso na cozinha de Dayane, Helena preparava as caipirinhas e trocava mensagens calientes com Ray.
"Hola chica! Conseguiu se acertar com sua amiga?"
"Sim deu tudo certo obrigada!"
"Posso te ver amanhã?"
"Sim no final da tarde. Qualquer coisa te aviso!"
"Ok se prepara!"
"Para que?"
"Vou te pegar de jeito!"
Helena deu risada:
"ok Boa noite. Besitos mi amor!"
"Ok durma bem e sonhe comigo mi hermosa! Te quiero mucho!"
E ela voltou, toda faceira com as caipirinhas, para a companhia de suas amigas. Ela estava feliz. Nem parecia que havia chorado durante o dia.
_ Credo Lena, que demora! Voltou ao Brasil para comprar os limões é?
_ Não encontrava o pote do açúcar... _ tentou disfarçar. Samantha e Dayane trocaram uns olhares de cumplicidade, mas não disseram nada.
_ Mas estão aqui.
_ A gente pode saber o motivo da alegria?
_ Sim, o motivo é que estou com as minhas melhores amigas na cidade – luz. E um brinde a nós três, pois somos lindas, poderosas e guerreiras!
_ Vive le France!
_ Amigas para sempre!
E elas passaram a noite toda comemorando cantando um dos maiores sucessos de Edith Piaf, Non Je Ne Regrette Rien.
*
No dia seguinte (na verdade no mesmo dia, pois as três passaram a madrugada comemorando a amizade) as três melhores amigas foram tomar café na cozinha... ou pelo menos tentaram, já que todas estavam de ressaca.
_ Ainda bem que somente tenho uma reunião depois do almoço. Não ia aguentar falar com ninguém agora de manhã. _ Helena resmungou com dor de cabeça.
_ A culpa é sua! Quem mandou se entupir de caipirinha de vinho, sabendo que tinha de trabalhar no dia seguinte? _ Esbravejou Dayane também com dor de cabeça.
_ Será que dá para as duas rugirem mais baixo porra? _ Samantha esculhambou com as duas, também com dor de cabeça.
_ Quem tá rugindo aqui é a tarada por bananas... _ Disse Helena apontando para Dayane, lembrando da cena erótica protagonizada por ela e pelo namorado dela, o jornalista Mitchel Junqueira. Ela encarou as duas, incrédula. Samantha deu risada com o comentário tosco de Helena, mesmo com dor de cabeça. Mas quando viram que ela não gostou, tentaram se redimir.
_ Desculpa Day, não devia ter dito isso... ainda mais que deve ter sido um momento muito importante para você.
_ Verdade, sentimos muito, mas... é que foi muito estranho ver você fazendo aquilo. Você tinha praticamente duas bananas, uma na boca e a outra na...
_ Samantha, para!!! _ Helena a reprendeu antes que falasse mais uma besteira.
_ Tudo bem... _ as três ficaram se olhando em silêncio, até que ela se pronunciou: _ vocês não vão me perguntar nada?
_ Sobre o que?
_ Sobre ontem?
Helena e Samantha se olharam entre si, se perguntando o que a amiga queria conversar. Seria sobre a sua noite com o namorado ou sobre o vídeo?
_ Depende sobre o que você quer conversar... _ Disse Samantha: _ se for sobre a sua noite, a gente espera você se sentir à vontade para falar sobre isso.
As duas sabiam o quanto era difícil para Dayane. A sua primeira experiência foi horrível e desde então não conseguia e nem queria se envolver com mais ninguém.
_ Agora se for para falar daquela merda de vídeo, esquece! _ Disse Helena com amargura: _ estou com enxaqueca desde o dia em que vi aquela maldita postagem no Facebook e piorou por causa daquele jornalista de meia tigela que tinha de tocar no assunto. Ainda vou ter um AVC de tanta dor de cabeça. Desculpa mais uma vez Day, sei que é seu namorado, mas eu já tô cheia de toda esta putada!
Samantha e Dayane sabiam que Helena estava magoada, não era exatamente com o jornalista, mas com toda a confusão que foi criada devido a traição de Luiz.
_ Bom, era um pouco dos dois que eu ia falar. Mas se vocês não estão dispostas...
_ Fale sobre a sua noite. _ Perguntou Sam para quebrar a tensão do momento: _ já que é para conversar, que seja coisa boa.
_ É sério isso? _ Perguntaram as duas.
_ Sim. Vejam bem, Day passou anos aprisionada pelo passado. E finalmente ela se libertou, ainda que tenha sido com aquele cara... Ela conseguiu despertar a sua deusa interior.
Helena riu com a careta que Samantha havia feito, se referindo ao jornalista, mas concordou com o seu depoimento. Aquelas eram as sábias palavras de sua avó.
Dayane começou a contar como foi a sua noite com o jornalista, o quanto ele foi super gentil e compreensivo com ela. Em momento algum não avançou o sinal sem o consentimento dela. Pelo contrário, a todo momento respeitou o seu tempo e as suas vontades. E assim como ela, ele também tinha complexos em relação ao seu corpo.
_ Eu disse que tinha certas coisas em mim que ele poderia não gostar e...
_ Pode parar por aí. _ Helena a interrompeu: _ que história é essa de que tem "coisas em você que ele não ia gostar"?
_ Bom... _ enrolou-se para responder: _ vocês sabem que eu sou magricela desde criança. E sempre ouvimos que homem gosta de mulher que tenha onde pegar.
As duas olharam para ela e depois se olharam entre si. Apesar de entenderem o drama da amiga, discordavam do seu depoimento. Bom, a culpa não era dela, mas da sociedade machista. Na adolescência, enquanto suas amigas ostentavam curvas generosas, ela tinha os braços e pernas fininhos, o perfil do corpo quase reto... na escola, sofreu bullying por ser magra demais... ou magricela, como os idiotas de plantão a chamavam.
_ Para começar, você não é magricela. Pare de ficar se colocando para baixo! _ como sempre, Samantha precisou dizer umas boas verdades para Dayane: _ você é linda do seu jeito. O seu corpo não foi feito para homem nenhum ficar pegando. E se ele não pode lidar com isso, então o problema está nele, não em você.
Apesar de achar que Samantha foi meio ríspida com Dayane, Helena concordou com a amiga. Sabia que bem lá no fundo, ela só quer ajudar.
_ Sam tem razão Day, você é bonita sim, tanto na aparência quanto na alma. E o seu namorado deve se considerar um cara de sorte por estar com você.
A mesma sorte que o imbecil do Luiz tinha e jogou no lixo..., porém isso agora não vem ao caso. Helena pediu para Dayane continuar a sua narrativa, que naquele momento era muito mais interessante:
_ Quando eu falei de mim, ele disse que teríamos um problema, pois ele também tinha coisas que eu não iria gostar de ver. Aí ele tirou a blusa, para me mostrar as suas cicatrizes.
_ O que eram aquelas marcas?
_ Como já havia dito antes, ele é jornalista investigativo, se arrisca investigando golpes, facções e crimes... quando é descoberto, sofre facadas, tiros e torturas. Aquele olho vermelho foi resultado de um soco que levou de um contrabandista de material radioativo.
_ Você não ficou com receio?
_ No começo sim. Mas eu queria e muito sair da minha zona de conforto... E a minha deusa interior me fez ver que por baixo daquele monte de cicatrizes, havia um homem maravilhoso, quer queria me fazer feliz. Eu senti isso o tempo todo em que ficamos juntos... me senti a mulher mais linda do mundo. E estou muito feliz!
Helena e Samantha se admiraram e se orgulharam da atitude da amiga.
_ Também estamos muito felizes e orgulhosas de você Day. E um viva para você, pois você é linda, poderosa e guerreira.
_ Mérci mon cher amis. (obrigada minhas queridas amigas)
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