Capítulo 1

Era uma linda manhã. O Sol, ainda tímido, acordava as cores antes desgastadas por um rigoroso inverno e a brisa brincava nas folhas das árvores.

Marie caminhava ao lado da mãe se sentindo inexplicavelmente feliz. Olhou-se rapidamente na vitrine da elegante joalheria por onde passavam e sorriu discretamente, aprovando sua imagem refletida. O vestido elegante fazia jus à sua silhueta esbelta num azul-claro que parecia fazer com que seus cabelos acobreados e o leve rosado em suas bochechas se destacassem.

Nunca se considerara realmente bonita. Achava que tinha outras qualidades, mas sabia que à primeira vista as pessoas olhariam para sua aparência.

Começando em casa.

Seguia sua mãe em silêncio. Louise Armand, mesmo com pressa, caminhava graciosamente um pouco à frente, esquadrinhando as vitrines das lojas procurando por algo, fosse um belo vestido ou um chapéu, algo que ela achasse que combinaria com a beleza, segundo ela, recém-descoberta da filha.

Marie suspirou. Sabia que o jantar daquela noite era importante, ainda que achasse os preparativos um grande exagero. Não se importava realmente, porém, para a Sra. Armand, a filha estar entre as Rosas era reviver quando ela própria foi uma delas.

Havia muito a ser preparado para o tão esperado jantar e a Sra. Armand a apressava.

― Pedi que nos fossem enviadas flores frescas ― ouviu a mãe dizer, parecendo pensar alto. ― Imagino que o clima ameno as fará permanecer bonitas durante a recepção.

― Provavelmente ― concordou Marie, sem muita certeza.

― As flores chegando com sua apresentação à sociedade! ― Ela sorriu para Marie. ― Será um evento e tanto! E se conseguirmos impressionar Lady Dughinham, você será convidada a todos os eventos da temporada!

― Aquela senhora me causa calafrios ― admitiu Marie.

― Aquela senhora é a responsável por gerações que viveram momentos inesquecíveis em sua juventude! ― A moça notou o tom de desagrado nas palavras da mãe, que insistia que ela deveria aproveitar ao máximo aquela oportunidade. ― E os bailes organizados por ela são, sem dúvida, os melhores para você ser vista e admirada. ― A Sra. Armand sorriu, confiante. ― Se tiver sorte, e você tem, alguns dos melhores pretendentes da cidade estarão à nossa porta.

― Mais nove senhoritas foram escolhidas, mamãe ― lembrou Marie.

― Claro que sim, entretanto, duvido muito que qualquer uma delas esteja preparada como você. A temporada é sua, querida! ― falou a Sra. Armand, com convicção.

Marie sabia o quanto aquilo significava para sua mãe, afinal, ela mesma foi a responsável por fazer seu pai, na época um conhecido bon vivant, dar um rumo à sua vida e pedi-la em casamento. Com o arranjo, veio a fortuna administrada por seu pai, acumulada por gerações que se dedicaram à exploração de ouro.

Ela não poderia, jamais, reclamar da vida que tinha, todavia considerava quase impossível um grupo de jovens envolvidas em um evento como aquele se tornar amigas, como na época de sua mãe. Preferia ela mesma escolher quem seriam as pessoas importantes em sua vida. Uma temporada de bailes, em sua opinião, não mudaria seu modo de pensar.

Marie sabia que o nome de sua família não valeria muito se não fosse perfeita em todas as ocasiões. Não haveria só bailes, claro. Ela receberia convites para chás, para ir ao teatro e passar o dia em alguma propriedade.

Marie tinha ciência da observação sobre ela e portar-se bem lhe garantiria o sucesso na temporada.

Farthell State se situava na parte nobre de Nova York, ou a nova parte nobre, com algumas famílias sem um tostão furado, mas que ainda tinham algum prestígio, gostavam de chamar. Era quase uma cidade à parte. Era onde vivia e era lá que se realizavam os bailes mais concorridos da cidade.

A jovem se sentiu levemente enjoada. Seriam semanas sob a pressão de sua mãe e da sociedade, forçando-a a agir como uma perfeita debutante.

Ao erguer os olhos, ela notou que não estavam sozinhas. Corou ao perceber tardiamente que havia se abanado diante dele.

Kane sorria, encantador como de costume, o furinho no queixo bem aparente e os olhos azul-claros harmonizados com a pele clara enchendo seu campo de visão.

Ele estava bonito. Até mais do que quando partira.

Àquela altura, Marie não sabia se havia ou não suspirado por ele, que levava sua mão direita aos lábios num beijo respeitoso. Ela observou os cabelos escuros dele para evitar seus olhos intensos.

― Sr. Carter ― disse, finalmente, em voz aguda. ― Vejo que o senhor está de volta. Que surpresa!

― Srta. Armand, encontrá-la tão graciosa nesta manhã me faz pensar que as flores desabrocharam ainda mais belas nesta primavera.

― O senhor é muito gentil, Sr. Carter. ― Marie sentiu seu coração acelerando. ― Leon sabe de seu retorno?

― Estive com seu irmão ontem, senhorita.

Marie sorriu. Queria fazer outras perguntas, saber quando havia voltado, se pretendia ficar, como foram aqueles anos na Inglaterra e França, contudo sabia que não era hora nem local para tal coisa. Somente o observou, achando quase impossível que alguma beldade estrangeira já não tivesse sua atenção.

― Mesmo? ― intrometeu-se a Sra. Armand, curiosa. Leon não comentara nada a respeito daquele encontro. ― Ora, seja bem-vindo de volta! O senhor deveria ir ao jantar que daremos hoje à noite.

― Alguma data especial? ― perguntou ele, tentando lembrar se esquecera o aniversário de alguém.

― Nada demais... ― Marie apressou-se em responder.

Ela conhecia a opinião do jovem Sr. Carter a respeito dos bailes, debutantes e mães casamenteiras. Até onde lembrava, ele corria daquilo.

― Na verdade ― prosseguiu a Sra. Armand, lançando um olhar de aviso à filha. ― Marie terá a honra de receber as organizadoras dos principais eventos da primavera e será apresentada à sociedade nova-iorquina em grande estilo!

― Então não posso perder este jantar ― disse ele, gentil, contudo, Marie o observava tanto nos últimos anos que pôde perceber o deboche no sorriso que ele deu.

Com um aceno discreto, eles se despediram. Marie o observou seguir seu caminho atraindo olhares das mulheres por onde passava. Sua mãe a puxou discretamente pelo braço, enquanto ela tentava disfarçar e dar mais uma olhadinha até que ele sumiu de suas vistas.

― Mamãe, convidá-lo foi um pouco precipitado, não acha?

― Achei que gostasse dele, querida. ― A mulher sorriu. Marie sabia que havia uma intenção por trás daquele convite, no entanto. ― E não foi precipitado! O Sr. Carter, além de ser, sem sombra de dúvidas, o melhor partido da temporada, tinha o costume de frequentar a nossa casa antes de ir para o exterior. Devemos retomar este hábito.

― Mamãe, ele é amigo de Leon e o conheço há muito tempo. É claro que gosto dele.

Ela sentiu seu rosto esquentar ao som da risadinha de sua mãe.

― O fato de conhecê-la há tanto tempo a ajudará a conquistar a atenção dele ― disse, soando segura.

Marie não comentou.

Sua mãe observava o movimento. Havia alguns pequenos grupos de senhoritas passando e a Sra. Armand as analisava, provavelmente se perguntando se alguma delas era uma das escolhidas de Lady D. Ela arfou ao quase esbarrar em uma jovem, que vinha na direção contrária.

― Oh! ― exclamou a moça, pousando uma mão enluvada na da Sra. Armand. ― Desculpe-me!

A Sra. Armand apenas assentiu para a jovem de rosto angelical emoldurado por longos cabelos loiros. Marie observou sua mãe acompanhar a desconhecida seguindo seu caminho com uma mulher atrás dela. Marie também a observou caminhar com graça diante das lojas.

Era exatamente aquele tipo de beleza pálida que dava receio em sua mãe, as donzelas de aparência etérea.

― Sei bem o que a senhora está pensando ― sussurrou Marie, vendo a expressão de preocupação da mãe.

Elas não tinham ideia de quem eram as demais Rosas e aquilo incomodava profundamente Louise Armand. Fora uma das motivações da Sra. Armand para oferecer um jantar às Damas da Rosa Amarela, sabendo que Marie seria a única a fazê-lo antes da Temporada das Rosas e almejando que aquilo a fizesse ganhar a simpatia das distintas senhoras.

A Sra. Armand se recompôs, tentando não pensar no assunto, pelo menos até que estivessem todas reunidas e pudesse ver de perto quem realmente competiria de igual para igual com sua filha.

― Vamos, Marie ― disse. ― Vamos para casa. Temos muito a fazer.

Não muito longe dali, na residência recém-ocupada da Rua Oliver Beaumont, tudo parecia iluminado naquele começo de noite.

Lyra Ann St. James observava a noite no jardim desejando que, por algum milagre, não tivessem que sair novamente, mas aquela semana parecia mais agitada do que o normal. Desde que sua família e ela chegaram da Europa poucos dias antes, seu pai as levava para inúmeros jantares com acionistas da companhia e alguns amigos.

Lyra só desejava ficar sozinha olhando a noite ou lendo. Não obstante, ali estava ela, usando um vestido glamoroso, aguardando sua mãe terminar de se arrumar.

― Pronto, querida?

Lyra se virou para a mãe, vendo-a a poucos passos de onde estava. Grace St. James era uma mulher muito bonita e estava fabulosa no vestido azul-escuro de festa. Lyra havia herdado a graça da mãe e se orgulhava daquilo.

― É a terceira noite esta semana, mamãe.

― Eu sei, querida! Eu já disse ao seu pai que não sairemos de casa nos próximos dias ― assegurou. A Sra. St. James passou o braço pelos ombros da filha. ― Seu pai não poderia recusar o convite do Sr. Jacques Armand. Anime-se! Os Armand têm uma filha da sua idade, portanto você não estará tão sozinha hoje.

― Seria bom ter alguém à mesa quando os comentários sobre filhos e netos solteiros começarem a surgir na tentativa de me incluir na conversa.

Com uma careta, Lyra revirou os olhos.

― Eu sei o quanto este assunto a incomoda, mas é natural que as famílias tenham interesse em um cortejo, Lyra.

Lyra assentiu. A mãe tentava amenizar a situação, mesmo certa de que a grande maioria estava mais interessada na associação com o sobrenome St. James do que na real felicidade entre os envolvidos.

― Não se preocupe, meu amor ― disse a Sra. St. James. ― Seu pai não dará permissão a qualquer um para cortejá-la.

― Eu sei.

Lyra sorriu. Seu pai jamais permitiria que ela se casasse com alguém de quem não gostasse.

― Venha, querida ― chamou novamente a Sra. St. James. ― Temos que ir.

Lyra suspirou e obedientemente seguiu a mãe.

Só esperava que a filha dos Armand gostasse dela e pudesse proporcionar uma boa companhia.

Marie se olhou mais uma vez no espelho. Não tinha certeza que o vestido, propositalmente amarelo-pálido, era o ideal para a ocasião.

Há poucos minutos fora avisada que os convidados começavam a chegar e admitia sentir o nervosismo crescendo. Queria um pedacinho de chocolate para lhe tirar a ansiedade, ou uma fatia, ainda que mínima, de bolo, algo doce e reconfortante que a acalmasse, pois estava novamente se sentindo enjoada.

Tinha certeza que sua mãe havia preparado tudo, desde as toalhas de mesa até o posicionamento das velas e a cor dos vasos onde haveriam as caríssimas flores absolutamente frescas para que estivessem lembrando a todos que ela, Marie, era uma das Rosas escolhidas.

Com um suspiro, ela se levantou quando ouviu uma batidinha rápida na porta.

Era Leon.

Ele a olhou por um momento, procurando algum gracejo para dizer o quanto aquilo tudo parecia ridículo, porém notou quão nervosa ela estava e se calou.

Sua irmãzinha estava deslumbrante. Coçou o queixo, pensando em como veria seus amigos admirando sua irmã mais nova. Aquilo o incomodava. Marie era uma moça exemplar e duvidava que algum de seus amigos perdesse a chance de tirá-la para dançar nos ridículos bailes aos quais seriam obrigados a comparecer.

― Está muito bonita ― disse, esboçando seu melhor sorriso. ― A Corte dos Corvos lhe aguarda, irmãzinha.

― A Corte dos Corvos ― repetiu com uma careta. ― Do que você está falando?

Ela se esticou para ajeitar a gravata do irmão, esperando que ele se comportasse.

― A tal Lady Dughinham e todas aquelas senhoras parecem corvos atrás de mocinhas indefesas para julgarem durante esta época do ano.

Marie riu nervosamente. Claro que ele achava aquilo tudo ridículo! Leon fugia daquele tipo de evento como o diabo fugia da cruz. Achava que seria bem feito para ele se encontrasse uma linda Rosa que o fizesse cair de amores. Era, de fato, lindo, tanto que, anos atrás, ela achava que a beleza toda da família havia ido para ele. Os cabelos escuros levemente ondulados e os olhos castanhos-esverdeados, além do sorriso arrasador, causavam muitos suspiros e sorrisos tolos.

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