Capítulo 2 - Amina I
Amina
(Haz'Bay - Hator'Mut)
Eram incomuns dias nublados naquele reino e quase todos os hatoranos consideravam um dia triste, especialmente por ser verão. Não eram as chuvas que incomodavam o povo e sim o céu acinzentado; frequentemente as chuvas eram acompanhadas do sol e isso causava grande alegria aos trabalhadores do campo.
A Princesa Amina, com suas quinze primaveras de vida, gostava de contemplar o estranho cenário que se mostrava no céu. Deleitava-se em dias frios, apenas pelo fato de ser atípico, distante do que estava habituada. "Hator'Mut é a terra do sol e da beleza" dizia sua mãe, a Senhora Abeni, que assim como outros a achavam tola por maravilhar-se com dias tão desprovidos de luz.
Naquela manhã, a garota observava a paisagem pela janela de seu quarto, encarava as nuvens imaginando quando enfim elas iriam liberar a chuva, que era sempre muito mais abundante do que as chuvas ensolaradas.
— Faz-me pensar que gosta de dias como esse, princesa — disse Darline.
— Você não? — retrucou a princesa se afastando da janela e encarando a menina jogada na cama, embora já soubesse a resposta.
— Nos campos livres dizem que as nuvens cinzentas trazem mau agouro, é um sinal para dias sombrios... A chuva farta é carregada de tristeza e o vento frio é nada mais do que desesperança que sopra contra nós. — Darline era uma menina de baixa estatura, de pele preta e cabelo crespo em tom castanho, que estava belamente preso por uma fita azulada e uma presilha de ouro naquele dia. Era dois anos mais nova que Amina, mas quase aparentavam ter a mesma idade.
— Bobagem — Amina decretou, encarando a janela mais uma vez. Podia ver ao longe a praia, o mar e uma barreira de pedras grandes e pontiagudas que cercava toda aquela costa. — O povo dos Campos Livres é muito supersticioso, espalhando essas crendices bobas. São apenas nuvens, estão repletas de água e não de má sorte.
Darline nada mais disse. Amina gostava de sua prima, mas ela por vezes falava muito de sinais de má sorte e isso não agradava a princesa.
Acredita com tanta facilidade em tudo que ouve... Ainda é bobinha como uma criança... refletiu Amina, encarando-a enquanto brincava com uma mecha solta do cabelo entre os dedos.
Darline era a protegida da Senhora Abeni em Haz'Bay, vinha da família Nagam, os guardiões dos Campos Livres e protetores de Kerma. Os descendentes Nagam podiam ser facilmente reconhecidos pelos olhos cor de âmbar, um amarelo vivo beirando ouro. A única linhagem de nobres de Hator'Mut cujos olhos fugiam do padrão — que era verde. O estandarte dos Nagam trazia o grande raio dourado com um fundo roxo. Naturalmente, Amina foi instruída a saber de todas essas informações.
As meninas não disseram mais nada por um tempo e o silêncio tomou conta do ambiente. Amina ainda observava a negritude do céu, quase hipnotizada, e Darline por sua vez perdia-se em seus próprios pensamentos. Uma das criadas do castelo apareceu por um breve momento apenas para acender o fogo da lareira e das lamparinas, atitude que Darline agradeceu, pois estava já sentindo frio. Para a infelicidade de Amina, que precisou fechar as janelas, já que a ventania ameaçava apagar as chamas.
— Tem notícias do primo Aduke? — Darline quem quebrou o silêncio mais uma vez.
— Você conhece meu irmão. Sempre foi um homem de poucas palavras, mesmo quando precisa escrever uma carta — disse Amina. Também gostaria de saber por onde ele anda, pensou com amargura.
— Não conheço, na verdade — Darline assistiu a outra sentar de frente à penteadeira e lhe lançar um olhar questionador. — Conheço apenas as histórias e canções que narram sobre seus feitos, já que nunca o vi pessoalmente... Ainda me deixa surpresa que o mesmo homem dessas histórias tenha abandonado a corte e partido sem rumo pelo Continente...
Os contos e canções que Darline mencionava falavam sobre um grande guerreiro, consagrado em uma batalha que iria para os livros de história da próxima geração, um príncipe bravo que liderou poucos soldados leais à corte contra os Sollaris, na batalha de Haz'Bay. O grande feito realizado por Aduke Unkara encerrou a primavera sangrenta e retornou a coroa à quem realmente pertencia. No pouco tempo que governou como rei, o irmão conseguiu trazer a paz de volta ao reino.
— Faz um julgamento precipitado, prima. Ele não abandonou a corte e tampouco vaga sem rumo. Foi preciso que fizesse isso, meu irmão já não suportava mais apenas aguardar pelo retorno de quem foi perdido — retrucou a princesa, com a voz carregada de pesar. Se precisou mesmo fazer isso, por que desejei que ele não tivesse ido?, perguntou a si mesma. — Um dia, ele retornará para nós. E se tiver êxito na sua missão, rogo à Deusa que sim, então terá valido a pena.
De novo o silêncio cobriu o lugar, desta vez carregado de uma melancolia estampado no semblante e na mente das duas. Os ventos frios açoitavam as janelas do quarto, quase ameaçando as derrubar. Amina penteava seus longos cabelos negros, que eram ondulados e espessos. Seus olhos, duas lagoas esverdeadas, destacavam-se em seu rosto fino e ressaltavam o tom escuro da pele.
Amina estava perdida na visão de seu próprio reflexo quando ouviu batidas na madeira da porta.
— Entre — disse a princesa, sem olhar para a porta.
A madeira rangeu quase silenciosamente quando foi empurrada. Ela virou o rosto para encarar um homem forte, de pele escura e olhos verdes parecidos com o de Amina. Tinha barba rala e cabelo curto, mas que denunciava um dia ter sido mais volumoso. Certo charme o envolvia, algo exclusivo seu, de um ar jovial. Trajava veludo preto com detalhes em prata, uma capa presa no ombro esquerdo por um broche de ouro com o brasão da família real. O brasão dos Unkara. Duas penas douradas que se cruzavam.
— Meu rei. — Darline saltou da cama num instante, colocou a mão suavemente sobre o pescoço e curvou a cabeça e parte do tronco diante da figura parada na porta.
A visão do rei parado diante de si, fez os olhos da princesa brilharem de felicidade. Ela deu um passo em sua direção, querendo abraçá-lo, mas conteve-se e fez também a reverência que lhe era devido.
— Por favor, não precisam de tantas formalidades — disse o homem, se aproximando de Amina. — Por Rotah! Minha irmã fica mais bela cada vez que a vejo.
Amina levantou a cabeça e foi recebida com um largo sorriso e os braços abertos de seu irmão. Ele era alto e exalava um cheiro agradável, como lírios de primavera. Aquele odor suave e agradável que Amina sempre lembrava ao pensar nele.
— Azekel. — Ela aninhou-se aos braços dele, num abraço apertado e caloroso. Seu nariz inspirou o cheiro do traje e seu peito ficou mais quente com a presença familiar. — Como pude não saber que estava vindo à baía? O falcão não chegou até nós ou terá nossa mãe esquecido de me contar essa importante notícia?
— Nenhum falcão ou mensageiro chegou a sair da capital com essa notícia. Queria fazer uma surpresa — disse ele, com o sorriso meigo que lhe era característico. — Estive viajando na companhia de uma pequena comitiva para não chamar a atenção.
O homem separou-se do abraço da irmã e se afastou em direção da prima, a quem deu um beijo na testa e lhe ofereceu elogios.
— Vou deixá-los a sós — Darline anunciou e nenhum dos dois protestou, por mais que Amina gostasse da prima queria ficar sozinha com o irmão.
Depois de a menina deixar o quarto, o rei virou-se outra vez para a irmã.
— Soube que você e a prima têm se dado bem — comentou ele, cruzando as mãos atrás das costas. — Fico feliz com isso e o primo Aren também. — Fazia menos de um ano desde a chegada de Darline na baía e às vezes a princesa tinha a impressão que fazia mais tempo.
— Ela é uma boa amiga, tem quase a minha idade, uma companheira agradável na minha prisão.
O sorriso do rei diminuiu de expressão, enquanto a irmã voltava à penteadeira. Amina lhe lançou um olhar pelo espelho enquanto pegava a escova. Não era novidade para ele ou qualquer outro no castelo que a irmã odiava as regras impostas aos herdeiros reais, o excesso de segurança e a pouca liberdade que tinham.
— Amina, sabe que tudo isso é para a sua... Nossa proteção.
— Eu sei — respondeu ela, com a voz baixa. — É só que... Eu gostaria de poder viajar mais, conhecer todo o reino, mas sempre que peço para ir à capital ou visitar qualquer parente, meu pedido é rejeitado com veemência. Só posso deixar o castelo um dia por quinzena, acompanhada e apenas nas redondezas. Nunca mais que isso. Me sinto presa nessa torre e fora do meu quarto, não existo sozinha.
— Eu entendo sua frustração, juro que sim. Contudo, é o melhor para você, por enquanto pelo menos. — Azekel atravessou a sala para se jogar numa cadeira. Amina lançou um olhar na direção dele, que coçou os olhos por um instante e ela percebeu o quanto o irmão parecia cansado. — Esse lugar foi construído com a função de abrigar nossa família, essa é a nossa casa, o único lugar seguro que temos.
— Ela não cumpriu sua função quando os Sollaris atacaram.
A princesa se arrependeu do que disse no momento que encarou o outro. Azekel tinha um olhar um tanto misterioso, talvez triste. Amina sempre achou que ele era muito bom em disfarçar o que estava pensando quando queria.
— É, tem razão — ele disse enfim e coçou os olhos mais uma vez, como se estivesse com sono. Os olhos da princesa voltaram a encarar o reflexo e os dedos habilmente passaram a trançar os cabelos. — De qualquer maneira, não viverá aqui para sempre. Já é mulher feita, portanto logo poderá conhecer muitos lugares e muitas outras pessoas... Quando for senhora de sua própria casa, não estará sob as leis desse castelo.
Por alguns minutos Azekel desviou os olhos para a fogueira, enquanto observava a madeira que era consumida pelas chamas. Amina lançava alguns olhares curtos, porém nada mais disse até terminar as duas grandes tranças que repartiam seu cabelo em dois, presas por argolas de ouro. Ela levantou-se do assento e se aproximou do irmão, atraindo sua atenção, ambos sorriram um para o outro. Ele se levantou e abraçaram-se mais uma vez.
— Quanto tempo vai ficar dessa vez? — perguntou a princesa, apartando o abraço.
— Não posso me ausentar muito da capital, talvez fique uma quinzena ou menos. — Ele encolheu os ombros. A resposta não deixou a princesa contente. — E também, Lhane me pediu que não demorasse, que sentiria minha falta e não saberia como organizar as coisas sozinha. Tem muitos talentos, mas não é boa governante.
— E por que não a trouxe? Teria sido um prazer mostrar a ela toda a baía, o sol de verão têm deixado a areia e o mar muito mais agradável para passear durante o pôr do sol. E, além de quê, mal conheço a rainha que escolheu tomar.
Amina era ainda mais nova quando o casamento do rei aconteceu e se recordava com pouca clareza dos detalhes, especialmente do rosto da noiva illyriana do irmão. Como nunca deixava Haz'Bay e o rei passava muito mais tempo em Sikhan, a capital do reino, então a princesa não teve oportunidades de dialogar com a rainha.
— Ela não veio por estar com a saúde frágil, a viagem podia piorar seu estado.
— Oh. Que pena, mas terei outras oportunidades para conhecê-la. Será que é tão bonita quanto fofocam? Espero que seja digna de um rei tão bonito quanto meu irmão. — Amina fez graça, beliscando o braço do homem.
— Tenho certeza que vai achá-la tão bela quanto a vejo. Ainda que não seja dotada do Sopro de Rotah, sendo agora parte de nossa família, certamente será agraciada com o corpo de esplendor que nos é prometido no pós-vida. Daratuk.
A princesa, assim como todo hatorano, sonhava com o daratuk, a promessa da Deusa para os seus filhos mortos. Quando os primeiros filhos de Rotah passaram a procriar com os mortais de outros povos, perderam a divindade de seus corpos, restando apenas um frágil resquício no sangue de seus descendentes. Contudo, generosa como só a mãe-de-todos pode ser, a Deusa prometeu devolver o corpo de esplendor quando seus escolhidos se juntassem a ela na Cidade Prateada.
— Daratuk — respondeu Amina, acenando em concordância.
O rei deu o braço para que a princesa pegasse e saíram juntos do quarto. Do lado de fora, dois cavaleiros aguardavam, mas o guarda que normalmente ficava de prontidão à porta da princesa não estava por ali. Amina não conhecia os nomes daqueles homens. Os cavaleiros usavam armaduras prateadas bastante chamativas, que possuíam safiras brancas e verdes ornamentando alguns contornos. Sobre o traje de metal havia ainda uma capa presa aos ombros — capas de mais refinado linho de Naaman, em tom de verde sálvia.
— Princesa — cumprimentou o primeiro deles, com uma reverência. Era alto e forte, com o porte de um grande cavaleiro dos contos que ela costumava ler. —, Sor Rashad Lamartine, às ordens.
Amina fez uma reverência cortês para o cavaleiro e se virou para o outro, que também estava se curvando para sua apresentação.
— Sor Ezra Esmeia, alteza.
Por um instante, antes da apresentação, Amina achou que Sor Ezra era apenas um escudeiro, parecia jovem para um cavaleiro dourado — a ordem que protegia o rei. Mas logo ocorreu a ela que havia uma canção sobre um jovem cavaleiro que chamavam de "O Astuto". A princesa ainda não tinha muito conhecimento quanto aos cavaleiros do rei, mas aquela certamente seria a oportunidade para os conhecer melhor, tudo que ouvia sobre eles vinham de canções e não sabia a qual rosto pertencia cada nome.
Os cavaleiros acompanharam o rei e princesa de certa distância, enquanto percorriam os corredores do castelo, descendo a torre da donzela e seguindo para a ala central. Em certo momento do passeio os dois se viram descendo as escadas que levavam para o salão principal.
— Já viu nossa mãe? — indagou Amina, dando-se conta que não havia feito essa pergunta ainda.
— Não, disseram que está no jardim das damas tomando chá com a Senhora Dayo e outras mulheres. Pedi que fosse informada de minha chegada — disse Azekel. — Como sabe, minha irmãzinha, homens não são bem-vindos em jardins de damas, portanto decidi ir primeiro onde sou bem-vindo. — O rei desceu os últimos degraus e pararam de andar.
— Se mandou avisar sobre sua presença, então ela já deve estar à sua procura. Melhor ir logo. Ela ficaria ofendida se o rei não tivesse se dirigido diretamente à Senhora da Baía. — Amina deu uma risada, imaginando a mãe dando uma bronca no rei. — Também preciso ir, Darline e eu teremos aula de cálculos com a Senhora Nia.
— Pois bem, eu vou. — Ele beijou a face da irmã. — Dispensei o seu guarda, embora não tenha esse direito aqui. Sor Ezra irá acompanhá-la até onde tem que ir.
Azekel sumiu na direção das portas do castelo, com um dos seus cavaleiros o acompanhando. Amina demorou-se alguns minutos, observando a forma rígida com que o rei andava, passos que não lhe lembrava o mesmo homem de anos atrás, quando acompanhava ela em suas brincadeiras naqueles mesmos corredores. Era agora um rei e mesmo que na frente dela tentasse parecer o Azekel de sua infância, sabia que não era. Nunca mais poderá ser.
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