Prólogo


Gardenia, durante a queda

Estava frio naquela noite, mas isso não diminuía a beleza do lugar. Nas terras de Gardenia o céu era tão fúlgido e belo que a lua parecia mais perto da terra. As estrelas formavam constelações espetaculares e rastros cósmicos traçavam o céu como um véu luminoso de exuberante beleza. As brisas refrescantes da noite rodopiavam e agitavam as folhas das árvores, quase fazendo parecer que estas estavam dançando. Não havia dúvidas do quão mágica era a atmosfera do lugar, o próprio ar era diferente de qualquer outra região do Continente. E era nesta noite, que poderia ter sido apenas mais uma, que a aldeia de Weya festejava.

Weya era apenas mais uma das diversas aldeias espalhadas pela ilha. Não havia grandes capitais, cidades ou mesmo reis e rainhas por ali. Cada aldeia tinha o seu muruxaua, que liderava e garantia a paz, mas eram independentes entre si, existindo em harmonia — compartilhando de uma mesma cultura e costumes.

Naquela noite em especial, Weya era uma das poucas aldeias que ainda resistia diante da invasão dos estrangeiros. Outras aldeias mais ao oeste e sudoeste já haviam sido devastadas pelas forças de Nahor, que há quase um ano desembarcaram na região. Embora não houvesse motivos para comemorações, alguns concordavam que os costumes deveriam ser mantidos. E em todo início de uma nova estação as aldeias de Gardenia faziam uma festa, um ritual que era realizado desde muito tempo.

O muruxaua daquela aldeia chamava-se Raoni, um homem bom, admirado por sua força e coragem. Mesmo nos tempos difíceis que perdurava ele decidiu que iriam festejar, manter os costumes que os unia faziam séculos. "Não nos arrancarão os nossos costumes, quando os dias sombrios se forem nossos filhos se lembrarão que diante da ameaça os nossos espíritos se mantiveram íntegros", foi o que ele disse diante de todos.

Nos três dias que antecederam o festival, houve uma grande preparação para as duas noites de festa. Na primeira noite o povo da aldeia se reuniu no centro da grande clareira. A comemoração deu início com a bênção do grande xamã daquela vila, um homem já muito velho com seus cento e quarenta anos, também muito sábio e conhecedor da magia que se manifestava em Gardenia. Após a bênção, houve dança, música e muita comida, todos puderam esquecer a guerra que acontecia e saborear de uma alegria que fazia meses não sentiam.

No meio dessa festividade, as duas filhas de Raoni, assim como todas as outras crianças, divertiam-se correndo entre os adultos, dançando com saltos e risos. As garotas eram gêmeas de cabelos castanhos e olhos negros. Aquela que saiu primeiro do ventre da mãe chamavam de Yaciara e a segunda, Kiaracy. Eram inseparáveis e tão idênticas que às vezes era difícil diferenciar ambas.

Havia, entretanto, uma coisa que facilmente revelava a identidade de cada uma das meninas, e isso era a marca de nascença que possuíam na nuca. A marca de Yaciara assemelhava-se a uma lua crescente enquanto que a de Kiaracy parecia um sol, ambas tão perfeitamente desenhadas na pele que pareciam ter sido feitas por mãos humanas. O xamã estava certo de que aquelas marcas denunciavam um futuro grandioso, mas mesmo para ele era difícil perceber os sinais que ali estavam desenhados.

— Yaciara! Vamos, por aqui! — gritava Kiaracy, enquanto cortava caminho por entre os adultos ali reunidos.

Seguindo logo atrás de Yaciara vinha também um menino magro e mais alto que as garotas, ainda que tivessem os mesmos dez anos de vida. O chamavam de Kaluanã ou ainda de Kauã. O garoto se destacava do povo dali, tendo sido resgatado do mar. Possuía a pele escura, olhos verdes e cabelos escuros bastante cacheados. Comentava-se em Weya, até mesmo entre os adultos, que Kaluanã era o garoto mais belo da aldeia.

— Ei, esperem vocês duas — Kauã chamou, enquanto ria e ofegava.

O trio de crianças seguiu correndo, até o ponto de se afastar das demais pessoas. Pararam para descansar entre as árvores alguns metros de distância da clareira.

— Kauã, você se cansa muito rápido. — Yaciara riu. Ela viu o menino tomar fôlego com as mãos nos joelhos e continuou: — E é tão lento quanto um bicho-preguiça.

— Quê?! Claro que não! Eu estou quase em idade de me tornar um caçador! — A voz de Kaluanã soou desesperada. Ele ergueu a cabeça, limpou o suor com as costas da mão e fechou a boca para que não ouvissem a respiração ofegante. Seu rosto estava corado devido a provocação da garota. — Eu apenas não me recuperei daquela queda de dias atrás...

Hapapa não vai gostar de saber que anda mentindo — Yaciara provocou. Kaluanã era criado por Raoni, considerado um membro da família e portanto, irmão das gêmeas.

— Eu não...! — Ele quis protestar, mas Kiaracy interrompeu suas palavras.

— O xamã pode curar qualquer ferida, até mesmo um arranhão no joelho.

— Não foi um arranhão! — O menino levou a mão à perna, na região do joelho, tocando suavemente com a ponta dos dedos. Não havia dor, mas uma pequena cicatriz estava ali na pele, onde o corte havia cicatrizado completamente.

— Parecia com um. — Kiaracy sorriu. Então, encarou de repente a escuridão da mata adentro. — Agora vamos voltar para a festa, o pai não quer que ninguém fique vagando pela floresta.

— Não estamos na floresta, a clareira está bem ali. — Yaciara apontou para o grupo de pessoas que dançava, ria e saltava. As crianças corriam ao redor da fogueira e os músicos tocavam tambores, chocalhos e flautas. — Não há problema algum.

— Os estrangeiros estão vagando por nossa floresta, acho que isso já é um problema... — Kiaracy retrucou.

— Vocês acham que essas pessoas são o meu povo? — indagou Kauã, de repente, encarando a escuridão da floresta como se fosse capaz de ver algo que ninguém mais via. Seus olhos verdes eram tão profundos quanto uma lagoa de água cristalina.

— Não seja bobo, Kauã. Você é um de nós. Essa é sua casa e nós somos seu povo.

Kaluanã expôs um sorriso tímido. Sentia realmente que era parte daquilo, mas ao mesmo tempo não poderia evitar sentir-se diferente. Afinal viera de outro povo, do Continente, sabia disso. Às vezes se perguntava quem eram seus pais, embora talvez nunca encontrasse resposta para isso. A mulher que o criou, a esposa de Raoni, dizia que ele era filho do mar, porque foi tirado de lá. Kaluanã não entendia como poderia ter nascido do mar.

Estavam um ajudando o outro a levantar, prontos para voltar para a clareira, quando o vento rodopiou ao redor deles e tudo ficou muito silencioso. Uma brisa transportava dezenas de pequenas folhas vermelhas e passeou pela clareira chamando a atenção de todos. Os músicos pararam de tocar, as crianças ficaram mais quietas e as danças cessaram quase que imediatamente. Anori, o xamã da tribo, se destacou da multidão.

A brisa mensageira ainda deslizava no ar acima da cabeça de todos quando o velho xamã ergueu sua mão direita e as folhas passaram a dançar ao redor de si. Os lábios do homem tremiam e sua mão enrugada tocava as folhas que escapavam por entre seus dedos.

Raoni aproximou-se do grande xamã quando a brisa se dissipou e as folhas desapareceram no ar como pó. Kaluanã e as gêmeas ainda não haviam se juntado à multidão, observavam a cena de onde estavam. O grande xamã confidenciou algo no ouvido do muruxaua, estava tudo muito quieto e as crianças se agarravam às pernas de suas mães. De repente, o ar pareceu ficar muito pesado, como se fosse o presságio de algo.

Depois de ouvir as palavras de Anori, o muruxaua anunciou para a tribo:

— Quero todos os feiticeiros, guerreiros e caçadores comigo. — Sua voz era um tanto vacilante. O velho xamã parecia lamentar algo com as pálpebras pesadas. — Os demais reúnam as crianças, mulheres e os não guerreiros, sigam para sul, busquem por abrigo em Yõra. — Houve uma breve pausa, antes de ele encerrar com as palavras arrastadas: — Estamos sob ataque.

Não houve caos, exceto pelo choro e indagações das crianças, quase todos já esperavam por esse momento. A floresta havia os avisado da presença dos inimigos antes deles chegarem, havia tempo para se prepararem, foi o que pensaram. Os guerreiros se reuniram todos juntos de Raoni, trazendo as armas que os gardenianos usavam, de igual maneira os feiticeiros também se juntaram para o combate. Os adultos chamavam pelas crianças, se agrupando às pressas.

Hapapa! — gritou Kiaracy, abraçando a perna de Raoni. — Não... — As palavras ficaram presas em sua garganta.

Yaciara abraçou a outra perna do homem, incapaz de dizer algo, as lágrimas molhando sua face. O pai encarou elas, com um olhar carregado de tristeza, mas ainda assim firme. Ficou abraçado às meninas, até levantar o rosto para Kaluanã, que estava um pouco mais afastado, tão assustado quanto os demais. O homem fez um sinal com a mão, chamando o garoto, que foi recebido pelo abraço.

— Meus filhos... — sussurrou o homem.

Uma mulher jovem aproximou-se agarrada a uma pequena trouxa improvisada, parecia muito abatida embora tentasse demonstrar força. Ela encarou a cena e com a mão livre enxugou a face, tirando mechas do cabelo castanho do rosto. Seu nome era Ailana, a companheira de Raoni e mãe das gêmeas.

— Precisamos nos apressar — disse ela.

Raoni se separou dos filhos, com um beijo na testa de cada um. Ele abraçou a mulher e deu-lhe também um beijo, sussurrando algo em seu ouvido, o qual ela apenas acenou com a cabeça em resposta.

— Cuide delas. — Raoni apertou o ombro de Kaluanã, com um sorriso encorajador. O menino passou a mão no rosto limpando as lágrimas e acenou com a cabeça. — Vão.

Aqueles que não podiam lutar seguiram floresta adentro na direção da aldeia que ficava mais próxima, com pelo menos três dias de distância de Weya. Carregavam o mínimo possível e andavam em passos ligeiros. A mata se abria por onde passavam, árvores se recolhiam e galhos se retorciam, oferecendo passagem para todos. Alguns animais também seguiam ao lado deles; raposas, lobos, falcões e até coelhos pareciam os escoltar. Era algo certamente atípico de se presenciar, contudo a magia de Gardenia fazia a natureza agir de maneira diferente.

Ficaram para trás os guerreiros e feiticeiros, prontos para defender a aldeia, ainda que parecesse em vão. O povo de Gardenia repudiava o combate, mas estavam prontos para tal, sempre estiveram. Quando os estrangeiros chegaram, eles não recuaram e a terra lutou a favor deles. O grupo que seguia fugindo dali podia sentir o odor da fumaça ao longe, quase era possível escutar os sons da batalha que havia iniciado.

E então, no meio dos que fugiam por não poder lutar, uma confusão se instaurou. Kiaracy estremeceu ao escutar o som de gritos, o choro das crianças e os risos daqueles que atacavam. A multidão de pessoas apertou Ailana e seus filhos. Yaciara mal conseguia ouvir as ordens da mãe no meio da confusão. Os inimigos pareciam atacar de todos os lados. Kaluanã buscou segurar a mão das gêmeas enquanto a multidão agitada os separava.

— Yaciara! Kiaracy! — gritava o menino. — Hamama!

Kiaracy era arrastada pelas pessoas, sentindo apenas uma mão lhe apertar o pulso. Os animais saltavam pelo ar para atacar sabe-se lá quem, a garota não conseguia distinguir nada no meio de toda aquela confusão repentina.

Hamama! Hamama! — Yaciara chorava, chamando por sua mãe, enquanto pessoas a jogavam de lá para cá, correndo às pressas.

Quando enfim conseguiu sair do meio da multidão, Yaciara se arrastou pela mata, sentindo a bochecha queimar devido às lágrimas. Quando esbarrou em algo, ela abriu os olhos para encarar os corpos de dois da sua aldeia caídos no chão, imóveis e desprovidos de vida. A luz da lua lhe permitia distinguir as feições dos mortos. Era o velho Gili e também a sua amiga.

— Emia... Emia, levanta. — A menina sacudiu a outra e ao tocar em seu corpo a mão sujou com o sangue que escorria por um grande corte no pescoço. Yaciara chorou aos prantos pela falecida, com a cabeça deitada sobre seu peito.

Ela não encontrou forças para levantar. Não se recordava de algum dia ter sentido tamanha fraqueza. Ouviu o farfalhar de folhas e o som de passos. Escutou também o riso de um homem, sobrepondo o som distante dos gritos. Alguém se aproximou e ela não teve coragem de levantar o rosto para ver quem era.

— Que menina adorável... — Uma voz fria a cortou, como uma adaga de gelo.

Sem forças para fugir, Yaciara só pôde continuar com o rosto enterrado no corpo da amiga falecida, apertando as roupas dela com as mãos trêmulas. Desejou que tudo acabasse rápido.

Ao conseguir afastar-se o suficiente da onda de pessoas que se apertavam, Kiaracy abriu os olhos para encarar a pessoa que lhe segurava o pulso. Foi com grande alívio que ela encarou o rosto de sua mãe. Sentiu seu corpo fraquejar. O coração palpitava rápido, como se fosse rasgar a carne e saltar para fora do peito.

Hamama... — Ela sussurrou, sentindo o abraço apertado da mulher. Ambas choraram, enquanto sombras passavam ao redor dela, a tribo que corria em desespero. O som de uma raposa rasgando um inimigo ao lado delas foi o que as despertou do transe que o alívio provocou. O odor de fumaça adentrava as narinas, atordoando ambas.

— Yaciara e Kauã. Precisamos encontrá-los. — A mulher se ergueu buscando manter-se firme, segurando o braço da filha com mais força do que deveria. Kiaracy tossiu, a fumaça estava se espalhando com rapidez e a floresta se iluminava com tons alaranjados de chamas ao longe. — Cubra a boca e o nariz.

As duas saíram pela mata, procurando as crianças perdidas. Os animais corriam para defender o povo, atacando inimigos e resgatando os feridos. Troncos e raízes se dobravam para agarrar os estrangeiros e destroçar seus corpos, contudo também havia nahoranos versados em magia que lançavam fogo nos troncos, queimando as árvores e fazendo labaredas de fogo se espalhar para consumir tudo. Parecia que tudo estava perdido para Weya.

Kiaracy tentava não encarar o rastro de corpos e sangue, tanto de inimigos quanto do seu povo. A menina via rostos familiares, pessoas que conheceu a vida toda, teve que desviar os olhos repetidas vezes.

Mesmo buscando e gritando o nome deles, não chegaram a encontrá-los. A luz do luar e das estrelas lhes proporcionava alguma visão, mas ainda assim não tiveram qualquer sinal das crianças. Ailana cogitava os procurar no meio de multidões que corriam de um lado para outro, era a pouca sensatez que lhe restava a impedia de levar a filha para o perigo. A mulher já não sabia como proceder.

Uma sombra se ergueu de repente em frente delas. Kiaracy encarou quando a luz revelou uma armadura negra como o carvão. O guerreiro trazia na mão uma lâmina longa e aparentemente pesada. Mas o que lhe chamou a atenção foi a forma de um rosto, ou caveira, esculpido no peitoral da armadura. O pouco que podia ver da cabeça do homem foram os cabelos negros e o sangre que lhe cobria todo o rosto.

— Kiaracy, cor... — Antes que a mãe pudesse terminar de falar sua voz foi cortada pelo golpe que recebeu. A lâmina afiada do nahorano cortou o ar e decepou num instante a cabeça da mulher, que despencou no chão com um baque silencioso.

Kiaracy observou enquanto o corpo da mãe caía sem a cabeça, o sangue escorrendo do pescoço pelas vestes. A figura de armadura negra deu um passo na direção da menina, que tentou recuar, mas terminou caindo com o traseiro no chão. Ela levantou os olhos arregalados para se deparar com a espada que se erguia no ar, segurada com as duas mãos do seu dono. Uma nuvem descobriu completamente a lua e Kiaracy pôde ver com mais detalhes a armadura negra e a caveira esculpida no metal.

Antes que pudesse receber o golpe fatal, tudo ficou escuro e ela perdeu a consciência.

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