Capítulo 5

Lyra andava de um lado para o outro, certa de que só podia ser um engano. Sua criada havia avisado que era exigida sua presença no hall principal, com os olhos brilhando como se tivesse acabado de ver o paraíso. Quando perguntou o motivo daquela alegria toda, ela respondeu, como quem conta um segredo, que havia um belo homem de olhos azuis e covinha no queixo aguardando seu pai, que ainda não havia chegado, e sua mãe havia mandado chamá-la. Em seguida, pediu licença e saiu apressada, com certeza para espiar melhor o visitante.

Lyra se olhou no espelho e escovou os cabelos antes de colocar uma fita azul-claro para prendê-los. O vestido simples, amarelo-claro, parecia perfeitamente bem e não tinha a menor vontade de trocá-lo, por mais bonito que Kane fosse. Estava tranquila em sua casa, lendo, e achava que ele poderia pelo menos ter avisado que iria até lá.

Ela era um tanto reservada, e sua vida se transformara numa série de eventos e acontecimentos nas últimas semanas. Havia até mesmo pensado em deixar aquela história de Rosa, chegando a conversar com a gentil Lady D., que a convencera a permanecer pelo menos por mais algumas semanas.

Lyra voltar às suas aulas de pintura, aos seus desenhos, queria ler suas poesias e escrever em paz. Gostava das amigas que havia feito nos últimos dias e das horas de risada e diversão, mas precisava de espaço e de tempo para aquilo que gostava. O silêncio e um pouco de solidão eram preciosos para ela.

Entretanto, aceitara o pedido de Lady D.

Lyra saiu do aposento ainda indecisa sobre descer ou não para fazer companhia a Kane, porém ainda assim desceu as escadas, o mais silenciosamente possível. Percebeu que ele estava acomodado em uma das poltronas. Pôde vê-lo de perfil, sorrindo para sua mãe, que conversava com ele parecendo encantada. Ele percebeu a sua presença, levantando-se como era esperado de um cavalheiro.

― Boa tarde, Sr. Carter ― disse ela, sorrindo timidamente para o homem com quem quase havia trocado um beijo sob o espetáculo de fogos na propriedade de Lady Dughinham.

― Srta. St. James ― retribuiu, beijando-lhe a mão, encantador.

― O Sr. Carter veio para conversar com seu pai, mas gostaria de nos fazer um convite ― disse sua mãe, enquanto Lyra mentalmente pensava em qual seria a possibilidade de que ele a levasse ao próximo baile.

Ele tirou o envelope de dentro do bolso e pegou uma rosa amarela em cima da mesa de centro, entregando-os à Lyra, que entendeu que oficialmente estava nos próximos eventos.

― Haverá um banquete na sede da Sociedade da Rosa Amarela, também chamada de Elodie Teatre ― disse, olhando a rosa nas mãos dela. ― E se sua adorável mãe e seu pai, claro, permitirem, gostaria de acompanhá-la.

― Um convite tão gentil ― disse a Sra. St. James, que Lyra percebeu, estava gostando da ideia de Kane levá-la ao evento. ― Como eu poderia negar?

― Srta. St. James?

Kane a olhava com expectativa com aqueles olhos azuis que pareciam ler seus pensamentos.

― Será um prazer ― disse, por fim.

Ela sorriu, corada, pensando se haveriam estrelas no céu, pois tinha certeza que o convite vinha com segunda intenções.

Grace St. James pediu que fosse servido um chá para seu visitante e por mais alguns minutos conversaram até que seu marido chegou. O Sr. St. James cumprimentou Kane como quem encontra um velho amigo e seguiu com ele para o escritório para tratarem de seus interesses. A Sra. St. James observou a maneira como ele olhou para Lyra antes de se retirar e viu a filha absurdamente tímida, deixando a xícara em cima da mesa e evitando seu olhar.

Lyra saiu das vistas da mãe sem ao menos dar a chance de ela fazer qualquer comentário sobre o que acontecera. E não seria diferente nos próximos dias, já que Kane parecia estar caindo nas graças de seu pai, que inclusive já o havia convidado para o jantar. Kane recusava, não obstante, acabou aceitando numa noite um pouco mais quente.

Lyra reparou que ele, apesar de enviar aqueles sorrisos enviesados e olhares que a faziam corar, era realmente dedicado ao trabalho e quando estava no escritório do seu pai raramente saía de lá, concentrado no que fazia. Divertia-se com as criadas querendo fazer agrados porque o achavam lindo e educado, mas se desconcertava quando sua mãe a fazia levar algum refresco ou chá com bolo ou biscoitos para ele. Não era como se ele não reparasse que estava lá. Ele sabia que a porta estaria aberta e que ao menor sinal de silêncio alguém apareceria para verificar se Lyra estava segura e a uma distância respeitável.

Não ia a casa dos St. James todos os dias, afinal, tinha que cuidar dos negócios do pai também, porém com o volume de trabalho aumentando, sua presença lá se tornava cada vez mais necessária, uma vez que o John havia lhe confiado alguns dos principais clientes da empresa.

Estar lá, tão perto de Lyra, só aumentava seu interesse na moça e o tornava mais ansioso para ter uma chance de ficar a sós com ela. Já sabia que ela estava se aproximando pelas passadas quase silenciosas e a ouvia ao piano às vezes, algo que não o fazia se queixar, pois ela tocava muito bem.

Tudo aquilo o enlouquecia. Kane não conseguia parar de pensar nela e desejá-la quando ela passava e roçava sem querer o braço no dele, ou pior ainda, quando se inclinava para servir uma xícara de chá.

Tinha que se policiar para não se perder olhando para o pescoço elegante enfeitado por algumas pintinhas de beleza que a natureza havia colocado ali, certamente para fazê-lo pensar qual seria o caminho que faziam pelo corpo dela. E ainda tinha os vestidos que o faziam imaginar coisas, ainda que os decotes fossem discretos. Ele era experiente o bastante para medi-la com os olhos e fazê-la corar sempre que o flagrava olhando-a de maneira indecente.

Ela não o provocava, não dava nenhum tipo de liberdade e tinha o comportamento perfeito de uma jovem bem-criada e respeitável. Por que diabos ela o fazia pensar absurdos ao estarem sozinhos sem ao menos tentar?

Naquela tarde, Lyra parecia distraída ao servir para ele um copo de refresco e abrir a cortina para iluminar mais o cômodo.

― Posso fazer uma pergunta?

― Claro ― disse ela, parecendo indecisa ao perceber que ele a havia alcançado, parando ao seu lado.

― Qual a cor do vestido que usará amanhã?

Ele olhou para fora, contemplando o céu azul e o clima agradável. Uma brisa suave espalhou de leve os cabelos dourados de Lyra, fazendo-o virar para ela.

― Azul ― respondeu, depois de um momento.

― Azul? ― Ele sorriu. ― Gosto de azul, particularmente.

Piscou para ela.

― Também gosto, mas deixo claro que não é pelos seus olhos. Somente gosto da cor ― assegurou, rindo.

A risada dela era quase boba, como o riso de uma criança.

― Certo, então ambos gostamos da cor azul, Srta. St. James.

― Pelo visto, sim.

― E de estrelas ― acrescentou Kane, olhando-a com um sorriso travesso de lado.

― Estrelas. Oh, sim! ― Ela desviou o olhar, olhando para fora. ― Mas estou curiosa. Por que a pergunta?

― Há dias minha mãe me pede essa informação. Hoje ameaçou que me faria voltar aqui mais tarde para perguntar caso me esquecesse.

Ela riu de novo, fazendo-o com que ele se questionasse se ela sabia que ria como uma criança.

― Deixarei o senhor voltar ao trabalho. Precisa de mais alguma coisa?

Ele se aproximou o suficiente para se inclinar sobre ela.

― Preciso sim e em breve terei.

Depois que Lyra saiu do escritório, corada como um pêssego maduro, concentrou-se no trabalho tentando não pensar que iriam sozinhos ao jantar na sede da Sociedade da Rosa Amarela. Seria uma boa oportunidade para ficar a sós com ela por um momento que fosse, apesar de não estar muito satisfeito com a repercussão daquilo. Já comentavam que ele estava interessado em Lyra e que o primeiro casal da Temporada das Rosas se formava.

Aquele jantar era uma oportunidade para as Rosas serem acompanhadas por pretendentes para se conhecerem melhor, assim como em passeios ao parque e ao teatro.

Kane dizia a si mesmo que não queria impressioná-la, só queria livrá-la daquele bando de paspalhos, afinal, tinha certeza que Lyra não suportava a maioria deles.

Ao final da tarde, deixou a casa dos St. James com a pretensão de beber e distrair-se daquele monte de números e documentos e somente então ir para casa. Olhou pela janela e viu Lyra pelo jardim. Quando percebeu, estava indo para lá.

Ela estava de costas para ele, distraída olhando as flores, e Kane não resistiu. Devagar, se aproximou dela, parando perto o suficiente para chamá-la em um tom que somente ela ouviria, fazendo com que se voltasse para ele imediatamente como se resgatada de algum devaneio. Sentiu a respiração dela próxima e não precisaria de quase nenhum esforço para beijá-la, pois seus lábios estavam quase se tocando. Kane sentiu o perfume dela e sua boca seca de vontade de provar o sabor de seu beijo. Estava a um passo de tomá-la em seus braços quando ouviu passadas apressadas que fizeram com que ela se afastasse rapidamente.

A criada parecia não ter notado o quanto estavam perto um do outro, dizendo a Lyra que sua mãe a aguardava em seus aposentos, pois seu vestido havia sido entregue.

Kane se despediu dela beijando sua mão e a observou enquanto ela se afastava em direção à casa. Sentindo que ele ainda olhava em sua direção, a Rosa não hesitou em virar para ele com a expressão petulante.

― O dia está claro, Sr. Carter ― disse. ― Não háestrelas. Não seja impaciente.

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