Capítulo 1 - Rallius I

Rallius
(Valfheim - Nahor)

Do penúltimo piso da Torre do Principado, uma das mais largas e altas torres da Fortaleza Flamejante, o quarto do Príncipe Rallius fornecia um panorama privilegiado da cidade. Os olhos escarlates do jovem encaravam a capital do reino com um certo desinteresse. Estava parado na sacada, o vento frio açoitando seu rosto e pescoço sem que sentisse qualquer incômodo.

Podia ver as casas e estabelecimentos ao longe, a grande muralha que rodeava tudo, a periferia iluminada pelos bordéis e tabernas, a parte mais nobre com mansões que mais se assemelhavam a palácios. O segundo muro interno rodeava todo castelo, feito de rocha escura e com portões de puro gelo negro. A capital era enorme e repleta de segredos, mas para Rall não passava de um lugar frio e entediante.

As pedras cinzentas parecem absorver toda a alegria do mundo, como num eterno dia nublado, pensou com desgosto.

O príncipe se afastou do parapeito que circundava a sacada. Ele fechou a porta que dava acesso àquela área aberta do quarto e o vento passou a açoitar a madeira pesada e os vitrais. Dentro do quarto estava tão frio quanto fora dele e muito embora o clima gélido não lhe causasse qualquer desconforto, gostava de manter o lugar aquecido e iluminado pelas chamas. Rall abriu a porta, no exato momento que um homem passava pelo corredor.

— Alteza. — O cavaleiro fez uma reverência ligeira.

— Sor Aric, a fogueira apagou-se, poderia chamar um criado? E peça que traga limel aquecido — disse Rall, com sua voz serena e provida de boa educação.

— Como queira, será feito.

Sor Aric continuou seu caminho e Rall voltou a se trancar no quarto com as pedras frias da fortaleza e a luz dos candelabros. Conseguia sentir o frio permeando no ar, sentia todas as diferenças, mas seu corpo não se incomodava com isso. Nenhum descendente de Hakon presenciou um frio que fosse capaz de lhes prejudicar, o sangue mágico os protegia da friagem. Ele despiu de seu manto e do traje de cima, mantendo apenas a calça..

Não demorou para o serviçal chegar e com a lareira acesa, o quarto foi inundado pelo calor. O príncipe pegou um dos livros na sua estante, intitulado "Os Hérois da Primeira Nevasca", sentou-se numa cadeira confortável próximo do fogo e pôs-se a estudar enquanto saboreava a bebida trazida. O silêncio era quebrado apenas pelo crepitar das chamas ou o deslizar das páginas amareladas do livro.

Após um breve período de tempo, alguém bateu à porta no exato momento que ele virava mais uma folha. Com a entrada autorizada, Rallius ergueu o olhar para assistir uma moça entrar no quarto. Era jovem, devia ter a mesma idade do príncipe, dezesseis anos.

— O rei o convoca à mesa de jantar, alteza — comunicou a moça, num tom de voz doce enquanto fazia uma reverência bastante desajeitada.

— Estou a caminho — ele respondeu e antes de ela ir, indagou: — Qual o seu nome?

A menina corou, mas respondeu sem demora, encarando seus pés.

— Elia.

É um nome bonito... Rallius concluiu. Ele nunca antes havia visto a menina pelo castelo, por isso a curiosidade em saber seu nome.

Havendo obtido sua resposta, ele voltou a encarar seu livro e a serviçal foi dispensada. Embora não fosse comum um príncipe querer saber o nome dos servos, Rall cultivava o interesse em saber os nomes de todos da fortaleza. A maioria se sentia lisonjeado quando ele se recordava do nome e de fato não tinha dificuldades em lembrar das coisas.

Ele finalizou apenas mais uma página do seu livro e levantou-se para trocar suas vestes por algo mais adequado para se apresentar ao rei, mesmo este sendo o seu pai. Em Nahor, mesmo um filho deveria estar reverente diante do seu rei.

Enquanto prendia o cinto, ele parou de frente para o espelho preso na parede. Visualizava um garoto não muito alto, o corpo forte de um homem completo, os cabelos ruivos presos num rabo de cavalo curto e os olhos vermelhos brilhando como duas brasas. Todos diziam que ele era bonito, chegavam a compará-lo com a beleza mágica de um hatorano, cujo as lendas diziam ser abençoados por uma poderosa deusa. Ele, no entanto, não conseguia tecer tantos elogios sobre si mesmo.

Havendo terminado de se vestir, deu as costas ao espelho e saiu do quarto. Perguntou-se onde estaria Sor Frode, concluindo que deveria estar ocupado demais com outros afazeres, já que não havia sido ele a buscá-lo para o salão de jantar. Virá ao meu quarto essa noite? pensou o jovem, desejando que sim. O quarto do seu cavaleiro ficava no mesmo andar da torre, Rall conseguia ver a porta no fim do corredor, mas não foi até ela, simplesmente virou-se para a escada.

Os corredores da fortaleza eram os mesmos de sempre, a pedra cinzenta com que fora construída dava um aspecto mais sombrio ao lugar, mesmo com a presença das tochas dispostas nas paredes. Havia algumas estátuas, armaduras, esculturas e tapeçarias em alguns cantos, mas fora isso era tudo muito vazio. Rall atravessava solitário, vendo um ou outro serviçal, cavaleiro ou guarda que paravam e o cumprimentavam.

Quando parou de frente para a sala privada de jantar, os guardas abriram a porta e o deixaram entrar. A grande mesa retangular estava posta, com comida mais que o suficiente para todos. À mesa havia apenas cinco pessoas, o Rei Tacius numa extremidade, a Rainha Arelia num lado, a primogênita Princesa Drizza no outro lado, o Príncipe Mikhail e o pequeno Príncipe Nikolas. Com a chegada de Rallius, a família real, os Hakonsen, estavam todos reunidos.

Rallius sentou-se em seu lugar à mesa. Na parede atrás do rei um grande estandarte estava suspenso, com o brasão da família bordado; o escudo prateado estampado com runas antigas nas bordas, cercado por chamas escarlates num fundo preto. O símbolo que causava temor até às casas mais poderosas do Continente.

O silêncio perdurou por longos minutos entre todos enquanto o primeiro prato era servido, almôndegas de carne de porco com batata cozida ao molho de legumes. Rall olhou para o seu pai, que encarava seu prato sem qualquer pretensão de dizer algo. O silêncio só poderia ser quebrado pelo rei, era ele quem deveria abrir o diálogo, do contrário seria um jantar sem palavras.

Sua Majestade enfim ergueu a cabeça e seu olhar dirigiu-se ao terceiro filho, Mikhail Hakonsen.

— Como andam os treinos com Sor Frode? — indagou o rei, com uma voz que não demonstrava muita animação, parecendo apenas cumprir uma formalidade.

— Produtivo. — O Príncipe Mikhail era dois anos mais jovem que Rall, os cabelos duas vezes mais longos e soltos numa cascata rebelde. — Acho que não falta muito para que eu possa o enfrentar em duelo.

O rei fez-se contente, era um homem de barba espessa e um longo cabelo vermelho que já demonstravam o aparecimento de fios grisalhos. Tinha o olhar afiado, o rosto apresentava uma cicatriz cortando o olho esquerdo da testa ao queixo. Para ele aquela cicatriz era a marca do triunfo sobre Gardenia, seis anos atrás. Rall o achava um homem com muitas características admiráveis, mas quando se vangloriava sobre a Guerra de Gardenia, o príncipe o repudiava. A atitude do pai em ter liderado Nahor contra Gardenia resultou na decadência de todo um povo e na morte de muitos inocentes, não via nenhum triunfo nisso.

— Ótimo — elogiou o rei, as feições duras e inalterável. — Contudo, se esforce mais. Sor Frode, que os deuses o fortaleça, é jovem e, portanto, não deveria ser um grande desafio. Drizza e Rallius derrotaram seus mestres quando eram ainda mais jovens do que você.

Mikhail pareceu não gostar do que foi dito, mas ficou em silêncio. Rallius notou ele segurar o garfo com mais força que antes e o semblante se tornou carrancudo. A Princesa Drizza expôs um sorriso que não escondia a alegria com o elogio do pai. Em Nahor, para um guerreiro em treinamento, vencer o tutor era uma grande honra. Os filhos do rei tinham quase que por obrigação vencer os seus mestres em duelo.

— Não se engane, meu pai — disse Rallius. — Sor Frode pode ser jovem, mas não se mede a força pela idade. Afinal, ele mesmo provou ser um grande guerreiro se tornando cavaleiro tão cedo.

— Rallius está certo — Drizza comentou e Rall mostrou-se surpreso. Eram raros os momentos que a irmã concordava em algo com ele. — Eu mesma ainda era uma criança quando desarmei Sor Lena. A juventude tem suas vantagens.

— O avô de vocês, senhor meu pai, morreu com seu machado em mãos aos cinquenta anos de sua vida, mas Hell não recolheu sua alma sem que antes ele levasse consigo toda a linha de frente inimiga, garantindo a vitória em sua última batalha. Um grande guerreiro é forjado em batalhas e anos de experiência. Um rapaz maduro não é nada comparado com os combatentes de anos de história. — Sua voz saiu grave e definitiva, silenciando a conversa. A rainha nada dizia, continuava sua refeição em absoluto silêncio.

A Princesa Drizza era apenas um ano mais velha que Rallius, ambos tiveram a mesma mestra, Sor Lena. Rall se lembrava claramente do dia que Dri superou a tutora. A irmã parecia dançar com sua espada, os cabelos flamejantes se soltaram do coque, mas ela não se incomodou. A espada curta que carregava pressionava a lâmina pesada de Lena. O príncipe, que assistia o combate quieto, jurava ter visto faíscas brotarem quando as duas espadas sem fio se chocavam. A princesa tinha apenas doze anos, enfrentava uma mulher que era maior e mais forte que ela, e ainda assim conseguiu desarmar a cavaleira.

Depois daquele combate, Rall encontrou-se determinado a não ser superado pela irmã. Treinou dia e noite, e não demorou a derrotar também Sor Lena. Tacius ficou mais que feliz ao ver que os filhos, ainda tão jovens, haviam honrado suas espadas.

— Não o pressione, Tacius. Dê tempo ao garoto — disse a Rainha Arelia, com a voz paciente e firme. Era uma mulher de pele clara, os cabelos negros e olhos azuis. Não nascera em Nahor, vinda da casa Sterling, lordes de Illyr. Por não ser uma nahorana, a mulher desprezava muito dos costumes daquele povo, e havia um costume em específico que lhe causou um enorme sofrimento.

— Mãe, não preciso de defesa — disse Mikhail, com a voz abafada pela mastigação, sua face estava vermelha e suas sobrancelhas franzidas de descontentamento.

— Ele não é mais uma criança, passou o tempo de brincar — retrucou o rei, embora com a voz serena, não conseguia falar de maneira rude com a mulher.

Ela se calou com um suspiro, mantendo as respostas para si, parecia já haver se convencido que não conseguiria mudar os costumes daquele lugar, por isso evitava entrar em longas discussões. Rall a viu abaixar a cabeça, encarando seu prato com um olhar que poderia ser de desgosto.

— Mãe, não vejo motivo para defender tão incessantemente o Mike — disse Drizza, depois de limpar a garganta com sua bebida. A princesa desviou o olhar da mãe para Mikhail, com um meio sorriso curto decorando sua face. — Mike precisa compreender que se não se esforçar só vai cultivar vergonha para si próprio.

Mikhail levantou-se batendo as duas mãos na mesa. Seu olhar carregado de fúria estava preso na irmã, que em resposta mantinha o sorriso inabalável.

— E o que acha que estou fazendo?! — ele gritou. O olhar Rall deslizou para as mãos do irmão, que segurava para uma faca com o punho bem fechado. — Acha que passo o dia inteiro com brincadeiras? — Aquilo podia ser uma resposta para as palavras anteriores do pai.

— Chega de discussões! — A rainha puxou o braço de Mikhail para que ele se sentasse, mas o garoto não moveu-se nenhum centímetro e continuou com o corpo curvado sobre a mesa, na direção da princesa.

— Mike, sente-se por favor — Drizza sussurrou em resposta, a voz tão doce quanto uma donzela poderia ter, voltando a encarar seu prato e manuseando os talheres para cortar os legumes. — Está assustando o Nik.

Nikolas estava sentado à mesa, assistindo a discussão com os olhos bem abertos, mas sem dizer uma palavra sequer. Era um menino de apenas seis anos que normalmente era muito calado na frente de todos, atitude que o rei não apreciava — achava-o tímido demais. Era o único dos filhos que havia herdado características marcantes da mãe, os olhos azuis profundos que se destacavam de seu rosto pálido e contrastava com o cabelo vermelho.

No meio daquela confusão repentina, Tacius encarava a briga de irmãos em silêncio, assim como Rallius, a taça em sua mão era constantemente preenchida pelo servo mais próximo. Era naqueles momentos que se notava a semelhança de rei e príncipe, ambos muito alheios às discussões, constantemente observadores.

— Tacius, faça algo! — exclamou a rainha, mostrando-se irritada ao encarar o rei em sua atitude solene.

— Deixe que briguem, minha rainha — disse o pai, encostando-se na cadeira para ficar mais à vontade, parecia quase se divertir com aquilo. — Em Nahor há certas discussões que se resolvem em combate.

É sempre tão impulsivo esse meu irmão, pensou Rallius, observando as mãos do irmão tremendo de raiva. Não ficarei surpreso se um dia cometer alguma loucura.

Rall, no entanto, se levantou e deu a volta na mesa, segurando o irmão no ombro e tirando-lhe a faca da mão. A rainha sentou-se com um suspiro, sabia que geralmente Mikhail costumava ouvir o irmão mais velho.

— Vamos Mike, irei lhe ajudar em seus treinos — Rall convidou o irmão, que ainda encarava Drizza com um olhar mortal.

— Não preciso que me ensine coisa alguma!

— Sei que não, mas estou sem nada para fazer à noite. Vamos logo. — Rall suspirou, visivelmente alheio à arrogância do outro. Mikhail se afastou da mesa e marchou em direção à porta. — Meu pai, peço permissão para deixar a mesa.

— Vá — Tacius respondeu.

— Pai, também quero ir. — Nikolas se manifestou, querendo saltar da sua cadeira.

O pai acenou positivamente, então Rall e Nik seguiram para o pátio de treinamento, onde sabiam que encontrariam o irmão irritadiço. Drizza ainda proferiu alguma coisa antes de deixarem o salão, mas os príncipes não estavam mais dando atenção a ela.

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