Capítulo 6

E aí, você que leu as primeiras quatro páginas do livro inexistente se sentiu preso ao livro, curioso, se perguntando como será que esse engraçadinho vai conseguir continuar escrevendo uma história que não tem história. O suspense foi criado mesmo sem existir nenhum personagem, nenhum ambiente, nenhum tempo, nenhuma época. O artifício da embromação veste bem as primeiras páginas, mas se torna impossível para um livro inteiro. O que sairá dessa cartola? – você pensou. Impossível não prosseguir para o capítulo seguinte e assistir aos próximos truques.

Atravessada a surpresa do epílogo fora de ordem, a notícia do furto da autoria do livro foi relatada, bons personagens apresentados, conflitos bem armados. Talvez, a esse momento, a graça inicial tenha se esvaziado e a trama tenha escorrido para uma tradicional fórmula, com diálogos triviais entre um casal. Dane-se, diria eu. Esse livro não é meu mesmo, é um livro de uma ideia furtada por um vilão sem escrúpulos, pouco me importa se o leitor perdeu ou não seu interesse inicial. Mas, como não sou eu que escrevo essas palavras, haverá o vilão de prometer que a história ainda esconde muitos segredos, que percorre diversos gêneros literários e usurpa  de técnicas das mais diferentes. Muitas vezes você saberá exatamente quem fala, muitas vezes ficará (como agora) na dúvida, se quem fala é o herói, se é o vilão, ou nenhum dos dois, e isso o instigará.

O livro que não existe, vale dizer ainda, possui diálogos rasos, diálogos profundos, um heterônimo que levanta da tumba, crônicas, uma dedicatória linda, citações, poesia, filosofia, conversa diretamente com o leitor, tudo amarrado na tentativa de unidade, um fio que tudo alinha. Para um livro que não existe, talvez seja o suficiente. Ainda não ficou satisfeito? Não é o bastante? Ainda pensa em largar esse livro inexistente que perdeu o bom suspense inicial? Pois bem, segue-se a apelação, a última cartada, que cativa grande parte dos seres humanos - a promessa de uma cena de sexo tórrida nas próximas páginas – não pornô, mas um grande épico da paixão, o encontro de dois corpos que necessitam viver o maior amor de suas vidas. Um amor que somente um livro que não existe pode conter, sem limites. Não há como negar que a sua curiosidade retornou. Como ousa esse autor, quer dizer, não autor, vilão, ou sei lá o que seja, prometer, sem autoridade nenhuma, um épico da paixão? Será mesmo ele capaz disso? Pouquíssimos largarão essa história antes de ler esse trecho. Você será capaz? 

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