Capítulo 3 - Markus I

Markus
(Ol'Valfheim - Nahor)

Não iria demorar a vir uma nevasca, a intuição de Markus dizia isso e quase sempre ela estava certa. O jovem encarava o animal atingido, um mísero pássaro que não saciaria o estômago de uma criança, tampouco o de três pessoas. Mas ele não iria desperdiçar nem mesmo um palmo de carne, então retirou a flecha da ave com devido cuidado e a amarrou preso ao cinto. Definitivamente não poderia retornar para casa apenas com aquilo. Estava faminto e sabia que a mãe e irmã também.

No entanto, a neve impedia seu avanço, caia ainda fracamente, mas logo não poderia ver um palmo à sua frente. Corria também o risco de ficar preso ali, morrer congelado naquele bosque quase deserto. A ideia de morte não lhe agradava, a família precisava dele, ou pelo menos imaginava dessa maneira. Sacudiu a neve que acumulava no grande casaco de pele de urso, as botas escavavam a fina camada de neve e alcançava a lama por baixo dela. Havia chovido na noite anterior, deixando o solo instável, lamacento e escorregadio; mas Markus era cauteloso no movimento e se movia sem sofrer acidentes.

O bosque estava silencioso e sombrio. Não faltava muito para a noite cair e o pouco espaço entre as árvores aumentava as sombras, assim como o frio. Os flocos de neve que caíam do céu se acumulavam nos galhos e vez ou outra Markus precisava se esquivar da massa de gelo que descia em queda livre. Aquele certamente não era um bom lugar para crianças vagarem. Mas o garoto que caçava naquele momento não se via mais como uma criança. Com treze invernos vividos, achava-se já um homem feito.

A vida naquele lugar não era fácil. Markus teve que aprender a caçar desde muito cedo e aprendeu bem. Com o arco já preparado o menino se esgueirava pelas árvores, de ouvidos atentos, fazendo o mínimo de barulho e tentando ignorar o vento que congelava o seu rosto e as pontas dos dedos cobertas por luvas que atrapalhavam a pegada da flecha. O cabelo de fios dourados acumulava flocos de gelo e os olhos castanhos se moviam atentamente enquanto vasculhava toda a área. Então, subitamente, ele distinguiu o farfalhar de um arbusto e o seu movimento foi ligeiro. A flecha sumiu na folhagem e ele armou um segundo disparo, tirando uma outra seta da aljava que carregava presa às costas.

Markus se adiantou e foi verificar o que tinha abatido. Tirou do arbusto um coelho grande e um riso escapou de seus lábios. A flecha atingiu o pescoço, a pelagem cinza manchada de sangue ainda quente. O garoto ficou contente em constatar o peso e tamanho, daria uma boa refeição. Tirou uma faca velha que trazia na cintura e removeu a flecha ali mesmo, cuidadosamente para não prejudicar a carne, deixou o excesso de sangue escorrer e depois jogou o animal numa bolsa que trazia consigo.

Ele resolveu que era hora de retornar. A neve caía com mais intensidade do pequeno espaço entre a copa das árvores e o vento forte sacudia os galhos, criando uma atmosfera arrepiante com o som da madeira rangendo.

A marcha de regresso foi difícil, a neve se acumulava bastante e o menino andava aos tropeços. Ele mantinha uma flecha na mão, armada no arco, talvez ainda tivesse a sorte de abater um outro animal no caminho. Entretanto não encontrou nada até se dar conta que estava numa estrada, parte das rotas seguras do reino, o caminho de terra estava coberto pela fina camada de neve; aqui e ali revelando um pouco da terra escura. Quando chegasse o outono e depois o inverno, aquela estrada haveria de desaparecer por quase todo o período das duas estações. Não era fácil viajar por Nahor durante o inverno.

Seguiu aquela estrada por uns bons metros, até avistar os muros da cidade numa alta colina. Ele subiu a ladeira ofegante, encarando o paredão de pedras cinzas. Ol'Valfheim, a antiga capital, que já foi uma grande cidade, agora era apenas mais uma dos lugares frios e sem vida de Nahor, ou pelo menos era assim que o garoto via, mesmo sabendo tão pouco sobre as terras além de sua casa.

O volume de neve que caía do céu aumentava, então Markus acelerou os passos, queria estar em casa quando a nevasca chegasse ao seu ápice.

— Algo de bom hoje, Arlet? — indagou um guarda dos portões que já conhecia Markus. Era um homem alto, que vestia um casaco certamente muito agradável, diferente da velha pele de urso que Markus usava, que antes pertencia a seu pai, cortado em retalhos para caber em seu corpo.

— Nada demais — disse o menino, abrindo o casaco e mostrando o pássaro preso ao cinto, enquanto rumava para dentro da cidade.

O guarda e mais dois que estavam por perto soltaram umas risadas de algo que certamente apenas eles acharam graça. Markus recebeu um tapinha nas costas enquanto passava pelas grandes portas, que estavam abertas naquele momento.

— Tudo bem garoto, não demore, vamos fechar os portões logo. Já é quase noite.

Markus não respondeu, avançou pelas ruas pouco movimentadas da cidade andando o mais rápido que suas pernas curtas permitiam. Seu rosto estava vermelho e dormente devido aos flocos de neve que batiam em sua face como uma centena de agulhas. As poucas pessoas que ainda estavam nas ruas ignoravam sua passagem.

As construções que se espalhavam pela cidade eram quase todas feitas de pedra escura e de aspecto velho, o que ampliava a sensação de frio e abandono. Havia luz vinda de algumas janelas, denunciando que pessoas moravam ali. Os prostíbulos e tavernas eram os únicos lugares de onde se ouviam risos e barulho. Markus se esgueirava para uma parte mais desolada da cidade, onde as ruas mais estreitas causavam receio a quem passava por ali.

Depois de alguns minutos de uma caminhada exaustiva ele chegou onde pretendia, ofegava enquanto buscava recuperar o fôlego. Estava de frente a uma casa pequena. Suas mãos trêmulas bateram na madeira grossa da porta e aguardou. Alguém do outro lado abriu uma portinhola, espiou e tornou a fechar. A porta foi aberta segundos depois.

Um homem alto, esguio, muito magro e pálido surgiu. Senhor Hans, era como todos por ali chamavam o feiticeiro. Tinha os dedos muito longos e finos, parecidos com gravetos, e seus cabelos desciam até o meio das costas como uma capa negra, o olhar era severo, cinza como o céu de Nahor.

— Markus Arlet. — O homem encarou o menino com um rosto que esboçava nenhuma alegria. — O que deseja?

O menino não se intimidou, estava mais que acostumado com aquele tratamento por parte do homem. Sob o olhar do outro ele tirou o pássaro da cintura, que afinal teria alguma serventia.

— Preciso de mais uma de suas poções. — O menino mostrou o animal, nunca tentara barganhar algo de tão pequeno valor com o homem, mas pensou que talvez ele aceitasse.

O olhar do homem para o animal foi mais frio que a neve carregada pelo vento.

— Não entendo o que espera que eu faça com isso.

— Ele tem um pouco de carne, não? — Markus tentou argumentar. — Além do mais, duas quinzenas atrás aceitou a metade do javali que lhe trouxe. — Era um javali pequeno, mas ainda assim ele conseguia se recordar da quantidade de carne que rendeu. E a metade dele garantiu quatro frascos das poções do homem.

— Um pássaro não pode ser comparado a um javali, meu rapaz — disse Hans, segurando a porta e afastando um passo para trás. — Eu concordei em aceitar suas caças ao invés de moedas, mas não pense que pode me comprar com qualquer coisa que ache por aí. Volte quando tiver algo de maior valor.

— Por favor... — Markus apelou, tinha agora as feições de uma criança em súplica. — Ela está muito mal.

— Talvez a morte seja algo misericordioso para ela.

Em outros tempos Markus teria se zangado com as palavras frias do Senhor Hans, mas estava acostumado com aquilo. Ignorou o que o homem disse e então abriu a bolsa que carregava, tirou de lá o coelho gordo que sonhava em devorar com a família naquela noite. Talvez ainda pudesse voltar ao bosque, usar o pouco tempo que restava para anoitecer e procurar por outro animal.

O homem encarou o coelho com mais interesse.

— Espere — ele respondeu diante da visão do animal, fechando a porta diante de Markus e sumindo dentro da casa. Instantes depois o homem retornava segurando um frasco transparente não muito grande, contendo um líquido que tinha um suave tom de vermelho. — Aqui.

Com um aperto no peito, Markus entregou o coelho e pegou o frasco. Hans o encarava com um estranho olhar que o menino não soube interpretar. Provavelmente o desprezo de sempre, pensou o menino, de olhar baixo.

Com o que queria em mãos, o menino se virou e partiu. O frasco substituiu o coelho na bolsa. Faltava pouco para anoitecer, mas ele queria ir ao bosque, não voltaria para casa com apenas um pássaro.

Estava determinado a retornar à mata, quando foi barrado por duas pessoas.

— O que foi garoto, por que anda sozinho? — indagou um homem que era pelo menos duas vezes maior que Markus e tinha pelo menos o triplo de força.

Markus recuou, segurava seu arco na mão e tentou puxar uma das flechas, mas a mão do segundo homem o parou. O garoto recebeu um sorriso amarelo e de poucos dentes.

— Nem pense nisso. — O olhar do homem foi para a bolsa. — O que guarda aí?

— Nada. — Markus tentou livrar seu braço, mas o outro era mais forte. — Me solta. Me deixa ir.

Quando foi derrubado no chão, o menino viu-se como uma criança impotente e não mais como um homem. O chute o fez encolher-se com um gemido de dor e o peso da bolsa sumiu quando lhe foi tirado. Recebeu um soco no rosto quando tentou resgatar o que era seu e tornou cair no chão, os olhos estáticos enquanto observava o céu pálido.

Com muita dificuldade, minutos após o ataque, ele se levantou. Foi tudo rápido demais e por um instante Markus tentou entender o que havia acontecido.

Eles levaram... Levaram tudo, os pensamentos estavam carregados de vergonha. Sentiu dentro de si uma vontade de chorar, mas segurou as lágrimas e também resistiu à dor dos golpes.

Pegou seu arco do chão e reuniu as flechas que caíram da aljava, ao menos haviam deixado a única arma que possuía. Era um arco velho e mal feito, mas ainda assim o seu bem mais precioso. Seguiu para fora da cidade como se nada tivesse acontecido. Os ladrões não haviam notado o pássaro dentro do casaco, mas ele preferia que tivessem levado aquilo ao frasco na bolsa. Poderia suportar a fome, mas não a visão de sua mãe sofrendo com as dores.

Markus ignorou os comentários dos guardas e quando passou pelo portão, ele se fechou atrás de si. Seguiu pela estrada e entrou no bosque outra vez. Longe do olhar de todos, ele caiu de joelhos na neve, sentindo uma dor terrível no abdômen, onde recebeu o chute.

Estava ainda de joelhos quando algo foi jogado em sua frente, uma bolsa velha com um volume que denunciava guardar algo e um coelho com a pelagem suja de sangue. Era sua bolsa e o coelho que havia entregado ao feiticeiro. O menino levantou o olhar, apenas para encarar uma figura trajando uma capa negra, parado diante de si. Um capuz cobria a cabeça dele e estava escuro demais para ver seu rosto.

— Q- — Markus tentou formular uma frase, mas tudo que saiu foi um ruído.

— Vá para casa garoto, vem uma nevasca por aí.

Foi tudo que a figura disse, antes de se virar, a capa escura sacudiu com o movimento. Ele se moveu em direção das árvores, a roupa negra o tornando uma miragem enquanto sumia pela floresta. A voz que Markus ouvira denunciava se tratar de um homem. No entanto, não o conhecia.

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