Capítulo 3.1
Então Kane ouviu o nome dela e começou a procurar quem era o seu par. Se não tivesse visto um sorridente Leon dar o braço para acompanhá-la, admitiu a si mesmo que teria ido até ela.
Lyra não era uma Rosa num vestido comum ao tipo de festa, com babados e fitas exagerados. Era um vestido discreto, cor-de-rosa muito claro, mas a saia em camadas dava graciosidade a seus passos. A tiara discreta lhe dava um ar de princesa.
Observou Leon colocar a mão sobre a dela e sorrir. E, para sua surpresa, ela retribuiu.
― Parece que nosso amigo não quer dar chance à concorrência ― brincou Steve, como erguendo a taça à Leon.
Kane continuou observando Leon, que valsava com Lyra e parecia muito feliz com isso. Pegou outra taça de champanhe e seguiu para o outro lado do salão.
Seu pai ocupou vários minutos de seu tempo apresentando-o a alguns conhecidos. Entre eles, estava o Sr. John St. James. O homem de cabelos alourados e aperto de mão firme olhou para ele com curiosidade, fazendo-o pensar se algo havia lhe escapado.
― Poderia ir à residência dos St. James nos próximos dias ― afirmou o Sr. Carter mais velho. ― O que acha Kane?
― Claro ― concordou e sorriu, tentando acompanhar a conversa.
― O Sr. Wright ficará um tempo afastado, então, até que ele esteja recuperado, acredito que você pode assumir ― explicou seu pai, percebendo que Kane estava distraído.
― O Sr. Ben Wright, uh... é um excelente advogado.
― Ele tem cuidado de meus assuntos pessoais há anos, porém adoeceu e todos concordamos que precisa de descanso ― concordou o Sr. St. James, que Kane notou estar a todo momento sendo adulado pelas pessoas, mas parecia indiferente àquilo. ― Eu o esperarei na próxima semana, Sr. Carter. Agora, se me dão licença, devo livrar minha filha daquele constrangimento.
Kane virou na direção em que o homem olhava e viu a jovem cercada de alguns dos piores partidos da cidade, ainda que Leon estivesse parado ao lado dela. Eram, sim, de família tradicional e rica, contudo quem os conhecia sabia que não passavam de bon vivants imorais, com quem ele mesmo já havia perdido as estribeiras. Leon tentava afastá-la, mas os rapazes pareciam perseguir os dois e, como um qualquer gesto grosseiro dele poderia acabar colocando a jovem como pivô de uma briga, pediu licença, dizendo ao Sr. St. James que daria um jeito na situação.
Chegou perto o suficiente para ouvi-los se desmanchando em elogios e tentando uma aproximação obviamente pouco apreciada pela moça.
― Senhores ― saudou-os, parando ao lado dos dois e em frente à Lyra, sorrindo. ― Srta. St. James.
― Sr. Carter ― cumprimentou, sorrindo timidamente.
― Boa noite, Sr. Carter ― disse Marie, que só então ele percebeu estar ao lado de Leon.
― Srta. Armand, está encantadora! ― Ele sorriu para ela, que pareceu se iluminar. ― Preciso falar com meus amigos, Baker e Ross, em particular. Com licença.
Leon viu Kane se afastar com os dois inconvenientes e as expressões deles mudarem. Eles pareciam incomodados com o que ouviam dele. Observou que ele falava tranquilo e dava tapinhas no ombro de Ross, que era o que parecia mais irritado. Não demorou muito para os dois se afastarem. Kane voltou como se nada tivesse acontecido.
― O que disse a eles? ― indagou Leon.
― Digamos que sei de algo que eles fizeram e isso foi o bastante para mantê-los longe. ― Kane deu os ombros. ― Não sabia que você procurava por uma noiva ― comentou, olhando para Lyra, que dançava com outro.
― Não procuro. Era isso ou passar as noites organizando documentação e estoque na companhia. Minha mãe está me punindo pela última semana ― respondeu Leon.
― Uma bela punição a sua ― provocou Kane, cutucando-o com o cotovelo.
― Ela é encantadora, entretanto não estou interessado e duvido que ela se interesse por mim.
― Acho você encantador ― disse Kane, observando Steve que talvez já tivesse bebido o bastante para chamar uma das Rosas para dançar.
― Você também não é de se jogar fora.
― Não sabia que o senhor conhecia a Srta. St. James, Sr. Carter ― disse Marie.
― Conheço de vista ― disse ele. ― Conversei com o pai dela há alguns minutos.
― Entendo ― disse ela, observando Lyra voltar para sua companhia. ― Permita-me fazer as apresentações. Sr. Kane Carter, esta é a Srta. Lyra Ann St. James.
― Srta. St. James. ― Ele beijou a mão da jovem, enviando-lhe um olhar brincalhão. ― É um prazer conhecê-la.
― O prazer é meu, Sr. Carter ― disse, sorrindo, fazendo com que Kane continuasse a olhar para ela.
― Agora que fomos apresentados, tenho o dever de dizer que um solteiro de aparência muito duvidosa está vindo em nossa direção ― disse, galanteador. ― Então sugiro que a senhorita fuja para despistá-lo, ou dance comigo.
Ele estendeu a mão, vendo a sombra de um sorriso na face dela.
― Eu não poderia recusar, diante da situação.
Lyra pousou a mão enluvada sobre a dele, cujo olhos pareciam se iluminar.
Marie os seguiu com o olhar. Mesmo ela própria sendo convidada por outro cavalheiro, cujo nome não fez questão de lembrar, nem sequer prestou atenção ao ouvir os primeiros acordes da música.
Não conseguiu evitar olhar para eles.
Conhecia o Sr. Carter a muito tempo e esperava que ele a tirasse para ao menos uma dança, mas ele parecia não reparar nela. Por mais que tentasse sorrir, estava chocada ao constatar que Lyra e ele pareciam combinar.
Ao término da dança, ela voltou para onde estava Leon, conversando com sua mãe, e antes que ela pudesse lhe dizer qualquer coisa, seu irmão a salvou levando-a para buscar uma bebida.
― Tome! ― Ele lhe entregou um copo de refresco. ― E pare de olhar para eles, por favor.
― Não estou olhando! ― rebateu, indignada.
― Claro que não ― disse ele.
Marie o ignorou e se voltou para onde Lyra dançava com o Sr. Carter.
Kane se surpreendera ao tirar a Sra. St. James para dançar. Parecia que a doçura na voz dela o havia envolvido. Ao ver o rapaz meio desengonçado indo na direção dela, pensou que não deixaria que ele a tirasse de sua companhia. Por um momento, considerou aquilo um grande erro. Era muito jovem e uma das escolhidas Lady Dughinham!
Por que não conseguia tirar os olhos de cima dela?
Lyra sorriu, tímida, mas adorável e ele percebeu que talvez os planos para sair mais cedo do baile já não eram tão agradáveis.
Lyra tentava não parecer uma debutante deslumbrada por valsar com o homem considerado o melhor partido da temporada e um dos mais belos que já vira.
Lyra notou ser quase impossível ignorar os belos olhos azuis e a covinha no queixo, além do fato do Sr. Carter não tirar os olhos dela enquanto dançavam.
Ela havia dançado algumas músicas com outros cavalheiros e estava com o Sr. Carter há algum tempo, então ficou grata quando, ao final de uma valsa, o Sr. Carter perguntou se gostaria de beber alguma coisa. Ele estendeu o braço e a conduziu, passando por um grupo de homens que pareciam atentos para quando alguma Rosa ficasse disponível para a dançar. Notou que ela pareceu aliviada por estar com ele.
― É só o primeiro baile ― disse ao se aproximarem da mesa. ― O número de admiradores da senhorita só aumentará.
Ele sorriu, maroto.
― Agradeço por não ser obrigatório às Rosas dançar mais de uma vez com o mesmo cavalheiro ― comentou em meio um suspiro antes de beber um pouco da limonada.
― Espero não ter sido um sacrifício para a senhorita, afinal dançamos três músicas seguidas ― brincou.
― Três? ― indagou, corada ao notar que não se dera conta.
― Se não estou enganado, isso seria escandaloso se estivéssemos na Inglaterra ― falou, se inclinando para pegar um copo da bebida.
― De fato ― concordou, evitando o olhar atrevido do Sr. Carter.
Suas intenções não eram as melhores e Kane sabia disso, todavia não conseguia parar de pensar no quanto queria só uma chance de beijá-la. Com tanta gente por perto, seria quase impossível. Também queria evitar que ela voltasse para o salão novamente, senão em sua companhia. Havia muitos pretendentes insistentes com muito dinheiro e nenhum juízo para procurarem uma esposa quando deviam aproveitar a vida.
Ouviu um burburinho percorrendo o salão e logo a anfitriã convidou a todos para assistirem a uma tradicional queima de fogos. A grande maioria dos convidados seguiu para o jardim. O céu estava limpo, o ar fresco aas jovens escolhidas de Lady Dughinham pareciam felizes. Enquanto todos observavam as cores e evoluções dos fogos, olhou Lyra ao seu lado. Seria o momento perfeito. Poderia levá-la para o outro lado do grande jardim da casa de Lady Dughinham. Ele tinha a impressão que ela estava gostava de tê-lo por perto.
― Gosta de fogos? ― perguntou Kane.
― São barulhentos, mas bonitos ― disse ela. ― Brilhantes, como estrelas.
― São estrelas barulhentas, então ― falou, divertido com a resposta dela.
― Eu prefiro estrelas de verdade.
― É uma pena que não apareceram no céu hoje.
Ele parou à sua frente, deixando poucos centímetros entre eles.
Havia muita gente pelo jardim e talvez ninguém notasse se encostasse seus lábios nos dela. Naquele momento, ele não se importaria se vissem. Algo lhe dizia que ela não tomava conhecimento do que acontecia ao redor, porque olhava somente para ele.
Kane segurou-a delicadamente pelo queixo e a virou para ele para se inclinar para perto de seu ouvido.
― Da próxima vez, sem fogos ― sussurrou. ― Somente estrelas sobre nós.
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