Capítulo Trinta e Três
Pedro Alves:
Enquanto o alfaiate ajustava os últimos detalhes do meu terno, eu me sentia meio desconfortável, mas a mão firme de Connor nas minhas costas me trazia um certo alívio. Ele sempre sabia como me acalmar sem dizer uma palavra. Eu podia ouvir a risada suave dele, respondendo a algo engraçado que Samuel havia dito enquanto mascava sua bala de menta. Aquele som, a risada dele, sempre conseguia acender algo dentro de mim, uma mistura de tranquilidade e alegria que eu nunca soube que precisava tanto.
Olhei para ele, meu namorado, sabendo que em breve o mundo todo conheceria sua verdadeira identidade. O peso dessa revelação parecia maior a cada segundo. A família Wessex... bem, pelos relatos que consegui levantar, eles são implacáveis. Connor, com toda sua habilidade em manipular situações e usar suas conexões, estava preparando o terreno para virar o jogo a seu favor. Mas, por mais que ele estivesse sempre três passos à frente, eu sabia que essa era uma briga complicada.
Aqueles que ousaram se opor à família Wessex estavam enfrentando problemas bem espinhosos. Empresas inteiras tropeçavam em obstáculos inesperados, e tudo levava de volta a uma única origem: Connor. Ele estava por trás de boa parte disso, mas de um jeito que ninguém jamais conseguiria provar. O toque de mestre dele. E claro, isso também acabava respingando na antiga família de George. Eles estavam mais perdidos do que nunca, incapazes de se reerguerem ou até mesmo cuidarem de suas próprias relações por tempo suficiente para respirar.
Eu queria fazer algo. Aliás, queria fazer tudo. Queria proteger Connor, cuidar de Samuel, e garantir que toda essa confusão terminasse com o mínimo de estrago possível. Mas a realidade era que minhas mãos estavam atadas, e de um jeito bem literal. Não podia nem contar com minhas "ferramentas" para ajudar. Minha mãe, com sua mania de querer "me proteger de mim mesmo", havia confiscado minhas armas e equipamentos, o que me deixava completamente fora de ação.
A ironia disso não passou despercebida. Ali estava eu, alguém que já enfrentou o impossível, reduzido a esperar as decisões dos outros. "Bom, pelo menos estou bonito no terno," pensei com uma pontada de humor, tentando afastar a tensão por um instante.
O riso de Samuel preencheu o ambiente mais uma vez, e Connor sorriu para ele, como se estivesse esquecendo, por um momento, o peso que estava prestes a carregar. Olhei para os dois, e um calor suave invadiu meu peito. Pelo menos, nesses momentos, eu sabia que tinha algo real, algo que valia a pena proteger.
— Ei —Connor sussurrou, puxando-me levemente para perto enquanto o alfaiate dava os últimos toques. — Vai ficar tudo bem.
Seus olhos encontraram os meus, e por um segundo, toda a loucura ao nosso redor desapareceu.
— Tio Connor, por que está usando esse anel verde? — Samuel perguntou, apontando com curiosidade para o dedo de Connor.
Connor olhou para o anel, girando-o suavemente entre os dedos, e deu um pequeno sorriso antes de responder.
— Ah, esse anel de jade é uma relíquia da família — ele começou, sua voz suave e envolvente como sempre. — É usado em eventos importantes por aqueles que vão cuidar da família Wessex no futuro. Dizem que ele traz honra para nossa casa, uma tradição antiga.
Samuel, com seus olhos curiosos e atentos, inclinou a cabeça.
— O tio Luis vai usar um desses também? — ele perguntou, claramente intrigado.
Connor riu baixinho, e seu olhar se suavizou.
— Na verdade, só existe um anel. E meu irmão... — ele fez uma pausa, como se lembrasse de algo engraçado. — Bem, ele já deixou bem claro que nunca vai querer chamar atenção em eventos. Ele prefere passar despercebido.
Connor então envolveu Samuel num abraço afetuoso, e eu observei a cena com uma pontada de carinho. Era tão natural o jeito que eles se conectavam. Mas quando Connor mencionou seu afastamento, eu percebi a mudança no rosto de Samuel.
— Por isso, vou ficar um tempo longe e bastante ocupado. Preciso organizar tudo na empresa e transferir algumas responsabilidades para o meu nome — Connor explicou, mantendo a voz leve, mas não conseguiu esconder completamente a seriedade da situação.
Samuel franziu o rosto, visivelmente magoado.
— Então... vamos ficar dias sem nos ver? — ele perguntou, sua voz pequena e carregada de emoção.
O coração apertou no meu peito ao ver aquele olhar. Connor, por mais ocupado e poderoso que fosse, sempre tinha tempo para Samuel. Ver aquela tristeza em seus olhos era difícil até para mim.
— Só vai diminuir um pouco o tempo dos nossos passeios de fim de semana... e também, talvez, os preparos de receitas — Connor disse com um sorriso, mas Samuel fez um beicinho, sua expressão fechando ainda mais.
Eu sabia o quanto Samuel tinha se apegado à culinária nos últimos meses. Toda vez que Connor estava em nossa casa, eles passavam horas na cozinha, testando novas receitas e enchendo o lugar com risadas. Eu sempre os observava de longe, sorrindo para mim mesmo enquanto a cozinha virava um campo de batalha de farinha e risos. Era impossível não amar aquelas cenas.
— Ei, não precisa ficar assim — Connor disse, soltando uma risada que misturava ternura e diversão, enquanto via o rostinho de Samuel se contorcer de preocupação. — Vai ser por pouco tempo, vai passar tão rápido que você nem vai perceber.
Samuel olhou para ele, ainda um pouco incerto.
— Você promete? — ele perguntou, com aquele olhar cheio de esperança.
Connor sorriu e bagunçou os cabelos de Samuel, fazendo-o soltar uma risadinha contida.
— Prometo. Vai passar voando, e logo estaremos cozinhando juntos de novo — respondeu com confiança.
Enquanto eu observava a troca entre eles, senti meu celular vibrar no bolso. Peguei o aparelho e vi uma mensagem da minha mãe. "Você precisa voltar o quanto antes para a agência. Temos uma missão urgente que requer sua total atenção."
Suspirei internamente. A vida nunca parecia dar uma trégua, mesmo nos momentos em que tudo o que eu queria era ficar ali, ao lado deles, aproveitando a simplicidade de um dia comum.
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Saí do ateliê com os ajustes finalizados, mas minha mente estava a mil. Cada passo que eu dava parecia ecoar pelo chão frio, e minha visão começava a embaçar, uma mistura de cansaço e preocupação. Meu rosto devia estar tão sombrio que ninguém ao redor se atreveu a dizer uma palavra ou sequer respirar fundo. Eu não estava de bom humor, e isso era visível.
Connor percebeu, claro. Ele sempre percebia.
— O que aconteceu? — perguntou ele, com aquele tom suave, mas preocupado, enquanto entrelaçava nossos dedos.
Respirei fundo antes de responder. Não queria preocupar ele mais do que já estava.
— Vou ter que ir para a agência — falei, sentindo um nó na garganta. — Mas pode ser depois do seu evento. Prometi que seria seu acompanhante, junto do Samuel, então meu trabalho pode esperar por mais algumas horas.
Ele me olhou calmamente, mas seus olhos estavam cheios de preocupação.
— Tem certeza disso? — ele perguntou, apertando minha mão com mais firmeza. — Vou entender se precisar ir agora.
Eu sorri, tentando aliviar a tensão que sentia no peito.
— Eles podem esperar — respondi, aproximando-me para beijar seus lábios com suavidade. — Estou de férias oficialmente, e não vou viver apenas para o trabalho. Existem mil obstáculos, sim, mas nada, absolutamente nada, vai fazer com que meu amor por você deixe de existir. Eu atravessaria mares, montanhas, o que fosse preciso, só para chegar até você e Samuel. Nosso amor está presente em tudo, em cada momento, em cada pequeno gesto. Sei que esse sentimento me dá forças para enfrentar qualquer barreira.
Connor me olhou profundamente, e eu podia ver as lágrimas se formando em seus olhos. Era como se todas as palavras que eu tinha dito fossem exatamente o que ele precisava ouvir. Toquei seu rosto suavemente, sorrindo, e continuei:
— Sou feliz por isso, e vejo que você também é. A felicidade está nesses momentos, pequenos gestos, no carinho, na parceria. Saber que existimos um para o outro a todo momento é a coisa mais linda que alguém pode sentir. Quero estar com você, sempre, em cada plano, em cada detalhe do nosso dia. O amor é assim, simples, mas ao mesmo tempo poderoso.
As lágrimas caíram pelo rosto de Connor, e eu não pude deixar de pensar em como ele era lindo. Aquele homem à minha frente, tão forte e ao mesmo tempo tão vulnerável, era a melhor coisa que já tinha acontecido na minha vida.
— Pedro... — ele começou, com a voz embargada. — Defino minha vida em dois momentos: o antes e o depois de você e Samuel terem entrado nela. Vocês mudaram tudo. Iluminaram meu caminho e me mostraram que há muito mais no mundo do que eu podia ver antes. Eu jamais seria o que sou hoje sem vocês.
Seu coração estava acelerado, e eu podia ouvir isso. Aquele sentimento nos envolvia como uma onda, e antes que pudéssemos falar mais, Samuel apareceu, com seu jeito divertido e impaciente.
— Vamos logo! — ele disse, puxando-nos pela mão. Connor riu, ainda com os olhos brilhando de emoção, suas bochechas coradas, enquanto nos seguia.
Por um breve momento, o peso de tudo desapareceu. Era apenas nós três, unidos, prontos para o que quer que viesse. Mas o mundo real logo nos puxou de volta.
Não tivemos muito tempo para pensar no que viria depois. O evento do aniversário do grupo Wessex estava à nossa frente, e tudo precisava estar perfeito. Elio, sempre tão prestativo, ajudou Connor a descobrir o que os funcionários queriam como presentes. Eles não hesitaram em gastar o que fosse necessário para comprar os itens de luxo que os funcionários desejavam. Nada ali seria medíocre. O banquete anual tinha que ser grandioso.
Reggie estava no comando do local do evento. O salão de banquetes era majestoso, com enormes janelas de vidro que ofereciam uma vista deslumbrante da cidade à noite. Era um edifício histórico no centro da cidade, rodeado por arranha-céus modernos. Tudo estava impecavelmente planejado, e Elio, claro, até havia reservado as telas eletrônicas e substituído a programação habitual pela cobertura do evento.
— Primeira vez que uma comemoração de aniversário de empresa é tão extravagante — murmurei, me aproximando de Connor.
Luis não havia perdido a chance de reclamar sobre a atenção que tudo isso iria trazer, mas os convidados estavam deslumbrados. E a verdade é que Connor e sua família haviam se superado. Eles sabiam como impressionar.
Chegamos cedo ao salão para nos prepararmos. Roupas personalizadas foram providenciadas especialmente para o evento. O terno de Connor mudava de cor sob a luz, e os detalhes brilhantes faziam ele parecer... divino. Parecia que um ser celestial havia descido do céu, especialmente com sua maquiagem impecável. Ele era a estrela daquela noite, sem sombra de dúvidas.
Eu não conseguia tirar os olhos dele.
— Posso dizer que essa roupa está perfeita em você? — murmurei, puxando-o pela cintura e depositando um beijo em seu pescoço.
Ele riu, um som leve e despreocupado.
— É bom, né? — Ele sorriu de canto e, de repente, tirou algo do bolso. — Ah, certo, trouxe isso para você. — Era um pequeno broche em forma de flor. Ele o entregou com um brilho nos olhos. — Espero que goste.
Olhei para o broche e, sem pensar duas vezes, o coloquei no terno.
— Eu amei — respondi, sorrindo para ele.
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No exato momento em que as luzes se apagaram, o salão foi tomado por um silêncio tenso, quebrado apenas pelo som abafado das respirações e pelo leve chiado das câmeras ajustando suas lentes. A música parou abruptamente, e todos os olhares se voltaram para o palco principal. Sob os holofotes, Elio, com seu habitual sorriso confiante, caminhou até o centro do palco, parecendo completamente à vontade no centro das atenções. Eu sabia que esse era o grande momento que ele havia planejado.
As câmeras da mídia estavam todas prontas, posicionadas para capturar cada segundo do que estava por vir. Todos sabiam que esse era o ponto alto da noite, e ninguém queria perder um detalhe sequer.
— Bem-vindos à celebração do aniversário do Grupo Wessex — começou Elio, sua voz clara e firme ecoando pelo salão. — Sem o apoio de todos aqui presentes, o grupo jamais teria prosperado da forma como prosperou ao longo dos anos. Por isso, gostaria de propor um brinde a todos vocês. — Ele levantou sua taça de vinho com um ar confiante, quase desafiador. O brilho da taça refletia as luzes, e seus gestos pareciam meticulosamente calculados para transmitir poder e controle.
Aqueles presentes responderam levantando suas taças, mas o salão estava longe de relaxado. Todos sabiam que algo grande estava por vir.
Elio continuou, dessa vez com um leve sorriso enigmático nos lábios.
— Imagino que muitos de vocês tenham ouvido algumas... fofocas sobre o Grupo Wessex recentemente. — Ele fez uma pausa, observando as reações ao seu redor. Todos se inclinaram ligeiramente para frente, como se um sussurro coletivo tomasse conta da sala. — E acredito que todos estejam curiosos para saber qual será o meu grande anúncio esta noite.
O salão mergulhou em um silêncio absoluto. A expectativa pairava no ar, quase palpável. Elio virou-se para a lateral do palco, e seus olhos brilharam com algo que eu só poderia descrever como orgulho.
— Venham para cá — ele disse com um tom afetuoso, o olhar fixo em um canto específico.
Outro feixe de luz surgiu, desta vez com um brilho dourado, iluminando Connor e Luis, que emergiram das sombras como figuras de pura graça e poder. Sob os holofotes, pareciam quase divinos, suas presenças dominando o espaço como se tivessem sido feitos para ser o centro de todas as atenções. Caminhavam com uma confiança inabalável, cada passo meticulosamente controlado. As câmeras não paravam de piscar, ansiosas para capturar cada segundo.
— Esses dois jovens rapazes são meus amados filhos — anunciou Elio, com uma reverência quase cerimonial. — Parece que, enquanto todos estão discutindo o futuro do Grupo Wessex, muitos esqueceram de um detalhe crucial. Connor Wessex... seu sobrenome é o mesmo que o meu. Wessex, do Grupo Wessex.
O salão ficou tão silencioso que eu podia ouvir meu próprio coração batendo, e a tensão só aumentava a cada segundo.
— Eles são as pérolas da nossa família — continuou Elio, apontando para Connor e Luis, seus olhos brilhando com orgulho paternal. — Eles são meus filhos biológicos!
Assim que Elio proferiu essas palavras, o silêncio no salão se tornou quase ensurdecedor. Podia sentir a surpresa vibrando no ar, como se cada pessoa estivesse digerindo a magnitude do que acabara de ser revelado.
Eu olhei de relance para o meu telefone e vi que, ao mesmo tempo, as telas eletrônicas da cidade estavam transmitindo a revelação ao vivo. A imagem de Connor e Luis, resplandecentes sob os holofotes, estava estampada por toda a cidade.
Elio deu um último gole em sua taça e, em seguida, fez sua segunda grande revelação da noite.
— Além disso, tenho outro anúncio importante a fazer. Eu transferi todas as minhas ações do Grupo Wessex para o nome de Connor e Luis. A partir de agora, Connor será o proprietário real do Grupo Wessex e meu sucessor legítimo.
O impacto foi imediato. O salão, que até então estava imerso em um silêncio estupefato, explodiu em murmúrios e cochichos. O choque era palpável, e eu podia sentir a excitação e o espanto tomando conta da multidão. Connor, com seu terno impecável e o anel de jade brilhando em seu dedo, estava prestes a se tornar o novo líder do império Wessex.
Olhei para ele, admirando como lidava com tudo aquilo com tanta elegância. Ele parecia pronto, como se tivesse nascido para aquele momento. E, honestamente, não pude deixar de me sentir ainda mais orgulhoso dele.
— Isso é só o começo — murmurei para mim mesmo, sorrindo enquanto o caos se desenrolava ao nosso redor.
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Gostaram?
Até a próxima 😘
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