CAPÍTULO 22

KIM TAEHYUNG

Minha cabeça latejava e meu estômago revirava, consequência das várias garrafas de soju que bebi noite passada, na tentativa de adormecer por pelo menos algumas horas. Nestes últimos dias minhas noites têm sido um enorme problema para mim, eu nem sequer consigo ter uma noite de sono decente. Sempre que me deito fico pensando em tudo o que aconteceu no final de semana passado e em como poderia ter evitado.

Sinceramente, não queria ter magoado ______, mas a presença de YoonGi desestabilizou-me completamente. Apenas olhando em seus olhos novamente, pude reviver toda tristeza, remorso e medo do dia quatro de outubro, três anos atrás, o dia em que SunHee morreu. Sentia-me preso nas amarras da dor que todas aquelas memórias despertadas pelos olhos cheios de desprezo de YoonGi causavam-me. Eu estava paralisado por dentro, mas eu precisava reagir e meu lado animal, irracional e cruel tomou conta de mim.

Sei que isso não justifica o fato de ter a tratado daquela forma, contudo, eu sentia a urgência de tirá-la dali, de perto de YoonGi, de perto de mim. Pois, sua presença era incerta naquele momento, não tinha como saber se ele sacaria uma arma disposto a cometer um crime ali mesmo, se me socaria até seus dedos quebrarem ou se simplesmente iria expor o "V" para todos naquela festa. Realmente não havia como saber e na pior das hipóteses, o melhor era manter ______ longe de qualquer perigo.

Errei, mas realmente gostaria de me desculpar, gostaria de mostrar que realmente me arrependo.

Até tentei, porém, escolhi uma péssima hora para isso. Não pelo fato dela ter ficado com JiMin e JungKook, ______ é uma mulher livre e o que ela faz com seu corpo não diz respeito a mim, apesar de sim, fiquei enciumado. O que certamente piorou a tensão entre nós foi ter entrado em briga com JiMin. Particularmente, odeio violência, mas naquele instante, levado por uma enxurrada de emoções dolorosas, a provocação do Park sobre meu passado foi o catalisador para perder o controle mais uma vez.

Então no outro dia, no trabalho, apenas respeitei o afastamento dela, que seguiu durante toda a semana. Confesso que isso estava me abalando mais do que poderia esperar. Ver ela se esquivando de mim ou nem sequer olhando em meus olhos, não poder ver seus lábios bonitos exibirem aqueles sorrisos sapecas, não sentir seu calor, não poder tocá-la, ou beijá-la faz algo em meu âmago doer.

Após seu afastamento minha vida voltou a ser monótona e entediante como antes. Pois, ela era como um oceano inteiro, intensa, imprevisível, cheia de vida e mistérios que banhava minha praia deserta e sem graça com suas ondas agitadas. Por um tempo acreditei que o melhor para mim era viver em minha praia, sozinho, mas hoje eu não sei se suportaria ficar nessa merda sem suas ondas bagunçando meus castelinhos de areia.

ㅡ Oi! hyung. ㅡ disse quando Robi, que acabou de chegar no restaurante onde estamos comemorando o aniversário da diretora-geral, aproximou-se da mesa onde ocupava sozinho.

ㅡ Sua cara está péssima. ㅡ pontuou com um sorriso ameno.

ㅡ Nem me fale, não consegui dormir nada essa noite. ㅡ nos últimos dias para ser honesto ㅡ Só vim a este almoço por pura consideração ao aniversário da senhora Yoo.

Ele soprou um sorriso nada espontâneo, sorriso este que vi pouquíssimas vezes em nossos dois anos de amizade.

ㅡ Onde está JiSoo? ㅡ indaguei ao perceber a ausência da garota, já que está sempre ao lado de meu amigo, são quase namorados.

ㅡ Ela foi com a ______ para o Daegu esta manhã, acabei de deixá-las no aeroporto. ㅡ disse cabisbaixo com a voz em um volume mínimo.

ㅡ Daegu?

ㅡ Você não está sabendo?

ㅡ Sabendo do quê?

ㅡ TaeHyung, ㅡ fez uma pausa dramática, parecia escolher as palavras que vai usar, deixando-me apreensivo. ㅡ o pai da ______ faleceu ontem.

Meus olhos se arregalam e meus pulmões se enchem de surpresa.

ㅡ O quê?

ㅡ Ontem à noite a mãe dela ligou falando sobre o falecimento do pai. Parece que ele estava se recuperando de uma gripe e repentinamente piorou, teve pneumonia e enfim... ㅡ contou com um enorme pesar. ㅡ JiSoo me ligou e perguntou se eu podia comprar passagens para elas.

ㅡ Como a ______ está?

ㅡ Ela não parece nada bem e segundo JiSoo ela ainda não chorou. Quando as levei ao aeroporto, percebi ela aérea como se ainda estivesse processando a notícia. Mas mesmo estando tão desnorteada, tomou uma grande decisão. Ela pediu demissão, pois...

ㅡ Ela pediu o quê?

ㅡ ______ disse que não vai mais voltar para Seul, que não há mais motivos para ficar aqui.

ㅡ Hyung, ㅡ minha fala é como uma súplica. ㅡ ligue para JiSoo e pergunte para onde elas estão indo, quero saber da cidade, endereço, quero saber de tudo.

ㅡ TaeHyung? O que vai fazer? ㅡ Robi questionou assustado quando comecei a andar apressadamente para fora do restaurante.

ㅡ Eu tenho que ver ela. ㅡ disse rapidamente antes de dar as costas de vez e correr para fora dali ignorando o chamado repreensivo do meu melhor e único amigo.

Segui até o estacionamento, adentrando meu carro com pressa. E sem me importar com as inúmeras multas que receberei no final do mês, dirigir em alta velocidade até minha casa, onde eu fiz uma mala pequena de qualquer forma.

ㅡ Tae. ㅡ A voz de meu amigo é ouvida quando invadiu meu quarto um tempo depois.

ㅡ Conseguiu?

ㅡ Está aqui. ㅡ me entregou um papelzinho com todas as informações que pedi marcadas na caneta.

ㅡ Obrigado hyung. ㅡ guardei o papel no bolso das calças, apressando-me para fechar a bolsa sobre a cama.

ㅡ Você vai mesmo fazer esta loucura?

ㅡ Vou sim. ㅡ afirmei pegando a mala com uma das mãos enquanto ocupava a outra com meus documentos.

ㅡ Só não te julgo, porque eu faria o mesmo.

ㅡ Hyung, depois você fala com o seu pai por mim, por favor.

ㅡ Eu já falei e ele entendeu, porém, disse que você só pode se ausentar no máximo por uma semana.

***

HoByeong levou-me ao aeroporto, onde consegui uma passagem para o próximo voo, que sairia às duas e trinta da tarde. O que era péssimo, pois segundo JiSoo, o funeral seria às três da tarde. No avião, desejei dormir durante toda viagem, para que eu não visse o tempo passar. Mas pelo contrário, eu vivi cada segundo daquele voo que parecia cortar os ares na velocidade de uma lesma.

Eu já sabia que chegaria Daegu uns trinta minutos após o início do funeral. Então sem perder mais tempo, corri atrás de um táxi. Para meu total desespero, um enorme congestionamento nas principais vias faziam o carro ir bem devagar. Por mais que o motorista tenha se sensibilizado com minha agonia e súplica, ele não pode fazer nada com o automóvel encurralado entre tantos outros.

Quase duas horas depois, o carro parou diante da entrada do grande campo esverdeado, lancei uma boa quantia de dinheiro e sem me importar com o troco saltei para fora do veículo.

Meus passos eram ligeiros, enquanto buscava por alguma movimentação entre as diversas lápides e flores espalhadas pelo verde da grama. Vejo ao longe um grupo de pessoas e acreditei ser da família dela, porém ao me aproximar percebi que me enganei.

Segui procurando por ela, mas não encontrei até decidir encerrar minha longa e exaustiva. Com a respiração entre cortada, deslizei minhas mãos pelos cabelos aceitando a minha desistência. Imaginando que ela já deve ter ido para casa.

Agora, sem pressa, eu caminhava em direção a saída, cabisbaixo, as mãos guardadas nos bolsos das calças com a bolsa pendurada em meu ombro pela alça longa.

Um suspiro de puro fracasso deixou meus pulmões quando meus pés tocam a calçada do lado de fora. E antes que eu pegasse meu celular para chamar um táxi, uma voz familiar me chamou.

ㅡ JiSoo! ㅡ senti um forte alívio me atingir, fazendo meus músculos relaxarem imediatamente. ㅡ Já acabou?

Ela anuiu lentamente.

ㅡ Merda.

Ela me encarou por longos segundos e disse:

ㅡ Ela está logo ali. ㅡ apontou com o queixo em direção de um pequeno amontoado de gente ao redor de um carro prateado.

Enchi meu peito de coragem e dei o primeiro passo na direção indicada, porém antes que eu avançasse de vez JiSoo segurou meu braço.

ㅡ Ela não está nada bem, então apenas respeite o tempo dela.

ㅡ Pode deixar.

Voltei a caminhar lentamente e cada movimento meu parece ser feito em câmera lenta, o caminho curto tornaram-se quilômetros e tudo é mais apreensivo.

Quando enfim meus passos pararam entre as poucas pessoas que rodeavam o carro, meu coração disparou loucamente quando a vi. Ela estava ali, encolhida na roupa preta tradicional com o olhar vago e nublado, completamente alheia às pessoas ao seu redor que consolavam a mulher baixinha de cabelos curtos ao seu lado, que suponho ser sua mãe.

Meu coração, antes acelerado, parou por milésimos quando seus olhos encontraram os meus. ______ não esboçou nenhuma reação, apenas ficou me fitando por longos segundos.

Confesso que sinto medo de suas próximas reações. Pois, nosso último encontro não foi nada bom e é inegável que minha aparição repentina pode piorar toda a situação. Eu realmente não pensei nisso, em como minha presença pode ser indesejada. Novamente agi por impulso diante de minha própria necessidade de vê-la sem nem sequer questionar-me se ela me queria por perto.

Cada instante de seu silêncio me fez pensar que me equivoquei em vim e que melhor é ir embora antes que eu deixe as coisas ainda mais graves. Entretanto, antes que me movesse, sua voz lenta e quebradiça estabilizou-me no mesmo lugar, soando aos meus ouvidos como um sopro dolorido com uma única palavra:

ㅡ TaeHyung.

Ouvir o seu chamado foi equiparado a um fardo de toneladas sendo arrancado de minhas costas. Pois, diferente do que imaginei, seu dizer apesar de dolorido não demonstrava repulsa ou raiva. Então encarei-a, deixando escapar entre meus lábios um suspiro discreto de alívio.

Ainda sentindo meu coração esmurrar meu peito bombeando sangue por todo o meu corpo trêmulo, desejei correr em sua direção e envolvê-la com um abraço. Porém, lutei contra este impulso ao lembrar do dito de JiSoo, eu deveria respeitar o tempo dela.

Assisti seus olhos, antes opacos e sem vida, tornarem-se úmidos e brilhosos por conta da luz do final da triste tarde, refletindo contra as lágrimas que afogavam cada vez mais suas íris.

E então ela simplesmente ignorou os olhares de seus familiares curiosos sobre nós e deu o primeiro passo em minha direção, lento e hesitante. Entretanto, aquele foi apenas o catalisador para correr lançando-se contra meu peito, antes de deixar um soluço de dor escapar de sua boca pálida.

Mesmo completamente surpreso, não pensei duas vezes em envolver meus braços em seu corpo, que assim como o meu, tremia.

Os últimos raios de Sol tocavam diretamente nossas peles, o vento balançava as folhas verdes das árvores soando como uma música calma e reconfortante diante do silêncio que seus familiares nos ofereciam enquanto testemunhava nosso abraço íntimo. Seu corpo encolhido contra o meu balançava a cada soluço dolorido que rasgava sua garganta e através de suas lágrimas ela liberava tudo o que estava sentindo.

Ela estava chorando, soluçando com tanta força que naquele instante eu pude sentir tudo o que afligia-a, toda a dor, desespero e luto. Meu corpo inteiro arrepiaram-se quando nossas emoções se conectaram, a apertei ainda mais contra meu corpo e chorei junto. Pois, sei como machuca perder alguém tão importante, alguém que te amou incondicionalmente, sei bem porque já experimentei este mesmo sentimento quando perdi minha mãe e consequentemente minha família. Foi de longe a pior experiência que já vivi, um sentimento devastador. Sinceramente, se eu pudesse, tiraria com minhas próprias mãos a dor que machuca ______ agora.

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