Capítulo Trinta e Dois

Connor Wessex:

Chegamos à casa de Pedro e, após um banho relaxante, jantamos e aproveitamos os doces que compramos. Samuel, como sempre, foi o primeiro a sucumbir ao cansaço e adormeceu rapidamente. Isso nos deixou a sós, eu e Pedro, sentados no sofá, assistindo televisão. O filme que estávamos prestes a começar parecia ser um drama familiar, com uma sinopse que envolvia um pai que havia abandonado a família anos antes.

— A família dá trabalho às vezes, né? — Pedro comentou, casualmente, quando o filme começou a rolar.

— É... — concordei, mesmo sem entender por que ele tinha puxado aquele assunto, mas algo em seu tom me fez perceber que ele queria dizer mais.

Ele hesitou por um momento, depois acenou para a TV. — Quero dizer... não precisa se preocupar com aquilo. Sei que é complicado.

Claro que ele estava falando sobre Gabriel Collins, ou melhor, o meu outro pai. Aquele que entrou em contato comigo recentemente, depois de tanto tempo afastado de nossas vidas.

A verdade é que eu nunca soube muito sobre Gabriel quando era mais novo. Cresci com meu pai, só nós dois, em uma casa grande e silenciosa. Nunca tocávamos nesse assunto. Gabriel tinha nos abandonado quando eu ainda estava na barriga do meu pai, desaparecendo sem deixar rastro, correndo para se casar com outra mulher. Depois que ele se foi, meus avós diziam que era como se ele tivesse arrancado uma parte do meu pai junto com ele. E ele sofreu... muito. Quando completei sete anos, nunca houve uma explicação, apenas um silêncio doloroso que pairava sobre nós. Meu pai evitava tocar no assunto, e eu nunca insisti, mas, à medida que crescia, a curiosidade começou a me corroer por dentro.

Foi só alguns meses atrás que finalmente o conheci — Gabriel Collins, agora um criminoso preso por seus atos. A mulher dele, aquela com quem fugiu, havia sequestrado meu irmão gêmeo com a ajuda de ninguém menos que o próprio pai de Gabriel. Era uma história tão absurda e trágica que parecia tirada de um filme. E mesmo agora, preso, Gabriel ainda tentava reconstruir algum tipo de relação. Não comigo, apenas, mas com Luiz e Milena, que, de um jeito tortuoso, também eram parte dessa louca família que eu mal entendia.

Suspirei, tentando manter o tom casual, mas a verdade pesava em minha voz. — Você sabe que eu não vou responder nenhuma das cartas que ele me enviou, né? Seria cruel com meu pai... eu jamais conseguiria ficar no mesmo espaço que aquele... filho da mãe. — Minhas palavras saíram carregadas, e Pedro levantou as mãos num gesto de redenção, indicando que não estava ali para me julgar.

— Entendo que está com raiva — ele disse, com aquela calma que só Pedro tem. — Só quero que saiba que estou aqui. Se precisar desabafar, se quiser uma mão para lidar com esse idiota... estou do seu lado.

Soltei um riso curto e sarcástico. — E olha quem fala! O cara que, desde que me conheceu, disse que ser amigo de pessoas lixo é o maior erro da humanidade.

Pedro sorriu, aquele sorriso pequeno e cúmplice. — Eu sei do que estou falando. Já enfrentei esse tipo de gente mais vezes do que gostaria. Mas, para alguém como você, que sempre faz as coisas com o coração e tem a capacidade de devolver na mesma moeda quando necessário... posso dizer que talvez seja hora de revogar essa regra.

— E você diz que não é meloso! — rebati, provocando. — Eu nunca vou querer que ele faça parte da minha vida, você sabe disso. O código entre irmãos é sempre apoiar um ao outro. Se Luiz não quer que Gabriel chegue perto, mesmo preso, então eu também não vou querer.

Pedro deu um leve aceno, mas sua voz manteve o tom realista. — Ele vai continuar mandando essas cartas até você responder, você sabe disso.

Senti meu corpo murchar um pouco, como se o peso dessa verdade me atingisse de uma só vez. Pedro passou a mão pelos meus cabelos, fazendo um cafuné reconfortante, e eu me deixei afundar naquele momento.

— Eu sei... mas não posso. Não consigo corresponder às esperanças que ele tem. Não depois de tudo que sei. — Olhei para minhas mãos, tentando evitar o contato visual, porque sabia que, se olhasse para Pedro, toda a dor reprimida voltaria à tona. — Não posso fingir que não há mágoa aqui dentro... que não dói.

Finalmente, virei-me em sua direção, e nossos olhares se cruzaram. Havia algo indescritível na forma como ele me olhava — como se visse tudo em mim e, ao mesmo tempo, me desse o espaço para ser quem eu era, sem julgamentos.

— Tem mais alguma coisa que você queira me contar? — ele perguntou com suavidade. — Saiba que estou aqui, sempre vou apoiar suas decisões.

Ele me puxou para um abraço, e eu soltei um gemido, me rendendo ao calor dos seus braços. Uma voz suave e derrotada escapou dos meus lábios:

— Eu sei que vai estar lá para mim... — sussurrei, me aconchegando mais em seu peito. — Mas não quero falar disso com meu pai ou com Luiz até estar pronto. Ainda não sei como lidar com tudo isso.

Pedro afagou minhas costas.

— Eu farei o que você quiser, estou aqui pra você.

Eu não consegui segurar a risada que escapou, mesmo que pequena. Havia algo tão reconfortante em estar com ele, naquele momento, que, por um instante, todos os meus problemas pareceram distantes. Estar com Pedro era quentinho, seguro. Já conseguia me imaginar passando o resto da vida ao seu lado, fazendo parte dessa vida que ele e Samuel tinham.

E talvez, só talvez, isso fosse suficiente para me manter em pé, mesmo com todo o caos ao redor.

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Acordei com o toque suave dos lábios de Pedro no meu rosto. Ele distribuía beijos lentos e delicados, como se estivesse plantando pequenas flores em cada canto da minha pele. Sorri, meio sonolento, e me enrosquei mais perto dele, puxando seus braços sobre mim como se fossem uma coberta aconchegante. O ritmo do coração dele batia no meu ouvido, e o som grave da sua voz murmurando nos meus cabelos me fez sentir em casa. Ele perguntou se eu estava com fome, mas eu só consegui responder com um resmungo preguiçoso.

Era tarde, e, para ser honesto, a ideia de fazer café da manhã parecia mais esforço do que eu estava disposto a fazer naquele momento. Depois de nos enrolarmos um pouco mais na cama, finalmente levantamos, decidimos chamar Samuel para sair e nos vestimos. Descemos até a padaria da esquina, onde o cheiro de pão fresco e café no ar nos recebeu. Compramos roscas de queijo e ovos mexidos no balcão, enquanto Samuel pegava uma garrafa de suco na geladeira, com os olhos brilhando de excitação.

Foi então que o som do sino da porta me chamou a atenção. Levantei os olhos e, para minha surpresa, vi uma cabeça de cabelos brancos familiar entrando na padaria. Sandro Hill. Ainda me parecia um pouco estranho pensar nele como o namorado do meu pai. Elio Wessex, meu pai, nunca havia sido o tipo de homem que nos apresentava formalmente a ninguém com quem saía. Na verdade, só descobri sobre Sandro por acaso, quando minha sobrinha deixou escapar que ele tinha um encontro. Claro, Elio acabou nos apresentando oficialmente em um jantar organizado às pressas, mas, mesmo assim, eu ainda ficava de olho em Sandro, querendo garantir que ele não magoasse meu pai.

E, claro, eu contava com a "ajuda" da família do Pedro para manter uma vigilância sutil.

— Olá, Connor — Sandro acenou, com um sorriso amigável. — Parece que tivemos a mesma ideia de vir buscar o café da manhã.

— Quem diria? — Falei, mordendo o lábio, sem resistir à curiosidade. — Achei que ia tomar café com o meu pai?

Sandro ficou tão vermelho quanto um pimentão, e minha mente não precisou de muito para conectar os pontos. Meu queixo caiu um pouco ao perceber que meu pai provavelmente tinha passado a noite na casa dele. Era estranho pensar nisso, mesmo sabendo que Elio era um homem adulto e livre.

— Bem... não quero que você pense... — Sandro começou a dizer, claramente desconcertado. — Quero dizer, não precisa imaginar... bem, você sabe...

— Não se preocupe, não estou chocado — interrompi com um risinho. — Meu pai é um homem livre, ele não deve satisfações sobre a vida pessoal dele, muito menos pra mim.

Sandro soltou uma risada aliviada, e nesse momento Pedro e Samuel voltaram para perto de mim, carregando as compras.

— Oi, tio Sandro! — Samuel disse alegremente, balançando a garrafa de suco.

— Olá, Sandro — Pedro cumprimentou, sempre com sua expressão tranquila.

— Como estão? — Sandro perguntou, olhando rapidamente para o relógio. — Melhor eu ir antes que Elio acorde.

Foi aí que Samuel, com sua curiosidade típica, puxou a manga da blusa do pai e soltou a pergunta mais inocente de todas:

— Por que o tio Elio estava na casa do tio Sandro? Eles são namorados, como você e o tio Connor?

Minha mente deu uma travada, e antes que eu pudesse abrir a boca, Sandro já estava se despedindo apressadamente, quase correndo para o caixa com suas compras. Ele estava tão desesperado para agradar o meu pai que até comprou as coisas que Elio mais gostava para o café da manhã. Não consegui evitar uma risadinha.

— É que eles se tornaram... amigos muito especiais — respondi rapidamente, antes que Pedro tivesse a chance de complicar ainda mais a situação com alguma resposta direta sobre "noites de sexo casual".

Samuel inclinou a cabeça, refletindo, e soltou a bomba:

— Posso ter um amigo especial um dia, igual você e o papai têm?

Quase me engasguei com a inocência da pergunta. Pedro soltou uma risada leve, sempre sabendo como contornar essas situações.

— Me avisa quando tiver a minha idade, e aí a gente conversa sobre isso — Pedro respondeu, com um sorriso, enquanto íamos em direção ao caixa.

Samuel, claro, não desistiu. Continuou nos bombardeando com perguntas sobre o que exatamente "amigos especiais" faziam, enquanto nós tentávamos manter a compostura e ao mesmo tempo conter as risadas.

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Naquela tarde, Luis, Aaron e Sam vieram nos visitar. Enquanto Pedro e meu cunhado conversavam, as crianças estavam concentradas em suas brincadeiras, ora desenhando, ora disparando suas perguntas infinitas.

De repente, Sam, sempre curioso, soltou uma pergunta que fez todos pararem por um momento.

— Então, vou poder ter um amigo especial igual ao vovô Elio? — ele perguntou, com uma seriedade que só uma criança pode ter.

Luis soltou uma risada, enquanto Aaron se engasgava com a água que estava bebendo, reagindo de imediato como o pai superprotetor que era.

— Jamais! — exclamou, quase sem pensar. — Nunca vou deixar que faça essas coisas enquanto eu estiver vivo!

As duas crianças olharam para ele com expressões de pura confusão, os rostos estampados com pontos de interrogação. Luis, por sua vez, caiu na gargalhada.

— Não é para tanto, Aaron. — Pedro balançou a cabeça, tentando trazer um pouco de bom senso à situação. — Você está exagerando.

— Como não vou reagir assim? Minha princesinha não pode crescer e nos deixar de lado! — Aaron resmungou, claramente exagerando, enquanto Luis tossia para disfarçar a risada.

— Aaron, ela só tem seis anos. Para de drama! — Luis o lembrou, a voz soando como a de um adulto sensato. — Ainda temos muito tempo antes que ela comece a pensar em "amizades especiais". E não precisa surtar só porque a conversa está adiantada.

Aaron bufou, claramente irritado com a ideia, mas se rendeu ao pedido de Luis. — Vai me comprar um suco de maracujá, estou com vontade — Luis pediu com um sorriso, sabendo que acalmar Aaron com uma tarefa simples era sempre a melhor saída.

Apesar do mau humor, Aaron saiu para comprar o suco, e eu pedi que Pedro fosse com ele para fazer companhia. Assim que eles saíram, Luis me olhou com uma expressão séria, algo que raramente via em meu irmão.

As crianças voltaram às suas brincadeiras, mas o ambiente entre mim e Luis ficou tenso de repente, como se uma sombra tivesse se instalado sobre nós.

— Você não vai acreditar no que chegou pelo correio esta manhã — Luis começou, tirando um envelope do bolso da calça. — Está endereçado ao nosso pai. — Meu coração deu um salto quando vi o remetente.

— Marta me entregou desesperada, e eu pedi que não falasse nada — Luis continuou, sua voz carregada de desgosto. Pelo tom dele, percebi que, como eu, ele não esperava que Gabriel Collins, nosso outro pai, fosse ousar enviar algo para Elio tão rapidamente. Só de imaginar Gabriel tendo a audácia de escrever para nosso pai, senti a raiva crescendo dentro de mim.

— O que você vai fazer com isso? — perguntei, quebrando o silêncio pesado entre nós.

Luis suspirou, indeciso. — Eu não sei. Conheço Elio há poucos meses, e ainda não tenho certeza de como ele reagiria ao ler algo vindo de Gabriel. Ele ficou muito machucado no passado, e só de ouvir o nome dele, parece que Elio fica estranho, mexido. Connor, desde que ele começou a sair com Sandro, tem estado tão feliz... Se essa carta estragar tudo, eu nunca vou me perdoar por não ter impedido.

Luis passou a mão na cicatriz que tinha no rosto, um gesto que ele fazia sempre que se perdia nas memórias dolorosas do passado.

Antes que eu pudesse me conter, as palavras começaram a sair. — Eu realmente não sei o que fazer — admiti, com as mãos tremendo em meu colo. Fechei os olhos, me recostando no sofá, sentindo a pressão de tudo aquilo me esmagar. — Gabriel tem me enviado cartas nos últimos dias, dizendo que quer me conhecer, quer fazer parte da minha vida. Não contei para você nem para nosso pai... Eu só não queria causar desconforto. Queria tanto... queria tanto poder restaurar o tempo que nos foi roubado. — Minha voz falhou. — Mas eu também queria entender por que ele fez o que fez. Por que nos abandonou...

Houve um longo silêncio. Luis me observava, os olhos estreitados de confusão, antes de franzir o cenho em claro desgosto.

— Por que você achou que eu reagiria mal? — ele perguntou, claramente perplexo. — Eu não entendo. O que te faz pensar que eu me afastaria de você por causa disso?

Respirei fundo, tentando acalmar os nervos à flor da pele. — Luis, eu só... eu quero entender as motivações dele. Só então vou decidir se posso dar uma resposta. — Luis apertou minhas mãos com firmeza, como se me dissesse que estava ao meu lado. — Entenderei se você quiser gritar comigo ou me chamar de idiota.

— Olha, Connor... — comecei, mas ele me interrompeu com uma calma inesperada.

— Eu não estou incomodado com isso. — Sua voz era firme, mas gentil. — Essa é sua vida, sua decisão. Não vou impedir nenhuma das escolhas que fizer.

As lágrimas começaram a se formar nos meus olhos, piscando enquanto a emoção subia à superfície. — O quê? — perguntei, incrédulo, sentindo o alívio lentamente inundar meu peito.

— Se essa é sua decisão, vou apoiá-lo. — Luis repetiu, suave como sempre. — Isso nunca será um problema para mim, mesmo que você decida que Gabriel não deve chegar perto de mim ou da Sam. Você tem o direito de escolher o que é melhor para você.

Ele me puxou para um abraço, batendo levemente no meu ombro, e eu me deixei desabar um pouco, finalmente me permitindo sentir a dor que vinha guardando por tanto tempo.

— Você é o melhor — sussurrei, grato pela compreensão dele. — Sei como foi difícil para você, como Gabriel te afetou... Mas acho que preciso tentar entender tudo, preciso ver se há uma chance de seguir em frente.

— Saiba que vou estar ao seu lado, qualquer que seja sua decisão. — Luis disse, com aquele tom doce que sempre me confortava. — E quanto à carta?

Limpei as lágrimas rapidamente, sentindo um peso sendo tirado dos meus ombros. — Acho que devemos entregá-la para nosso pai. Ele vai decidir o que fazer. Só podemos apoiá-lo.

Luis concordou, e juntos, sabíamos que, independentemente do que viesse, estaríamos prontos para enfrentar como família.

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Gostaram?

Até a próxima 😘

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