O começo de tudo
2 anos depois...
A morte muda as pessoas, ainda mais se for de alguém muito próximo a você.
Imagine-se convivendo com alguém por 11 anos... e de repente, por causa de um infeliz acidente, ela não está mais lá.
Depois daquilo, eu senti que nasci de novo, porque eu poderia não ter sobrevivido. A batida foi bem forte, porém o corpo do meu irmão amorteceu um pouco.
Eu sobrevivi.
Ele não.
Tento pôr na minha cabeça que ele foi um herói, como todos, que ouvem a história, acabam dizendo, mas eu não queria isso. Eu nunca quis um herói, eu queria apenas o meu irmão comigo, o meu único e verdadeiro amigo.
"Se não fosse pelo meu filho mais velho, Eduardo, eu teria perdido os meus dois amados filhos. Infelizmente, um deles se foi, o meu querido herói, salvando a Amanda. Eu tenho certeza que, onde quer que esteja, ele está feliz por ter conseguido realizar o seu objetivo, que era proteger o corpo da irmã amortecendo a batida..."
Essa foi a frase da minha mãe no dia do enterro. Lembro-me de cada palavra, e do que senti ao ouvi-las: raiva. Diferente de todos ali, naquele lugar, eu não me sentia feliz por estar viva, não me sentia sortuda por ter tido um irmão que se sacrificou por mim, não... não... e não. Eu sentia raiva por ter sido o motivo dele ter partido.
"Ah, mas foi o carro que bateu...", vocês devem estar pensando. É, já ouvi essa também, mas o meu pensamento é, e sempre será, o mesmo: ele se jogou em cima de mim para amortecer uma batida feia. Se eu não estivesse ali, poderia ter sido diferente.
Quando os meus pais descobriram essa minha linha de raciocínio, eles decidiram me pôr em um psicólogo. Estou há 2 anos frequentando um, e como podem ver, nada mudou.
Nada irá me consertar, estou quebrada, destruída.
Posso ter sobrevivido à batida, mas me sinto morta.
E em toda crise que se preze, efeitos externos ocorrem. Comecei a ter problemas de concentração, de vontade de aprender, minhas notas foram de mal a pior, chegando ao ponto de chamarem os meus pais para conversar.
Tenho, hoje, 13 anos, estou chegando ao final de um ciclo para entrar no Ensino Médio, e por conta disso, os professores se reuniram e decidiram chamar os meus pais para uma conversa séria sobre o meu comportamento e o meu desenvolvimento dentro da sala de aula durante esses dois anos, que comecei a mudar gradativamente.
Comportamento também? Sim, também. Antes eu era faladeira, interativa, sentava na frente para ficar perto de todos os professores, até de quem eu não gostava, e agora eu sento atrás (no famoso fundão), mas quieta, sem falar com ninguém desde o momento em que piso na escola até o momento em que saio dela.
Todas essas mudanças radicais assustaram muito os professores, enquanto, para mim, estava sendo tão natural que nem senti acontecer.
— Depois da escola, não esquece que tem psicólogo hoje, Amanda — minha mãe disse e eu só balancei a cabeça confirmando que a ouvi, enquanto andava para porta de casa.
Assim que pisei fora de casa, eu dei de cara com uma chuva fina.
Outra curiosidade sobre a nova Amanda: Medo de chuva.
Quando está chovendo, e eu tenho que andar na rua, procuro todos os cantos cobertos pelo caminho.
Essa acabou sendo a minha rotina diária, já que não saio de casa, a não ser que seja extremamente necessário.
Chegando à escola, passo pelos corredores, caminhando entre quem conheço e não conheço, e vou direto pra sala. Sou sempre a primeira a entrar, e sentar lá atrás, esperando o restante chegar.
— Boa tarde, Amanda — a professora Beta disse.
Olho-a e dou um meio sorriso fraco, como faço todas as manhãs. Alguns minutos depois, os outros alunos começaram a entrar e sentar nos seus lugares. Observo, quem eu já não gostava, olharem e cochicharem, provavelmente sobre mim. Observo também quem eu gostava, mas não tinha intimidade.
Todos dizem que eu mudei e apontam o dedo por conta disso, mas alguém se perguntou o motivo?
— Hoje é trabalho em grupo, galera! Formem seus pares, é livre — a professora mandou e sentou-se na cadeira, esperando a turma formar seus grupos. Adivinha quem ficou sobrando.
Como de praxe, fiquei quieta esperando todos formarem seus pares, e eu ficar por último. Olhei para o meu caderno e comecei a desenhar traços aleatórios na folha. De repente, uma música dos anos 80 surge na minha cabeça: Don't you forget about me. Ela ficou se repetindo e repetindo, até que me vi escrevendo trechos da música no meu caderno, no lugar dos traços aleatórios...
— É... oi! Eu vi que você ficou sobrando, então vim fazer par contigo, tudo bem? — uma das meninas que eu gostava, mas não tinha intimidade, falou comigo... para minha surpresa. Ninguém fala comigo. Por que ela estava aqui? — Tudo bem?
Olhei para ela, meio de lado, e dei um meio sorriso concordando com a sua parceria. Acreditem se quiser, ela me deu um sorriso de volta. O que estava acontecendo? Creio que essa pergunta ficou muito visível no meu rosto, pois o seu sorriso começou a sumir aos poucos.
A professora começou a distribuir uma folha para cada grupo e deu um tempo para que respondêssemos as perguntas sobre História Geral.
— Ah, eu amo História! Vamos arrasar, não é, Amanda? — Ela sabia o meu nome!
Assenti com a cabeça, forçando o meu melhor sorriso, e começamos a responder. Como era múltipla escolha, as respostas que eu achava que eram as certas, eu apenas apontava e ela respondia. No final do trabalho, entregamos para a professora e esperamos dar o sinal para que viesse a próxima aula: Geografia.
— Ah, espero que a gente volte a fazer trabalhos juntos — Ela sorriu e voltou para o seu lugar.
Fiquei observando a menina voltar para sua cadeira, perto dos seus amigos.
O nome dela era Tamara, pelo menos, foi o que eu ouvi quando a chamaram.
Elaparecia ser legal, realmente. Bem, ela foi a única em 2 anos que veio falarcomigo, ou fazer algo junto de mim por conta própria.
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O que acharam??? *-*
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E lembrem-se! Toda sexta-feira tem capítulo novo!!
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