Capítulo Trinta e Oito

Pedro Alves:

— Compatível com o da nossa mãe? — repeti suavemente, a confusão borbulhando dentro de mim enquanto meus olhos se voltavam para ela. — Tem certeza de que não há algum erro?

Eu queria acreditar que havia algum engano. Isso não fazia sentido. Como aquela garota poderia ter um DNA compatível com o da nossa mãe?

— Fiz o teste três vezes — Caio respondeu, seus olhos carregando um peso que era difícil de ignorar. — O resultado foi o mesmo todas as vezes. Compatibilidade total...

— Como se fôssemos quase a mesma pessoa — minha mãe completou, com um leve suspiro, como se já soubesse a verdade há muito tempo. — Lilly não amava a mulher que eu me tornei, mas a ideia de recriar uma versão minha de quando eu era adolescente... é típico dela. Ela está tentando proteger a imagem da irmã que ela nunca viu como inimiga.

O silêncio se estendeu por alguns segundos, enquanto as palavras se assentavam em mim. Eu já tinha percebido, mesmo que inconscientemente, que a garota lembrava vagamente minha mãe. O jeito que ela se movia, algo nos olhos... Era como uma sombra do passado. Caio estralou os dedos, quebrando o silêncio.

— Até o pai disse que ela se parecia com você — Caio comentou, pensativo. — E o comportamento da Lilly... Clonar você? Isso é coisa de alguém completamente insano, instável.

Minha mãe balançou a cabeça com uma calma impressionante. — Lilly está longe de ser estável. Explodir um local cheio de pessoas inocentes... Isso é mais do que instabilidade. É desespero. Ela está disposta a qualquer coisa para conseguir o que quer. O que me assusta é pensar até onde ela pode ir para alcançar seus objetivos.

Eu a olhei, vendo o quanto isso tudo estava mexendo com ela. Durante muito tempo, minha mãe tentou afastar-se de tudo o que envolvia Lilly, mas agora, parecia impossível escapar das garras do passado. Mesmo que ela não quisesse admitir, a dor estava lá, escondida debaixo de toda a frieza que ela exibia. Lilly, sua própria irmã, havia se corrompido, e desde então, a vida da minha mãe havia se tornado um verdadeiro furacão.

E, no fundo, eu sabia que isso a machucava.

A mente dela, sempre ágil e estratégica, agora trabalhava ainda mais rápido, tentando encontrar uma solução para o caos que Lilly tinha provocado. Era quase como se ela estivesse constantemente em uma partida de xadrez, cada movimento calculado, tentando prever o próximo passo de Lilly.

— Mãe, não podemos desistir de encontrá-la — falei, tentando manter a calma, mas sentindo o peso da situação em cada palavra. — Eu sei que tudo está complicado agora. Mas se desistirmos, se deixarmos Lilly fazer o que quiser... ainda serei humano depois disso? Não podemos entender completamente a mente distorcida dela, mas isso não significa que devemos parar de tentar. Sei que você está chateada, e com razão. Mas, por favor, confie que encontraremos uma solução para isso. Vamos manter nossa família segura.

Minha mãe me olhou com um olhar que misturava orgulho e dor. Eu sabia que ela me entendia, que ela sabia exatamente o que eu estava tentando dizer. Por trás de sua calma exterior, eu podia sentir o turbilhão de emoções que ela mantinha bem guardado.

Ela sorriu, e o calor daquele sorriso me atingiu como um raio de sol em meio à tempestade.

— Já me decidi sobre o que fazer — disse ela, firme. — Não há necessidade de se preocupar mais do que já estamos.

Caio e eu trocamos olhares, surpresos. Minha mãe estava sempre alguns passos à frente, mas ainda assim, sua confiança às vezes nos deixava perplexos.

— Mãe, você precisa de uma equipe de segurança com você o tempo todo agora — Caio começou, visivelmente preocupado. — Lilly pode tentar te atacar a qualquer momento, e quem sabe o que mais ela pode fazer com essa loucura de clonagem? Precisamos estar prontos para qualquer coisa que passe pela mente dela!

Minha mãe se virou para Caio com um olhar calmo, mas afiado, como se estivesse falando com uma criança teimosa.

— Caio, se há algo de errado com sua cabeça, talvez você deva visitar o departamento psiquiátrico. — Ela disse isso de forma tão casual que quase engasguei com o riso. — Eu não tenho medo da minha irmã, nem do que ela pode fazer. Se eu permitir que ela pense que tem qualquer tipo de poder sobre mim, que tipo de mulher eu seria? Já te ensinei várias vezes que nada, e eu digo nada, vai me fazer duvidar de quem sou ou do que posso fazer.

Caio ficou vermelho de raiva, claramente furioso com a postura despreocupada dela.

— Mãe, você sempre foi cautelosa, nunca a pessoa que corria para o perigo! — Ele disse, exasperado. — Pensei que você iria querer resolver isso de maneira mais segura, usando os nossos equipamentos e protegendo-se com a segurança adequada. Como você pode simplesmente... ignorar o risco?

Ele então olhou para mim, esperando apoio. — Pedro, concorda comigo?

Eu respirei fundo, sentindo o peso da responsabilidade. Caio tinha razão; o perigo era real, e a atitude confiante da nossa mãe, por mais inspiradora que fosse, também era assustadora. Mas conhecendo-a, sabia que tentar convencê-la de algo diferente seria inútil. Ela não era o tipo de mulher que cedia ao medo — e era isso que eu admirava nela.

— Caio, eu entendo sua preocupação, e acho que o que você está dizendo faz sentido. Precisamos garantir que ela esteja protegida — falei, tentando equilibrar as emoções no ambiente. — Mas, ao mesmo tempo, a mãe sempre foi assim. Se alguém pode enfrentar Lilly sem tremer, é ela. E talvez... talvez seja essa força que faça Lilly recuar.

Sabia que discutir com minha mãe, ou muito menos com Caio, enquanto estava deitado em uma cama de hospital, não me levaria a lugar algum. Eles eram teimosos, e eu, naquele estado, só podia fazer a melhor escolha possível: calar a boca. Pelo menos, por enquanto. O silêncio, às vezes, era uma estratégia subestimada.

Caio, por outro lado, parecia ter interpretado meu silêncio como um sinal de concordância. Ele suspirou aliviado, como se sua vitória tivesse sido garantida.

— Caio, vamos sair — disse minha mãe, levantando-se com aquela sua elegância tranquila. — Pedro, descanse bem. Voltaremos amanhã para te ver.

Assenti, observando os dois saírem com a mesma determinação com que haviam entrado. No fundo, sabia que esse assunto não ia desaparecer assim tão facilmente. Lilly era uma bomba-relógio, e por mais que minha mãe tentasse minimizar a gravidade da situação, eu sabia que ela estava apenas tentando manter as coisas sob controle. Lilly tinha pessoas trabalhando para ela, infiltradas em nossas operações. E isso precisava ser resolvido — com ou sem a permissão da minha mãe.

Olhei para o telefone na mesinha de cabeceira e, com esforço, estiquei a mão até ele. Cada movimento era uma batalha contra a dor que pulsava em meu corpo, mas eu precisava agir. Depois de algumas tentativas desajeitadas, encontrei o número de Alice e liguei para ela. Se eu quisesse liderar essa situação, teria que descobrir quem era o traidor e eliminá-lo antes que fosse tarde demais.

A chamada foi completada, e a voz da minha irmã soou, carregada de emoção.

— Pedro, é você? — Sua voz embargada revelou o alívio misturado com preocupação. — Todo mundo disse que você pulou de um prédio! Você não tem noção do susto que nos deu! Meu Deus, Pedro, você tem um filho e outro a caminho, sabia? O que diabos passou pela sua cabeça? — A intensidade de suas palavras fez meu peito apertar de culpa.

— Alice... — murmurei, com dificuldade, ainda tentando recuperar o fôlego. Ela percebeu de imediato que havia algo errado.

— Pedro... o que aconteceu? Diga-me o que está acontecendo — ela insistiu, sua voz suave agora carregada de preocupação.

Eu fechei os olhos, preparando-me para o que precisava pedir. — Alice, preciso que me ajude a investigar... os agentes que sempre trabalharam em missões comigo ou com o Vincenzo. Principalmente aqueles que têm algo contra o Caio, ou que sempre parecem estar de acordo com nossos pais, além dos que trabalham para Agnes.

Do outro lado da linha, pude sentir o silêncio de Alice se transformar em raiva.

— Pedro, você está suspeitando de alguém próximo? — Alice perguntou, a voz dela carregada de incredulidade.

— Sim, quase isso. Preciso de provas — respondi, o tom sério deixando claro que não era apenas uma teoria qualquer. — Quero resolver isso o quanto antes.

Ela ficou em silêncio por um momento, provavelmente calculando a melhor maneira de descobrir quem era o traidor. Alice, apesar de sua personalidade calorosa, era extremamente meticulosa quando se tratava de proteger a família. No final, ela respondeu com uma animação que quase fez surgir um sorriso em meu rosto.

— Pedro, enquanto você está no hospital, é muito provável que eles relaxem e baixem a guarda. Se estão em contato com Lilly, posso monitorar cada um dos agentes. Preciso invadir seus celulares e acessar o banco de dados deles — disse ela, com determinação.

— Use minha credencial. Vou enviar para você agora. E faça isso o mais rápido possível — respondi, sentindo o peso da responsabilidade aumentar.

— Boa ideia. Quando for a hora, vou instalar o sistema de vigilância sem que ninguém perceba — Alice garantiu. — Pode contar com sua irmã favorita para lidar com isso.

— Sempre pude contar com você — respondi, um sorriso cansado finalmente se formando. Saber que ela estava ao meu lado me deu um certo alívio.

Desliguei o telefone e, por um breve momento, deixei minha mente descansar. O peso da dor e da responsabilidade ainda estava lá, mas havia uma ponta de esperança no meio disso tudo. Decidi que precisava me levantar, ainda que aos trancos e barrancos, para tomar um banho. Recusava-me a ser ajudado nesse momento. Precisava me sentir em controle de alguma coisa, nem que fosse algo tão simples quanto um banho.

Com esforço, coloquei os pés no chão, tentando ignorar as dores que percorriam meu corpo. Eu me recusava a me render.

Enquanto me esforçava para colocar os pés no chão, cada movimento parecia uma luta contra o próprio corpo, como se os músculos estivessem se revoltando após o impacto brutal. A dor era constante, mas de alguma forma, parecia distante. Talvez fosse a adrenalina ainda correndo nas minhas veias, ou o simples fato de que havia muito mais em jogo do que minha dor física.

Os pensamentos sobre Lilly e sua insanidade dominavam minha mente. Como alguém poderia cair tão fundo a ponto de clonar a própria irmã? Não era apenas uma questão de ambição ou poder, mas uma obsessão doentia. Eu não conseguia entender completamente a mente dela — e talvez fosse isso que tornava tudo mais perigoso. Lilly tinha criado uma teia, e o que mais me assustava era saber que ela tinha aliados dentro do nosso círculo.

Pensei em Samuel e Connor. Samuel, com sua energia vibrante e seus desenhos favoritos, e Connor, agora esperando nosso segundo filho, tão sereno e cheio de amor. O pensamento de perder tudo aquilo — perder a família que eu tinha construído — era insuportável. Não podia deixar que o caos que Lilly estava criando tocasse minha vida mais do que já tinha tocado.

Mas eu também sabia que, para proteger a todos, teria que lidar com isso de frente. Não havia espaço para hesitação. Alice era minha melhor aposta agora, com sua habilidade de invadir qualquer sistema e encontrar as informações necessárias. Se havia um traidor — ou traidores —, ela os encontraria. E então, eu garantiria que nunca mais pudessem prejudicar nossa família.

Mas o que me incomodava de verdade era minha mãe. Como ela conseguia lidar com isso com tamanha frieza? Ela sempre foi forte, sempre foi alguém que não deixava o medo ditar suas ações, mas vê-la tão resoluta a ponto de quase desprezar o perigo... algo parecia diferente desta vez. Será que Lilly a estava afetando mais do que ela deixava transparecer? Ou talvez, no fundo, ela sabia que o confronto final com a irmã era inevitável? Eu sabia que minha mãe não era do tipo que fugia dos desafios, mas agora ela estava jogando um jogo perigoso.

E Caio... Ele parecia furioso, frustrado por não poder controlar a situação como gostaria. Seu instinto era proteger a família, e talvez ele estivesse certo em querer mais segurança. Mas a verdade era que, por mais que quiséssemos controlar tudo, algumas batalhas precisavam ser enfrentadas de cabeça erguida, mesmo que o perigo fosse iminente. Talvez fosse isso que minha mãe entendia, e que Caio ainda lutava para aceitar.

Cada passo em direção ao banheiro era como atravessar um campo minado de dor. Mas, ao mesmo tempo, essa dor me fazia lembrar que eu ainda estava aqui. Ainda respirava. Ainda podia lutar. E eu iria lutar. Não só por mim, mas por Connor, por Samuel, por nosso futuro filho, e pela minha família inteira.

De pé diante do espelho, encarei meu reflexo. Havia cortes, hematomas, e o cansaço estampado nos meus olhos. Mas algo mais brilhou ali — uma determinação que eu não podia negar. Eu sabia que essa batalha estava apenas começando, e Lilly não seria fácil de derrubar. Mas com Alice ao meu lado, com Caio cuidando da segurança e, mais importante, com a minha família sendo a razão pela qual eu lutava... eu venceria. Porque desistir nunca foi uma opção.

Respirei fundo, sentindo a água quente do chuveiro correr sobre mim, aliviando as dores superficiais, enquanto meus pensamentos corriam mais rápido do que a água que escorria pelo meu corpo. Eu precisava me recuperar rápido. A guerra estava apenas começando, e, como sempre, eu estaria pronto para a próxima batalha.

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Na manhã seguinte, acordei com o corpo ainda latejando de dor. Quando abri os olhos, percebi uma figura familiar ao meu lado. Pelo jeito, pelas roupas, soube imediatamente que era Connor. Ele tinha vindo me visitar.

Antes que eu pudesse dizer algo, ele se lançou sobre mim, seus braços envolvendo-me com tanta força que quase esqueci da dor por um momento. Seus olhos estavam vermelhos, e ele soluçava contra o meu peito.

— Pedro... Quando Vincenzo me disse que você estava no hospital, corri o mais rápido que pude — Connor sussurrou, a voz trêmula. — Olha para o seu estado...

Olhei para ele com uma mistura de culpa e carinho. No passado, tudo o que me mantinha vivo era Samuel — nada mais importava. Mas agora, Connor estava em minha vida. Eu sabia que meu trabalho o preocupava, que o risco constante era algo difícil para ele suportar. Ele sempre soube, mas ver-me assim, machucado, deve ter sido demais.

— Desculpa — murmurei, enquanto minha mão subia até seus cabelos, fazendo um carinho suave.

Ele me olhou com os olhos cheios de preocupação, visivelmente cauteloso.

— Você deveria pedir para checarem seu cérebro. Sério, Pedro, do jeito que você age às vezes, eu acho que seria uma boa ideia — ele disse, com um tom que misturava preocupação e um toque de humor para disfarçar o medo.

Fiz uma careta. Meu pescoço estava rígido, e meus movimentos eram desajeitados, mas tentei ajustar minha visão para olhá-lo diretamente, mesmo que o esforço me deixasse meio ridículo.

— Estou todo machucado e você fica dizendo que estou agindo estranhamente? — falei, tentando soar ofendido, mas sabendo que ele só estava preocupado. — Não precisa ser tão dramático. Você está no estágio inicial, então temos tempo para tudo.

Levei minha mão até sua barriga, que já estava levemente inchada, e passei os dedos suavemente por ali. Connor, com um olhar brincalhão, bateu de leve na minha mão, mas eu podia ver o afeto por trás de seus olhos.

— Só estou meio emotivo e com alguns enjoos — ele disse, sorrindo, apesar da preocupação. — As alterações hormonais já estão começando a aparecer. Mas você está mudando de assunto. Antes que eu me esqueça, estou com três semanas e já marquei uma consulta. Samuel foi comigo.

De repente, percebi que tinha sido impulsivo ao tocar sua barriga daquele jeito. Minha mente estava tão focada na preocupação com eles que eu nem pensei.

— Como foi a consulta? O que devo fazer? — perguntei, tentando corrigir minha gafe com uma pergunta genuína.

Connor suspirou, mas o sorriso permaneceu. — Está tudo indo bem. O médico disse que só preciso me cuidar e seguir as orientações. E claro, eu tive o melhor guarda-costas ao meu lado. Samuel entrou comigo no consultório.

Nesse momento, olhei para a porta e lá estava Samuel, meu pequeno herói. Ele andou timidamente em nossa direção, mas não demorou para se jogar sobre mim, me abraçando com uma doçura que só ele tinha.

— Fiz tudo direitinho, cuidei do tio Connor e do meu futuro irmãozinho ou irmãzinha — Samuel sussurrou, como se estivesse me confidenciando o maior segredo do mundo.

Sorri, sentindo meu coração aquecer com suas palavras. — Isso foi incrível, filho — disse, passando a mão pelos seus cabelos, bagunçando-os levemente.

Connor, ainda me observando com aquele olhar carinhoso, completou: — A médica disse que tudo está bem. Só preciso seguir direitinho o que ela recomendou. Meu pai e o pessoal todo ficaram eufóricos com a notícia.

Eu o puxei suavemente para perto, mesmo que meu corpo ainda doesse com o movimento, e o beijei delicadamente. Abracei Connor e Samuel, de maneira desajeitada, mas com todo o amor que conseguia transmitir naquele momento.

— Eles não são os únicos que estão eufóricos — sussurrei contra os lábios de Connor, sentindo uma onda de felicidade misturada com alívio me inundar.

Naquele momento, apesar de tudo o que estava acontecendo — a dor, a preocupação com Lilly, os riscos do meu trabalho —, eu tinha algo que me mantinha firme. Eu tinha uma família, e sabia que, por eles, enfrentaria qualquer batalha.

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Gostaram?

Até a próxima 😘

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