CAPÍTULO 31
AVISO DE GATILHOS:
MENÇÃO A DEPRESSÃO, VIOLÊNCIA INFANTIL, VIOLÊNCIAS E CRIMES SEXUAIS, ABUSO ALCOÓLICO E DE ENTORPECENTES, PORNOGRAFIA E PROSTITUIÇÃO.
(Se você tem menos de dezoito anos ou apresenta sensibilidade a algum desses temas, eu recomendo que não leia. Aliás os acontecimentos desse capítulo serão resumidos no próximo sem a abordagem desses temas. Então não se preocupem em pular este capítulo, pois não vai perder as ordens de acontecimentos. Sendo assim, para quem decidi pular a leitura, beijinhos e até o próximo capítulo, se cuidem.)
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KIM TAEHYUNG
Meus olhos se abriram lentamente e minha cabeça latejou quando tentei me levantar atordoado pelos pesadelos que perturbavam cada segundo de meu sono. Surpreendo-me ao me encontrar em meu quarto, iluminado pelos raios solares do amanhecer que entram pelas frestas das cortinas.
O que aconteceu? Já é outro dia?
Não conseguia me lembrar de muita coisa após YoonGi ter deixado minha casa. As poucas lembranças que me restam são as do momento em que eu busquei em um frasco de whisky algum conforto diante dos sentimentos dolorosos que sua visita me despertou.
ㅡ Você está melhor? ㅡ a voz de _____ tocam meus ouvidos quando ela entrou no quarto.
Assenti e levantei da cama.
ㅡ Tem certeza? ㅡ sentou na ponta do colchão e me observou caminhar em direção do banheiro. ㅡ Eu fiquei preocupada com você, nunca te vi daquela forma. Aconteceu algo?
ㅡ Daquela forma? ㅡ franzi o cenho para ela e a olhei nos olhos.
ㅡ Você disse que ia me buscar lá em casa para a gente sair, mas você não aparecia, nem retornava minhas ligações e mensagens. Fiquei preocupada e vim saber o que aconteceu. Quando cheguei, você estava completamente bêbado e sua sala destruída.
O quê?
ㅡ Eu... ㅡ tentei buscar por uma justificativa, não queria contar sobre o YoonGi, pois ficaria preocupada ou até mesmo querer interferir e isso seria muito perigoso para a segurança dela.
ㅡ Você sabe que pode confiar em mim.
ㅡ Não foi nada de mais. ㅡ falei de modo a acabar logo com aquele assunto. ㅡ Eu tenho que ir trabalhar agora.
ㅡ Você está mentindo. ㅡ acusou, parecendo um pouco irritada, pondo-se de pé também.
ㅡ Eu já disse que não aconteceu nada! ㅡ sem ter controle de minhas emoções não consigo evitar que minha fala fosse carregada de grosseria.
ㅡ Eu só estou tentando ajudar.
ㅡ Não precisa. ㅡ virei-me de costas para a garota, caminhando para o banheiro.
ㅡ Isso me irrita tanto! ㅡ seguiu atrás de mim. ㅡ Você sempre faz isso, quando tem algum problema você se fecha e afasta todos.
ㅡ Já disse que não tem problema nenhum! ㅡ avancei em direção dela, ficando a centímetros de seu corpo. ㅡ Eu só quero ficar sozinho! Será que não passou pela sua cabeça que se não te chamei é porque não te quero aqui?
Assisti sua face irritada metamorfosear para uma expressão surpresa e logo após, triste, o que me partiu o coração. Eu sei que peguei pesado, mas precisava dela longe, não quero colocar _____ em perigo e o melhor é ela ficar distante até que eu resolver minhas questões com YoonGi.
ㅡ Você é ridículo! ㅡ gritou enfurecida e então saiu apressada fechando a porta do quarto com força.
Sozinho, me tranquei no banheiro. Após um banho rápido, liguei para o escritório dizendo que não iria ao trabalho por não estar me sentindo bem. O que não era mentira, pois além da ressaca, meu emocional estava péssimo.
Segui para o andar de baixo e encontrei a sala arrumada, diferente do que minhas memórias limitadas me diziam. Com certeza foi _____ que limpou todos os cacos, colocou tudo no lugar e lavou o chão ensopado de bebida. Na cozinha, encontrei uma porção de comida posicionada sobre a mesa, mais uma vez o sinal de seu cuidado comigo. Só em encarar o Haejangguk que ela fez para mim, minha garganta fechou e uma vontade de chorar surgiu, com o arrependimento de ter a tratado daquela forma.
Me sentei à mesa diante da sopa e vi um bilhetinho posicionado ao lado dos talheres.
"É pra comer esta porra toda, seu filho da puta!"
Entretanto, no outro verso há algo escrito também e mesmo que a frase estivesse riscada ainda podia ser lida.
"Come tudinho para não ficar com ressaca no trabalho. Eu te amo meu pirocudo."
Provavelmente essa era a primeira versão do bilhete, escrito antes de nossa discussão e a segunda versão deve ter sido escrita minutos antes dela ter ido embora cheia de raiva de mim. Ainda sim, acho aquilo fofo e me faz sentir o dobro de culpa.
De repente, meu celular vibrou no bolso de minhas calças, indicando uma mensagem. Era a mensagem que eu menos queria receber.
"Aqui está o endereço do encontro com Josh. Hoje às oito da noite neste restaurante. Mesa 9. Não se atrase."
Junto, veio a localização. Sinto uma onda elétrica percorrer meu corpo, minha respiração tornou-se ofegante e meu corpo tremeu com a horrível sensação do medo.
A vida é sempre muito extrema, quando coisas ruins acontecem elas vêm como uma fila de peças de dominós ou um castelo de cartas, onde se você mover uma peça errada tudo desaba de uma vez e parece irreparável.
Como quando eu tinha dezessete anos e o destino decidiu tirar uma carta do meu castelo, a carta mais importante, a base de toda estrutura de minha vida, minha mãe.
Uma mulher sorridente e alegre, a nutricionista responsável pelas mais saborosas comidas do mundo. Generosa, sempre ajudava quem precisava, como nossos vizinhos que tinham dificuldades financeiras. Ela sempre dividia nosso jantar com eles. Kim Nari era linda, longos cabelos negros e olhos marcantes cujo tive a sorte de herdar e seu sorriso era doce e belos como os bolos que preparava para mim. Uma estrela bela e radiante que aquecia os corações de todos que a conheciam. Contudo, um dia frio de janeiro enquanto ela voltava do hospital onde trabalhava, um carro desgovernado ceifou sua vida.
Então tudo o que eu conhecia de bom, minha família, amor, paz, alegria desabou de uma vez e só restaram destroços e feridas. Parecia que não havia nada pior para acontecer além da morte dela, mas aconteceu, pois, logo em seguida perdi a única pessoa que podia contar para reerguer nosso castelo, meu pai.
Não, ele não morreu. Não de forma literal. Ele continua fisicamente vivo, mas a vida que tinha dentro de si, foi tragada pela tristeza que assolou nosso lar quando ela foi tirada de nós. Diferente da morte repentina dela, eu vi meu pai definhando-se a cada dia.
Buscando nas bebidas e drogas, um motivo para continuar a viver e perdeu-se naquela imundícia, perdeu tudo, incluindo sua essência. A essência de um homem bom, alegre e sonhador. Nós éramos melhores amigos, cúmplices. Era com ele que eu contava toda vez que voltava para casa com o joelho esfolado, pois minha mãe sempre reclamava de minhas traquinagens. Muitas das vezes quando me buscava na escola comíamos sorvete escondido dela, isso era um segredo só nosso, aliás ela brigaria com ele por me dar porcarias antes do jantar.
De repente toda nossa cumplicidade morreu. Tudo em meu lar morreu com minha mãe, todos os sorrisos, todos os jantares à mesa, o cheirinho de bolo nos finais de semana, toda a paz e o amor. Tudo acabou ao ponto de uma noite eu fechar os olhos e pedir a qualquer que fosse a força Superior lá de cima, que meu pai não acordasse na manhã seguinte. Simplesmente estava cansado do monstro que ele havia se tornado.
Nesse dia, quando cheguei da escola, tudo estava quebrado e a casa tinha um forte odor de álcool e droga. Não me assustei, aquilo já tinha se tornado rotineiro naqueles últimos três meses.
Como de costume, fui direto para o meu quarto. Entretanto, quando entrei o vi lá dentro. Ele estava me roubando! Provavelmente usaria meus objetos para vender e comprar mais bebidas ou quem sabe, mais drogas.
ㅡ O que você está fazendo? ㅡ Corri até ele e tentei puxar a corrente de sua mão, a pulseira que ganhei dela, no meu último aniversário, dias antes de tudo acontecer.
ㅡ Me dê! ㅡ esquivou de mim, mas seu movimento o faz se desequilibrar. ㅡ Você me empurrou? Você está louco seu filho da puta? ㅡ acusou falsamente.
ㅡ Eu não te empurrei! ㅡ falei dando passos para trás quando ele avançava furiosamente até mim.
ㅡ O senhor que...
Sem sequer me esperar terminar de falar ele atingiu meu rosto com um forte soco, fazendo-me perder o equilíbrio. Antes que eu despencasse no chão ele segurou a gola do meu uniforme escolar e me jogou contra a parede. Mesmo estando tão bêbado ele ainda era forte e eu um simples adolescente de dezessete anos assustado.
ㅡ Desculpa! ㅡ ele não ouviu, ou sequer se deu ao trabalho de escutar minha súplica desesperada.
Em seguida o segundo golpe é direcionado a minha barriga, arrancando-me um gemido de dor.
ㅡ Pai, por favor. ㅡ pedi com a voz chorosa, tentando me encolher para evitar o terceiro soco que seu punho fez em meu abdômen novamente.
Em seguida golpes e mais golpes fortes e covardes eram direcionados a minha barriga com um intervalo de tempo inexistente sem me dar a chance de defesa.
Doía tanto. Tudo doía. Eu não conseguia respirar. Por mais que gritasse dizendo estar me machucando, ele só parou quando se cansou e quando finalmente se afastou, cai sem força. Eu sentia a dor ardente se alastrar por todo o meu corpo, cada hematoma latejava e o gosto ferroso de sangue do primeiro golpe em minha boca.
Passei aquela noite, encolhido no mesmo lugar, sem conseguir me mexer por conta da dor insuportável. Mais que a dor física, a dor emocional se sobressaía. Eu tentava não chorar, para evitar contrair os músculos da barriga, pois até mesmo o fato de respirar era doloroso.
Aquela foi a primeira das muitas noites em que passei daquela forma. Por vezes a minha solução para evitar aquilo era dormindo na casa de um amigo ou no banco de uma praça próximo à escola onde estudava.
Quando fiz dezenove anos, esperei apenas o inverno passar e não pensei duas vezes em pegar minha mochila, o pouco dinheiro que mantinha escondido e fugir para a capital. Fui sem ter ideia de como seria minha vida lá, eu sabia que não teria um lar e nem o que comer, mas imaginei que logo conseguiria um emprego.
Me enganei, pois, a vida não é tão fácil quanto a ingenuidade da adolescência nos faz pensar. Passei quatro meses morando na rua e quando tinha sorte, dormia em um abrigo comunitário. Por vezes, uma senhorinha, dona de uma barraquinha de cachorro-quente, me dava o que comer e alguns trocados quando eu a ajudava com algo.
Cansado daquela realidade miserável e sem perspectiva, tomei a decisão mais radical de minha vida, a decisão que mudaria tudo. Caminhei para a zona vermelha da cidade e não demorou para eu ser abordado por um homem. Ele percebeu minha inexperiência e me ofereceu uma mixaria por aquela noite e me levou para um hotel barato.
Meu coração estava disparado quando entrei naquele quarto horroroso, fedia a mofo, as paredes brancas estavam amareladas e velhas, a cama coberta por um lençol púrpura que me dava ânsia de vômito apenas em lembrar. Ele disse para eu tomar um banho enquanto pedia algo para comermos. Tentei demorar o máximo possível debaixo daquele chuveiro frio para adiar o quanto pudesse o que aconteceria no momento que saísse dali. Todavia, o momento chegou, eu nunca fui religioso ou apegado a nada espiritual, mas naquela noite pedia para qualquer Um lá em cima para que tudo acabasse logo. Aquela era minha primeira vez, aquele homem sabia muito bem e mesmo assim parecia se divertir com minha dor. Nunca vou me esquecer do cheiro enjoativo de cigarro daquele homem, da textura de sua pele, do calor, da sua voz e daqueles olhos horripilantes.
Contudo, foi com o dinheiro daquela noite que eu pude finalmente, após meses, pagar por um banho quente e dormir em uma cama confortável. Entretanto, não consegui fechar os olhos por nenhum instante, pois as lágrimas fluíam transbordando tudo o que eu sentia, nojo de mim mesmo.
Com o passar do tempo, quando menos percebi eu havia me tornado o tão cobiçado V. Cujo morava em um apartamento confortável, vestia as mais caras grifes e recebia uma boa quantia por uma noite apenas. Aliás, muitos adoravam ostentar o V, um dos atores pornôs do estúdio do Josh Park e pagavam muito bem por isso.
Por mais que eu tivesse condições de ter tudo o que queria, nada me satisfazia. Eu só via a podridão que minha vida havia tornado. Tudo à minha volta me causava ânsia. Eu vivia só, por mais que fosse popular, no final da madrugada sempre ficava sozinho, porque eu era solitário.
Toda vez que estava prestes a iniciar mais alguma gravação, dava bons goles em uma garrafa de qualquer coisa alcoólica enquanto assistia minha parceira do dia usar alguma droga. Meios que usávamos para mascarar a desgraça que sentíamos.
Dinheiro fácil. É o que costumam falar, mas acredito que o certo é: dinheiro rápido, porque fácil nunca vai ser.
O mundo da pornografia é algo fantasioso, aos que assistem nunca imaginam que o que se passa por trás das câmeras não é nada tão prazeroso quanto parece. Muitos ali tem a depressão e a ansiedade como indesejadas companheiras. São rejeitados pela família. Alguns sofrem com o vício alcoólico ou entorpecentes, outros passam o dia sem comer apenas para se manterem no padrão.
Tudo por uma profissão que é alvo de muitos preconceitos e discriminação. Pessoas nos julgam, nos chamam de pecadores e promíscuos, nos condenam ao inferno como se fossem o próprio Deus. Contudo, nunca se perguntam o que levou uma pessoa até ali. Sim, existem atores e atrizes, que estão neste mundo por que querem, tem orgulho e felicidade no que fazem. Mas existem outros que fazem apenas para colocar comida no prato dos filhos. Ou que escolheram nem sequer aquilo, pois tiveram sua privacidade, seus corpos violados, mulheres, homens e crianças, vítimas, cujos seus sofrimentos alimentam ainda mais a indústria e a violência.
Estes são os meus estigmas. Marcas de desonra e dor que me arrancaram noites de sono, lágrimas e até mesmo minha felicidade. Mesmo que tente cobri-las, elas sempre estarão aqui para me fazerem lembrar da dor e do sofrimento. Pois, tudo o que eu vivi, fiz, o meu passado jamais poderá ser mudado. V sempre estará por aí, as lembranças das mãos libidinosas de homens e mulheres sedentos sobre meu corpo nunca serão apagadas, os olhos ferozes de meu pai em acesso de fúria não saíram de minha cabeça, SunHee no final das contas continuará em seu sono eterno. Pois, estes são os meus estigmas e não há como me livrar deles.
Muitas vezes me questionava como teria sido se minha mãe não tivesse morrido? Provavelmente nada disso teria acontecido e eu não estaria aqui, diante de um perigoso criminoso.
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Olá Puritanas!
Como estão?
Bom, confesso que estou com minhas mãos suando aqui kk, aliás este é o capítulo mais pesado da história na minha opinião.
Antes de tudo, gostaria de ressaltar que eu não sou nenhum tipo de estudiosa ou profissional na área ou no tema. Se eu escrevi alguma asneira, me corrijam por favor.
Bom, o peso que esse capítulo tem é enorme para mim, céus, foi muito difícil de escrever e eu pensei muitas vezes em retirar algumas abordagens por serem absurdamente pesadas. Mas seria um desrespeito com todo o sofrimento que há nessa indústria. Pois a pornografia é um universo que oferece prazer em cima das dores de muitas pessoas e eu queria mostrar isso.
E sim, como foi citado, existem pessoas que amam o que fazem, mas ainda sim são vítimas de muitos preconceitos e julgamentos.
Esse capítulo foi baseado principalmente em uma reportagem do Conexão repórter chamada A miragem de 2015. Essa reportagem foi minha principal inspiração para a obra inteira e para este capítulo expecificamente. Recomendo muito que assistam, tem disponível no youtube.
Bom é isso...
Nos vemos no próximo capítulo
Beijos e até semana que vem, se cuidem. 💜
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